Reynaldo Aragon alerta para as eleições de 2026: Se houver sangue, pode ser armadilha
Tempo de leitura: 9 min
O alerta para as eleições de 2026: se houver sangue, não entreguem a autoria
Às vésperas da eleição, o maior risco pode estar em quem conseguir definir primeiro a autoria de um episódio de violência.
Por Reynaldo Aragon, no Código Aberto
Não há prova de uma false flag em preparação contra o Brasil. Há, porém, um ambiente real em que um atentado, uma chacina, um confronto de fronteira ou outro episódio grave pode ser convertido em arma eleitoral antes que a investigação estabeleça autoria e motivação. Nas semanas decisivas de 2026, preservar a democracia também significa impedir que suspeitas, inteligência opaca ou interesses políticos ocupem o lugar da prova.
Antes da autoria, a prova

Ilustração: Código Aberto/IA
A menos de um mês do primeiro turno, o Brasil precisa se preparar para uma possibilidade que nenhuma democracia responsável deveria tratar como delírio e nenhum jornalista responsável deveria apresentar como fato consumado.
Se um atentado, uma chacina, um ataque contra autoridades, uma explosão, um confronto de fronteira ou qualquer episódio excepcional de violência atravessar a reta final das eleições de 2026, a questão decisiva não será apenas o que aconteceu.
Será quem conseguirá dizer primeiro quem fez. É nesse intervalo, entre o sangue e a prova, que uma crise de segurança pode ser convertida em crise política e uma suspeita ainda sem perícia pode ganhar a força de uma verdade eleitoral.
Não há, até agora, evidência pública de que uma false flag esteja sendo preparada contra o Brasil, de que exista uma operação estrangeira destinada a produzir violência para prejudicar Lula ou de que qualquer organização esteja planejando um incidente para interferir no voto de outubro. Afirmar isso seria trocar investigação por fantasia.
O alerta é outro, e é mais sério porque pode ser demonstrado. O próprio Estado brasileiro considera crime organizado, interferência externa, desinformação e extremismo violento fatores de risco para a integridade democrática em 2026. Ao mesmo tempo, o combate aos cartéis foi militarizado no entorno sul-americano, PCC e Comando Vermelho passaram a carregar uma classificação terrorista nos Estados Unidos e a associação política entre Lula e essas facções já entrou na campanha eleitoral brasileira.
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É esse encontro de violência possível, disputa eleitoral e atribuição acelerada que exige atenção máxima. Numa eleição em que cada choque pode deslocar a agenda nacional, preservar a democracia significa proteger algo elementar: o direito do Estado brasileiro de estabelecer, por evidências, quem fez o quê antes que interesses políticos, redes digitais ou centros estrangeiros de poder façam essa escolha em seu lugar.
False flag, ou operação de falsa bandeira, é uma ação deliberadamente executada por um ator para que sua autoria seja atribuída a outro, com objetivo político, militar, estratégico ou psicológico.
O conceito exige intenção de enganar sobre quem realizou a operação. Por isso, não se deve confundi-lo com erro de inteligência, atribuição precipitada, operação encoberta ou exploração política de um fato real. Um atentado verdadeiro usado eleitoralmente não é, por si só, uma false flag; torna-se falsa bandeira apenas quando há evidência de que alguém produziu deliberadamente o ato para fazer outro parecer responsável.
O problema tornou-se mais delicado porque, em 2026, a violência brasileira passou a caber dentro de uma arquitetura internacional que não existia nesses termos poucos meses antes.
Em 5 de junho, os Estados Unidos incluíram formalmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho entre as organizações terroristas estrangeiras e mantiveram ambos como Specially Designated Global Terrorists (SDGTs), categoria de sanções que permite bloquear ativos sob jurisdição norte-americana.
A mudança não converte automaticamente um integrante de facção em alvo militar norte-americano, nem autoriza operações dos Estados Unidos em território brasileiro. Mas altera o estatuto político de qualquer episódio de grande repercussão associado a essas organizações. Um crime que, para o Estado brasileiro, pertence ao campo da segurança pública pode agora ser descrito em Washington pelo vocabulário do terrorismo transnacional.
