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Cartas de Minas
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Reitor denuncia um ano de ataques às universidades públicas brasileiras: UFRGS, UFPR, UFSC e UFMG

07 de dezembro de 2017 às 13h37

Nota do reitor da UFPR Ricardo Marcelo Fonseca

UM ANO DE ATAQUES CONTRA AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS BRASILEIRAS

do site da UFPR, enviado por Daniel Valença

Há quase um ano, no dia 9 de dezembro de 2016, a polícia federal irrompeu na UFRGS, em vista de uma suspeita de fraude em um programa de extensão. A polícia federal batizou todo o movimento de “Operação PhD”.

Pouco tempo depois, em 13 de fevereiro de 2017, algo similar aconteceu na nossa universidade: numa operação (batizada de “Research”), foram envolvidos mais de 180 agentes federais, cumprindo vários mandados de prisão e oito conduções coercitivas.

Mas o pior estava por vir: no dia 14 de setembro de 2017, numa operação batizada de “Ouvidos moucos” (em alusão direta à suposta falta de respostas da Universidade aos órgãos de controle), a polícia chega na UFSC para cumprir sete mandados de prisão temporária e cinco de condução coercitiva. Mais de 115 policiais foram envolvidos na operação – que vieram inclusive de outros estados.

Nesse caso, porém, houve um fato grave adicional: o próprio Reitor da UFSC – Luiz Cancellier de Olivo – foi preso “por obstruir investigações”.

Os supostos desvios (ainda em fase de investigação e apuração) teriam ocorrido na gestão anterior a dele. Levado a um presídio, algemado, submetido à revista íntima e solto logo depois, mas impedido por ordem judicial de colocar os pés na universidade que o elegeu, Cancellier cometeu suicídio no dia 02 de outubro de 2017.

Para quem imaginava que esta tragédia serviria para que a escalada contra as universidades fosse objeto de reflexão e cuidado, hoje, dia 6 de dezembro de 2017, vem outro grande choque: o alvo foi a UFMG.

Outra operação policial, com 84 policiais federais, 15 auditores da CGU e dois do TCU cumpriu oito mandados de condução coercitiva e onze de busca e apreensão.

A operação – não sem certo mal gosto irônico – foi intitulada “Esperança equilibrista” (numa referência direta a uma canção símbolo da época da redemocratização brasileira, “O bêbado e o equilibrista”).

Foram conduzidos coercitivamente os atuais reitor e vice-reitora da UFMG (Jaime Ramirez e Sandra Almeida), além de servidores e dirigentes das gestões anteriores.

Como se viu, em pouco menos de um ano, 4 das maiores universidades federais do Brasil (UFMG, UFRGS, UFSC e UFPR), sofreram impactantes operações policiais, com quantidade de agentes (geralmente também acompanhados de auditores de órgão de controle) suficientes para um conflito armado.

Todas com imensa e desmedida repercussão midiática. Em alguns desses casos, com prisão ou condução coercitiva das autoridades máximas – no planos administrativo e simbólico – das instituições universitárias. Nunca se viu um cenário desses antes.

As universidades, seus professores, servidores técnicos e pesquisadores teriam se pervertido tanto assim em um ano?

Teriam se transformado de repente em ninhos de bandidos?

E se perceba: se está falando de instituições tradicionais – a nossa UFPR é centenária – que durante décadas foram vistas como celeiros do conhecimento brasileiro e da formação de gerações.

As universidades não são perfeitas, como nenhuma instituição pública ou privada o é, mas seguramente não são esse antro de corrupção, descontrole e ineficiência que as ações policiais sugerem e que a mídia propaga.

Se é assim, é melhor olhar com certa frieza para o que há de comum nesse triste contexto. Primeiro, operações policiais e órgãos de controle têm elegido as universidades públicas como principais focos de sua atenção.

Não são os ministérios, autarquias ou os demais órgãos federais – seguramente nenhum deles berços infalíveis de virtudes infinitas; agora os olhos do controle e da repressão se voltam para as universidades públicas.

Segundo: de repente – mais do que em qualquer outro tempo – a imprensa se concentra no que acontece nas Universidades. Mas não para falar sobre os milagres cotidianos que operamos (na formação das pessoas, na ciência, na tecnologia, na inovação ou na inclusão social), mas naquilo que, aos seus olhos, lhe parece suspeito, mesmo que ainda não haja investigação ou decisão definitiva sobre o que se noticia.

Terceiro: todas essas confusões – todas – são feitas sem que haja um juízo condenatório definitivo: o escarcéu repressivo e midiático acontece antes e a apuração de responsabilidades vem depois.

