Ronald dos Santos: Lula, compromisso com a terceira idade e o desafio da assistência farmacêutica no Brasil

Tempo de leitura: 4 min
O presidente Lula assume compromisso com a terceira idade Foto: Ricardo Stuckert

Por Ronald Ferreira dos Santos*

Na convenção partidária que confirmou sua candidatura à reeleição para um eventual quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou como uma de suas prioridades centrais o cuidado e a atenção à população idosa.

O compromisso assumido em praça pública reflete a urgência de encarar o envelhecimento populacional não apenas como um tema de assistência social, mas como uma pauta estratégica de saúde pública e sustentabilidade econômica para o Brasil.

Promover a longevidade digna exige estruturas robustas que vão do convívio comunitário até o suporte de saúde. Nesse cenário, a implementação e o fortalecimento das diretrizes da Estratégia Farmácia do Brasil emergem como a espinha dorsal dessa promessa política. Garantir o acesso universal e contínuo aos medicamentos essenciais é o primeiro passo concreto para transformar o discurso em proteção real à saúde do idoso.

Por que a assistência farmacêutica é vital para o envelhecimento

O Brasil atravessa uma das transições demográficas mais aceleradas da história moderna. O país do futuro deixou de ser o “país dos jovens” para se consolidar como uma nação de cabelos brancos.

Diante dessa metamorfose social, a estruturação e o fortalecimento de estratégias nacionais de assistência farmacêutica no Sistema Único de Saúde (SUS) — como o fortalecimento do Programa Farmácia Popular e das diretrizes da Assistência Farmacêutica na Atenção Básica — deixam de ser apenas políticas públicas institucionais e passam a ser uma exigência de sobrevivência social e econômica.

1. O vértice demográfico: O relógio etário no Brasil

Os dados do Censo Demográfico do IBGE revelam um marco divisor: a população com 60 anos ou mais já ultrapassa 15% do total de habitantes no país, superando a marca de 32 milhões de idosos. Projeções indicam que, até 2050, esse contingente representará cerca de 30% da população brasileira.

Essa guinada etária impõe desafios inéditos à estrutura do Estado. Diferente de países europeus, que envelheceram após atingirem elevados níveis de renda per capita, o Brasil envelhece em um contexto de expressiva desigualdade socioeconômica. Sem uma estratégia farmacêutica robusta e capilarizada, o envelhecimento populacional corre o risco de se converter em uma crise humanitária e de desassistência.

2. O cenário epidemiológico: A carga das doenças crônicas

À mudança na pirâmide etária sobrepõe-se a transição epidemiológica. O perfil de morbimortalidade do idoso brasileiro é dominado pelas Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs).

  • Prevalência de DCNTs: Estimativas do Ministério da Saúde apontam que mais de 75% dos idosos brasileiros possuem ao menos uma doença crônica (com destaques para hipertensão arterial, diabetes mellitus, osteoporose, dislipidemia e doenças cardiovasculares);
  • Polifarmácia: A coexistência de múltiplas patologias torna a multimorbidade a regra, exigindo o uso diário e contínuo de três ou mais medicamentos por paciente;
  • Adesão terapêutica: Sem a garantia do suprimento contínuo, a taxa de interrupção do tratamento dispara, levando ao descontrole clínico das enfermidades.

Garantir o acesso gratuito ou subsidiado aos medicamentos essenciais e promover o acompanhamento farmacoterapêutico é a principal barreira contra complicações graves, tais como acidentes vasculares cerebrais (AVC), infartos agudos do miocárdio e insuficiência renal crônica.

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3. A conta econômica: Custo preventivo vs. custo hospitalar

Sob a ótica econômica, a sustentabilidade da estratégia farmacêutica se justifica tanto pelo micro (orçamento familiar) quanto pelo macro (orçamento do Estado).
┌─────────────────────────────────────────────────────────────┐
│ CICLO DE VALOR DA FARMÁCIA │
│ │
│ [Acesso ao Medicamento] ──► [Adesão Terapêutica] │
│ │ │
│ ▼ │
│ [Economia para o SUS] ◄── [Redução de Hospitalizações] │
└─────────────────────────────────────────────────────────────┘

O orçamento familiar e os gastos catastróficos

Para o idoso de baixa renda — cuja renda muitas vezes deriva do Benefício de Prestação Continuada (BPC) ou de aposentadorias de um salário mínimo —, o custo do tratamento contínuo pode comprometer mais de 40% do orçamento doméstico.

A gratuidade dos insumos e medicamentos essenciais (como anti-hipertensivos, antidiabéticos e fraldas geriátricas) protege as famílias da extrema pobreza e do chamado “gasto catastrófico em saúde”.

A eficiência nos gastos do SUS

A literatura econômica em saúde é inequívoca: cada real investido no acesso a medicamentos na Atenção Primária gera economia na média e alta complexidade.

Tratamentos ambulatoriais regulares e acompanhados por farmacêuticos custam uma fração do valor de uma diária em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ou de uma cirurgia cardiovascular de emergência.

4. Além da entrega: O farmacêutico como agente clínico

A estratégia de assistência farmacêutica não pode ser reduzida à mera logística de distribuição de caixas de remédio. O papel do farmacêutico no cuidado ao idoso inclui:

1. Gestão da polifarmácia: Avaliação de interações medicamentosas complexas e prevenção de reações adversas a medicamentos (RAM).

2. Orientação do autocuidado: Apoio na adesão correta aos horários e posologias, reduzindo erros de medicação frequentes entre idosos.

3. Integração com a Atenção Primária: Articulação com as Equipes de Saúde da Família (ESF) para monitoramento de indicadores de saúde (como glicemia e pressão arterial).

Conclusão: Um investimento certo para a cidadania

A consolidação de uma estratégia de assistência farmacêutica integrada e capilarizada no Brasil não representa uma despesa orçamentária, mas sim um investimento social e econômico de alto retorno.

À medida que o Brasil amadurece e sua população envelhece, prover medicamentos de forma universal, equitativa e acompanhada de cuidado clínico é a garantia fundamental de um envelhecimento ativo, autônomo e digno. Cuidar da saúde do idoso hoje é assegurar a sustentabilidade do próprio SUS e honrar o compromisso constitucional com a dignidade da pessoa humana.

*Ronald Ferreira dos Santos é farmacêutico, ex-presidente do Conselho Nacional de Saúde e da Federação Nacional dos Farmacêuticos

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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