Por Ângela Carrato*, especial para o Viomundo
SEQUESTRO 1
A solenidade do Dia da Democracia, comemorada na quinta-feira (8/1) pelo governo federal, para marcar os três anos da derrota da tentativa de golpe de estado no Brasil foi sumariamente boicotada pela mídia corporativa. Boicote que se estendeu às dezenas de manifestações populares que aconteceram nas capitais e principais cidades.
Ao contrário dos manipulados protestos contra a então presidente Dilma Rousseff, entre 2013 e 2016, que tiveram nesta mídia uma espécie de porta-voz e espaço para a sua convocação, a comemoração da vitória da democracia foi desconsiderada.
Desconsideração muito grave, num momento em que o ditador que governa os Estados Unidos, Donald Trump, ataca a Venezuela, sequestra seu presidente, Nicolás Maduro, e segue ameaçando países da América Latina e da Europa, como a Dinamarca.
Razão pela qual a vitória brasileira se reveste da maior importância por ser exemplo para o mundo da resiliência de nossas instituições.
As edições dos “jornalões” brasileiros no 8/1 foram simplesmente patéticas. Nenhuma manchete sobre a data, nenhum editorial sobre a derrota dos golpistas e nenhum texto dos amestrados colunistas de sempre sobre o assunto.
Depois das cuidadosas investigações da Polícia Federal, dos processos e julgamentos com direito à ampla defesa e das pesadas condenações do núcleo duro golpista, esta mídia tem a cara de pau de ainda tratá-los como simples “vândalos”.
O Globo, por exemplo, publicou uma minúscula chamada no canto esquerdo da capa (área de menor visibilidade para quem entende um mínimo de programação visual), com o seguinte texto: “Três anos depois, prejuízo com o vandalismo no 8/1 ainda não foi ressarcido”.
A Folha de S. Paulo seguiu a mesma linha: “Obras destruídas no 8 de janeiro se transformam em outras peças de arte”. Já O Estado de S. Paulo não publicou nada.
Os “vândalos” não se limitaram a destruir patrimônio público e obras de arte como tentam fazer crer tais publicações. Seus líderes tinham como objetivo derrubar o governo legitimamente eleito e assassinar o presidente Lula, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro do STF, Alexandre de Moraes, através do sinistro plano “Punhal Verde e Amarelo”.
Apoie o VIOMUNDO
Se fosse nos Estados Unidos, “democracia” tão venerada por esta mídia, o ex-presidente Jair Bolsonaro e sua corja de militares golpistas dificilmente escapariam da pena de morte.
O boicote às comemoração do 8/1 se manteve ao longo do dia e chegou à edição do Jornal Nacional com direito a todas as omissões e manipulações possíveis.
Às 20h15, na chamada que antecede ao telejornal, a jornalista Renata Vasconcellos, não disse nada sobre o assunto. No telejornal, a cerimônia do 8/1 no Palácio do Planalto foi mostrada an passant, com o objetivo de esconder da audiência que o evento estava superlotado.
A fala do presidente Lula foi exibida como algo prosaico, com a câmera fechada no rosto dele. Já a decisão do presidente de descer a rampa e ir se encontrar com a multidão na frente do Palácio foi apresentada com tal velocidade, que somente a vontade de escondê-la é capaz de explicar.
Como dizia o empresário Roberto Marinho, patriarca do grupo Globo, tão importante quanto o que exibo é o que deixo de exibir. Fala à qual podemos acrescentar que igualmente importante é a maneira como uma informação é exibida. Quanto mais rápida, menos chance de ser assimilada pelos telespectadores.
É importante assinalar ainda que as manifestações populares que aconteceram em todo o Brasil mereceram apenas a referência de que foram convocadas “por centrais sindicais e sindicatos”, sem uma imagem sequer para ilustrá-las. Mais explícito impossível: o JN fez de tudo para tentar mostrar Lula num evento isolado e distante do povo, quando foi exatamente o contrário que se deu.
O sequestro da notícia pelo JN não terminou aí.
O JN mencionou que, no evento, o presidente Lula vetou o projeto da dosimetria, que prevê redução de penas para os golpistas presos. Foi dado voz somente a três notórios parlamentares aliados deles – Sóstenes Cavalcante, Paulinho da Força, e Rogério Marinho. O trio anunciou que vai mobilizar o Congresso Nacional para que o veto seja derrubado.
Marinho chegou ao absurdo de dizer que o veto era um ato de “vingança política”, esquecendo-se de que a condenação se deu pela Justiça e todo o devido processo legal foi respeitado.
O sequestro da notícia persistiu na sexta-feira (9).