Essa transformação jurídica acontece enquanto o combate aos cartéis deixa de ser tratado apenas como questão policial na estratégia norte-americana para o hemisfério. Em agosto, o Comando Sul colocou em funcionamento a Joint Task Force Western Hemisphere, uma estrutura criada para acelerar e sincronizar operações contra redes classificadas como narcoterroristas.
Em 23 de agosto, a nova força realizou um ataque letal contra uma embarcação no Pacífico Oriental, matando dois homens que o SOUTHCOM classificou como narcoterroristas. Cinco dias depois, militares norte-americanos interceptaram outra embarcação em operação coordenada com o Equador, retiraram seus ocupantes e afundaram o barco. O próprio comando afirma que inteligência prévia sustenta a identificação desses alvos.
Nada disso demonstra hostilidade contra o Brasil. Demonstra, porém, que o espaço político em torno de um futuro incidente mudou. Hoje existem estruturas militares, categorias jurídicas e circuitos de inteligência capazes de fazer um episódio envolvendo uma facção brasileira atravessar rapidamente a fronteira entre crime doméstico, terrorismo e segurança hemisférica.
A questão estratégica não é imaginar uma invasão nem antecipar uma conspiração. É compreender que a palavra usada para nomear um acontecimento passou a carregar consequências maiores. Quando a classificação antecede a investigação, uma disputa aparentemente semântica pode se transformar em disputa por soberania.
Há precedentes recentes suficientes para mostrar por que esse cuidado não é paranoia. No Equador, operações realizadas em parceria com os Estados Unidos produziram controvérsia justamente sobre a identificação dos alvos. Investigações independentes encontraram casos em que instalações apresentadas como vinculadas a grupos armados não tinham essa conexão demonstrada publicamente, enquanto parte da cadeia de inteligência e seleção de alvos permaneceu fora do escrutínio.
Em outros episódios marítimos, ataques de autoria inicialmente obscura foram posteriormente associados por investigação jornalística a um programa encoberto norte-americano. Não se trata de projetar uma lógica equatoriana sobre o Brasil, mas de reconhecer um problema concreto: entre o uso da força e a verdade pública pode existir uma zona de opacidade em que inteligência, classificação e atribuição não são imediatamente verificáveis.
O Brasil também conhece, por outra via, o risco da falsa autoria. Uma investigação aberta em 2018 revelou um plano atribuído a integrantes do PCC para realizar atentados durante o período eleitoral e fazer com que a responsabilidade recaísse sobre o Comando Vermelho.
O caso resultou em condenações de primeira instância em 2026. Não há qualquer evidência de continuidade daquele plano nem relação com a eleição atual, mas o precedente é incontornável: a ideia de produzir violência e manipular deliberadamente sua autoria não pertence apenas à história das operações de inteligência. Já apareceu dentro do universo do crime organizado brasileiro.
Os dois casos não são equivalentes. Um expõe os riscos de seleção de alvos baseada em inteligência opaca e autoria operacional pouco transparente; o outro mostra que a falsa atribuição pode integrar uma estratégia criminosa de impacto político.
Juntos, impõem uma regra simples para 2026: diante de um episódio grave, a pergunta mais urgente não deve ser quem parece ter feito, quem teria interesse ou quem se beneficia. Precisa ser quem pode ser identificado por uma cadeia de evidências capaz de sobreviver à disputa política.
O terreno político para uma disputa de atribuição já existe. Em seu relatório estratégico para 2026, a Agência Brasileira de Inteligência identifica criminalidade organizada e interferência externa como riscos relevantes à integridade do processo eleitoral.
A ABIN registra que facções e milícias podem controlar territórios, coagir eleitores, financiar candidaturas e, em situações extremas, eliminar adversários; no mesmo documento, alerta que atores estatais ou não estatais podem buscar desestabilizar uma eleição por desinformação, ataques cibernéticos ou financiamento oculto. O documento não denuncia uma operação em andamento; reconhece oficialmente que crime, violência, informação e interesses externos já pertencem ao horizonte de segurança do pleito brasileiro.
