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Política
23 de junho de 2009 às 5:39

Plínio de Arruda Sampaio: Dilma, Serra e Marina fazem parte do “mesmo esquema”

Plínio de Arruda Sampaio passou aproximadamente sessenta anos de sua vida atuando na política nacional. Foi um dos fundadores do PT e o autor de planos de reforma agrária para os presidentes João Goulart e Lula. Promotor público aposentado, completou 80 anos na segunda, 26 de julho, como candidato à presidência da República pelo PSOL.  Nessa entrevista a Manuela Azenha, ele diz que os principais candidatos contra os quais concorre — Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva — fazem parte de um mesmo sistema e que sua candidatura tem como objetivo principal mostrar outra possibilidade à sociedade brasileira.

Viomundo – Existe uma polarização entre Dilma e Serra nas eleições. O senhor acha que existe diferença entre esses dois candidatos que justifique essa polarização?

Plínio de Arruda Sampaio – Não, não existe. Ali, na verdade, é uma disputa de poder, pura e simplesmente. Porque a política econômica dos dois é semelhante, pode haver diferenças mínimas mas não uma diferença significativa. A polarização é falsa, criada exatamente para evitar que entrem outros na disputa, para excluir os demais. É isso que eu vou fazer e demonstrar na eleição pelo PSOL.

Viomundo – O senhor se considera parte de uma terceira via, junto com a Marina Silva?

Plínio – Não, a Marina está no mesmo sistema. A Marina faz parte do mesmo esquema. Ela ontem declarou nos Estados Unidos que não modificaria a política econômica do Lula. Então, qual é a diferença dela para os demais? Para mim, nenhuma.

Viomundo – O senhor foi um dos fundadores do PT. Acha que o governo Lula fez jus à história do PT?

Plínio – Absolutamente, foi uma total traição aos ideais do partido. O PT nasceu nos anos 80 como um partido contra a ordem estabelecida, contra o capitalismo, era um partido socialista. E nós fizemos essa trajetória com grande galhardia, grande coragem, sucesso, entre 80 e 89. A derrota de 89 é que não foi suficientemente analisada. Foi mal analisada. Primeiro se entendeu que foi um acidente  e que em 94 deveríamos fazer um terceiro turno. Foi um erro, nada mudou mas acharam que o discurso tinha sido um pouco radical e que era necessário ter alianças um pouco mais amplas etc. De 89 a 94  essa idéia não foi aplicada muito fortemente, tinham a idéia do terceiro turno.  Na outra, a de 98, aí sim, a segunda derrota foi mal analisada. É isso: “Vamos fazer o partido procurar o pequeno empresariado, pequeno, médio, mas depois qualquer um. E vamos usar o discurso mais tranquilo”. Daí ele foi endireitando até 2002, que é a rendição total.

Viomundo – O curioso é que parte da esquerda não considera o Lula de esquerda mas a direita, sim…

Plínio – Olha, para a direita é interessante considerar o Lula de esquerda porque ela quer capitalizar os votos da direita, mas ela sabe muito bem, tanto é que, na verdade, o apóia.  O Lula hoje tem a cobertura dos jornais, tudo.

Viomundo – O senhor acha que o voto no PSOL divide os eleitores da Dilma, favorecendo Serra?

Plínio – Nunca me preocupei com isso. Não estou fazendo campanha para enganar ninguém, vou atacar tanto o Serra quanto a Dilma. Os dois são muito ruins para o povo brasileiro. Independentemente das figuras pessoais, não faço ataque pessoais, nunca fiz. É um problema ideológico. A política deles é ruim para o pobre.  O nosso lado é o lado do pobre. Nosso lema fundamental é a igualdade. Se tem esse efeito, pode ter. Mas também tiro voto do Serra, porque sou um homem com uma inserção social muito parecida com a dele.  São pessoas mais velhas,  profissionais, economistas, professores de universidade, que tenderiam a ir com o Serra se eu não fosse candidato. É só você ver a lista de meus apoiadores, são todos intelectuais, professores de universidades, da Unicamp. Então eu tiro voto dos dois.

Viomundo– Como o senhor compara os governos FHC e Lula?

Plínio – Eu considero que não mudou nada. Qual foi a declaração escrita do Lula? Eu vou seguir a política do FHC. E seguiu totalmente. Tem diferença de estilo. O Fernando é um sujeito muito mais distante do povo do que o Lula. Mas de substância não mudou coisa nenhuma.

Viomundo – E quanto à reforma agrária?

Plínio – Parece incrível, mas o Lula assentou menos famílias que o FHC. Quem fez o programa de reforma agrária do Lula fui eu, coordenamos uma equipe que preparou esse programa. A nossa tese foi um milhão de famílias em quatro anos. A equipe financeira vetou o gasto, que era uma porcaria, um gasto mínimo, que nem se compara com o que se gasta para pagar o credor do governo. Foi vetado, passou para 500 mil famílias, e nem isso conseguiu cumprir em 8 anos. Fizeram 130 mil assentados, menos pessoas que o FHC.

Viomundo – O senhor defende a reforma agrária desde a época do João Goulart. Como o senhor avalia os dois cenários, o de então e o de agora?

Plínio – Para você ter uma idéia, a grande medida, a mais radical, com a qual todo mundo fica preocupado hoje, é você poder desapropriar fazendas de mais de mil hectares. Mais de mil hectares é uma fazenda imensa. Na reforma agrária que eu planejei para o Goulart, o Jango chegou pra mim e disse: “Olha, acho que você devia colocar no seu relatório que de 500 hectares para baixo nós isentamos. De 500 para cima, nós pegamos tudo. De 500 é uma propriedade produtiva pequena, cabem umas 60 a 80 famílias, dá um trabalhão. Vamos de 500 para cima. Eu concordei. E hoje, 50 anos depois, nós estamos pedindo mil e achando que é radical. Então a situação daquele tempo, o processo de pressão de massas era muito maior, de modo que hoje é mais difícil.

