Paulo Kliass: Lula — a campanha e o programa

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O presidente Lula no lançamento de sua campanha à reeleição, no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo Foto: Ricardo Stuckert

Por Paulo Kliass*

O domingo, dia 16 de agosto, marcou o início oficial da campanha eleitoral de 2026. Com o foco na disputa presidencial, grande parte das atenções da grande imprensa e da população se voltaram para dois atos realizados nesse dia.

Em primeiro lugar, a largada da campanha de Lula, cujo palco escolhido foi o estádio da Vila Euclides, no município de São Bernardo do Campo, a letra B da região do ABC paulista. Em segundo lugar, ocorreu o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro na orla da praia de Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro.

É interessante observar como ambas as articulações buscaram se referenciar em espaços que recuperassem, de alguma forma, o passado de tais candidaturas.

Lula optou por uma concentração no local que lançou politicamente a sua presença na vida política nacional no final da década de 1970 e início da seguinte. Lá foram realizadas as famosas assembleias dos metalúrgicos em seus movimentos de greve por melhores salários e condições de trabalho. A decisão de lançar a candidatura quase 50 anos depois no mesmo local explicita, de alguma forma, a busca de retomar a figura do líder sindical jovem e combativo, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo à época.

Já Bolsonaro escolheu o local que ficou marcado pelos encontros e pelas manifestações chamadas por seu pai, atualmente preso por condenação pela Justiça. As areias de Copacabana terminaram por serem identificadas pelas convocações do bolsonarismo ao longo dos últimos anos. A tentativa de colar sua imagem em Jair Bolsonaro tem trazido problemas para o filho candidato.

Para uma parcela do movimento que se criou a partir da liderança do ex-capitão, a criatura é pouco fiel ao extremismo do criador. Exigem mais extremismo. No entanto, para a imensa maioria que não guarda vínculos efetivos com o bolsonarismo, Flávio mantém mais do que o simples sobrenome e por essa razão tentam manter uma distância dele. Com isso, sonhavam com candidaturas como Tarcísio, Caiado, Zema ou outro. A sempre frustrada busca de uma terceira via.

Contradição entre compromisso e programa

Caso a capacidade de aglutinar pessoas seja um bom indicador da potência das campanhas na largada, o fato inegável é que Lula conseguiu juntar um público muito mais numeroso do que seu concorrente. Mas para quem imaginava que o cenário faria com que o candidato à reeleição incorporasse o personagem do “Lula do Velho Testamento”, o saldo final do evento na Vila Euclides passou muito longe de tal roteiro. Lula não apresentou compromissos de campanha que pudessem operar como estímulo de um maior engajamento da militância ainda sem referência daquilo que poderá ser o último mandato do ex-líder metalúrgico à frente do Palácio do Planalto.

Um aspecto que chama a atenção dos analistas refere-se a uma mudança significativa desta campanha em relação às anteriores. Em geral, o que se via no passado eram meses de muitas promessas e discursos bem radicalizados antes das datas do pleito. Talvez os exemplos mais cristalinos tenham sido as campanhas de Dilma Roussef em 2014 e o próprio Lula em 2022.

Com a intenção de envolver a militância na busca de votos e a tentativa de estigmatizar os adversários, em ambos os casos as campanhas foram direcionadas bem pela esquerda. Porém, bastou a divulgação dos resultados para que se colocasse em marcha uma operação de esquecimento e os governos eleitos foram para a direita depois de empossados.

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Dilma convocou Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda e Lula colocou a austeridade fiscal no centro de sua terceira passagem pela Presidência da República. Em ambos os casos, o resultado político foi a perda de credibilidade dos mesmos e a dificuldade em recuperar índices mais positivos de aprovação. Dilma sofreu impeachment em 2016 e Lula está patinando para conseguir vencer as eleições em outubro próximo.

Tarifa Zero e Novo Arcabouço Fiscal

Ao que tudo indica até o momento, Lula desta vez optou por não manter a estratégia esquizofrênica dos dois discursos. Até então o que se fazia era dividir a campanha em dois polos bem separados. Uma narrativa era dirigida para os palanques e para as entidades do movimento social. Ali, o que se prometia era o atendimento de demandas históricas da base da sociedade e dos setores portadores de projetos de transformação social e econômica. Em 2022, por exemplo, os compromissos assumidos pelo candidato eram explícitos, a exemplo da revogação do Teto de Gastos de Temer, da revogação das Reformas Previdenciária e Trabalhista, bem como da reestatização das refinarias da Petrobrás privatizadas e da BR Distribuidora.