A preocupação ganhou forma operacional. No Rio de Janeiro, o Tribunal Regional Eleitoral criou uma estrutura específica para enfrentar a infiltração do crime organizado e das milícias nas eleições, incluindo áreas onde domínio territorial e coação podem comprometer o exercício livre do voto. A Polícia Federal, por sua vez, montou uma operação nacional para a proteção das candidaturas presidenciais, com inteligência, blindados, equipes antibomba e sistemas antidrone. O Estado não está diante de uma ameaça imaginária nem desarmado diante dela: está reconhecendo vulnerabilidades e preparando capacidade de resposta.
A disputa política, porém, já mostrou como uma acusação criminal pode ser convertida em linguagem eleitoral.
Em agosto, o TSE determinou, por cinco votos a dois, a retirada de um vídeo publicado por Flávio Bolsonaro que associava Lula ao PCC e ao Comando Vermelho. Meses antes, a própria Corte havia determinado a remoção de publicações que vinculavam Flávio Bolsonaro a facções sem apresentar dados concretos que sustentassem a imputação.
A direção política da acusação muda; o mecanismo permanece. Crime organizado tornou-se material de combate eleitoral, e a Justiça já precisou intervir quando vínculos gravíssimos foram apresentados sem comprovação suficiente. Por isso, se uma grande violência ocorrer agora, ela não surgirá num vazio interpretativo. Encontrará um ambiente no qual facção, terrorismo, segurança e poder já estão sendo disputados antes mesmo de qualquer novo fato existir.
Entre um ato de violência e a descoberta de sua autoria existe um território perigoso: o tempo. Uma explosão pode ser registrada em segundos, um corpo identificado em minutos, um vídeo publicado quase instantaneamente.
A investigação, porém, obedece a outra velocidade. Precisa preservar vestígios, verificar imagens, ouvir testemunhas, reconstruir deslocamentos, confrontar inteligência e distinguir autoria de aparência. É nesse intervalo que se abre a janela de atribuição. Antes que o Estado saiba, alguém pode afirmar que sabe. E, numa eleição, essa diferença de tempo pode valer poder.
A manipulação mais eficiente nem sequer precisa falsificar o acontecimento. O tiro pode ser verdadeiro, os mortos podem ser reais, a facção pode existir e as imagens podem ser autênticas. A manipulação começa quando elementos verdadeiros são organizados para sustentar uma conclusão que as provas ainda não autorizam.
Um vídeo sem origem vira evidência; uma suspeita policial vira autoria; uma fonte de inteligência vira certeza; uma classificação estrangeira de terrorismo substitui a investigação brasileira; políticos e influenciadores repetem a versão até que a hipótese adquira densidade social de fato. Quando a correção chega, horas ou dias depois, ela disputa espaço com uma realidade política que já foi produzida.
É por isso que o ponto mais vulnerável de uma democracia sob choque não está apenas na fronteira, no quartel, na delegacia ou na urna. Está na passagem entre o acontecimento e sua interpretação pública.
Quem conseguir ocupar esse intervalo pode não controlar o fato, mas pode tentar controlar seu significado. Esse é o risco concreto das próximas semanas: não uma violência encomendada que possamos demonstrar, mas a conversão de uma violência de autoria incerta em sentença eleitoral antes que o país tenha condições de estabelecer o que realmente ocorreu.
O gatilho não precisa ter a forma de um atentado espetacular. Pode ser uma chacina, o assassinato de uma autoridade, um ataque contra infraestrutura, uma ação de facção, um confronto na fronteira ou outro episódio armado cuja origem não seja imediatamente conhecida.
O perigo político nasce menos da natureza do fato do que da velocidade com que alguém tente lhe atribuir autoria, intenção e significado nacional. Um evento local pode atravessar o país em minutos se conseguir ser enquadrado como terrorismo, descontrole territorial, incapacidade do governo ou ameaça à segurança nacional.
