Heleno Corrêa Filho: Hospitais inteligentes?

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Agentes Comunitários de Saúde visitam as pessoas em suas casas e perguntam o que elas necessitam. Equipes de atenção primária recebem as pessoas em suas casas quando voltam de hospitais inteligentes. Fotos: Radis, Agência Brasil e reprodução

Por Heleno Corrêa Filho*

A mídia brasileira tem divulgado a introdução de tecnologias digitais de operação e controle na programação hospitalar – o chamado “hospital inteligente’’

A denominação da construção de hospitais totalmente informatizados que os qualifica como “hospitais inteligentes” é a retomada do modelo em que hospitais de terceiro e quarto nível de complexidade (especializados e universitários) são o centro da atenção e não um recurso de referência para receber o que a rede de atenção secundária e primária não consegue resolver (resolutividade de 1º e 2º nível é considerada ideal entre 95 e 98%).

Esta formulação ignora a evolução do Sistema Único de Saúde brasileiro e demonstra que pessoas alheias à organização hierárquica histórica do SUS pensam que se pode formular a política especializada de saúde a partir de hospitais quartenários.

Parecem ignorar também que os profissionais das redes do SUS já têm noção de como uma rede se articula com a prestação de cuidado antes do último nível de especialidade.

Uma coisa é criar e manter hospitais de alto nível para ministrar atenção com tecnologia que seja beneficiada por programação intensiva, execução de protocolos em tempo real, medidas de acompanhamento e registro automatizado que melhorem o trabalho especializado.

Isto é tecnológico, embora possa não ser tão “inteligente” se a programação de saúde para articular o hospital com a rede for “burra”.

O chamado modelo hospitalocêntrico desloca o poder organizativo para as cúpulas profissionais e isola o usuário e os profissionais de saúde da rede primária e secundária da possibilidade de controlar o que acontece nas rotinas e nas verbas.

Sem controle, o chefe da pirâmide manda. Em regime socialista com alto nível de democracia, como foi estruturado em Cuba, isso não tem impacto negativo. Já em regime capitalista baseado no lucro acima da vida, acontece o que acontecia no Brasil do INAMPS antes do SUS.

Ignoram ainda que existem países onde os médicos, enfermeiros, psicólogos e fisioterapeutas acompanham os seus pacientes da atenção básica quando são internados em hospital.

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Há países em que a equipe da unidade básica de saúde — Agente Comunitário de Saúde, Enfermeiro e Médico — visita diariamente o paciente internado, pois planeja recebê-lo de volta quando ele sair da internação.

Ignorar isso é perigoso para os pacientes e o modelo público unificado.

Os pacientes saem com tratamentos especializados desarticulados da atenção primária e secundária. O orçamento e a carreira dos agentes públicos de saúde passam a ser mutilados e distorcidos pelo nível de desarticulação da rede em que trabalham.

É uma demonstração de falta de conhecimento especializado em estruturação de redes, muito mais grave que a inexistência atual de hospitais que não sejam hospitais burros.

Um exemplo de “hospital inteligente” ou “quase superinteligente” é o Hospital Estadual de Sumaré (HES), na Região Metropolitana de Campinas (SP).

Desde o início do seu funcionamento, a Unicamp administrou e implantou no HES um Núcleo de Saúde Pública, que articula a relação com a regulação de referências da rede SUS para as internações e as altas.

Ninguém sai de alta “sem destino’’. O paciente sabe para onde vai, como será a orientação de cuidado após a alta e se voltará para realizar algum procedimento.

A internação e a alta do HES são reguladas. Essa foi uma das causas de ele ter sido designado como hospital de alta qualificação nacional e internacional.

Destaca–se o fato de não ser um hospital terciário ou quartenário.

É um hospital de segundo nível – tem as especialidades básicas – com qualidades universitárias articuladas ao SUS.

Como diria Carlos Gentile de Mello, mentor da nossa formação quando não existia o SUS: “Melhor que isso só se for verdade”.

É evidente que um segundo nível de integração com o SUS exigiria conselhos de Núcleos Hospitalares de Saúde Coletiva, articulando a rede SUS com o hospital, regulada pela participação direta de Conselheiros de Saúde locais e regionais.

Pelo que sabemos, um hospital superinteligente com Núcleo de Saúde Coletiva ainda não existe no Brasil. Talvez, com a ajuda dos nossos amigos chineses, consigamos articular ciência, tecnologia, políticas, gestão e saberes populares para chegarmos lá.

Por enquanto, temos as burocracias do Estado e das instituições do SUS, patinando para construir a verdadeira articulação social que divide poder, conhecimento e cura.

*Heleno Corrêa Filho é epidemiologista, livre docente aposentado da Unicamp e pesquisador colaborador da Escola Superior de Ciências da Saúde da Universidade do Distrito Federal (ESCS-UnDF). Integra o Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes)

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