Lelê Teles: A primeira vez que ouvi um “eu te amo”

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Por Lelê Teles

Por Lelê Teles*

minha primeira namoradinha se chamava sibele, nome de uma deusa grega, também conhecida como “a mãe dos deuses” e “espírito criador da vida”.

veja como eu comecei bem.

quando nos conhecemos, essa pequena divindade humana tinha entre treze e quatorze anos.

era linda como um cacho de uvas mijado de orvalho.

tinha duas bochechas rosadas, um nariz curto e farejador, lábios salientes e sorridentes e dois olhos de jabuticaba que emitiam um brilho magnético.

filha de prósperos comerciantes, ela era uma garotinha linda, burguesa e rebelde.

nos encontramos no movimento punk, eu cantava numa bandinha de hardcore e tinha aquela marra de suburbano revoltado.

depois que fomos flechados pelo cupido, aquele anjo que anda por aí peladinho com um arco e flecha na mão, sibele e eu formamos um casalzinho fofo e singular.

éramos a reprodução arquetípica de um clássico de contos de fada, como a bela e a fera, a dama e o vagabundo, a princesa e o plebeu…

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viramos mascote do movimento punk no gama.

apesar da rebeldia revoltosa, eu e ela fazíamos parte de um animado grupo de palhaços.

veja que curioso.

estávamos sempre a perambular com as criaturas da noite, vestidos como corvos, ladeados por uma volumosa turma de punks e headbangers.

em noites de lua cheia, íamos à praça dos artistas para beber vinho na boca da garrafa e ouvir recitais de poetas bêbados, esquetes teatrais, discurso de filósofos de botequim e as maravilhosas e gargalhantes anedotas dos amigos.

nas noites frias, ao som de violões, acendíamos fogueiras e fumávamos a erva do diabo.

éramos felizes e sabíamos.

na primavera, gostávamos de ir ao zoológico, não para ver os bichos, porque animais de zoo são prisioneiros deprimidos, mas para estar no meio daquela alegria colorida das gentes que inundavam os jardins.

pipoqueiros, vendedores de algodão doce e picolés, famílias, crianças, casais de namorados…

nesse período, as amoreiras e os pés de jabuticaba estavam carregados de frutos maduros.

depois da colheita, a gente se sentava à sombra de uma árvore frondosa, eu lhe cafunava os cabelos negros enquanto lhe contava histórias.

eu era um tagarela, ela era paciente e escutadora.

sorria com graça e com vontade.

lembro que um dia lhe contei a história de um trágico acidente ocorrido naquele zoológico.

soprava um ventinho fresco e matinal, o sol, gato amarelo, penetrava liquidamente pelas frestas entre folhas.

ao fundo, um laguinho de águas turvas onde famílias de patos e cisnes deslizavam preguiçosamente.

enquanto eu fazia cafuné, ela fechava os olhos e me escutava.

nesse dia, contei a ela o caso do garoto que caiu no fosso das ariranhas enquanto fazia graça pros amiginhos subindo na mureta de contenção.

ao ouvir o barulho do corpo entrando n’água, os animais, no instinto de proteger seus filhotes, formaram um pelotão de defesa e atacaram o infeliz.

as ariranhas, apesar de se parecerem com lontras engraçadinhas e inofensivas, têm dentes muito afiados e mandíbulas fortes o suficiente para triturar ossos de peixes e cascos de camarões.

a queda do moleque provocou um deus nos acuda, enquanto os animais atacavam o garoto, os visitantes se desesperavam.

ouvindo o clamor da multidão, um sargento do exército, que estava de folga, não sei se movido pelo instinto ou condicionado pelos treinamentos no quartel, não pensou dias vezes

saltou de peito aberto no fosso repleto de ariranhas nervosas.

as ariranhas, surpresas, recuaram por alguns segundos, parecia que estavam a se perguntar: “ora, ora, ora, de onde diabos saiu esse valentão?”

aproveitando a trégua dos animais, o militar pegou o garoto nos braços e procurou tirá-lo dali.

enquanto ele caminhava, as ariranhas o comiam vivo, mordendo suas canelas e calcanhares.

espetáculo tragico e horrendo.

sibele saltou do meu colo com uma expressão de horror.

“eles morreram”, ela quis saber.

“o garoto não”, eu respondi, “mas o nosso herói, infelizmente, não teve a mesma sorte, foram mais de cem dentadas. ele não suportou, ninguém suportaria”.

sibele suspirou fundo e, olhando-me nos olhos, perguntou novamente: “você teria coragem de saltar no fosso e salvar aquele garoto?”

como sempre, fui sincero: “é claro que não. por que diabos eu faria isso? além do mais, minha querida, esse lance de trocar uma vida pela outra é bobagem, nenhuma vida vale mais do que outra. agora, tenha certeza, se eu estivesse lá nesse dia, certamente jogaria os pais daquele garoto dentro do fosso, eles é que são responsáveis pelo filho.”

sibele continuou me olhando e, talvez insatisfeita com a resposta, fez uma nova pergunta: “e se o garoto fosse eu?”

novamente eu tive que ser sincero: “se você caisse naquele buraco imundo, eu saltaria de cabeça para te buscar e morderia todas aquelas ariranhas. de uma coisa você pode ter certeza, a gente ia sair dessa mais vivos do que nunca!”

dessa vez, parece que sibele ficou satisfeita porque foi a primeira vez que ouvi um “eu te amo.”

eu e ela somos amigos até hoje, porque o amor não morre quando duas pessoas se separam.

palavra da salvação.

*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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Lelê Teles

Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).


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