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Reforma agrária tinha grande apoio popular às vésperas do golpe

19 de março de 2014 às 13h47

por Luiz Carlos Azenha

Cinquenta anos depois do golpe de 1964, as máscaras continuam a cair. Certo historialismo sempre quis fazer crer que João Goulart caiu “de maduro”. Porém, pesquisas do IBOPE feitas na época, algumas das quais nunca divulgadas, demonstram que uma das principais plataformas de Jango tinha forte apoio popular: a reforma agrária. A política econômica do presidente derrubado também tinha apoio da maioria.

Naquela época, presidente e vice presidente eram escolhidos em eleições simultâneas mas separadas. Foi isso que possibilitou a eleição de uma chapa que apontava em direções distintas: Jânio Quadros de presidente (pela coalizão PTN-PDC-UDN-PR-PL) e João Goulart de vice. Quadros renunciou, aparentemente à espera de voltar por cima. Goulart, eleito pela coalizão liderada pelo PTB, sob oposição dos militares, só assumiu com a aprovação do parlamentarismo, costurado num acordo feito por Tancredo Neves (do PSD). Mais tarde, a população apoiou em plebiscito a volta do presidencialismo — já uma demonstração de forte apoio ao projeto trabalhista de Jango.

O Brasil era, então, um país muito mais provinciano. As forças de oposição a Jango controlavam os governos de São Paulo (Adhemar de Barros, do PSP, o Partido Social Progressista), Guanabara (Carlos Lacerda, da UDN) e Minas Gerais (Magalhães Pinto, da UDN). Nas comunicações entre o embaixador dos Estados Unidos no Rio e Washington, estes governadores eram apontados como essenciais em qualquer tentativa de conter Jango.

A imprensa brasileira era, igualmente, menos nacionalizada. A diversidade de jornais era grande. Jango só contava com a Última Hora, de Samuel Wainer, e a TV Excelsior, do empresário Mário Wallace Simonsen. Em São Paulo tanto a Folha de S. Paulo quanto O Estado de São Paulo faziam fortes críticas ao governo. Os empresários Octávio Frias e os irmãos Mesquita se ligaram ao IPES, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, uma espécie de Instituto Millenium anabolizado, determinado a combater “o avanço do comunismo soviético no ocidente”. O IPES aglutinou, organizou, propagandeou e financiou, ainda que indiretamente, a derrubada de Jango. Na Guanabara, o mesmo papel era feito pelos jornais O Globo, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Tribuna da Imprensa.

Como Jango ocupava o Palácio do Planalto, havia dúvidas se poderia se candidatar em seguida (não havia, à época, o instituto da reeleição). Na ausência dele, os candidatos mais fortes seriam o ex-presidente Juscelino Kubistchek (PSD) e o direitista Carlos Lacerda. Porém, as pesquisas agora divulgadas demonstram que o candidato puro sangue da direita tinha poucas possibilidades de bater o centrista JK.

Este preâmbulo é necessário para apresentar as pesquisas que Luiz Antonio Dias, chefe do Departamento de História da PUC de São Paulo, resgatou dos arquivos

Ele é professor do programa de pós graduação de História da PUCSP e de Ciências Humanas da UNISA. Algumas dessas pesquisas são analisadas em um capítulo do livro  O jornalismo e o golpe de 1964: 50 anos depois, que será lançado em abril no evento Mídia e memórias do autoritarismo, que acontecerá na Escola de Comunicação da UFRJ.

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Notem que o apoio ao trabalhista Jango se dava nas camadas sociais mais pobres e era esmagador no Nordeste, onde o projeto da reforma agrária tinha grande ressonância. A segunda pesquisa apresentada abaixo foi feita dias antes do golpe. Em pergunta não tabulada aqui, a maioria revelou que tinha medo crescente do comunismo, mas não associava comunismo ao governo João Goulart.

Eis os resultados:

IBOPE – Pesquisas Especiais. Notação PE053 MR275. Realizada em diversas cidades do país, 16 no total. 500 entrevistas nas capitais e 300 nas demais cidades (total de entrevistados: 6.400). Entre junho e julho de 1963. Sem indicação de contratante.

