Por Gustavo Guerreiro*, especial para o Viomundo
Há momentos na história em que a política internacional, geralmente árida e pautada pelo cálculo geopolítico dos orçamentos militares e das guerras comerciais, resolve se permitir um átimo de poesia.
Em setembro de 2003, no salão nobre da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), vivemos um desses raros instantes de suspensão da desesperança.
O som que reverberava não era o bater seco do martelo de um juiz internacional ou a retórica arrogante de um autocrata, mas o violão de Gilberto Gil.
Lembro-me bem da imagem: Kofi Annan, então o Secretário-Geral da ONU e a própria personificação da diplomacia de luvas de pelica, deixou de lado o peso do cargo – a despeito da guerra no Iraque e dos genocídios na Bósnia e Ruanda – para se arriscar no atabaque enquanto Gil cantava “Toda Menina Baiana”.
Aquele batuque, longe de ser apenas um interlúdio cultural para deleite de delegados estrangeiros, carregava um simbolismo denso, quase profético. Era a celebração da “força suave” do Brasil e do multilateralismo.
Havia uma crença — ingênua, diriam hoje os cínicos de plantão, mas genuína — de que as instituições criadas em 1945 poderiam ser reformadas por dentro, através da cultura, do afeto e da política de alto nível. O Brasil, à época, acreditava e vendia ao mundo a ideia de que o diálogo era a moeda mais valiosa do século XXI.
Mal sabíamos que aquela percussão da esperança seria abafada pelo pragmatismo brutal de uma nova ordem que ignora pactos e assiste, com um silêncio cúmplice e em vídeos de redes sociais, ao colapso do que costumávamos chamar de humanidade.
O contraste com 2026 é não apenas melancólico; é aterrorizante.
O que vemos hoje é o desmonte deliberado de uma arquitetura que levou quase oitenta anos para ser erguida.
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Quando Donald Trump, em sua reencarnação política mais radicalizada, assina uma proclamação retirando os Estados Unidos de 66 instâncias internacionais – das quais 31 agências ligadas diretamente à ONU —, ele não está apenas “limpando a casa” ou economizando impostos do cidadão de Ohio. Ele está declarando o óbito do sistema de Westfália como o conhecemos.
Não é um ato administrativo, mas uma declaração de guerra ao conceito de ordem internacional. Se em 2003 a maior potência do globo ainda buscava, mesmo que de forma imperfeita e por vezes hipócrita, a legitimação internacional para suas ações, hoje o império decidiu que a legitimação é um estorvo.
O simbolismo do atabaque foi soterrado pela retórica de um isolacionismo que transfigura o conceito de soberania em uma espécie de banditismo diplomático, onde a força precede o direito.
O sintoma mais purulento dessa nova patologia geopolítica é, sem dúvida, a tragédia contínua na Palestina. O que vemos em Gaza e na Cisjordânia não é “conflito”; é a administração burocrática do extermínio, permitida pela paralisia intencional do Conselho de Segurança.
Quando os Estados Unidos vetaram, repetidamente, qualquer resolução de cessar-fogo nos últimos anos, eles não estavam apenas protegendo um aliado; estavam assinando o atestado de óbito do Direito Humanitário Internacional.
E, agora, ao se retirarem formalmente dos órgãos que poderiam investigar esses crimes, completam o serviço. Trata-se de assistir à total irrelevância de normas que foram forjadas sob as cinzas de Auschwitz para que o “nunca mais” fosse uma promessa, não um slogan vazio. A mensagem para o mundo é: não há juiz, não há júri, apenas o veredito dos mísseis.
Mas o cinismo contemporâneo não se limita à Ásia Ocidental. Ele atravessa o Atlântico e desembarca em nosso quintal com uma agressividade que nos remete aos tempos mais sombrios da Doutrina Monroe.
O que dizer do sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores?
Para além do tiroteio retórico e do cerco diplomático que habitualmente miram Caracas, o fato objetivo é inescapável: o sequestro de um chefe de Estado e sua esposa por forças estrangeiras é o ápice da desintegração da ordem jurídica internacional. É o retorno ao estado de natureza de Hobbes, onde o Leviatã mais forte simplesmente arranca o vizinho de sua casa.
