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Pedro Serrano: “Querer punir uma juíza que agiu corretamente, fazendo valer os direitos fundamentais da Constituição, é erro jurídico”

27 de janeiro de 2016 às 08h26

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Latuff Foto-da-obra-POR-UMA-CULTURA-DE-PAZ-1Kenarik Boujikian: Estas duas charges de Carlos Lattuff me representam. A primeira foi feita especialmente para a campanha Eu Apoio a Causa Indígena, de 2012

Atualização em 28/01/2016, às 8h23: Na sessão dessa quarta-feira do TJ-SP, o desembargador Arnaldo Malheiros pediu o arquivamento da representação. Outros dois magistrados pediram vistas. Ainda não há data marcada para o julgamento continuar. O colegiado é integrado por 25 desembargadores.

por Conceição Lemes

Nesta quarta-feira, 27 de janeiro, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP)  terá excelente oportunidade de demonstrar que é mesmo garantidor da nossa Constituição.

A partir das 13h30, o seu colegiado julga a desembargadora Kenarik Boujikian, conhecida no País inteiro como defensora intransigente dos direitos fundamentais da pessoa humana, das garantias constitucionais, do Estado Democrático de Direito e co-fundadora da Associação Juízes para a Democracia (AJD).

Kenarik está sendo processada por um dos seus pares, o desembargador Amaro José Thomé Filho.

Em agosto de 2015, ele entrou com representação na Corregedoria do TJ-SP contra a magistrada, acusando-a de violação do princípio da colegialidade.

Na condição de relatora de alguns processos, a magistrada agiu monocraticamente, expedindo o alvará de soltura de dez réus que estavam presos preventivamente há mais tempo do que a pena fixada em suas sentenças.

A decisão incomodou colegas da Corte. Para o desembargador Thomé Filho, a decisão da magistrada, embora fosse cautelar deveria ser submetida ao colegiado.

Caso o TJ-SP aceite a representação, será aberto procedimento disciplinar por delito funcional contra Kenarik. Se condenada, as punições vão de advertência à aposentadoria compulsória.

“Não tem cabimento”, diz, perplexo, o advogado Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da  PUC-SP.  “Querer punir uma juíza que agiu corretamente, fazendo valer os direitos fundamentais da Constituição é,  primeiro, um imenso erro jurídico; segundo, um  grande passo atrás no processo civilizatório.”

“Eu tenho esperança de que o tribunal aja de acordo com a Constituição, defenda  as prerrogativas da juíza e não instaure esse processo”, reforça. “Do contrário, será uma decisão absolutamente equivocada.”

De forma didática, o professor Serrano desmonta os argumentos contra a desembargadora:

1. O que está acontecendo é uma recriminação aparente de alguns desembargadores do tribunal à conduta da desembargadora, que foi absolutamente correta.

2. A nossa constituição é muito clara. O direito de liberdade prevalece sobre qualquer questão formal. É um dever da autoridade que está exercendo o juízo libertar o mais rápido possível a pessoa que não tem razão legal para estar presa.

3. Tanto que, no nosso sistema constitucional, o habeas corpus é uma das únicas situações em que a jurisdição age sozinha, não precisa ser provocada por alguém.  Isso porque o habeas corpus é para proteger o direito de liberdade. Mesmo que ninguém tenha pedido para libertar a pessoa, pode-se libertá-la, quando ela está presa ilegalmente.

4. O que fez a desembargadora foi verificar que os dez presos já tinham cumprido a pena fixada nas respectivas sentenças. Portanto, estavam presos numa situação absolutamente ilegal e os libertou o mais rapidamente possível, para não ter que esperar o momento da reunião do colegiado. É uma decisão totalmente correta no plano constitucional.

5. Quanto ao princípio da colegialidade alegado desembargadores insatisfeitos, ele não pode superar também o princípio da independência do juiz. O juiz, o julgador, é independente para proferir as suas decisões.

6. E mais do que isso. Neste caso, a decisão é correta, porque está fazendo valer a norma jurídica hierarquicamente superior, que é a Constituição. A norma de funcionamento do tribunal não pode ser superior à da Constituição.

