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Luana Tolentino: O dia em que decidi não ser a mucama da sinhazinha

30 de abril de 2014 às 16h59

por Luana Tolentino*, especial para o Viomundo

Em homenagem ao dia do Trabalhador Doméstico, comemorado no último dia 27 de abril, a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) assistiu à sessão realizada, nessa terça-feira 29, na Câmara vestida de doméstica, função que já exerceu.

A meu ver, não há no Brasil outra profissão que guarde tantos traços do período escravocrata. Mesmo com a aprovação da emenda Constitucional que ampliou os direitos trabalhistas da categoria no ano passado, muitas são as mulheres que ainda são exploradas e violentadas em lares de todo o Brasil.

E, motivada pelo ato de Benedita, decidi também homenageá-las e, mesmo que timidamente, fortalecer a luta por direitos em benefício das empregadas, babás, faxineira e diaristas desse país.

O relato que se segue faz parte de um período doloroso da minha vida. Assim como Benedita e tantas outras meninas e mulheres negras, entre os 13 e 18 anos limpei vidros, lavei banheiros, encerei pisos. Como parte dessa história, por diversas vezes fui humilhada e aviltada.

Tive o privilégio de fazer escolhas. Seguir outros caminhos, mas sem jamais esquecer das minhas companheiras que permanecem nessa profissão.

******

O CASO DO PÃO MOFADO

Belo Horizonte, julho de 1999.

Eram seis e meia da manhã. Acordei com o chamado do meu pai.

No dia anterior, havia feito faxina na cozinha. Em consequência, sentia dores por todo o corpo. Estava angustiada. Não sabia como faria para ir ao colégio à noite. Há mais de uma semana não lavava a blusa do uniforme. Há mais de dois meses não havia água em casa. Aflita, busquei uma solução com a minha mãe:

– Como vou fazer para ir à escola hoje? Meu uniforme está muito sujo.

Acostumada com a vida difícil de quem nasceu na roça, respondeu com a resignação que lhe é peculiar:

— Minha filha, vá assim mesmo. É só você não ficar perto dos seus colegas.

Refleti um pouco sobre as palavras da minha mãe. O que ela propôs era impossível. Como não ficar perto dos meus colegas?! E se a professora pedisse para olhar os cadernos?! Poderia ser ainda pior…Comunicaria à direção da escola que eu estava frequentando as aulas sem tomar banho. Atormentada por todas essas possibilidades, insisti:

— Mas, mãe…. E se você estivesse no meu lugar? Iria suja para escola?!

Ela não gostou muito do meu tom desafiador. Para encerrar a conversa, devolveu  a pergunta:

— O que você quer que eu faça?

Sabia que a minha mãe não podia fazer nada, mas, ao mesmo tempo, queria apenas uma blusa limpa e, assim, poder estudar em paz. Peguei as minhas coisas e fui trabalhar. Ao longo do dia, daria um jeito de lavar o uniforme e não perder a aula. Encontraria uma saída.

Ao chegar à casa da Tereza, minha patroa – não há palavra na língua portuguesa que me cause tanta ojeriza – encontrei copos, talhares e pratos espalhados sobre a mesa da copa. Patrícia, sua filha, decidiu brincar com o conjunto de louças da mãe. Puro capricho. Não existia a menor necessidade. A menina possuía um armário repleto de brinquedos.

Lavei tudo. Senti um pouco de raiva. A brincadeira atrasou todo o meu serviço. Patrícia, aos 10 anos, já sabia que eu era a empregada. Dela. Portanto, era a minha obrigação limpar e guardar tudo o que ela deixava espalhado pela casa.

Cozinha arrumada, fui à padaria. Patrícia insistia em dizer que eu era muito mole, insolente. Precisava voltar depressa. Comprei oito pães, como fazia todos os dias. Também, sem necessidade. Ninguém os comia. Ao final da semana, acumulava-se uma enorme quantidade de pães velhos na gaveta da cozinha.

