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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Ricardo Musse: Passeatas estão forjando a almejada frente de esquerdas

11 de julho de 2013 às 10h56

A potência das manifestações de rua

por Ricardo Musse, no Blog da Boitempo, via e-mail

As recentes manifestações de rua que, a partir de São Paulo e Porto Alegre, disseminaram-se pelas principais cidades do país, apesar da pluralidade de sua pauta de reivindicações, emitiram um recado claro e convergente: a insatisfação popular com o atual sistema político.

O descrédito em relação aos políticos e ao desempenho dos três poderes deriva de uma construção ideológica, mas também se assenta em uma situação efetiva.

A mídia tradicional (jornais, rádio e televisão) criou uma imagem fantasiosa do agente político, associando-o invariavelmente à corrupção e à ausência de empenho e trabalho. Esse esforço coordenado atende a dois interesses principais: cacifar-se como instância primordial da cena pública e deslegitimar a vida política, abrindo caminho para soluções autoritárias.

Essa visão ganhou adeptos e repercussão, constituindo-se como um falso senso comum, em parte porque fornece uma explicação (ainda que simplória) a um sentimento objetivo. Há uma percepção generalizada de que as demandas dos diferentes grupos sociais não estão sendo atendidas pelas instâncias e organizações políticas, que os políticos tendem a agir como membros de um estamento fechado e estão mais sintonizados com os interesses dos financiadores de suas campanhas do que com as prioridades vocalizadas pela população.

O recurso às demonstrações massivas, à ação direta, emergiu como uma reação ao engessamento do sistema político, à integração dos quadros do PT (constituído conscientemente como uma alternativa à política tradicional) ao estamento, à paralisia decorrente das negociações típicas dos “governos de coalização”. A potência e a legitimidade das manifestações, o apoio e o entusiasmo popular que suscitaram, derivam diretamente dessa situação objetiva.

As pesquisas, feitas regularmente, sobre a credibilidade das instituições políticas mostram uma reviravolta impressionante. A avaliação positiva durante o último ano do governo Lula cedeu lugar a uma progressiva rejeição dessas instituições, modificação medida muito antes das manifestações das últimas semanas.

Atribuo essa inversão à conjugação de dois fatores: à persistência da crise econômica iniciada em 2007 e à inflexão econômica ensaiada pelo governo de Dilma Rousseff.

A crise atingiu proporções mundiais, adquirindo feições mais agudas na Europa e no Oriente Médio, como comprovam os números do desemprego e a intensificação dos protestos. No Brasil, apesar das expectativas criadas pelo desempenho da economia no último ano do mandato de Lula, a crise afetou poderosamente a indústria.

A principal medida encaminhada pelo governo para incentivar a produção industrial, a desvalorização cambial, gerou um incremento nos preços dos alimentos (no mundo globalizado, tornados commodites). Ampliou-se sobremaneira o caos urbano. A barbárie, inerente ao capitalismo, tornou-se cada dia mais presente no cotidiano das pessoas, rotinizando uma violência inaudita e estarrecedora. Intensificou-se o sofrimento individual e coletivo, sintomas visíveis na epidemia de depressão e no incremento do número de usuários e dependentes de drogas.

Diante da crise, o atual governo orientou a política econômica numa direção que se revelou inadequada e contraproducente. Alardeou metas superestimadas de crescimento (no momento em que até a China coloca o pé no freio). Para tentar cumpri-las adotou uma série de medidas que apontam para uma tentativa de ressurreição do finado nacional desenvolvimentismo, com seus subsídios diretos e indiretos para o grande capital.

Resgatou até mesmo suas prioridades equivocadas, privilegiando a indústria automobilística, as grandes empreiteiras e adicionando aos monopólios oriundos da privatização dos serviços públicos novos monopólios privados impulsionados por créditos subsidiados do BNDES. Essa orientação, a disposição em atender prioritariamente à agenda da Fiesp, acirrou a disputa pelos fundos públicos.