Onde está o respeito à soberania nacional? Onde estão os protocolos de Genebra? Foram trocados por operações especiais que operam no vácuo da lei?
Essa nova era de “Zonas de Influência” é uma regressão civilizatória. A pressão desavergonhada sobre a Groenlândia, tratada como um lote imobiliário a ser adquirido pelo Departamento de Estado, e o uso de sanções unilaterais como arma de destruição em massa econômica substituíram de vez a diplomacia comercial.
As sanções hoje não são mais ferramentas para forçar negociações; são sentenças de morte para populações inteiras, aplicadas sem julgamento e sem direito a defesa. É a guerra por outros meios, muito mais silenciosa e, por isso mesmo, mais perversa.
As instituições de 1945, como o FMI, o Banco Mundial e a própria ONU, foram desenhadas para um mundo que, simplesmente, não existe mais. Elas foram feitas para gerir as tensões de uma bipolaridade nuclear ou a hegemonia de uma superpotência “benevolente” (ou que, ao menos, fingia ser).
Elas não conseguem mais conter a força bruta de um mundo multipolar onde a cooperação é vista como fraqueza pela potência em decadência.
A pergunta que não quer calar na sede de Nova York é uma só: qual a utilidade de uma organização onde presidentes são sequestrados e nações inteiras são sancionadas ao relento sem que um único mecanismo de freios e contrapesos seja acionado?
O multilateralismo não está apenas passando por uma crise de meia-idade; ele está sendo ativamente assassinado por seus próprios fundadores.
É uma ironia trágica que os Estados Unidos, os arquitetos desse sistema, sejam agora os seus principais coveiros. Há uma certa arrogância intelectual em acreditar que a força bruta pode substituir a rede complexa de acordos e tratados que manteve, a trancos e barrancos, uma paz relativa no último século.
Tendemos a crer, em nossa empáfia moderna, que somos imunes aos colapsos civilizatórios. Lemos sobre a queda de Roma ou o fim da Liga das Nações como eventos distantes, quase literários. Mas o que estamos vivendo em 2026 é o desabamento das vigas mestras da nossa própria catedral. E o pior: estamos assistindo a tudo isso pela tela de um celular, entre um meme e uma indignação passageira de 300 caracteres.
O silêncio que se segue ao fim da música de Gil e Annan não é o silêncio da paz; é o ruído surdo de sanções, o estalar de ameaças militares e o choro de povos abandonados pela governança global.
O Brasil, que outrora se via como o mediador nato, o “pacificador” do Sul Global, hoje se vê em um tabuleiro onde as peças não seguem mais as regras do xadrez, mas a lógica do soco inglês.
Concluo com uma urgência que não é apenas intelectual, mas existencial.
É imperativo que o mundo, ou o que restou de sanidade nele, busque construir um novo rearranjo global que não dependa do humor volátil de uma única potência ou do resultado eleitoral de uma democracia em frangalhos.
É preciso um sistema que reconheça a multipolaridade de fato, que proteja a soberania dos pequenos e que resgate a ideia de que o direito internacional não é uma sugestão opcional, mas o único muro que nos separa da barbárie total.
O século XXI não pode ser o século do silenciamento. O mundo precisa decidir, e rápido, se encontrará forças para voltar a tocar os atabaques da paz, da cooperação e do reconhecimento mútuo, ou se aceitará, de cabeça baixa, o ritmo monótono, perigoso e fatal da hegemonia unilateral.
O tempo do violão de Gil parece uma lembrança de um passado remoto, quase um sonho febril de uma humanidade que um dia se julgou capaz de ser civilizada.
Mas, se não resgatarmos aquele espírito, adaptado à crueza dos novos tempos, decerto, o que nos restará não será uma nova ordem, mas o caos absoluto de uma orquestra sem maestro e sem partitura.
*Gustavo Guerreiro é doutor em políticas públicas e pesquisador do Observatório das Nacionalidades.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.




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