Ao retornar, parei para tomar um café. Sentia fome. Já passavam das 9h e ainda não havia comido nada. Patrícia me olhava em silêncio, como se estivesse vigiando cada passo que eu dava. Tinha mania de espalhar moedas pela casa, como quem arma uma ratoeira e espera que o rato coma o pedaço de queijo envenenado. Aprendi a não revidar as provocações e seus insultos. Não queria confusão. Precisava do trabalho e do dinheiro. Na minha casa, além da água, faltava luz e comida. E enquanto eu cortava o pão que acabara de trazer da padaria, com o dedo em riste, ela gritou:

— Luana, deixe esse pão aí, agora! O seu pão está na gaveta.

Assustada, deixei a faca cair no chão. A única lágrima que brotou dos meus olhos teve o mesmo destino. Sobre os meus pés, um abismo que parecia não ter fim. Sentia o meu corpo despencar.

Permaneci calada. Não reagi. Não consegui processar o que ela havia me dito. Assim como eu, Patrícia sabia que os pães guardados na gaveta estavam velhos, mofados, bolorentos. Sabia que seriam despejados no lixo em breve. Não conseguia acreditar na crueldade da menina.

Em seguida, a aparente inércia, deu lugar à raiva. Ao pranto. Meus sentimentos se misturavam de maneira intensa. Não era mais possível guardá-los como me habituei a fazer. Era a minha vez de gritar:

— Cale a boca, menina! Cale a boca! Hoje eu não quero ouvir a sua voz! Com toda a minha força, arremessei o pão na direção de Patrícia. Errei o alvo. Parecia cega. De ódio.

Ao ouvir a gritaria, Tereza interrompeu o tratamento de beleza e desceu as escadas correndo, tentando entender o que se passava na cozinha. Mais uma vez, o dedo indicador era apontado para o meu rosto:

— Luana, do meu quarto, escutei você dizer que não quer ouvir a voz da Patrícia! O que significa isso?

A essa altura, não mais conseguia conter as lágrimas. Em meio ao choro, implorava para ser compreendida. Desejava a reparação da injustiça que acabara de sofrer:

— Ela disse que eu devia comer o pão mofado, Tereza! Ela disse! Respondi, desesperada.

Diante da cena, Tereza permaneceu muda por alguns instantes. Patrícia permanecia acuada, sem esboçar qualquer reação. Ao ver a filha dessa maneira, olhou no fundo dos meus olhos. Sem a menor compaixão, foi breve e direta:

— Luana, você não tem o direito de falar assim com a Patrícia! Ela é uma criança! Você devia se envergonhar do que fez! Tanto escândalo por causa de um pedaço de pão!

Tentei argumentar. Precisava encontrar alguma palavra que convencesse a minha patroa do mal que a menina havia me feito. Tereza precisava entender que a dor não era causada pelo pão, mas por todas as maldades praticadas pela filha. Minha mente parecia confusa. Desta feita, esbocei apenas duas palavras, quase a implorar:

– Mas, Tereza…

Em vão. Tereza pegou Patrícia pelas mãos. Seguiram as duas para o andar de cima. Permaneci na cozinha. Só. Humilhada. Esqueci da fome. Do pão e do café. Esqueci da blusa do uniforme sem lavar.

Sentia uma tristeza profunda. Doía-me a alma. Em meu peito, uma ponta de ódio. Sentimento desconhecido por mim até então. À Patrícia, sempre devotei um grande amor. E com esse amor, a coloquei para dormir por diversas vezes. Ajudei-a quando não conseguia se equilibrar ao aprender andar de bicicleta. Cinco anos antes, foi comigo que Patrícia aprendeu a ler e a escrever. Não entendia como ela podia ser tão perversa.

O dia estava apenas começando. Era necessário enxugar as lágrimas que teimavam em deslizar pelo meu rosto abatido diante de tamanha crueldade. A casa era enorme. Casa-Grande. Três banheiros, três salas, quatro varandas, quintal, garagem, cozinha. Tereza e Patrícia. A sinhá e a sinhazinha mimada. Decidi não ser a mucama.