Convém ressaltar que se trata de uma alteração profunda em relação à política incrementada pelo governo anterior.

O motor do crescimento no período Lula foi a redução das desigualdades, uma dinâmica de ampliação contínua da renda e do crédito que alterou a escala do mercado interno.

O atual governo seguiu o mantra entoado pelos jornalistas e economistas porta-vozes do “partido da indústria”. Segundo eles, o crédito atingiu seu limite e, por conseguinte, um novo ciclo de crescimento exigiria um aumento exponencial dos investimentos. Propõem assim tão somente que o dinheiro recolhido nos impostos retorne diretamente para o capital.

Nesse contexto, as passeatas que reivindicavam uma questão localizada, a revogação do aumento das tarifas de transporte público em São Paulo e Porto Alegre, passaram a simbolizar uma demanda mais geral. A truculência da PM, uma herança persistente da ditadura, redirecionou a luta para a defesa do direito constitucional de reunião.

Conquistado o direito à livre manifestação, os protestos tornaram-se o palco por excelência do conflito distributivo, trazendo ao primeiro plano o enfrentamento entre as classes, embotado na década anterior.

A exigência de saúde, educação e transporte públicos gratuitos e de qualidade, a luta por direitos sociais, atestam a emergência de novos movimentos, resultante da desconfiança ante à capacidade do sistema político em fornecer – para além da retórica eleitoral – respostas a essas questões.

Mas também confrontam dois modos bem distintos de utilização dos fundos públicos: o do atual modelo inspirado nas políticas do nacional desenvolvimentismo e o do embrião do Estado de bem-estar social, ensaiado nos dois governos de Luis Inácio Lula da Silva.

O esforço para impedir que as manifestações sejam dominadas por grupos organizados de direita e pelas pautas da mídia tradicional está forjando a sempre almejada frente das esquerdas. Tudo indica que a ação dessa frente irá se guiar pela compreensão de que as palavras de ordem e o sentimento das ruas estão em sintonia com suas demandas históricas. Se não titubearmos, a potência das manifestações tende a politizar cada vez mais a população, empurrando o país para a esquerda.

Ricardo Musse é professor de Sociologia da USP.

Leia também:

Centrais criticam Paulo Bernardo antes de ir às ruas; atos contra o projeto de Sandro Mabel em todo o Brasil; Juvândia não teme provocadores

 

20 Comentários escrever comentário »

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Oswaldo

24/07/2013 - 06h28

A leitura da atual conjuntura levando em conta a política econômica do governo Dilma foi melhor esboçada pelo Igor Grabois, em artigo publicado originalmente aqui mesmo no Viomundo.

http://www.viomundo.com.br/politica/igor-grabois-reacao-contra-a-dilma-comecou-com-a-reducao-dos-juros.html

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Ricardo Meirelles

12/07/2013 - 00h36

Gostei da matéria do xará.
Agora após essas manifestações de hoje, pergunto. Onde foi parar os “Mauricinhos” do MPL? Aqueles que são emprenhados pelos seus paizinhos que não se conformam que os menos favorecidos usufruem dos seus impostos. São os mesmo paizinhos que ficam esperando a mulherzinha dondocas dormir para dar uma espiadinha no BBB para otário ver ou tarados. Esses caras nem de busão andam. Outra pergunta. Cadê os valentões pau mandados, os mesmos que estarreceram até os próprios face bobinhos com os seus vandalismos? Sei que até tentaram, mas foram repelidos. Porque agora depararam com machos e não com os já citados garotões.
O pig ficou caladinho, tratou como se fosse umas simples manifestações corriqueiras. Cadê aquele alarde todo da semana passada? A luta continua não se iludem! Eles estão se enrolado como cobras peçonhentas para dar o bote.