A Amazônia merece atenção particular porque, justamente na reta final da campanha, haverá movimentação militar brasileira real e programada. A Operação Atlas prevê deslocamentos estratégicos para a região entre o fim de setembro e o início de outubro, com tropas, aeronaves, embarcações e equipamentos em circulação poucos dias antes do primeiro turno.
Não há qualquer indício de irregularidade nisso. O risco está no uso político de imagens verdadeiras retiradas de contexto. Um vídeo autêntico pode carregar uma legenda falsa; um exercício regular pode ser apresentado como resposta emergencial a uma crise inexistente; uma movimentação prevista há meses pode ser transformada em sinal de ruptura. Hoje, manipular uma imagem nem sempre exige fabricá-la. Basta falsificar seu contexto.
É por isso que a vigilância precisa ultrapassar a pergunta sobre onde poderia ocorrer uma violência. O ponto decisivo será observar como o fato entra na esfera pública, quem fornece a primeira versão, que evidência sustenta a acusação e qual vocabulário aparece antes da investigação.
Se “PCC”, “Comando Vermelho”, “terrorismo”, “fronteira”, “intervenção” ou “colapso da segurança” surgirem antes de uma cadeia mínima de prova, o país deverá tratar a velocidade da acusação como parte do próprio acontecimento. Em uma eleição apertada, a crise não começa apenas quando há violência. Pode começar quando alguém tenta transformar incerteza em certeza política.
Se um episódio grave ocorrer nas próximas semanas, o Estado brasileiro terá de agir em duas frentes ao mesmo tempo: conter a violência e impedir que a incerteza seja capturada politicamente. Isso exige uma disciplina simples e dura.
Suspeita não pode ser anunciada como autoria. Inteligência estrangeira não pode substituir investigação brasileira. Classificação terrorista não pode funcionar como atalho para atribuir responsabilidade. Imagem sem origem não é evidência. Vídeo de tropa, aeronave ou operação precisa ser confrontado com cronologia, localização e contexto antes de produzir consequência política. E nenhuma autoridade deveria disputar velocidade com as redes sacrificando a qualidade da prova.
A resposta precisa ser rápida, mas não precipitada. Polícia Federal, inteligência, Defesa, Justiça Eleitoral e governo devem preservar cadeia de custódia, registrar versões divergentes, identificar quem atribuiu primeiro a autoria e tornar público, sempre que possível, o grau real de certeza de cada informação.
Em um choque eleitoral, transparência não significa revelar investigação sensível. Significa qualificar o que é provisório, explicitar o que está confirmado e impedir que hipótese seja apresentada como conclusão.
Isso é soberania. Não apenas controlar fronteiras, território ou espaço aéreo, mas conservar a capacidade de estabelecer a realidade por meios próprios, sob regras próprias e com evidências que possam ser auditadas.
Um país que aceita de fora, das redes ou da disputa eleitoral a autoria pronta de um ato de violência entrega parte de sua capacidade de decisão antes mesmo de compreender o que ocorreu.
Nas semanas que restam até o voto, proteger a democracia significa também proteger o processo que transforma vestígio em prova, suspeita em hipótese e hipótese, somente quando sustentada pelos fatos, em responsabilidade.
Nas próximas semanas, o Brasil poderá atravessar a eleição sem que nada excepcional aconteça. Esse é, até aqui, o cenário mais compatível com as evidências disponíveis. Mas responsabilidade democrática não consiste em apostar na ausência de crise. Consiste em saber como reagir se ela vier.
Se houver sangue, a obrigação imediata será proteger vidas, preservar o Estado e encontrar os responsáveis. Não oferecer culpados para satisfazer a velocidade da política. Não aceitar que a primeira versão se transforme em sentença. Não permitir que a urgência eleitoral encurte o caminho entre suspeita e prova.
Uma democracia madura precisa suportar a frase mais difícil em momentos de choque: ainda não sabemos. Porque, quando a violência entra em cena, a verdade também passa a ser território disputado. E entregar a autoria antes das evidências é entregar poder antes de compreender quem o está exercendo.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
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