 

IBOPE – Pesquisas Especiais. Notação PE 060 MR0277. Pesquisa de Opinião Pública Realizada em Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, entre 9 a 26 de março de 1964. Sem identificação de contratante. 500 entrevistados em SP e Rio e 400 nas demais (pesquisa ampla, com muitas questões, algumas aponto abaixo, uma das poucas pesquisas realizadas em várias cidades quase ao mesmo tempo). Essa pesquisa não foi publicada/divulgada em 1964.

Leia também:

Quando a propaganda pró-ditadura ocupava a tela da Globo

O livro da blogosfera em defesa da democracia - Golpe 16

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GILBERTO GONÇALVES

01/04/2014 - 12h29

Tem uma pesquisa realizada em março de 64, a pedido da Federação das Indústrias,cujo resultado é ainda mais favorável ao então presidente Jango…

Responder

Nelson

21/03/2014 - 23h58

Bah! – como se diz aqui no sul.

Na pressa, Urbano, eu te confundi com o Ubaldo. Bem que depois de escrever a resposta eu encontrei o teu comentário, o primeiro, ainda do dia 19, às 16:21h, e achei estranho. Imaginei, então, que se tratava de dois Urbanos. Só agora, há pouco, foi que eu me dei conta da pixotada.
Peço perdão.

Responder

Euler

21/03/2014 - 21h09

Algumas anotações de um observador cinquentão – filho, portanto, da época do golpe. Acho que Jango ainda será reconhecido nacionalmente pelo seu papel de verdadeiro democrata e líder político preparado para realizar um importante programa de reformas sociais em favor dos de baixo. Projeto que foi interrompido por esta direita fascista tupiniquim a serviço, sempre, dos de cima, sejam daqui ou do império.

A maioria da população que o apoiava não estava organizada para sustentar as reformas que ele queria implantar. E a esquerda se mostrou frágil demais para enfrentar tantos interesses – banqueiros, latifundiários, alto oficialato dos militares, mídia serviçal dos de cima, entre outros. Pouca gente com muito poder de fogo.

O cenário atual claro que é diferente, outro contexto, embora tenha elementos em comum. A mesma mídia golpista – Globo, Folha, Veja e afins – a serviço do império norte-americano (grandes empresários) e dos de cima “nacionais”. Um paradoxo entre um governo federal que tem respaldo da grande massa de despossuídos, mas não tem mídia, não soube sequer indicar ministros do STF com alguma identidade com os de baixo (sobretudo os barbosianos da era Lula). Realiza conquistas sociais, mas a mídia faz parecer que o Brasil vive um quadro de crise terminal.

Não tenho dúvidas que as forças do golpismo, com quase os mesmos personagens, estão por aí – inclusive aqui entre os leitores, conspirando, 24 horas por dia. Contra um governo federal que, em que pese as vacilações e acordos, mantém compromissos com os de baixo, mas está ainda aquém da estatura política de um Jango.

Um outro elemento comum é a desorganização e despolitização da maioria dos de baixo. Isto mudou um pouco, mas ainda continuamos vulneráveis a golpes ou terrorismos midiáticos, capazes de construir imaginários de caos que justifiquem derrubadas de governos, combinadas ou não com quarteladas.

Enquanto se mantiver este monopólio da mídia golpista a frágil democracia brasileira continuará ameaçada.

Responder

    Mário SF Alves

    21/03/2014 - 21h27

    Daria este mesmo testemunho e não mudaria uma vírgula. Parabéns.

    Julio Silveira

    22/03/2014 - 08h12

    Você tem toda razão. E algumas pessoas sequer conheciam a realidade do país a época. Desconheciam por exemplo o papel que as FAs representavam para a elite do país, que o oficialato militar era disputado pelas “bem nascidas” da alta sociedade brasileira. Que o oficialato nas FAs brasileiras eram um feudo que se transmitia mais pela hereditariedade que outra coisa. Todas as facilidades para o ingresso nelas eram dadas para os filhos de militares, que produziam famílias com o melhor dos dois mundos, do civil e do militar, sendo por isso membros das elites em todos os sentidos.
    A democratização das FAs melhorou um pouco de uns tempos para cá, mas ainda tem sido insuficiente para evitar a elitização social das forças e por isso a perda da identificação social com a maioria da cidadania brasileira.