Quarto: parece que houve uma suspensão de alguns direitos no Brasil, como a presunção de inocência, o devido processo legal e a dignidade da pessoa humana.

O clima policialesco e a mentalidade inquisitória parecem ter definitivamente suplantado uma cultura de direitos que valorizava a liberdade. Em nome de um certo moralismo administrativo e de uma sanha punitivista, garantias e direitos individuais são colocados como detalhes incômodos e inconvenientes.

Quinto: o princípio da autonomia universitária (prevista no art. 207 da Constituição), por todas as razões antes já mencionadas, hoje foi reduzido a pó e a letra morta.

O momento é de fato grave: enquanto deputados ou senadores filmados em flagrante delito por graves desvios são soltos pelos seus pares, reitores têm sua liberdade cassada.

A sociedade deve, com muita premência, pensar que tipo de mundo pretende construir quando instituições como as universidades públicas (responsáveis por cerca de 90% da ciência e tecnologia do Brasil) são demonizadas, expostas, desrespeitadas e quando seus dirigentes são imolados publicamente.

O Brasil precisa pensar em que tipo de futuro quer apostar. E para mim a resposta só pode ser essa: é momento de resistir e defender a Universidade Pública.

Viva a UFRGS! Viva a UFSC! Viva a UFMG! Viva a UFPR!

Ricardo Marcelo Fonseca

Reitor da UFPR

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Eu

08/12/2017 - 02h22

Quem se dispuser a procurar, vai encontrar facilmente… No longínquo março de 2016, pouco depois da votação do afastamento de Dilma Roussef e da redefinição do novo ministério, a Folha de São Paulo publicou, em sua coluna Contraponto, uma matéria pitoresca sobre um deputado entrevistado na Câmara que dizia não estar incomodado por não ter sido contemplado com um ministério, pois o cargo que desejava não existia mesmo: “o Ministério da Vingança”!

Bingo. Eis um aspecto pouco analisado, entre tantos livros e artigos que pululam sob nossos olhos desde a elaboração e efetivação do golpe: o caráter vingativo que entranhou-se em nossa sociedade. E não falo apenas dos parlamentares não-alinhados, mas da psique dos diversos segmentos sociais envolvidos, dentro do universo populacional brasileiro. Poucas vezes temos visto um ardor vingativo tão grande nos discursos e gestos como o que acontece após a consolidação do golpe. Revanche de tudo contra todos, sob as mais diversas “razões”: colegas contra colegas no ambiente de trabalho, jornalistas contra jornalistas que defendem a clareza de informação, heteronormativos contra a diversidade que vinha achando seu lugar na sociedade nas últimas décadas, religiosos contra qualquer um que defenda uma alternativa ao seu dogma, e finalmente a vingança do anti-intelectualismo obtuso contra as universidades, seus profissionais e alunos. Seja de alguns setores da própria universidade contra outros, seja de pessoas de fora contra a instituição. E não quero dizer debate, mas agressividade raivosa, cega de argumentos e pobre na lógica. Basta ler e ouvir os comentários sobre os (muitos) atos arbitrários recentes para nos depararmos com uma celebração selvagem pela mera ocorrência dos mesmos.

Enquanto debatemos sobre a lógica política dos atos de ódio cada vez mais frequentes, parecemos não enxergar algo que passeia diante de nossos olhos, o componente emocional do revanchismo violento contra o que consideram “algo que agora não são mais obrigados a engolir”. Dos discursos às roupas, das atitudes à formação intelectual, da impertinência de alguns em assumir posições “que não merecem”. Isto pouco ou nada tem de calculado, situa-se em um plano mais profundo e sombrio da alma humana, ainda que possa ter sido habilmente estimulado por alguns, e em alguns momentos. Mas, aberta a caixa de Pandora, não controlamos o que pode sair dali. E o caráter vingativo é um dos piores aspectos que habitam na nossa psique, porque presente na imensa maioria das pessoas e de difícil manejo pelo racional, mesmo nos mais treinados indivíduos.

Costumamos dizer que para conhecer verdadeiramente alguém, basta dar-lhe poder. Muito do que há de correto nesta assertiva vem do que cada pessoa faz com o poder que lhe é conferido. Uma sociedade onde a maioria pensa em, prioritariamente, obtê-lo para vingar-se do outro indesejável, é uma sociedade a caminho de criar monstruosidades. Ontem vingaram-se dos petistas, hoje dos professores universitários. Amanhã, quem será?

Responder

Ivan Monte

07/12/2017 - 16h52

Primeiro a gente desmoraliza, depois vende tudo…

Responder

    Luis

    10/12/2017 - 09h09

    Bingo. Até que enfim alguém matou a charada. Concordo.

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