7. Lamentável que alguns desembargadores estejam querendo transformar em delito funcional uma conduta absolutamente correta. E o que é pior. Com essa atitude, eles estão pondo em dúvida a independência do juiz.

8. A independência do  Judiciário é um valor que interessa a toda a cidadania e não apenas ao tribunal, a quem exerce a jurisdição.

9. Está havendo ofensa grave à independência do juiz. E mais grave ainda aos direitos fundamentais da Constituição. Não houve ofensa às garantias fundamentais, porque a desembargadora garantiu que não houvesse. Ela deu a decisão e fez garantir o direito de liberdade das pessoas.

10. A desembargadora tem o direito de interpretar como ela achar. Ela é a julgadora. Ela é soberana no caso. Aliás, nesta situação, especificamente, não cabe interpretação diferente.

11. Os dez presos estavam encarcerados além do tempo da pena. Ela tem de soltá-los o mais rápido possível e não ficar esperando o colegiado se reunir. Não tem sentido mantê-los presos. Se o fizer, o Estado inclusive arca com o custo de indenização deles. Assim, com a sua decisão, a desembargadora evitou também ações de responsabilidade contra o Estado.  Portanto, evitou danos ao patrimônio público e preservou o dinheiro de todos nós.

CASARA: “HÁ UM PROBLEMA IDEOLÓGICO CLARO”;  CONSERVADORISMO E MACHISMO

Competente, guerreira, corajosa, ética, solidária e feminista.

Desde que a representação contra Kenarik tornou-se pública, a reação é de estarrecimento entre todos aqueles que acompanham a trajetória dessa emigrante armênia, nascida na Síria, três filhos, 27 anos de magistratura (quase o tempo todo na área penal).

Em 2010, por exemplo, Kenarik condenou a 278 anos de prisão o médico-monstro Roger Abdelmassih, pelo estupro de 56 pacientes.

Em 2010 e 2011, participou ativamente para a instauração da Comissão Nacional da Verdade.

Em junho de 2012, denunciou aqui que o Estado é conivente com humilhação de preso pela imprensa:  “Ninguém, muito menos a polícia e as demais instituições estatais podem expor uma pessoa de forma  humilhante, seja ela quem for, seja ela suspeita ou autora de crime”. 

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Em 2012, durante visita a várias de aldeias dos guarani-kaiowa, no Mato Grosso do Sul, Kenarik constatou in loco o extermínio e violações de direitos desses povos. Kenarik mergulhou, então, na questão  indígena.

Liderou a petição Eu apoio a Causa Indígena, que atingiu mais de 20 mil assinaturas: é contra a PEC 215, em favor das demarcações das terras e pelo julgamento urgente dos processos que estão no Supremo Tribunal Federal (STF) que envolvam direitos dos povos indígenas. A luta dos índios contra os massacres é a luta das periferias, é a luta da juventude negra, é a luta de todos!

A petição e as assinaturas da campanha foram entregues a representantes do Executivo, Legislativo e Judiciário, para que cumpram a Constituição Federal e respeitem de forma plena a organização social, costumes, línguas, crenças, tradições e as terras originárias dos indígenas.

Tanto que, em 2014, foi convidada pelo Vaticano para ser um dos oito observadores do I Encontro do Papa Francisco com os Movimentos Populares, realizado na Itália.

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Em 2015, participou de audiência temática sobre as questões indígenas, na Comissão Interamericana de Direitos Humanos /OEA.

Kenarik integra o GET Mulheres Encarceradas, uma rede que se dedica ao encarceramento de mulheres. Um tema que a preocupa muito.

Tanto que, no final de 2015, em artigos aqui no Viomundo, ela fez dois apelos à presidenta Dilma Rousseff.

No primeiro, ela diz que, tal como Obama, Dilma precisa iniciar uma nova página na prisão por drogas, começando pelo indulto das mulheres.

…de imediato, espera-se que a presidenta Dilma também comece a realizar uma nova política, através do indulto, que é de sua alçada constitucional, razão pela qual inúmeras entidades feministas e de direitos humanos, de longa jornada  nestas lutas, reconhecidas pela seriedade de seus princípios,  pleiteiam que a concessão de indulto de 2015 tenha como parâmetro as especificidades da mulher e que contemple as condenadas por tráfico de entorpecentes que tenham pena, ao menos, de cinco anos ou período minorado de tempo de cumprimento de prisão.