Em meio a tudo isso, existiam sonhos vivos e possíveis, e o desejo de uma outra vida. Digna, sem tantas humilhações e silenciamentos.

PS: Esta história é  real, apenas os nomes da menina e da mãe são fictícios, para preservar-lhes a identidade.

*Luana Tolentino foi babá, faxineira e empregada doméstica entre os 13 e 18 anos. Hoje é professora e historiadora. É ativista do Movimentos Negro e feminista.

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Fátima Oliveira: Abandonadas sem vale-táxi e SAMU-cegonha

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Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.

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18 Comentários escrever comentário »

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Paloma

11/05/2015 - 11h46

Minha maior vergonha é que mães de uma geração inteira se comportaram assim e criaram a próxima geração de monstrinhos que hoje são péssimos patrões em todos os âmbitos empregatícios. Já fui doméstica enquanto adolescente, pois minha mãe preferia passar fome a trabalhar, e sofri injustiça também. Hoje tenho faxineira e penso em cada palavra que lhe profiro pra que porventura ela não se ofenda, pois sei o que é, e espero poder pagar uma pessoa pra trabalhar lá em casa todos os dias, mas nunca permitirei que um filho ou visita destrate qualquer um que trabalhe pra mim. A vida dá muitas voltas, e respeito e educação deve-se ter por todos, independente de condição social, cor, credo…me preocupo mais em deixar bons filhos pro mundo do que um mundo bom pros meus filhos. E independente de ter leis que obriguem os patrões a respeitar mais os empregados, deve-se ter pessoas dispostas a usar de justiça com o próximo, ainda mais se esse próximo lhe prestar algum serviço. Não devia ser obrigado por lei a dar folga, salário mínimo, horas de trabalho justas… devia ser natural respeitar o direito do outro. Um dia passeando após às 21h, vi uma doméstica uniformizada levando o cachorro pra passear. Aquilo lá era hora de a senhora estar uniformizada?? Pois significa que ela estava trabalhando normalmente até após às 21h!!! Achei aquilo o cúmulo do absurdo, e fiquei muito triste em constatar que ainda hoje se escraviza as pessoas menos afortunadas…

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walter rodrigues

02/05/2014 - 15h44

É, Luana. Só digo uma coisa: Tenho medo. Medo de a Groubo ganhar estas eleições. e se a Groubo ganhar, adeus ENEM, adeus PROUNI, adeus PRONATEC, adeus FIES, adeus 13º, Adeus férias, adeus emprego, adeus…..!

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Urbano

01/05/2014 - 13h38

Luana, e para isso precisou que saísse um iluminado do interior de Pernambuco para complementar o feito de Getúlio Vargas, a fim de fazer brilhar ainda mais a sua Estrela.

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    Urbano

    01/05/2014 - 13h43

    Em vez de ‘e para isso precisou’, leia-se ‘e precisou também’.

j.albergaria de macedo.

01/05/2014 - 11h39

QUANDO CRIANÇA VI COISA MAIS TERRÍVEL EM PONTE NOVA MG.UMA MULHER DE ELITE DA ÉPOCA QUE PEGAVA MENINAS NA FEBEM E COLOCAVA PARA TRABALHO ESCRAVO; BATIA E PUNHA FOGO NOS PÉS DAS MENINAS USANDO BRASA DO FOGÃO DE LENHA.HOJE ESSA MULHER ESTA POBRE E PAGANDO ALUGUEL.

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    Conceição Lemes

    01/05/2014 - 11h50

    Letras minúsculas nos comentários, por favor. abs

    Urbano

    02/05/2014 - 16h45

    Dessa Justiça, Macedo, não escapa ninguém. Os ricos perversos desconhecem a miséria profunda por qual passarão no futuro. Pior, passarão um longo tempo ou a vida toda de vidas pensando que são vítimas, coitadinhos…

luis rogerio gomes zanuto

01/05/2014 - 11h15

Não quero este destino para minha filha, não quero este mundo para ela viver.
Até quando?

