Fernando Nogueira da Costa: A Opinião Pública e a Opinião do Expert
Tempo de leitura: 3 min
Por Fernando Nogueira da Costa*
Na Praça da República das Ideias existia um grande espelho chamado Realidade.
Era um espelho estranho. Cada pessoa via apenas um pedaço dele. Mesmo assim, todos saíam dizendo:
— Agora conheço a verdade inteira!
Certa manhã chegaram dois visitantes. O primeiro chamava-se Opinião Pública. Era uma personagem inquieta, cercada por centenas de papagaios, celulares, manchetes, pesquisas instantâneas e notificações.
A cada cinco minutos mudava de humor.
— Estou otimista!
Cinco minutos depois…
— Estou pessimista!
Logo em seguida…
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— Agora estou indignada!
O segundo visitante vestia um jaleco repleto de gráficos. Era o Opinião do Expert. Carregava modelos matemáticos, regressões econométricas, séries históricas e uma calculadora científica.
Ao olhar o espelho declarou:
— A realidade é exatamente aquilo estimado por meu modelo.
A Opinião Pública deu risada.
— Meu caro, quem decide a realidade sou eu! Veja esta pesquisa. Setenta por cento das pessoas concordam comigo.
O Expert sorriu com superioridade.
— Setenta por cento dos entrevistados apenas.
Os dois começaram a discutir.
Nesse instante surgiu um velho personagem chamado Complexidade.
Era um senhor de barba longa, carregando uma enorme colcha de retalhos. Cada retalho tinha um nome. Desigualdade. Instituições. Expectativas. Infraestrutura. História. Política. Cultura. Tecnologia. Mercado Financeiro. Demografia.
Complexidade perguntou:
— Vocês estão discutindo sobre qual pedaço da realidade?
— Sobre toda ela! — responderam os dois ao mesmo tempo.
O velho sorriu. — Então venham comigo.
Levou ambos até um gigantesco elefante.
A Opinião Pública tocou a tromba.
— Descobri! A realidade é uma mangueira.
O Expert examinou cuidadosamente uma das patas. Consultou um livro. Fez alguns cálculos.
Depois anunciou:
— Não. A realidade é uma coluna cilíndrica de sessenta centímetros de diâmetro.
Complexidade apenas observava.
Logo apareceu outro personagem. Chamava-se Mídia. Carregava um enorme megafone.
— Atenção! Última hora! A realidade agora é uma mangueira!
Milhares repetiram imediatamente:
— É uma mangueira!
Pouco depois apareceu Rede Social. Ela trouxe milhões de espelhos minúsculos. Cada um refletia apenas aquilo desejado enxergar por seu dono.
A Opinião Pública ficou encantada.
— Agora sim! Nunca vi tanta unanimidade!
Enquanto isso, o Expert permanecia mergulhado em seus modelos. Nem percebeu o elefante ter começado a andar.
Seu modelo continuava perfeito. Apenas descrevia o lugar onde o elefante estivera uma hora antes.
Nesse momento surgiu uma menina. Chamava-se Curiosidade. Ela não carregava pesquisas. Nem modelos.
Fez apenas uma pergunta: — E se cada um de vocês estiver vendo uma parte diferente?
A praça ficou em silêncio.
A Opinião Pública respondeu: — Nunca pensei nisso.
O Expert abaixou lentamente seus gráficos. — Eu também não.
Complexidade recolheu então sua colcha de retalhos.
— Exatamente por isso sistemas complexos desafiam respostas simples. As pesquisas capturam percepções; os modelos capturam regularidades; mas nenhum deles captura, sozinho, toda a realidade. O mundo muda enquanto tentamos medi-lo, e nós mesmos mudamos a maneira de enxergá-lo.
A Opinião Pública olhou para o Expert.
O Expert olhou para a Opinião Pública.
Pela primeira vez, ambos perceberam não serem inimigos. Eram observadores com lentes diferentes. Umas mais rasas. Outras mais precisas. Nenhuma delas suficientemente ampla para substituir o próprio mundo.
Moral da estória: a opinião sem conhecimento costuma repetir o eco da multidão; o conhecimento sem humildade corre o risco de transformar um modelo em espelho da realidade. Em sistemas complexos, a sabedoria começa quando reconhecemos toda observação ser parcial e para compreendê-los exige-se dialogar com outras perspectivas.
Obs.: A ideia central — a realidade é mais complexa diante da espelhada pelas pesquisas de opinião e tanto a opinião pública quanto a opinião especializada possuem vieses — presta-se muito bem a um apólogo. Em vez de transformar a Opinião Pública na única vilã, a narrativa mostra todos os personagens enxergarem apenas uma parte do todo (“o elefante”), preservando a crítica metodológica sem cair em simplificações. Sistemas complexos não podem ser reduzidos a um único indicador.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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