O Globo, numa chamada de capa sem destaque, noticiou que “Lula barra redução de penas do 8/1, e Congresso prepara derrubada do veto”. A mesma toada se repetiu no Estado de S. Paulo, com a Folha superando os dois com o editorial “Há um tanto de teatro no veto de Lula ao projeto da Dosimetria”.
A qual teatro esta publicação, porta-voz do mercado financeiro, se refere? Lula cumpriu o que anunciou que faria durante entrevista coletiva em dezembro e agiu em estrita sintonia com o que a lei lhe faculta. Se a oposição quer derrubar o veto presidencial é outra questão.
Derrubada que não será tão simples assim, uma vez que as praças, ruas e as pesquisas de opinião, indicam que a população brasileira não aceita anistia para golpistas. Fato que está na raiz do JN e todos os demais veículos da mídia corporativa terem omitido as manifestações populares no 8/1, marcadas exatamente pelo “Sem Anistia”.
Enquanto isso, essa mesma mídia segue dando espaço para o mimimi do presidiário Jair Bolsonaro e de sua família na tentativa de garantir-lhes alguma empatia e desgastar a Justiça.
Todas estas ações da mídia corporativa brasileira integram a chamada guerra híbrida, também conhecida como guerra cibernética, presente entre nós desde 2013.
Como já tive oportunidade de abordar em outros artigos, a guerra híbrida precede e integra as ações visando mudança de regime ou mesmo ações tradicionais de guerra. Ela se constitui na utilização da mídia para construir, junto a grupos e populações, cenários que interessam às potências e países imperialistas (Estados Unidos, Inglaterra, Israel) aí incluindo destruir a reputação de líderes políticos que não compactuam com seus interesses.
SEQUESTRO 2

À esquerda, o presidente Nicolás Maduro sendo transportado no navio de guerra USS Iwo Jima, após ser sequestrado por forças estadunidenses. À direita, o diretor da CIA, John Ratcliffe, o presidente Trump e o secretário de estado, Marco Rubio, acompanhando a operação militar na Venezuela que bombardeou bases militares e sequestrou Maduro. Fotos: Wiki Commons
O que está acontecendo na vizinha Venezuela é outro exemplo deste tipo de atuação.
A invasão de um país soberano por força militar dos Estados Unidos, o sequestro de seu presidente e o anúncio de que será julgado por acusações descabidas em solo estrangeiro deveriam ser motivo de repúdio por parte de qualquer veículo de comunicação que se diz democrático e defensor dos direitos humanos.
Foi o oposto disso o que ocorreu.
A mídia corporativa brasileira aplaudiu o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e vibrou com o que chamou de “captura do ditador Maduro”. Se tal postura, por si só é gravíssima, a situação ganha contornos terríveis quando se sabe que a maioria da população brasileira ainda tem nesta mídia sua principal fonte de informação.
Guerras híbridas, para serem eficientes, começam bem antes do objetivo almejado. Se no Brasil datam de 2013, na Venezuela começaram em 1998, logo após a vitória eleitoral de Hugo Chávez. Ao longo dos anos de governo bolivariano, em especial a partir de 2013, a Venezuela tem sido alvo de um total de 1.047 sanções econômicas e financeiras.
Durante a pandemia de covid-19, foi proibida pelos Estados Unidos de comprar até vacinas e insulina para o tratamento de diabetes.
Em 2019, a Justiça dos Estados Unidos tomou na mão grande cinco refinarias venezuelanas bem como a rede de distribuição de combustíveis, Citgo, braço da estatal petroleira PDVSA, na terra do Tio Sam.
No ano anterior havia sido a vez do Reino Unido, através do Banco da Inglaterra, confiscar a reserva de 31 toneladas de ouro da Venezuela, valendo bilhões de dólares, por não reconhecer o governo Maduro como legítimo, priorizando o golpista Juan Guaidó.
Se a população brasileira e mundial tivesse conhecimento disso, será que continuaria aplaudindo os Estados Unidos e países da Europa que combatem Maduro? Será que continuariam chamando Maduro de ditador, por defender o petróleo e os interesses de seu país e de sua população contra as garras do imperialismo ianque e europeu?
Se a guerra híbrida não tivesse conseguido pintar Maduro como “ditador”, sua “captura” teria sido aplaudida?
Como a farsa envolvendo as razões do ataque à Venezuela começa a ruir, quem está em maus lenções é a mídia corporativa brasileira, que consegue ser mais subserviente e canalha do que a similar estadunidense.