O  indulto é importante instrumento de política criminal, mas não é aplicado de modo eficaz, de modo a atingir número minimamente significativo de mulheres encarceradas. Vejamos alguns dados de 2014, referente ao indulto de mulheres: em São Paulo, apenas 65 foram indultadas; em Minas Gerais,  54 e no RS, 19. Os números pífios retratam a ineficácia do indulto, na forma como é exercida até agora. Os dados dos anos anteriores são ainda inferiores.

Diversos documentos internacionais e regionais recomendam que se preste maior atenção às questões das mulheres que se encontram na prisão, inclusive no tocante aos seus filhos.  Documentos nacionais indicam a necessidade de que se estabeleçam políticas públicas diferenciadas para as mulheres encarceradas.

 Mais próximo do Natal de 2015, voltou ao tema: Presidenta Dilma, indulto natalino para Cíntia e outras mulheres encarceradas.

Esses são apenas uns exemplos do trabalho de Kenarik.

Daí a pergunta que, insistentemente, milhares de pessoas da área jurídica e dos movimentos populares em todo o  País fazem é a mesma: Por quê?

“Há um problema ideológico claro. Quer se punir uma juíza em razão de uma decisão judicial que contraria a ideologia dominante”, alerta o jurista Rubens Casara, professor de Processo Penal no Rio de Janeiro. “Há uma tendência de demonizar quem pensa diferente. E o problema da ideologia é que ela nunca é percebida como tal. A ideologia é sempre do ‘outro'”.

Casara põe o dedo na ferida: “Quem acusa a postura e as decisões da  juíza Kenarik, taxando-as de  ideológica, a atua a partir de uma ideologia punitivista, responsável pelos índices obscenos de encarceramento no  Brasil”.

Para Kenarik, o episódio tem suas raízes no conservadorismo e, ainda, no machismo do Judiciário.

“Na cultura do encarceramento massivo, arraigada no cotidiano dos fóruns, qualquer pensamento dentro do marco punitivo que não seja daquela maioria momentânea soa como alerta contra alguém que coloca em perigo a ‘segurança’. Penso que, se for uma mulher a fazer esse rompimento, as questões passam a ter maior gravidade, pois o mundo penal ainda é dos homens.”

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Manifesto de solidariedade à desembargadora Kenarik Boujikian

EXMO. SR.
DESEMBAGADOR PAULO DIMAS DE BELLIS MASCARETTI

PESIDENTE DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO

a/c Juiz Fernando Bartoletti

Nós abaixo-assinados, representantes de movimentos populares, e entidades em geral, vimos à sua presença, pois tomamos conhecimento de que, no dia 27 deste janeiro, será julgado pelo colegiado de desembargadoras/es do Tribunal de Justiça de São Paulo um pedido de abertura de processo administrativo contra a desembargadora Kenarik Boujikian, movido por um dos seus colegas, o desembargador Amaro José Thomé Filho, no Tribunal de Justiça de São Paulo, onde ela atua.

Não confundindo o exercício da sua autoridade jurisdicional com reserva de distância do povo, a desembargadora Kenarik tem pautado os seus julgados por um profundo conhecimento da nossa realidade social injusta e excludente, jamais fazendo da lei, como ocorre frequentemente, uma cúmplice de preservação dessa injustiça, consciente de que nem todo o direito se esgota em regras legais, preceitos formais e rubricas procedimentais.

Diferentemente de grande parte das/os integrantes do Poder Judiciário, a desembargadora Kenarik pode ser identificada como uma das magistradas mais fiéis, tanto aos direitos humanos fundamentais quanto aos princípios constitucionais de quem é parte nos processos onde exerce a sua função.

Trata-se de magistrada fiel ao Código de Ética das/os juízas/es, sabidamente um elenco de preceitos muito mais inspirador de efetiva justiça do que servil e cega submissão à lei, particularmente quando esta é aplicada esquecendo que o Brasil é um Estado Democrático de Direito, e este somente pode ser considerado como legítimo quando posto a serviço do seu povo soberano (parágrafo único do primeiro artigo da nossa Constituição).