Mário SF Alves

21/03/2014 - 13h56

A única reforma agrária que os interessa é reforma agrária que o preposto dos EUA, general… fez no Japão, logo após o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Ah, e claro, nos EUA, na França, na Inglaterra, na… Conchichina. Em qualquer lugar, menos aqui. Aqui, não. Aqui seria um poderosíssimo instrumento na superação de nosso secular atraso e portanto, um passo decisivo na conquista do “maldito” desenvolvimento do Brasil. Isso não pode. Assim não dá.

Responder

Mário Malerba

21/03/2014 - 08h50

Curioso como um governo com tanto apoio popular foi derrubado, apoio silencioso não serve pra nada.

Responder

Adriano Medeiros Costa

21/03/2014 - 01h48

É MUITO lamentável que a reforma agrária não tenha sido realizada…

Responder

Ubaldo

20/03/2014 - 19h03

Só queria saber por que eu deveria acreditar em uma ridícula planilha de Excel, da qual não se sabe a origem.
Vocês, da claque petista, me fazem rir.
Tá bom. Agora, do nada surge essa confiável “pesquisa” apontando apoio ao Jango.
Grandes humoristas.
A próxima piada Azenha.

Responder

    Luiz Carlos Azenha

    20/03/2014 - 19h22

    A origem são os arquivos da Unicamp, onde o Ibope depositou seus arquivos. Tá tudo lá. Vai ser publicado em livro em abril. A pergunta é: quem é vc para desmentir?

    Robinson Dias

    21/03/2014 - 15h15

    Azenha, ele é só mais um que prefere a mesma e velha opinião formada sobre tudo…

    luiz carlos ubaldo

    31/03/2014 - 07h52

    È só mais boca aberta que fala o que vem na cabeça, se é que tem cabeça!

    Urbano

    20/03/2014 - 20h17

    He, he, he… Chutar o balde sem saber o que diz ó… Agora, só para aclarar um pouco o teu parco juízo: a verdade é o que é, e não o que a gente quer.

    Nelson

    21/03/2014 - 09h06

    A verdade, para o Sr Urbano, parece ser somente aquela ditada pelos donos do poder através de seu monumental aparato de propaganda e manipulação de mentes. Coisa de fundamentalista, fanático, poderíamos afirmar.

    Trabalho dedicado, de pessoas como o professor Luiz Antônio Dias, não saem e nunca sairão na mídia; por isso mesmo, não têm valor algum para o Sr Urbano.

    Vai ser alienado assim, e gostar de sê-lo, lá em Marte.

    Mário SF Alves

    21/03/2014 - 14h42

    Urbano, o Nelson te confundiu com o chUtubaldo.

    Marcos K

    21/03/2014 - 06h04

    Estou farto dessa direitalha nojenta. São estúpidos demais para ver qualquer coisa além da superfície. Não coseguem produzir um único pensamento original, coerente e complexo e apenas repetir o que diz a Veja a Globo. Sem sombra de dúvida a asnice de boa parcela da população brasileira foi a maior e melhor heança da ditadura.

    Mário SF Alves

    21/03/2014 - 14h27

    No entanto, é uma direitalha em sua maioria integrada por brasileiros. Nossos irmãos, portanto.

    O inimigo é outro, companheiro. E bem verdade que direta ou indiretamente, através de seus testas de ferro, é inimigo que está e sempre esteve entranhado entre nós, porém, ainda assim, na realidade, o inimigo é outro.
    ________________________________________
    E só pra clarear: nem a ditadura militar, aquela do golpe civil-militar-norteamericanizado de 64, lembra?; pois é, nem ela, que pisoteou e jogou na lata do lixo a Constituição vigente à época, nem ela que presumidamente detinha todo o poder, que comandava com punhos de aço os políticos ou o arremedo de políticos que ainda restavam no Congresso, nem ela, conseguiu tirar da gaveta e aplicar o Estatuto da Terra¹, Lei 4504 de 30 de novembro de 1964, elaborado mediante solicitação do primeiro governo militar da ditadura. Imagina se não fosse.