Responder

Marcus Vinicius

01/05/2014 - 09h38

para quem tinha dúvidas da existência da “casa grande” nos dias de hoje, eis aí uma prova…

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André LB

01/05/2014 - 09h23

PQP… o fogo é que a gente SABE que isso acontece, e até pior, mesmo que esses pequenos atos sejam capazes de nos minar muito mais que uma grande ofensa. Óbvio que a criança reproduz o que aprende com a própria família, com os colegas e as famílias deles… mesmo entre nós, os “de esquerda”, quantos não fizeram, fazem ou farão isso? Quantos fariam, se pudessem? Pessoalmente, procuro me policiar para não praticar, mesmo inconscientemente, o pior que nossa sociedade tem a nos oferecer, a nos “acostumar”.

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FrancoAtirador

01/05/2014 - 00h59

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TRABALHO INFANTIL

Consolidação das Leis do Trabalho – CLT – DL-005.452-1943

Art. 403. É proibido qualquer trabalho a menores de dezesseis anos de idade,
salvo na condição de aprendiz, a partir dos quatorze anos.

Parágrafo único. O trabalho do menor não poderá ser realizado em locais prejudiciais à sua formação,
ao seu desenvolvimento físico, psíquico, moral e social
e em horários e locais que não permitam a freqüência à escola.

(Alterado pela L-010.097-2000)

Art. 428. Contrato de aprendizagem é o contrato de trabalho especial, ajustado por escrito e por prazo determinado, em que o empregador se compromete a assegurar ao maior de 14 (quatorze) e menor de 24 (vinte e quatro) anos inscrito em programa de aprendizagem formação técnico-profissional metódica, compatível com o seu desenvolvimento físico, moral e psicológico, e o aprendiz, a executar com zelo e diligência as tarefas necessárias a essa formação.

§ 1º A validade do contrato de aprendizagem pressupõe anotação na Carteira de Trabalho e Previdência Social, matrícula e freqüência do aprendiz na escola, caso não haja concluído o ensino médio, e inscrição em programa de aprendizagem desenvolvido sob orientação de entidade qualificada em formação técnico-profissional metódica.

§ 2º Ao menor aprendiz, salvo condição mais favorável, será garantido o salário mínimo hora.

§ 3º O contrato de aprendizagem não poderá ser estipulado por mais de 2 (dois) anos, exceto quando se tratar de aprendiz portador de deficiência.

§ 4º A formação técnico-profissional a que se refere o caput deste artigo caracteriza-se por atividades técnicas e práticas, metodicamente organizadas em tarefas de complexidade progressiva, desenvolvidas no ambiente de trabalho.

§ 5º A idade máxima prevista no caput deste artigo não se aplica a aprendizes portadores de deficiência.

§ 6º Para os fins do contrato de aprendizagem, a comprovação da escolaridade de aprendiz portador de deficiência mental deve considerar, sobretudo, as habilidades e competências relacionadas com a profissionalização.

§ 7º Nas localidades onde não houver oferta de ensino médio para o cumprimento do disposto no § 1º deste artigo, a contratação do aprendiz poderá ocorrer sem a freqüência à escola, desde que ele já tenha concluído o ensino fundamental.

(Acrescentado pela L-011.788-2008)

(http://www.dji.com.br/decretos_leis/1943-005452-clt/clt402a410.htm)
(http://www.dji.com.br/decretos_leis/1943-005452-clt/clt424a433.htm)
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Responder

Diogo

30/04/2014 - 19h56

Suponho que a patroa (palavra maldita) da Luana morava/more no Mangabeiras, no Sion, no Belvedere ou no Lourdes.

Responder

    Marcus Vinicius

    01/05/2014 - 09h37

    é o mais provável…

carmen silvia

30/04/2014 - 19h36

Raiva e indignação.

Responder

FrancoAtirador

30/04/2014 - 18h33

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FOME, INDIZÍVEL FOME…

http://imgur.com/R1ybxth

…POR IGUALDADE SOCIAL!
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Responder

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