Por tais razões, as/os signatárias/os manifestam a sua irrestrita solidariedade à desembargadora Kenarik Boujikian, com a esperança de que o mérito histórico do seu conhecido trabalho, uma garantia de efetiva justiça conhecida e provada em São Paulo, não seja ignorado agora no processo contra ela proposto.

Atenciosamente

Prof. Leonardo Boff

Romi Bencke, pastora luterana e coordenadora do Conselho Ecumênico das Igrejas Cristãs no Brasil- CONIC- Brasilia

Jandira Feghali, médica, e deputada federal pelo Rio de Janeiro

ARPUB – Associação das Rádios Públicas do Brasil

FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação

FALERIO – FRENTE AMPLA PELA LIBERDADE DE EXPRESSÃO RJ

Dr. Jacques Alfosin, Procurador do Estado do Rio Grande do Sul, aposentado, e professor de Direito. Porto Alegre, RS

Paulo Sergio Pinheiro, membro do comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Genebra

Lygia Maria de Godoy Batista Cavalcanti, Juíza Titular da 11 Vara do Trabalho de Natal/RN

Fernando Morais, escritor, São Paulo

Luiz Lindberg Farias, Senador da República, Rio de Janeiro.

Ricardo Gebrim, ex-presidente do Sindicato dos Advogados de São Paulo.

Marcia Camargo, escritora

Maria Inês Nassif, jornalista

Ligiana Costa, atriz e cantora.

Carina Vitral, presidente da União Nacional dos Estudantes- UNE

João Pedro Stedile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra- MST

Dalmo de Abreu Dallari, jurista e professor

Nalu Faria, da Marcha Mundial de Mulheres-MMM

Sandra Alves, do Movimento Camponês Popular-MCP

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Mensagens de apoio por e-mail ou na página de Kenarik no Facebook, dentre outras:

Heloisa Buarque de Almeida,  feminista professora USP

Fábio Konder Comparato, prof. SP

Celso Antonio Bandeira de Mello, prof. SP

Juarez Cirino,  prof. RJ

Julita Lemgruber,  prof. RJ

Geraldo Prado, prof. RJ

Roberto Genofre, prof. SP

Marlon Alberto Weichert, Ministério Público Federal

Maria Inês Virgina, Ministério Público Federal

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NOTA DA PASTORAL CARCERÁRIA EM APOIO À DESEMBARGADORA KENARIK BOUJIKIAN FELIPPE

A PASTORAL CARCERÁRIA NACIONAL – CNBB e a PASTORAL CARCERÁRIA DO ESTADO DE SÃO PAULO – REGIONAL SUL I da CNBB vêm, por meio da presente nota, prestar sua solidariedade à Desembargadora KENARIK BOUJIKIAN FELIPPE, a qual foi representada na Corregedoria Geral de Justiça do E. Tribunal de Justiça de São Paulo pelo Desembargador Amaro José Thomé Filho.

A representação ocorreu após a Sra. Kenarik, na qualidade de relatora de alguns processos que tramitam em sede de apelação no referido E. Tribunal, decidir cautelarmente pela expedição de alvará de soltura para 10 réus que estavam presos preventivamente há mais tempo do que a pena estabelecida na sentença. O julgamento do processo administrativo disciplinar encontra-se suspenso, após o pedido de vista do Sr. Desembargador Antônio Carlos Malheiros.

A acusação que pesa contra a Sra. Kenarik seria a de supostamente usurpar a competência do juízo da execução e de violar o princípio da colegialidade com sua decisão cautelar. Entretanto, na realidade, tudo indica o contrário: a nobre Desembargadora apenas cumpriu seu papel constitucional de Magistrada, preservando os princípios do nosso ordenamento jurídico.

Não é preciso grandes discussões jurídicas para compreender a lisura das decisões da Desembargadora: ao atuar como relatora, ela simplesmente constatou que havia réus presos cautelarmente há mais tempo do que a pena determinada em sentença pelo Juiz de primeira instância.