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    Elza

    12/07/2013 - 00h51

    Ricardo o problema ñ foi o MPL, este movimento já existe há alguns anos, a questão é já estava sendo articulado nas redes sociais a desestabilização do governo Dilma e aproveitaram a situação da truculência da polícia de SP e o Haddad continuar c o aumento dos transportes e aí a Direita entrou para cumprir o q vinha planejando c as bandeiras apartidárias e a políticas, então como ñ tinha líderes a Rede Globo resolveu assumir os filhos sem pai…. rrss!!!

Bonifa

11/07/2013 - 21h48

O que muitos não entendem ou fingem não entender, é que a reforma política será a verdadeira revolução que fará justiça ao que está acontecerá no país. A revolução maior, sobre todas as outras. A meta que está oculta sobre o que todos defendem e pregam nas manifestações. Se ela acontecer, pelo visto, a tendência será que ela proíba a contribuição de empresas para as campanhas, e permita a contribuição de pessoas físicas. Será um grande erro. A contribuição privada deve ser zero. Qualquer possibilidade de algum candidato fazer uma campanha mais dispendiosa que outro, tem que ser abominada. Se de tudo isso, inclusive a derrocada de popularidade da Presidenta, restar a reforma política, tudo terá valido a pena.

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Jayme Vasconcellos Soares

11/07/2013 - 18h52

Perfeita a sua análise Ricardo Musse! O povo está sofrendo as consequências de um regime perverso, capitalista, e cobra mudanças dos políticos.

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Jayme Vasconcellos Soares

11/07/2013 - 18h30

Empurrar o Brasil para a esquerda, sim! para a esquerda, para um destino socialista, onde toda a humanidade usufrua, igualmente, dos direitos e benefícios de uma sociedade cidadã, gerados e construídos por ela própria.

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Roberto Locatelli

11/07/2013 - 15h09

As ruas viveram dois momentos TOTALMENTE DISTINTOS: as manifestações de junho foram de direita, com alguns momentos de extrema-direita. Por exemplo, com espancamento de pessoas que usavam roupa vermelha.

As manifestações de hoje são dos trabalhadores, das Centrais Sindicais e da esquerda. São muito mais fortes, organizadas e alcançaram nível nacional, efetivamente.

Não é à toa que o tal “movimento passe livre” (a soldo da CIA?) está criticando publicamente o movimento de hoje, dizendo que as centrais estão fazendo “pedidos vagos” ao governo.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,passe-livre-diz-que-centrais-fazem-pedidos-vagos-,1052236,0.htm

Primeiro é preciso lembrar que não são “pedidos” são reivindicações. Depois, não há nada “vago”. São reivindicações bem precisas.

Se o tal “movimento passe livre” (a soldo da CIA?) não está nas ruas hoje, isso mostra muito bem a serviço de quem eles estão.

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    renato

    11/07/2013 - 15h54

    Não acredito que o movimento dos guris do passe livre, estão se envolvendo de forma negatica Locatelli.
    Se estão merecem o meu repúdio as suas intenções, que para mim, tem outra forma de agir.Só conseguem ver SP.
    É trabalhador na rua fazendo sua manifestação.
    E Manifestação não é invenção da MPL.
    Agora fiquei de ponta com esta gurizada, da MPL.

    Abel

    11/07/2013 - 19h16

    Os “manifestantes de facebook” de junho pegaram carona no MPL e tentaram impor a sua pauta pró-golpe com apoio da mídia monopolista. Com o fim da Copa das Confederações e o distanciamento da cobertura da imprensa, a turma do “face” refluiu – mas acredito que deverão voltar, aproveitando a visita do papa. Vamos aguardar para ver…

    renato

    11/07/2013 - 22h18

    MPL estava ajudando manifesto contra a Globo.
    Então fico mais tranquilo…

    dimasjtrindade

    12/07/2013 - 23h30

    Deu prá ver a esquerda na rua: Paulinho da Força, sindicalista pagando manifestante. Isso é a cara que o PT assumiu. Nas eleições passou a comprar boqueiro pra fazer campanha.
    E ainda tem a desfaçatez de insinuar que o MPL é braço da CIA enquanto justifica as alianças espúrias e o governo totalmente submetido da Dilma.
    Haja saco.

