Elizabete Franco: Em nome de Deus as portas das escolas estão fechadas para todas as famílias
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“Não ao gênero, somos família
“Eu beijo homem, beijo mulher, eu beijo quem eu quiser”. “Se Jesus estivesse aqui, estava do lado das travestis”

“Gênero Não”. Depois, “Aleluia!!! Aleluia!!!!” Orações, hinos, padres jovens no caminhão de som, louvor a Deus, à familia. Fotos e legendas do artigo A Inquisição ressuscitou na Câmara Municipal de São Paulo, publicado em Jornalistas Livres
por Elizabete Franco Cruz, especial para o Viomundo
Acompanhando um movimento que existiu em várias cidades do país, segmentos religiosos se opõem à presença da palavra gênero no Plano Municipal de Educação de São Paulo. Na votação realizada no dia 11 de agosto na Câmara Municipal observamos manifestações públicas conclamando o “povo de Deus” a dizer “não ao gênero”. Com gritos de “aleluia, aleluia”, orações e uma faixa com os dizeres “Gênero não é de Deus”, manifestantes religiosos apoiavam a maioria dos vereadores que votou pela exclusão do termo no texto do Plano.
O argumento central desta perspectiva é que gênero é uma ideologia que representa uma ameaça para a família e para as crianças e, por isso, não deve estar presente nas escolas.
Neste enunciado religioso, transmitido em missas, cartilhas, câmaras municipais e redes virtuais, temos o entrelaçamento de vários conceitos – ideologia, gênero, família, crianças, escola e educação – que são objeto de pesquisa e análise de diferentes áreas do conhecimento científico.
Pelos limites de espaço e foco deste texto, me limitarei a comentar apenas o conceito de gênero. A construção discursiva que atribuiu ao gênero o lugar de ideologia tem a perspectiva de diminuir sua seriedade, validade. O vocábulo ideológico é utilizado – justamente por quem sustenta o discurso da fé, da doutrina – como o elemento que tenta desqualificar o que há de científico no termo relações de gênero.
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Este discurso religioso faz sistematicamente a oposição entre gênero e família. Tal construção é equivocada porque o conceito de gênero está reduzido à população LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais) e família reduzida à família heterossexual.
O conceito de gênero não é o que este discurso anuncia mas, mesmo que fosse, causa estranhamento que religiões que pregam o amor queiram eliminar a presença da diversidade na escola e mais estranhamento ainda que um Estado laico possa ter um conjunto de representantes eleitos que parecem mais preocupados com a permanência no poder do que com a qualidade na produção da educação na cidade e no País.
Gênero – mais precisamente “relações de gênero” – é uma categoria analítica das ciências humanas e sociais que, tal como classe, raça/etnia e geração é utilizada para o desenvolvimento de pesquisas que buscam compreender as sociedades contemporâneas. O conceito envolve a dimensão relacional, histórica e cultural de saberes e poderes que se entrelaçam na produção dos sentidos ao redor do masculino e do feminino.
A inclusão de disciplinas de educação para a sexualidade, equidade de gênero e raça nos currículos de educação infantil até a universidade é uma demanda antiga que vem sendo gradualmente trabalhada e conquistada no País e no processo de formação de professores e professoras. Isto não retira o lugar da família no processo de formação moral, mas sinaliza que a escola precisa ser um espaço no qual se aprende bem mais que matemática e português.
Neste cenário, vale refletir que recentemente tivemos noticias de situações de violência em várias universidades paulistas, inclusive casos de estupro cometidos por alunos da USP. Não podemos deixar de pensar a respeito do fato de que estudantes universitários com competência para aprovação em grandes universidades públicas chegam ao ensino superior com valores assustadoramente desrespeitosos em relação a mulheres, homossexuais, travestis e negros.
Ao mesmo tempo, sabemos que estudantes gays, travestis, transexuais, portadores de HIV/AIDS, e também mulheres,negros, indígenas e portadores de deficiências sofrem vários tipos de estigma e discriminação no cotidiano das escolas.
Não cairia aqui na armadilha de universalizar “os católicos” e “os evangélicos”. Essa postura maniqueísta e binária de lideranças e segmentos dentro das religiões não revela a posição da totalidade dos fiéis. Contudo, o discurso religioso cria um “nós” do bem e um “ eles” do mal, que incita a violência e a fixação de identidades.
Pluralidade, respeito à diferença e à diversidade de pensamento é o que precisamos ensinar para estudantes em todas as faixas etárias. A diferença entre as pessoas não é algo a ser eliminado. Crianças e jovens socializados para a diversidade não serão pessoas confusas. As experiências já exitosas nessa área mostram que serão pessoas menos ocupadas com a perseguição e violência diante da identidade e subjetividade alheia. A paz é também uma construção que se ensina na escola e ela não poderá existir enquanto a uniformidade entre os humanos for colocada como o ideal a ser alcançado.
O pensador francês Michel Foucault, em famoso prefácio do livro Anti Édipo, de G. Deleuze e F. Guattari, nos convida a pensar numa “vida não fascista”. O autor não se refere apenas ao fascismo histórico de Hitler e Mussolini, mas também ao fascismo que nos habita, que vive nas práticas cotidianas.Nas palavras do autor é essencial “a perseguição a todas as formas de fascismo, desde aquelas, colossais, que nos rodeiam e nos esmagam até aquelas formas pequenas que fazem a amena tirania de nossas vidas cotidianas.”
Uma educação, com práticas cotidianas não fascistas é elemento que pode contribuir para a construção de uma vida não fascista. Resta saber se a sociedade brasileira permanecerá atenta para entender que o apagamento das diferenças – disputado nas palavras que podem ser ditas e escritas num plano de educação – é um dos elementos que, como água gotejando, vai minando as reservas da pluralidade, na tentativa de tornar universais e homogêneas as formas de existir.
O risco é o fascismo que já existe no preconceito e na violência do cotidiano não encontrar na escola discursos que o questionem. É preciso ouvir o grito daqueles que não se opõem à família, mas tentam trazer para a escola todas as famílias.
Gênero, diversidade, pluralidade são palavras que devem permanecer na educação. Fascismo, racismo, violência, preconceito são as palavras que devemos apagar.
É ainda em Foucault que encontramos a amizade como uma possibilidade para a tessitura da vida. E o que está em jogo é exatamente isto: que vida queremos produzir e ensinar no âmbito da educação brasileira. Resta a esperança nas pessoas que vivem dentro e fora das escolas, que sabem que uma bela estética da existência para a educação, e para a vida em nosso País, só poderá ser escrita e tecida nas tintas e fios da diferença.
Elizabete Franco Cruz é professora da Escola de Artes Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo
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