Ora, não há como manter presa cautelarmente uma pessoa por mais tempo do que a pena recebida só porque a apelação ainda não havia sido julgada! A situação kafkiana desses réus só revela o absurdo do nosso sistema de justiça criminal, em que um recurso de apelação demora tanto para ser julgado que a pessoa corre o risco de cumprir integralmente a pena antes mesmo do resultado dessa apelação, que poderia reduzir a sua pena ou absolvê-lo da acusação – haja vista que, pelo princípio da proibição da reformatio in pejus, quando apenas o réu apela da sentença o E. Tribunal não pode agravar ainda mais a sua pena.

Mais absurda ainda é a sustentação de alguns de que o relator do recurso não pode agir de ofício expedindo a ordem cautelar para cessar tal ilegalidade, devendo esperar todo o julgamento do recurso para só depois expedir a referida ordem, e, consequentemente, a soltura do réu– o que pode demorar anos.

Mesmo primando pelo tecnicismo, a decisão da Sra. Kenarik é irretocável, pois como pode ser observado no preciso parecer do Professor da Faculdade de Direito da USP, Sr. Maurício Zanoide de Morais[1], a Desembargadora tinha, sim, competência para expedir a ordem.

Ela não só pode, como deve agir de ofício, não havendo, portanto, usurpação da competência da Vara de Execução – haja vista o Regimento Interno do referido E. Tribunal conferir poderes ao relator para proferir decisões sobre medidas cautelares no âmbito penal, como a prisão preventiva – ou qualquer violação ao princípio do colegiado – uma vez que sua decisão não é definitiva, podendo ser revogada pelo colegiado, se entenderem que foi equivocada.

Mais do que isso, como bem ressaltado no eloquente parecer, a Sra. Kenarik salvaguardou o Estado, eis que o art. 5º da Constituição Federal aduz, no seu inciso LXXV, que “o Estado indenizará o condenado por erro judiciário, assim como o que ficar preso além do tempo fixado na sentença”, o que demonstra de forma clara a legalidade, o bom senso e a seriedade do ato da Desembargadora.

Tudo indica que as decisões da Sra. Kenarik, questionadas na Corregedoria, embora legais e justas, confrontam-se com a mentalidade punitivista e encarceradora de outros membros do E. Tribunal de Justiça de São Paulo – infelizmente, muito presente em todo o nosso sistema de justiça criminal.

Observa-se que alguns operadores do Direito, em total desacordo com os direitos e garantias fundamentais, promovem obstinadamente a pena de prisão como panaceia dos problemas sociais, dentre eles a violência urbana. Fazem da prisão regra, quando ela deveria ser exceção (ultima ratio), como prevê o nosso ordenamento jurídico. Ou seja, há pressa para prender, mas não para soltar quando é este o direito do réu.

Isso não só é tecnicamente errado e ilegal, como gera consequências terríveis para a população e, inclusive, à imagem do Brasil no âmbito internacional, haja vista que, enquanto há países que estão fechando prisões por ausência de presos, o Brasil apresenta a maior taxa de crescimento da população prisional no mundo.

Em números absolutos, o Brasil ultrapassou o número de 715,6 mil presos[2], ocupando a terceira posição maior população carcerária do mundo.

Além disso, nosso sistema de justiça criminal é seletivo. Em regra, tais presos são jovens de baixa renda e escolaridade, encarcerados em unidades superlotadas sem as mínimas condições de higiene e de estrutura do espaço, cumprindo pena de forma degradante, em um cenário onde as violações de direito são regra e o cumprimento da Lei de Execução Penal e das garantias constitucionais, exceção.

A Desembargadora Kenarik é co-fundadora e ex-presidente da Associação de Juízes para a Democracia (AJD) e conhecida por seus posicionamentos em linha com os direitos humanos e o garantismo penal. Sua atuação sempre foi pautada pela seriedade, esforço de trabalho e respeito às garantias e direitos constitucionais, cumprindo um papel fundamental na efetivação dos direitos das pessoas mais vulneráveis e no combate ao Estado autoritário. Não é por menos que diversos juristas e diversas instituições estão se mobilizando em apoio à Desembargadora Kenarik [3].

Por isso, a PASTORAL CARCERÁRIA NACIONAL – CNBB e a PASTORAL CARCERÁRIA DO ESTADO DE SÃO PAULO – REGIONAL SUL I da CNBB manifestam seu irrestrito e total apoio à Desembargadora Kenarik, acreditando ser descabido e absurdo este processo administrativo disciplinar. Que a Desembargadora Kenarik continue cumprindo seu ofício com a mesma coerência e dedicação que lhe rende tamanho reconhecimento da sociedade civil e da comunidade jurídica.