Enquanto edições do The New York Times e The Washington Post estampavam manchetes mostrando que Trump recuou da principal denúncia contra Maduro, a de que chefiava o cartel de narcotráfico Les Soles, a mídia daqui faz cara de paisagem.
Cara de paisagem que se explica, porque foi ela, valendo-se de reportagens mentirosas produzidas sob os auspícios de veículos estrangeiros, que atestaram a existência deste “perigoso cartel”.
Como agora os jornalões e suas emissoras de TV e rádio diriam ao seu respeitável público que era tudo mentira?
Que seus correspondentes nos Estados Unidos e Europa se limitam a divulgar boletins oficiais da Casa Branca e do número 10 da Downing Street, coração executivo do governo inglês?
Como iriam expor sua subserviência aos interesses estrangeiros, logo eles que se apresentam como infalíveis e portadores de “informações isentas e objetivas”?
Por isso, a mídia corporativa agora se empenha em entreter a opinião pública com a novela sobre “Quem traiu Nicolás Maduro”, forma irônica que a ela se referiu o historiador Manuel Domingos Neto. Um dos principais especialistas brasileiros em defesa nacional e profundo conhecedor dos golpes imperialistas dos Estados Unidos na América Latina, ele está atento ao protagonismo desta mídia nas guerras híbridas.
Desde que o mundo é mundo, em todas as guerras sempre houve traidores. Nunca faltou quem vendesse ou detalasse os seus por dinheiro. No caso da Venezuela, a grana oferecida pelos Estados Unidos para informantes sobre Maduro era alta: US$ 50 milhões.
Mesmo assim, esta mídia deveria ter um mínimo de cuidado antes de divulgar informações peremptórias, desencontradas e sem lastro na realidade. É o caso de “líderes chavistas terem entregado a cabeça de Maduro”, de “Maduro ter feito acordo com Trump visando a própria captura” de que “a captura aconteceu sem qualquer resistência”, de que “o povo venezuelano comemorou esta captura” e “a vice-presidente que assumiu interinamente, Delcy Rodrigues, já se curvou às determinações de Trump”.
Uma mentira acaba puxando outra e é isso que esta mídia tem feito.
Para tanto omite de seu público que 32 cubanos que integravam a guarda pessoal de Maduro foram mortos. Que no total, até agora, 60 venezuelanos foram mortos pelas forças dos Estados Unidos durante os bombardeios à Caracas e outras regiões da Venezuela. Nenhuma palavra sobre multidões terem tomado as ruas em defesa de Maduro e da revolução bolivariana em Caracas e diversas partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos. E, talvez a mais grave de todas as mentiras: as afirmações de que Delcy e a cúpula chavista tenham se acertado com Trump.
Delcy e a liderança bolivariana têm agido com a cautela que a situação demanda, diante do poder descomunal que enfrentam. Já as mentiras e fanfarronices de Trump começam a aparecer.
A prisão de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, pode se converter num tremendo desgaste para a já baixa avaliação do governo Trump. Com o recuo na principal acusação, as que sobram são ainda mais pífias: portar armas e integrar rede de corrupção na Venezuela.
Qual dirigente de um país soberano não tem direito a portar armas? Desde quando os Estados Unidos possuem competência para julgar assuntos internos de países soberanos?
Para piorar a já péssima situação desta mídia, vale destacar que não se viu um único editorial indignado com as ameaças de Trump à Colômbia, México, Cuba e à América Latina, que ele e seu secretário de Estado, Marco Rubio, tratam como “quintal dos Estados Unidos”.
Antes de mudar de assunto, gostaria de assinalar que também senti falta das “valorosas feministas brasileiras”. Quem se lembra que ficaram indignadas e receberam ampla cobertura da mídia para atacar o presidente Lula, quando ele se referiu à ministra Gleisi Hoffmann como “bonita”, o que ela efetivamente é? Essas mesmas feministas não abriram o bico quando a primeira-dama da Venezuela, na aparição perante a Justiça de Nova York, apresentava um enorme hematoma em um dos olhos, ferimentos pelo corpo e algumas costelas quebradas, de acordo com relato da mídia estadunidense.
Haja feminismo seletivo!
SEQUESTRO 3

Daniel Vorcaro e Banco Central. Foto: Reprodução da redes sociais
Outro exemplo emblemático de guerra híbrida ou guerra cibernética é o caso da liquidação do banco Máster, de propriedade do picareta e trambiqueiro Daniel Vorcaro. Desde que foi oficializada pelo Banco Central, esta certíssima liquidação vem sendo alvo de questionamentos pela mídia corporativa brasileira.