    ____________________________________
    ¹Estatuto da Terra: “um dos primeiros códigos inteiramente elaborados pelo Governo Militar no Brasil, a Lei 4504, de 30 de novembro de 1964, foi concebida como a forma de colocar um freio nos movimentos campesinos que se multiplicavam durante o Governo João Goulart.”

    Fontes:
    http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4504.htm
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Estatuto_da_Terra

    Robinson Dias

    21/03/2014 - 15h13

    Pessoas como Ubaldo deviam estudar um pouco mais.

ZePovinho

20/03/2014 - 13h21

Vejam o que os ladrões civis-militares fizeram com o empresário Mario Wallace Simonsen:

http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/7952_UM+EMPRESARIO+QUE+NINGUEM+QUER+LEMBRAR

NEGÓCIOS

Nº edição: 345 | 14.ABR.04 – 10:00 | Atualizado em 20.03 – 12:49
UM EMPRESÁRIO QUE NINGUÉM QUER LEMBRAR
Dono da Panair, da TV Excelsior e da Comal, a maior exportadora de café do Brasil, Mario Wallace Simonsen foi expurgado da história empresarial do País. Por quê? I

Por Ivan Martins

Está enterrado no cemitério de La Batignolle, em Paris, um ilustre empresário brasileiro de quem ninguém gosta de lembrar: Mario Wallace Simonsen. Ele morreu em fevereiro de 1965, aos 56 anos, depois de ter sido, até pouco antes, o homem mais rico e um dos mais influentes do Brasil. Sobrinho do fundador da Fiesp, este Simonsen era dono, simultaneamente, da mais famosa companhia de aviação do País, a Panair, da emissora de televisão de maior sucesso, a Excelsior, e da Comal, a maior empresa de exportação de café do Brasil, num período em que o café respondia por dois terços das exportações nacionais. Naquele Brasil acanhado do início dos anos 60, isso bastaria para credenciá-lo como príncipe, mas havia mais. O elegante e discreto neto de ingleses, cujos olhos azuis viviam escondidos atrás de lentes fotocromáticas, tinha também duas dezenas de outras empresas, entre as quais a Companhia Melhoramentos e o Banco Noroeste, para citar apenas duas. Ele, sua esposa Baby e seus três filhos – Wallace, John e Mary Lou – viviam envoltos numa aura de realeza que não tem equivalente no Brasil moderno. Apesar disso, Simonsen morreu em Orgevall, um vilarejo próximo a Paris, destituído de quase tudo, inclusive da vontade de viver. Entre uma situação e outra ocorreu uma avalanche. Simonsen perdeu sua esposa para a depressão, foi vítima de uma campanha
de difamação como poucas vezes se viu no Brasil e seus negócios foram arruinados por oito meses de investigação escandalosa no Congresso. Acima de tudo, porém, ele foi atingido pelo golpe de Estado de 1964, que instalou no poder pessoas que o tinham na conta de inimigo. O regime foi implacável com ele. “A ditadura mi-
litar realmente acabou com o Mario”, avalia, 40 anos depois, seu advogado e amigo Saulo Ramos, ex-ministro da Justiça no governo José Sarney. “Havia a pressão das empresas americanas de café orquestrada por Herbert Levy; havia a Varig que queria abocanhar a Panair e havia os Diários Associados, que tinham ódio da Excelsior. Milico algum agüentaria tanta pressão.”

Destruído, arruinado, morto e enterrado, Simonsen foi rápida e estranhamente esquecido – embora fosse, por várias medidas, um empreendedor notável, movido por convicções à frente do seu tempo. Criou o primeiro supermercado brasileiro, o Sirva-se, e fundou no início dos anos 60 uma empresa chamada Rebratel, que interligou Rio e São Paulo através de um link de microondas inédito na época. Com ele, se transmitiu pela primeira vez ao vivo, do Maracanã, uma partida de futebol entre as seleções paulista e carioca. “A TV Excelsior foi a primeira emissora a ser administrada com visão empresarial”, acrescenta Álvaro Moya, um dos primeiros diretores do conhecido Canal 9 de São Paulo. “Criamos uma grade de programação moderna e em seis meses despontamos em primeiro lugar na audiência. A Globo copiou tudo.”

