Por José do Vale Pinheiro Feitosa*
Talvez um dos efeitos do Iluminismo e da estruturação dos cânones da ciência tenha sido a simplificação e encurtamento da evolução da história. Se bem é verdade que um certo filósofo ultraliberal tenha vaticinado o fim dela.
A impressão gráfica e o surgimento das mídias que continuamente medeiam as vidas privadas e públicas podem ter provocado um efeito colateral nas pessoas ao acharem que as fases da história sejam pequenas e rápidas superações.
Quando se chegou à ideia de que as relações econômicas eram a base para explicar a trilha social e cultural ficou fácil classificar as fases da história por elas: capitalismo, feudalismo, escravismo…
Os modos de produção levam centenas de anos para criar suas estruturas políticas, sociais e culturais e outro tanto para serem superadas.
O modo capitalista de produção como um sistema dominante está em evolução e suas contradições, embora presentes, ainda encontram soluções.
O que chama a atenção é que as soluções que agregam as pessoas numa ordem social e num imaginário cultural ainda são muito semelhantes ao que existia entre o século XVI e XVII.
O Iluminismo foi a primeira vez que a burguesia se manifestou como supraestrutura da ordem do capital.
Ali, mostrou o sentido de classe que se fortalecera economicamente com o colonialismo, a exploração intensiva das Américas, África e Ásia.
Vamos pensar sobre a religiosidade cristã na expansão do colonialismo (mercantilismo) já como um imaginário que garantia a adesão da população e sua obediência às diretrizes da classe dominante.
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Nas Américas, a religiosidade cristã foi o instrumento central para impor a língua do invasor, seus costumes e obediências, a criação do imaginário em substituição a suas culturas originais.
E isso não se resumiu à Igreja Católica, que faz a transição entre o feudalismo e o capitalismo porque estava continuamente se adaptando a mudanças sociais e mantendo a violência que absorvera dos conflitos feudais da Idade Média.
O papel das missões religiosas para substituir a relação humana com a terra e seus valores das populações originárias explica por que a invasão das terras, da água, a exploração dos minérios e produção agropastoril foram exitosas além das doenças infecciosas que ceifaram vidas.
O cristianismo e todas suas denominações criou uma ordem universal para os descedentes da mistura de culturas e raças com base no poder absolutista vinculado com a ideia simbólica de Deus e na prática ao rei (ou poder do Estado).
A forma como os cristãos, especialmente os neopentecostais e as falanges de extrema direita, exploram o temor a Deus e o apego à família traduz muito bem a ordem hierárquica de classe econômica e do poder político.
O processo de evolução histórica em países como o Brasil busca a manutenção do status quo porque é vantajoso para os negócios de classe e o forte discurso ideológico por todos os meios é contínuo.
As fake news tão discutidas hoje não são uma nova realidade, embora com novas tecnologias feito as redes sociais e as mídias tradicionais.
Não são porque a base histórica do capitalismo continua em evolução e a burguesia (especialmente, a financeira) planta na fértil manipulação e sonegação da consciência política do povo.
O papel das igrejas e seus pensadores é fundamental. E eis a razão pela qual setores cristãos que possuem consciência do desastre social do capitalismo são destruídos por dentro das estruturas de controle das religiões.
Existe Roma para os católicos e os EUA para os neopentecostais. Até o sionismo de extrema direita reflete a centralidade da propaganda, divulgação e controle ideológico.
A Revolução Francesa teve enorme impacto sobre as colônias nas Américas, especialmente no Brasil com a fuga da corte portuguesa para cá.
Neste momento se cristaliza o conflito político das elites proprietária. Isso representado pela luta entre liberais vinculados à revolução (a independência e república) e os conservadores aderidos ao reino português (monarquia).
Neste caldo contraditório aconteceu uma história na cidade do Crato, interior do Ceará, que foi narrada pelo jornalista João Brígido dos Santos deste modo:
“Só a 23 de junho de 1821 soube-se no Crato, que desde 24 de abril D. João tinha deixado as plagas do Brasil, e foram conhecidas as instruções que, partindo, deixara a seu filho.
Estes acontecimentos, de que, sem compreender, era testemunha a população bruta, acostumada a toda sorte de violências, tinham-lhe escaldado a imaginação. Ela tinha mais o torpe sentimento do que pretendiam os reformistas, e sofria de extravagantes apreensões que iam estimulando o seu fanatismo, à medida que a palavra Constituição chegava às cabanas.
O que ela (a Constituição) era, ignorava o vulgo; mas em sua perigosa curiosidade uns divulgaram nela uma inovação de forma de governo em prejuízo do rei, e, portanto, uma impiedade, um atentado contra a religião, segundo a afinidade que descobriram entre Deus e o rei; outros reputavam-na uma tentativa contra a liberdade dos pobres, que diziam se meditava cativar; outro finalmente a tomavam por uma entidade palpável, a quem atribuíam uma perversidade de horripilar.
O povo, no seu furor, em contínua agitação, taxando de ímpios, de sacrílegos, maçons e endemoniados reformistas, renovava contra estes as calúnias”
Algo semelhante com o que sabemos hoje não é mera coincidência.
*José do Vale Pinheiro Feitosa é médico sanitarista.
*Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.




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