José X.

11/07/2013 - 13h05

“insatisfação popular com o atual sistema político”
Alguém tem um outro pronto para uso ?

Outra pergunta: porque estas multidões que estão se manifestando agora não se manifestam na hora de votar ? Porque os sindicatos e centrais sindicais não se manifestam nas eleições, quando é possível algum resultado concreto, traduzido na escolha dos eleitos ?

A esquerda que reclama dos “governos de coalizão” é a mesma esquerda que se prefere se aliar à direita do que a segmentos da própria esquerda. Nunca é demais relembrar a famosa foto de Heloísa Helena comemorando com os barões do PFL mais uma derrota do governo Lula.

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    Acássia

    11/07/2013 - 15h27

    Mas a Heloisa Helena não está na passeata. Ao que eu saiba é a CUT, MST,
    Diversos grupos….

    E o Brasil todo é benvindo…. desde que tenha obediencia à Constituição,
    sem quebradeira, e etc.

    E se pudermos melhorar as esquerdas tanto melhor.

    Francisco

    11/07/2013 - 17h27

    De todo modo, você tocou num ponto sensível.

    O segundo mandato de Dilma (se houver) será outro se ela puder prescindir do PMDB, ou pelo menos, se ele não se sentir a “última bolacha do pacote”.

    Logo, qual é a tarefa urgente?

    Eleger deputados e senadores!

    E porque não acontece?

    Cibele

    11/07/2013 - 21h55

    É, Francisco, fico me perguntando isso: por que não acontece? Por que ninguém ajuda nosso povo a escolher congressistas de esquerda? A saída seria por aí.

    dimasjtrindade

    12/07/2013 - 23h23

    O mais engraçado é a grande preocupação dos petistas sobre se o MPL é esquerda. O que isso interessa ao PT. Será que não se tocaram que está do outro lado.
    Mais essa agora. Manifestação mas só se obedecer a Constituição. Lamentavel que ainda se considere de esquerda.

Jorge Moraes

11/07/2013 - 12h26

Só não digo o tradicional “Amén” por que sou ateu.

Mas até dá vontade de brindar o “Assim seja” que – aparentemente – me antecedeu com o complemento natural cristão.

O melhor trecho é o que sublinha a barbárie como inerente ao capitalismo.

O “pior” é o que dá como opção do governo Dilma algo que ao meu ver tem muito pouco de escolha: a desoneração do setor automobilístico, se inegavelmente rende – e muito – a esta fortíssima extração do capital, também é um dos setores que, pela complexidade e tamanho da cadeia produtiva, permite uma reação relativamente rápida do emprego, fundamento político vital para a continuidade do governo, com todas as suas contradições distributivas, inclusive as que permitem uma transferência de renda para os antes totalmente alijados do sistema.

Dito de outra forma, as contradições do sistema, em todas as suas dimensões, tornam temerárias análises que embutem a opção governamental livre como elemento do real, o que não o é.

Responder

    Acássia

    11/07/2013 - 15h32

    Em geral não entendo bem linguagem acadêmica.

    Se entendi….
    a- o governo não é tão livre. Sim. Mas temos que ocupar espaços
    assim igual a banqueiros que usam o Congresso, mas o povo em geral só se aproxima do Cocngresso para subir na rampa.
    b- a barbárie é inerente ao Ser Humano e não importa o Sistema.

    Heitor

    11/07/2013 - 15h53

    Jorge, a intenção foi saudar com a expressão aprendida no centro espírita desde criancinha rsrs
    Só espero que o Brasil vire à esquerda literalmente, pois, dentro do que acredito, já peço até um acordo lá em cima pra não voltar mais pra esse mundinho, onde sou julgado e medido pelo carro que ando, pela roupa que uso, pelo celular da moda que não tenho e não quero ter, e demais futilidades. Quero é ficar por lá! Assim seja!! rsrsrs

Heitor

11/07/2013 - 11h54

Assim seja!!!

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