No mercado de café, onde se concentrava o grosso da sua fortuna, Simonsen arriscou-se a disputar com as grandes companhias americanas o espaço da distribuição internacional. Não se conformava que o Brasil fosse apenas exportador passivo de grãos e montou uma empresa, a Wasin, para atuar agressivamente nos mercados da Europa e dos EUA. A Wasin tinha escritórios nas principais praças comerciais do planeta e representantes em 53 países, da Colômbia ao Burundi. Café era o seu forte, mas também vendia cachaça, feijão, guaraná, frutas e carne seca. No apogeu, diz seu genro, o conde italiano Carlo de Villarosa, a exportadora de Simonsen chegou a movimentar US$ 200 milhões por ano, uma fortuna imensurável para a época. Não obstante, esse empresário pioneiro foi exumado da memória empresarial brasileira. Talvez porque tenha ficado na contramão do regime militar, talvez porque aos beneficiários da sua ruína interessasse enterrar sua memória, o fato é que Simonsen foi expurgado do passado. Ao contrário de outros empresários nacionalistas destruídos pelo Estado, como Delmiro Gouveia e Ireneu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, Simonsen ainda não recebeu o seu quinhão de reconhecimento. Em conversa com DINHEIRO, Mario Amato, o ex-presidente da Fiesp, custou a se lembrar de Simonsen, embora o empresário e sua família fossem uma lenda glamourosa na São Paulo dos anos 60.

Os poucos que se lembram dele associam o nome ao mar de lama represado por Levy durante a CPI da Comal, convocada para investigar supostas irregularidades na comercialização internacional de café. As acusações do deputado, quando transformadas em denúncia do Ministério Público, foram rechaçadas pelo Supremo Tribunal Federal como totalmente fantasiosas em pleno regime militar. Mas as empresas de Simonsen, àquela altura, já tinham sido fechadas, fracionadas ou vendidas. “A Justiça que tarda mas não falha é coisa que não funciona no mercado de crédito e no mundo dos negócios”, diz Saulo Ramos. “Nesse mundo, depois de um tempo o estrago está feito.”

A derrocada do império foi rápida e inesperada. Apanhou a filha mais nova da família em meio a um conto de fadas. Loira e linda, Mary Lou era a musa das colunas sociais nos dois lados do Atlântico. Sua festa de debutante foi realizada em Londres, na presença da rainha da Inglaterra. Seu noivado com o conde Villarosa, aos 17 anos, também foi celebrado em Londres, na embaixada do Brasil. Com seu irmão mais velho, Wallinho, dava-se o mesmo. Alto e tímido, dirigia um espetacular Mercedes esportivo pelas ruas de São Paulo, tinha casa com mordomo em Paris e demons-
trava pouco apreço por dinheiro. Um amigo lembra que Wallinho era capaz de riscar uma ordem de paga-
mento com valor em branco, assiná-la e mandar o beneficiário sacar no banco da família – que pagava. O próprio Wallinho contava, anos depois, que nos tempos de fausto mandava tirar os bancos de aviões da Panair para levar ao exterior os cavalos do seu time de pólo. A morte do pai o encontrou despreparado para o duro mundo dos negócios que o cercava. Sua única experiência vinha da TV Excelsior, onde o experimentalismo artístico predominava sobre as técnicas de gestão. “Éramos muito jovens, muito ingênuos e fomos muito engana-
dos”, diz Mary Lou, que tinha 21 anos na manhã em que encontrou o corpo morto do pai, vítima de um enfarte noturno. A mãe havia morri-
do seis meses antes. “Com a morte do meu pai e todos os problemas que se seguiram, cada um de nós surtou de um jeito”, diz ela.