Mas o outro lado das conversas era direcionado para as elites empresariais e para os representantes do sistema financeiro. Naqueles espaços, o personagem encampado por Lula era outro. Era o presidente que mais efetuou superávit primário de toda a nossa História, era o presidente comprometido em “assegurar os contratos” (seja lá o que isso possa significar), era o presidente que não havia mexido uma única vírgula nas reformas conservadoras e neoliberais levadas à frente durante os mandatos de Fernando Henrique Cardoso (FHC).

Para a atual campanha, no entanto, Lula preferiu não prometer muita coisa mirando no público mais à esquerda. Muito pelo contrário, ele afastou o coordenador do programa de seu quarto mandato, Luiz Sérgio Gabrielli, que ele mesmo havia nomeado para tal importante tarefa.

Com isso, ele terminou por delegar amplos poderes para o ministro da Fazenda Dario Durigan. Assim, aquele que ocupava cargo estratégico na grande empresa big tech Meta até pouco antes de ser convidado por Fernando Haddad para ocupar posto de alto escalão naquele ministério em 2023, passa a responder sozinho pelas linhas básicas do programa.

Lula abandonou uma ideia que lhe parecia relevante até poucos meses atrás: programa Tarifa Zero para o transporte público. Ao que tudo indica, a razão para tanto reside no alto custo do projeto. E o candidato aceitou colocar no seu Programa de Governo o compromisso explícito com a manutenção do Novo Arcabouço Fiscal (NAF).

Talvez este seja o principal elemento comprometedor de toda e qualquer capacidade de promover inovações significativas para o seu último quadriênio à frente da nossa República, caso vença as eleições. Se a política de austeridade fiscal for efetivamente mantida, a todo momento o argumento de plantão será a ausência de recursos e de espaço nas contas públicas para se promover a elevação de despesas exigida por tal e qual projeto sugerido.

Educação em tempo integral: distância entre intenção e gesto

Lula prometeu, por exemplo, que até o final de seu quarto mandato estará implantado por todo o País o Programa de Escola em Tempo Integral.

(…) “Meu compromisso é terminar meu próximo mandato com todo o país e todo mundo tendo escola em tempo integral” (…) [GN]

Ora, todos os especialistas envolvidos com a matéria avaliam que o custo de tal projeto bastante relevante e necessário deverá comprometer uma parcela considerável de novos recursos para a área da educação.

Assim, a resposta da área econômica comprometida até a medula com metas de austeridade fiscal certamente será a de negação de tais demandas. Caso Lula não reveja o programa que sua equipe protocolou oficialmente junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), muito provavelmente esse compromisso será mais um a entrar para História na lista daqueles que não foram atendidos.

O mesmo programa menciona por diversas vezes as intenções de promover o desenvolvimento e a soberania nacional.

Ora, para tanto também são necessárias mudanças na mentalidade de seus assessores e na legislação para que o Estado brasileiro tenha condições de recuperar o protagonismo no processo econômico, com alocação de despesas e investimentos públicos de monta.

Esse seria, por exemplo, o caso da criação de uma empresa pública para se ocupar das terras raras, tão cobiçadas pelo governo dos Estados Unidos. Mas Lula já havia recuado em seu projeto de montar a Terrabrás e não tem apresentado intenção de elevar a capacitação do poderio de nossas Forças Armadas na defesa nacional.

Como já diziam Chico Buarque e Ruy Guerra na canção Fado Tropical, existe uma enorme distância entre a retórica do compromisso e a viabilização de tais promessas:

(…) “Se trago as mãos distantes do meu peito / É que há distância entre intenção e gesto” (…) [GN]

A diferença é que nesta campanha nem mesmo as grandes promessas estão sendo feitas nos palanques ou nas transmissões pelas redes sociais ou pela televisão. Porém, ao mesmo tempo, Dario Durigan está empoderado pelo candidato a se comprometer junto aos representantes dos empresários e do universo do financismo com a manutenção e o aprofundamento da política de austeridade fiscal.

Não se ouve uma única palavra a respeito da contradição entre a manutenção dos pisos constitucionais da saúde da educação com a vigência do NAF. O mesmo ocorre com a manutenção da vinculação dos benefícios previdenciários ao valor do salário-mínimo. Vários integrantes da equipe ministerial já vinham se manifestando a favor de tais medidas claramente redutoras de direitos e bastante impopulares. Continuam na mesma toada e jamais foram claramente desmentidos por Lula ou pelo Palácio do Planalto.

Faltam pouco mais do que seis semanas para o primeiro turno das eleições.

Lula precisa se decidir se fica com rigidez austericida de seu programa oficial, explicitamente viesado pelo paradigma neoliberal, ou então se decide por se manifestar a favor de algum tipo de flexibilização de sua política econômica para o quarto mandato.

*Paulo Kliass é doutor em Economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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