Tentou-se, num primeiro momento, minimizar o impacto do calote de R$ 12 bilhões que Vorcaro deu em seus correntistas, para concentrar-se, em tempo integral, numa suposta ilegalidade que esta mídia acreditava que teria poder para colocar abaixo a República. Por República leia-se o governo Lula e o ministro Alexandre de Moraes.
A jogada, como agora se sabe, era a seguinte: uma das colunistas amestradas do Grupo Globo denunciava, se valendo apenas de fontes em off, que Alexandre de Moraes teria interferido junto ao BC para salvar o Máster. A única evidência apresentada era um contrato sem assinatura entre o escritório da esposa de Moraes e este banco, encontrado pela PF no celular de Vorcaro.
A denúncia de O Globo, como sempre, foi seguida pelos demais veículos da mídia corporativa, não faltando até quem exigisse o impeachment de Moraes. Tamanha fúria baseada apenas em suposições e convicções tinha razão de ser. Se as suspeitas prosperassem, o ministro teria sua autoridade contestada inclusive no que se refere ao julgamento e condenação dos golpistas do 8/1.
Nesta altura do campeonato, não há dúvidas sobre a quem interessava desmoralizar Moraes e enfraquecer o governo Lula: os golpistas de sempre dentro e fora do Congresso Nacional.
Os ataques só cessaram, quando o procurador-geral da República, Paulo Gonet, disse o óbvio: não cabe interferência pública em contrato entre particulares. Dito de outra forma, que a mídia tratasse de comprovar que Moraes usou de sua influência para evitar a liquidação do banco Máster.
Foi aí que esta mídia ficou em apuros e mudou de assunto. Como comprovar a tal influência, se ela é negada por Moraes e pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo? Mais ainda: a liquidação já ocorreu e quem vem tentando revertê-la são exatamente os integrantes do Centrão no Congresso Nacional, com suporte da própria mídia.
Ao contrário de apurar como um picareta como Vorcaro conseguir enganar tanta gente e por tanto tempo, esta mídia passou a dar força à absurda tentativa do ministro Jonathan de Jesus, do TCU, de questionar a autoridade do BC para liquidar o banco. Esta mesma mídia que, sintomaticamente, fez vistas grossas aos interesses de Jonathan de Jesus, ex-deputado estadual no Amapá, sobre o assunto.
Ligado ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Jesus deve estar preocupado com o prejuízo que o indicado por Alcolumbre para o fundo de pensão dos funcionários de seu estado dará a estas pessoas pelas aplicações temerárias feitas no Máster.
No entanto, foi a cantilena contra a liquidação do Máster que a mídia corporativa transformou em manchete em 8/1. No dia seguinte, a Folha de S. Paulo, seguindo à risca orientações da cartilha da guerra híbrida, no item como confundir pessoas, publicou manchete que tentava jogar no colo do governo federal o rombo do banco de Vorcaro: “Cofres públicos terão que cobrir rombo de fundos de previdência com Máster”.
No caso, a manchete correta deveria ser: “Ministério da Previdência afirma que estados e municípios terão que cobrir prejuízos do banco Máster em seus fundos de pensão”. Os estados e municípios em questão são todos administrados por políticos de extrema-direita, a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Amapá, o que explica a omissão de seus nomes nas manchetes da mídia golpista.
Para aumentar a vergonha, se esta mídia tivesse vergonha, a autoridade monetária dos Estados Unidos reconheceu a liquidação do Máster e bloqueou os seus ativos lá.
O desafio para a mídia corporativa agora é encontrar novos assuntos que possam ser sequestrados para atacar o governo Lula, pois não resta dúvida de que os ataques estão apenas começando num ano eleitoral que promete ser duríssimo.
*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI




Comentários
Zé Maria
Excerto
“Desde quando os Estados Unidos
possuem competência para julgar
assuntos internos de países soberanos?”
.
Zé Maria
.
.
Historicamente, os que mais ameaçam o Brasil,
não são nem foram Países Estrangeiros, são os ‘X9’,
os ‘Quintas Colunas’, os Sabotadores Internos do
País, que, depois da Ditadura Civil-Militar (1964-88),
incluem Cinco Eventuais Chefes do Estado Brasileiro
– juntamente com as Cúpulas das Forças Armadas e
a Maioria dos Parlamentares e Governadores – todos,
não por coincidência, com Viés Partidário de Direita Apoiados pela Imprensa Canalha:
Sarney (1985-90), Collor (1990-92), FHC(1994-2002),
Temer (2016-18) e Bolsonaro (2018-22); dos quais
Dois estão Presos, Condenados pela Suprema Corte.
.
.