Um dos mistérios que cerca esta história é o motivo da feroz perseguição que a ditadura moveu contra Simonsen. No encerramento da CPI da Comal, 25 dias depois do golpe, Levy conseguiu que o novo regime cancelasse a licença da empresa para comercialização de café, sem que ela tivesse um único título protestado. Isso arruinou a companhia. Aconteceu o mesmo com a Panair, que teve sua concessão de vôo cassada pelo brigadeiro Eduardo Gomes. Suas rotas e propriedades foram imediatamente apropriadas pela Varig, num açodamento que até hoje espanta quem se debruça sobre o episódio. Depois do golpe, como insistisse em cobrir a repressão do novo regime, a TV Excelsior foi tomada pelos militares e, no Rio de Janeiro, sofreu intervenção do governador Carlos Lacerda, golpista de primeira hora e inimigo declarado de Simonsen. Quando o novo governo, ignorando acordos assinados pela Comal com as autoridades monetárias, concluiu que o Grupo tinha para com o Estado uma dívida de café no valor de US$ 23 milhões, Simonsen ofereceu seu vasto patrimônio como garantia para continuar operando no mercado de grãos. O Banco do Brasil fez as contas e concordou com a proposta, mas, logo em seguida, voltou atrás, sob pressão política. Simonsen ficou com a dívida, sem direito a comercializar café para pagá-la e impedido de afiançar a dívida com seus próprios bens. Desse desencontro numérico, lembra Saulo Ramos, surgiu a execução do BB contra o Grupo. Em 13 de março de 1965 os jornais noticiaram o seqüestro de 30 empresas de Simonsen. Nos 10 anos seguintes, em custosas batalhas legais, os filhos do empresário perderam todas a empresas e propriedades do pai, inclusive um castelo em Alton, na Inglaterra. Do rosário de empresas ficou apenas o banco Noroeste, que Simonsen tivera o cuidado de passar ao irmão Jorge e ao primo Leo Cochrane quando a perseguição política começou. Seus próprios filhos ficaram sem nada.

Se o esforço da ditadura em destruí-lo é evidente, os motivos para isso são menos óbvios. Simonsen não era um homem de esquerda e nem gozava de especial intimidade com Jango Goulart. Como tantos empresários, era governista por necessidade. Em agosto de 1961, quando Jânio renunciou e a direita tentou impedir a posse de seu vice, Simonsen engajou-se ao lado da legalidade, arranjando inimigos entre militares e conspiradores civis. Jango se encontrava na Ásia e disseminou-se a lenda de que ele voltara ao Brasil em um avião da Panair. Não foi assim. DINHEIRO apurou que o dono da Panair estava em Londres quando soube que se tramava contra a posse de Jango. Imediatamente mandou Max Rechulsky, seu mais importante executivo na Europa, interceptar o vice-presidente em sua viagem de retorno da China, para pô-lo a par dos fatos. O encontro deu-se em Zurique. Dali, em vez de seguir para Londres, como era seu plano, Jango voou para Paris com Rechulsky. Hospedou-se no Príncipe de Gales, ao lado do escritório da Wasin. “No nosso escritório ele fez dois telefonemas, um para Santiago Dantas e outro para Juscelino”, contou Rechulsky à DINHEIRO. “A conta de Jango em
Paris foi paga pelo nosso escritório. Não me recordo do montante exato, mas foi bastante.”

Anos mais tarde, Wallinho se queixaria de que Jango não soube honrar o favor. Seu pai estava sendo perseguido na CPI da Comal e Wallinho procurou o presidente. “Ele não fez nada. Só me disse que iria falar com o pessoal do PTB”, lamentaria em conversa com o professor Carlos Henrique Novis, da Universidade de Brasília. Novis fez sua tese de mestrado sobre a derrocada do império Simonsen e conversou longamente com Wallinho. O homem que já fora o playboy mais rico e invejado do Brasil, casado com a mulher mais bonita da época – a socialite carioca Regina Rosemburgo, musa do Cinema Novo – morava no final dos anos 80 em um modesto apartamento da rua da Consolação, em São Paulo, no qual tinha vergonha de receber os amigos. Morreu em 2001. Trinta e seis anos antes, no dia da morte de seu pai, os jornais de São Paulo publicaram um anúncio fúnebre, assinado pelos funcionários da TV Excelsior. Ali se desejava paz, depois de meses de desassossego. “Agora os ódios e as perseguições não o podem mais atingir.”