Viomundo – Mas o senhor acredita que a reforma agrária pode ser aprofundada?

Plínio – Tanto acredito que estou nisso de cabeça. Sou presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), estamos lutando por isso desde a ditadura.

Viomundo – A Marina Silva tem uma posição muito crítica quanto aos transgênicos. Qual é a posição do senhor e como avalia a política do governo Lula nessa área?

Plínio – Acho nefasta, uma política muito ruim. Porque não é o problema de saber se o transgênico faz bem ou mal à saúde, esse é um assunto controverso, ninguém sabe direito. O que se sabe é que o transgênico, a semente dele, está nas mãos da Monsanto e ela bota o preço que quiser. Segundo, você não tem como escolher, a semente do transgênico vem trazida pelo vento, por um pássaro, minha semente fica infectada e eu tenho que comprar da Monsanto. Isso é um absurdo. Eu fico bobo de ver como a Marina ainda ficou no ministério depois de engolir isso. Não entendo. Por isso você me pergunta: a Marina é deles? É. Tanto é que chora, chora, faz cara triste mas aceita. Não sabe pedir demissão.

Viomundo– O Rudá Ricci concedeu uma entrevista à Carta Maior explicando o velho dilema da esquerda: o de tentar “popularizar” a esquerda. O senhor acha que o Lula conseguiu fazer isso?

Plínio – Não, porque ele não contou ao povo o que é a esquerda. O povo pensa que isso que está aí, o Bolsa Família, esses auxílios, é a esquerda, mas não é.  Isso é um populismo, assistencialismo, paternalismo, mas não a esquerda. A esquerda é realmente limitar o capitalismo, por um freio no capitalismo. Isso ele não fez.  A nossa crítica ao Lula — e fundamentalmente a mais terrível –  é que ele engana a população, ele gera na população uma sensação de que tudo está resolvido. Então ele desvia a atenção da população. Claro que para uma pessoa com um salário muito pequeno, o salário dobrou. Mas foi o Lula que dobrou? Não, foi a situação econômica do mundo que se refletiu no Brasil. O que o Lula fez para estimular esse consumo? Ele tirou imposto, então o produto ficou barato e o cidadão entrou na Casas Bahia.  Ele diz: “ Ao entrar na casas Bahia você entrou para a classe média” e o cara acredita. Agora, esse mesmo cidadão está sabendo que lá embaixo, a educação está uma coisa horrível. O filho dele não aprende na escola pública, volta com piolho para casa, quando não com um tiro. A saúde é um horror. Quem não tem plano médico médio leva seis meses, um ano para fazer um exame. Nem se diga uma cirurgia. A violência não é possível ser maior. Uma bala louca matar um menino dentro de uma escola. O que melhorou? A economia brasileira? A economia brasileira era industrial, hoje ela é agrário-exportadora. Quer dizer, voltamos aos anos 30! A antes de 30! Uma economia, portanto, que vai depender de preços que não são fixados dentro do Brasil. O mercado interno não é mais determinante do dinamismo econômico. A desnacionalização… O que tem de importante na indústria brasileira não é nosso, é estrangeiro. Então a verdade é que está muito mal. A situação é muito perigosa, é que não explodiu a doença. Realmente, a posição do Lula é muito nefasta, muito ruim.

Viomundo –Desse ponto de vista, o senhor acha que a candidata do Lula é mais perigosa que um tucano?

Plínio – Bom, o outro é um candidato muito truculento. O Serra é um homem de atitudes muito radicais, de modo que, sem dúvida nenhuma, a criminalização da pobreza vai aumentar no tempo dele. Se você me perguntar o que é pior, a peste ou a fome, não sei (risos). Os dois são indesejáveis.

Viomundo– O senhor acha que a Dilma pode fazer um governo mais à esquerda que o atual?

Plínio – A Dilma é uma incógnita total. O absurdo dessa sociedade é o seguinte: pelo aval do Lula, ela tem condições de se eleger. Uma pessoa que você não tem a menor idéia de como ela vai se comportar com o poder na mão. Não posso te dizer, simplesmente.  O PT são dois mundos. Há o mundo dos petistas, daqueles que acreditam. A grande maioria dos petistas ainda acredita no PT e na sua proposta, apenas está sendo anestesiada, pensando: “O Lula diz, é muito possível fazer”. Esse petista está sendo enganado. Agora, a cúpula traiu inteiramente.

Viomundo – O senhor declarou que espera obter de 3 a 5% dos votos no primeiro turno. O que o senhor quer com sua candidatura?

Plínio – A candidatura tem um propósito eleitoral evidente. É claro que quero ganhar e vou fazer de tudo para ganhar essa eleição. Mas eu tenho que ter o pé na terra. Eu tenho um minuto de televisão, os outros tem cinco, seis, dez minutos.  Eu não tenho dinheiro nenhum para campanha, eles tem 100 milhões, pelo menos. Eles tem o governo atrás, a máquina do governo. É muito difícil ganhar. O que eu quero é o debate, que o povo brasileiro saiba que existe uma outra possibilidade. Eu quero que essas coisas que estão sendo escondidas venham para cima, sejam conhecidas porque isso faz avançar a consciência popular. Depois da eleição, aqueles que deram seu voto ao PSOL, nós vamos procurá-los, vamos recomeçar essa luta pelo socialismo no Brasil.

PS do Viomundo: As perguntas deixadas nos comentários serão encaminhadas ao candidato para compor a segunda parte da entrevista.

 

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