Antonio de Azevedo: A dura lógica do poder na política internacional

Tempo de leitura: 3 min
John J. Mearsheimer, professor da University of Chicago, nos EUA. Ilustração: Dan Williamns/Reprodução

Por Antonio Sergio Neves de Azevedo*

No debate contemporâneo sobre geopolítica, poucas vozes são tão provocativas quanto a do cientista político John J. Mearsheimer, professor da University of Chicago, nos EUA.

Um dos principais formuladores do chamado Realismo Ofensivo, cuja formulação mais sistemática encontra-se em The Tragedy of Great Power Politics (2001), Mearsheimer sustenta uma tese que frequentemente causa desconforto em ambientes diplomáticos e acadêmicos

Refiro-me à tese de que, no sistema internacional, boas intenções raramente substituem poder.

De forma simples e bem informal, a ideia principal por trás dessa visão é a seguinte: na política internacional, os países agem principalmente para garantir segurança e poder, porque não existe uma autoridade mundial capaz de impor regras a todos.
Diferentemente do que ocorre dentro dos Estados, onde há governos e instituições que aplicam leis, no cenário global cada país precisa cuidar da própria sobrevivência.
Por isso, muitas vezes, os interesses estratégicos acabam pesando mais do que boas intenções, discursos ou normas internacionais.
A lógica dessa perspectiva é direta, ainda que suas implicações sejam profundas. Diferentemente das sociedades domésticas, o sistema internacional opera sob uma condição de anarquia estrutural, não há uma autoridade central capaz de impor regras de maneira definitiva entre os Estados. Nesse ambiente, cada país precisa garantir sua própria segurança. A consequência é previsível, a busca por poder transforma-se não apenas em uma opção estratégica, mas em uma condição de sobrevivência.
Essa interpretação encontra respaldo no realismo estrutural, também conhecido como neorrealismo, desenvolvido por Kenneth Waltz. Para Waltz, o comportamento das potências não decorre exclusivamente das preferências de seus líderes ou de valores ideológicos específicos. O elemento determinante encontra-se na própria estrutura do sistema internacional, definida, em primeiro lugar, pelo princípio ordenador da anarquia e, em segundo, pela distribuição desigual de capacidades materiais entre os Estados, militares, econômicas e tecnológicas. É dessa estrutura, e não apenas das intenções dos atores, que emergem os padrões recorrentes do comportamento estatal.

Sob essa lente analítica, muitos episódios históricos adquirem novos significados. O uso da bomba atômica pelos Estados Unidos contra o Japão em 1945, nos momentos finais da World War II, permanece como um dos acontecimentos mais dramáticos do século XX. Do ponto de vista moral e jurídico, trata-se de um episódio que continua a suscitar intensos debates. No plano historiográfico, a própria questão de sua necessidade militar permanece controversa. Uma corrente revisionista, associada a autores como Gar Alperovitz, sustenta que o Japão já sinalizava disposição para encerrar o conflito e que as bombas serviram, sobretudo, como demonstração de força dirigida à União Soviética, às vésperas da nova ordem bipolar. Independentemente dessa disputa interpretativa, sob a perspectiva do neorrealismo, a decisão norte-americana também pode ser compreendida como parte de uma lógica estrutural de demonstração de poder em um sistema internacional prestes a entrar em uma nova configuração estratégica.

As explosões nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki inauguraram uma nova era na política internacional. O surgimento da arma nuclear redefiniu os parâmetros do poder global e introduziu uma dimensão inédita na relação entre as grandes potências.

Paradoxalmente, o potencial de destruição absoluta dessas armas passou a desempenhar também um papel estabilizador. Durante a Cold War, a rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética foi marcada pela lógica da dissuasão nuclear, frequentemente sintetizada na ideia de destruição mútua assegurada. O medo da aniquilação total funcionou, assim, como um limite tácito à escalada direta entre as superpotências.

Essa dinâmica revela uma das ironias centrais da política internacional, instrumentos concebidos para a guerra podem, em determinadas circunstâncias, transformar-se em mecanismos de contenção do conflito. Não se trata de um equilíbrio moralmente satisfatório, mas de um equilíbrio estrutural.

Para os realistas, a história das relações internacionais confirma repetidamente essa lógica. Instituições multilaterais, normas jurídicas e discursos universalistas possuem relevância, mas frequentemente operam dentro de limites definidos pela distribuição concreta de poder entre os Estados e, na visão mais radical de Mearsheimer, são incapazes, por si sós, de garantir a paz ou constranger de forma duradoura as grandes potências.

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Isso não significa que o direito internacional ou a diplomacia sejam irrelevantes. Ao contrário, constituem instrumentos fundamentais de regulação, coordenação e cooperação entre os Estados. No entanto, sua eficácia costuma depender da convergência, ainda que parcial, entre os interesses das grandes potências.

Em última análise, a política internacional continua marcada por uma tensão permanente entre princípios normativos e imperativos estratégicos. O realismo não celebra essa condição; limita-se a descrevê-la. E talvez essa seja sua contribuição mais incômoda para o pensamento político, recordar que, no cenário global, a estabilidade raramente nasce da harmonia entre os Estados, mas do equilíbrio, frequentemente precário, entre poderes que buscam, antes de tudo, sobreviver.

*Antonio Sergio Neves de Azevedo , doutorando em Direito, Curitiba-PR.

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