Responder

    ZePovinho

    20/03/2014 - 13h29

    Algue´m aí sabe como o Iataú descolou a conta de pagamento do pessoal da Marinha do Brasil???
    Existe um método pra tudo:

    http://www.diariodocentrodomundo.com.br/29891/

    Como a Panair foi abatida em pleno vôo

    ….Depois, porque o ato, baixado sem qualquer aviso prévio, deixou a diretoria e os clientes sem saber o que fazer com os bilhetes já emitidos. Mas a surpresa maior viria à noite: como soubesse da resolução governamental com antecedência, a Varig, então operadora de linhas para os Estados Unidos e Japão, tripulou de imediato um Boeing 707 para realizar, sem solução de continuidade, o vôo da concorrente cassada. E o avião decolou, ainda que com pequeno atraso, rumo a países para os quais os pilotos em tese nunca haviam voado, numa demonstração sem precedentes de eficiência na aviação comercial….

    Mário SF Alves

    21/03/2014 - 14h52

    Pois é… denúncia braba essa, hein? É… Assim fica até mais fácil entender a origem de todo esse poder de excluir e alijar do desenvolvimento e da História um dos povos mais ricos e mais versáteis do mundo.

    Mas, afinal, que graça vêm nisso? Que graça vêm em alijar e afligir o povo brasileiro? Que graça vêm em ser poderosos em relação a esse povo tão covardemente massacrado se sabem que para isso têm de se conformar em lamber as botas dos SPYstates?

Marcio Ramos

20/03/2014 - 07h30

… o golpe continua, o sistema é o mesmo, os ditadores no poder, a polica matando, o PIG mentindo, as instituições democráticas uma porcaria, duvidas???

Vejam o apoio dos “canalhas” a esta Marcha da Familia Alienada; o Marco Civil sendo vetado pelos censores; ontem no centro a PM apavorou o povo em prédio ocupado por movimento social, uma senhora esta com risco de perder a visão devido ao gaz pimenta; na cracolândia o projeto Braços Abertos esta dando certo mesmo assim todo dia a policia apavora e atrapalha o trabalho das assistentes sociais; reforma agraria, terra dos quilombolas, pescaria artesanal, estão todos fudidos esta e a palavra; os indigenas são tratados pior que bicho no curral; etc etc etc… e tem gente que puxa o saco deste governo bundão… fazer o quê???

Responder

Francisco

20/03/2014 - 04h56

Os trabalhistas que lutaram com armas contra o regime militar não queriam chegar ao poder para fazer o Brasil dos seus projetos. O Brasil do “comunismo”.

Eles já estavam no poder, legitimamente, foram tirados e queriam, por direito, voltar. Só isso.

Dilma, Dirceu, Genuino eram constitucionalistas. Eram partidários do voto universal. Só isso.

Dê três meses para Bolssonaro explicar à luz do iluminismo a ARENA e ele não consegue: nunca foram eleitos para nada. Nunca!

Por fim, uma perguntinha aos adoradores de Joaquim Barbosa e do Supremo “Supremo”: porque o pessoal que foi derrubado do poder alcançado com o voto universal não recorreu ao STF da época?

Chico Buarque colocou a resposta em versos:

“Chame o ladrão/
Chame o ladrão!”

Responder

Sérgio Pestana

19/03/2014 - 20h23

Estive no comício de 13 de março de 1964. Ali estávamos escrevendo história e as elites e seus asseclas no empresariado, nas forças armadas, na imprensa golpista desde então ainda pensam em reviver aqueles dias tenebrosos. O Brasil é maior do que esses pequenos seres.

Responder

renato

19/03/2014 - 19h55

Mataram um sonho, agora vão colher um pesadelo..
Isto para a Direita…é claro, na realidade já
não dormem..

Responder

Julio Silveira

19/03/2014 - 19h43

Se o Jango tivesse conseguido implantar o seu programa naquela época o Brasil estaria hoje num estagio de desenvolvimento muito maior e num estagio de nivelamento social idem.
Infelizmente para muita gente (poucos no contexto do todo da cidadania, mas os que tem peso no país), esses que criam o mantra do desenvolvimento, ter desenvolvimento é ter meia duzia deles aparecendo na Forbes.

Responder

FrancoAtirador

19/03/2014 - 19h27

.
.
A Reforma Agrária foi um dos principais eixos das Reformas de Base
apresentadas pelo Governo Jango para solucionar os problemas sócio-econômicos
enfrentados pelo Brasil, no ano de 1963.