Pe. Valdir João Silveira
Coordenador Nacional da Pastoral Carcerária – CNBB

Deyvid Tadeu Livrini Luiz
Coordenador da Pastoral Carcerária/SP – Regional Sul I da CNBB

[1] Fonte: http://s.conjur.com.br/dl/relator-libera-preso-cumpriu-pena-nao.pdf.
[2] Fonte: http://www.conjur.com.br/2014-jun-05/brasil-maior-populacao-carceraria-mundo-segundo-estudo.
[3] Vide: http://www.justificando.com/2016/01/20/juristas-se-mobilizam-em-favor-de-desembargadora-processada-por-posicionamento-garantista/.

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NOTA PÚBLICA: IDDD MANIFESTA APOIO À DESEMBARGADORA KENARIK BOUJIKIAN FELIPPE

O Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD) vem à público manifestar sua solidariedade à Juíza de Direito de 2º Grau, Dra. Kenarik Boujikian Felippe, que sofre processo administrativo a ser julgado no Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo, por ter, provisória e monocraticamente, revogado prisões preventivas que julgou indevidas por já durarem mais tempo do que as penas fixadas em suas sentenças, conforme notícia publicada pela revista eletrônica Consultor Jurídico em 13 de janeiro de 2016.

De acordo com a matéria jornalística, a Magistrada está sendo processada administrativamente pois teria violado o princípio da colegialidade ao expedir alvarás de soltura de dez réus que se encontravam presos preventivamente apesar de terem sido condenados a penas inferiores ao tempo do aprisionamento em curso. Tal acusação não se sustenta, pois, conforme afirma o eminente Professor de Direito Processual Penal da Universidade de São Paulo Maurício Zanoide de Moraes, em parecer publicado na mesma notícia, não houve qualquer violação ao princípio da colegialidade visto que a Juíza não se furtou ao posterior julgamento definitivo do material pelo colegiado.

Destaque-se, ademais, o acerto das decisões da Magistrada que, diante da patente ilegalidade e consciente dos efeitos nocivos do cárcere, sanou provisoriamente o desequilíbrio lógico e formal de modo a corrigir situação fática – aprisionamento preventivo – que julgou não ter embasamento jurídico.

O IDDD reconhece o importante papel que a Desembargadora Kenarik Boujikian desempenha na proteção dos direitos humanos e apoia sua posição em defesa das liberdades individuais.

São Paulo, 21 de janeiro de 2016.

Augusto de Arruda Botelho
Diretor Presidente
Instituto de Defesa do Direito de Defesa

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Articulação Justiça e Direitos Humanos – JusDh

Brasília, 26 de janeiro de 2016.

Ao

Exmo. Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo,

Desembargador Paulo Dimas de Bellis Mascaretti

Exmo. Corregedor-Geral da Justiça do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo,

Desembargador Manoel de Queiroz Pereira Calças

A Articulação Justiça e Direitos Humanos – JusDh, composta por organizações de direitos humanos (1) que atuam com litigância em diferentes temas de direitos humanos e trabalham com uma agenda de democratização do sistema de justiça, vem respeitosamente à presença de Vs. Exs. manifestar profunda preocupação com relação ao Procedimento Administrativo Interno de Representação nº 2015/122.726 em trâmite perante a Corregedoria.

O pedido apresentado para abertura de procedimento disciplinar contra a juíza de 2º grau Kenarik Boujikian, por exercer seu livre convencimento e proferir decisão em sede cautelar, coloca em xeque as prerrogativas constitucionais que hoje garantem a independência judicial.

Preocupa-nos a fragilidade na qual se coloca a devida prestação judicial, caso se prossiga com essa tentativa de interferência na independência funcional. A imperiosidade de conferir aos magistrados a possibilidade de decidir sem influências externas ou internas mais do que uma garantia da carreira é um direito de toda a sociedade.

Kenarik Boujikian possui um longo histórico de comprometimento com a defesa de direitos humanos, da democracia e das garantias judiciais e processuais fundamentais, bem como é modelo de transparência e abertura ao diálogo com a sociedade civil dentro do Poder Público.

