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Opinião do blog
18 de fevereiro de 2010 às 12:32

José Serra, o presidente “acidental”

por Luiz Carlos Azenha

O governador de São Paulo, José Serra, pretende se eleger presidente como uma espécie de “candidato acidental”. Ele não fala, ele não opina, ele não debate, ele não tem compromisso.

O compromisso de Serra é com o resultado dos “focus group”.  E, obviamente, com sua própria carreira política. “Focus group” são aqueles grupos de eleitores que se reúnem em torno de uma mesa para debater a campanha, sob discreta observação dos marqueteiros.

Li, em algum lugar, que o escândalo do mensalão do DEM, em Brasília, tinha sido bom para a candidatura de Serra.  Concordo parcialmente. O escândalo livrou Serra de mais um compromisso: o de respeitar a coalizão partidária e indicar um vice do DEM. O DEM assim, desmilinguido, fica refém do projeto político de Serra.

Mas, voltando à campanha, adiar o início oficial dela interessa a Serra. Quanto menos debate houver, melhor. Quanto menos ele opinar, melhor. Opiniões e debates forçam o candidato a assumir compromissos. E compromissos assumidos hoje restringem o escopo da atuação dos marqueteiros. Aos marqueteiros interessa ter a latitude máxima para inventar um candidato ao gosto do eleitorado.

A vantagem do tucano está no reconhecimento do nome dele, na longa carreira política, na experiência administrativa e no fato de que já disputou e perdeu uma eleição. Ainda assim, ninguém sabe direito o que pensa ou o que representa Serra. No governo de FHC, ele era o representante do “estatismo”, da esquerda do tucanato. Hoje já não pode sê-lo: Dilma Rousseff ocupou este espaço.

Mas isso não é essencial em uma campanha do século 21. Importa o modelo de marketing. Que funcionará mais ou menos assim: aos aliados de Serra e, principalmente, aos aliados na mídia, caberá tensionar a campanha eleitoral com o PT e com a candidata Dilma Rousseff.

Enquanto isso, como não quer nada, Serra pretende pairar sobre o debate, como se fosse capaz de andar sobre o rio Tietê, tirando proveito de sua “capacidade gerencial”, demonstrada definitivamente na ampliação das marginais que, em conjunto com a ampliação do Rodoanel, serão vendidas ao público como “estradas rumo ao paraíso”.

As obras vão representar um desafogo no trânsito de São Paulo na hora agá da campanha eleitoral, que é o que interessa. Não importa se há pedágios onde não deveria haver no Rodoanel, se a ampliação das marginais tem data de validade e não resolverá os problemas de longo prazo. Afinal, estamos no século da despolitização, do “déficit de atenção”, das manchetes nervosas, inócuas, descontextualizadas.

Até você tentar explicar ao eleitor qual é o DNA político de Serra, ele, o eleitor, já terá mudado de canal em busca da próxima atração. Estamos completando 10 anos de Big Brother no Brasil. Não desprezem o efeito disso na “cidadania” brasileira.

A campanha de Serra deverá obedecer à mesma lógica de infantilização do eleitorado aplicada por Gilberto Kassab e seus bonecos. Ele também se elegeu assim, como uma massa ideológica disforme moldada por marqueteiros. Por trás de Kassab, no entanto, estava a mesma coalizão que governa São Paulo já faz tempo: empreiteiras + especuladores imobiliários. A política partidária, hoje, se resume muitas vezes a isso: quem consegue esconder melhor quem são seus “patrocinadores”.

O próprio comportamento do PT, nos dois mandatos do governo Lula, acaba facilitando uma campanha como a que Serra pretende fazer. O partido contribuiu para despolitizar a política, talvez tomado pelas tarefas importantes de governar o país, vários estados e centenas de prefeituras. A despolitização se deu pelo afastamento do partido dos movimentos sociais e pela desconexão entre obras do governo e a apresentação delas ao público como resultado de um projeto político e ideológico. Cabe à candidata Dilma articular esse discurso agora, ainda que com atraso.

Há de se considerar também que o tipo de ascensão social que milhões de brasileiros experimentaram graças ao governo Lula não reverte, necessariamente, em votos.  Especialmente se quem ascende precisa de validação da classe média, o que em geral faz adotando as preferências estéticas, intelectuais e o discurso político da classe média.

Não se esqueçam que o nome de Lula não estará na cédula eleitoral em 2010. Talvez, em alguns blogs da internet, a gente vá ver um debate eleitoral como aquele dos velhos tempos, prenhe de discursos ideológicos e do bom combate entre a esquerda e a direita — um confronto importante para a democracia.

Suspeito, no entanto, que a eleição de 2010 será decidida muito mais pelo trabalho dos marqueteiros. Sendo assim, José Serra, nesse momento uma espécie de barriga de aluguel para os interesses anti-populares da política brasileira, poderá se apresentar como alguém “de esquerda” (nas palavras do presidente do PSDB, Sergio Guerra), como a sequencia natural de Lula (nas palavras de Juan Arias, o correspondente do El Pais), como uma espécie de candidato “acidental”, ” gerente”, acima do debate ideológico “antigo”, o homem que colocou São Paulo para andar.

Na tradição do rodoviarismo de Maluf (rodovia dos Trabalhadores=Rodoanel) e do exibicionismo de Collor (este carregava os livros sob o braço, como atestado de modernidade, da mesma forma que o governador paulista hoje usa o Twitter para desinformar), Serra pretende se eleger como o candidato acidental, muito embora a gente saiba muito bem quem acaba se dando mal nesses “acidentes”.

 

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