A seguir, um testemunho vivo do então deputado federal do Partido Democrata Cristão (PDC)
que foi relator do anteprojeto de reforma agrária enviado pelo Presidente da República João Goulart ao Congresso Nacional, à época:

“Para vocês terem uma idéia:
Nenhum Projeto de Lei enviado pelo Goulart à Câmara dos Deputados entrou sequer em votação.
Ele era boicotado, porque a Direita tinha maioria. Então ela boicotava… Simplesmente era impossível você falar…
E era uma… depois o Bilac Pinto [deputado federal da UDN] disse que esta era uma das sugestões dos americanos, dos norte-americanos, que foi os que deram na verdade o Golpe, os que sustentaram a Direita para dar o Golpe… eles sugeriram:
‘-Olha não deixa funcionar, porque isto cria um caos no país, enorme, e aí então é muito simples… a população está irritada … é fácil dar o Golpe’.”

Vídeo com a entrevista: (http://twitcam.com/fpduq)

(http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NaPresidenciaRepublica/As_reformas_de_base)
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Olavo_Bilac_Pinto)
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Banda_de_m%C3%BAsica_da_UDN)
(http://migre.me/ioRx8)
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Leia também:

Quando a ‘estória oficial’ subverte a História:

(http://bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/12772/presidentes_camara_mazzilli.pdf?sequence=3)
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Responder

    Mário SF Alves

    21/03/2014 - 16h34

    Sem desmerecer o Plínio, mas o link a seguir é incomparavelmente mais didático; inclusive, de brinde, mostra o Índice de Gini = 1 do conhecimento do astrólogo YouEntubado sobre a esquerda no Brasil. Ou seja o conhecimento fabricado por ele e em detrimento da própria História.

    https://www.youtube.com/watch?v=LVCy4-FxK9I

Fabio Passos

19/03/2014 - 18h47

Imperdível…

“REQUIÃO REAPRESENTA REFORMAS DE JANGO AO SENADO !”
http://www.conversaafiada.com.br/economia/2014/03/18/requiao-reapresenta-reformas-de-jango-ao-senado/

Responder

Fabio Passos

19/03/2014 - 18h44

A mídia-burguesa escondeu as pesquisas porque é copartícepe do golpe e da ditadura!
Um crime contra a população brasileira.

E as oligarquias corruptas e criminosas da mídia continuam impunes… mentindo, difamando, omitindo e sabotando a democracia e o Brasil.
Até quando?

Responder

ricardo

19/03/2014 - 16h55

Não estou dizendo? A obsessão em transformar Jango em estadista enevoa o senso de ridículo até de jornalistas experientes. Dou de barato que as “pesquisas” acima expostas não sejam mais um factóide histórico. No essencial, fica claro que nunca na história desse país um presidente teve um nível tão grande de rejeição. Mais da metade dos eleitores responderam que não votariam no trapalhão.

Responder

    FrancoAtirador

    19/03/2014 - 20h06

    .
    .
    Pelos dados apresentados na pesquisa IBOPE,

    nenhum dos candidatos atingiria 50% dos votos.

    E o vencedor seria o Jango ou o Juscelino,

    pois naquela época não havia segundo turno.
    .
    .

Urbano

19/03/2014 - 16h21

Bem, como se vê principalmente na pesquisa sobre a reforma agrária, que sempre foi tratada e ainda é pelos fascistas como sendo uma coisa de comunista, deduz-se claramente que o golpe foi para servir aos interesses mesquinhos da classe minoritária.

Responder

    Tenor

    23/03/2014 - 23h37

    Foi tratada? Reforma agrária (ainda mais nos termos expostos) É coisa de comunista. Um cerceamento indevido à propriedade privada baseada em fatores subjetivos e populistas. Em todos os países onde a suposta reforma agrária foi aplicada o tiro saiu ridiculamente pela culatra e culminou em uma queda absurda de produtividade e mortes por inanição. O que me surpreende muito é que o cidadão comum, especialmente o esquerdista radical que se prolifera pela internet atual, não consegue aprender nada com a história repetida através de gerações.

    Uma pena.

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