Esperamos que a Corregedoria deste Tribunal rejeite e não dê seguimento à infundada Representação supramencionada. Tal postura não seria prejudicial apenas a um caso isolado, como tornaria vulnerável direitos e garantias inerentes à todas e todos magistrados(as) que atuam dentro deste Tribunal.

No mais, receba nossos votos de mais alta estima e consideração e nos colocamos à disposição para o que estiver ao nosso alcance.

Atenciosamente,

FLAVIO SIQUEIRA JUNIOR

Articulação Justiça e Direitos Humanos – JusDh

LUCIANA PIVATO
Articulação Justiça e Direitos Humanos – JusDh

SHEILA DE CARVALHO
Articulação Justiça e Direitos Humanos – JusDh

(1) Articulação Justiça e Direitos Humanos – JusDh é integrada pelas seguintes entidades: Terra de Direitos – Organização de Direitos Humanos, Conectas Direitos Humanos, Ação Educativa – Assessoria, Pesquisa e Informação, AATR – Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia, Centro de Assessoria Popular Mariana Criola, SDDH – Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, Geledés Instituto da Mulher Negra, Dignitatis – Assessoria Técnica Popular.

Leia também:

A íntegra dos depoimentos que comprometem o tucano Capez e outros no escândalo da merenda em SP

 

17 Comentários escrever comentário »

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Eduardo Guimarães

29/01/2016 - 14h23

Depois de ler tudo, concluo! O Amaro Thomé deve ser um desafortunado,infeliz, invejoso , carente de preparo jurídico, Vou parar por aqui !

Responder

Enrico

29/01/2016 - 05h34

Muito sintomático que em uma situação como esta não se esteja recorrendo ao Ministério da Justiça, que deveria ser um dos bastiões da justiça no país. É porque todos já sabem que neste ministério está ocupado por um intruso alheio à justiça no Brasil. Triste terra!

Responder

Helbert Fagundes

28/01/2016 - 17h16

Boa tarde,

pelas fotos já se explica muita coisa. Uma delas que essa juíza esta do lado do bem e o restante o mal acompanha.

Responder

FrancoAtirador

27/01/2016 - 15h27

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No fundo, no fundo, culturalmente, a Sociedade Brasileira
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e, historicamente, a própria Estrutura Institucional do Brasil,
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até os dias presentes, nunca deixaram de ser Monarquistas.
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Responder

José de Pindorama

27/01/2016 - 13h19

Caros Comentaristas, boa tarde!
Aos Magistrados cabe o respeito inconteste à Constituição Federal e seus desdobramentos, os Códigos que compõe todo o arcabouço Jurídico. Se uma dada legislação não atende aos anseios da sociedade, devemos procurar os meios legais e próprios para, após uma análise, produzir alterações sempre no sentido de aprimorar tal legislação.
Segregar e punir um Agente Público pertencente ao Judiciário, como estamos prestes a fazer, simplesmente porque aplicou a Lei(seja ela ‘boa’ ou não), é de uma insensatez abissal, além de ser um Ataque ao Estado de Direito.
Todo nosso apoio inconteste aos Agentes Públicos pertencentes ao Judiciário, que diariamente, na figura da Nobre Magistrada, respeitam a Constituição Federal, aplicam as leis sem olhar a quem, e mais possam ser, verdadeiramente chamados de seres humanos.
Dessa forma, a visão geral que o Povo tem do Judiciário e da Justiça, que já não é satisfatória, tornar-se-á insustentável, sendo difícil prever a reação face a mais descalabros, que espero sinceramente não venham a acontecer por decisões, às vistas de um leigo, estapafúrdias.

Responder

FrancoAtirador

27/01/2016 - 13h17

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SóNúBrázíuMêsmu tentam punir Magistrad@ que corrige a Negligência de outros Juízes.
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Responder

Julio Silveira

27/01/2016 - 10h55

Sou um democrata convicto, defendo o direito da Dilma de governar até o último dia de seu mandato, diferente dos golpistas que querem sua substituição para a volta do crime sistemático é silencioso que conviviam harmonicamente em nossas instituições. E sei que sua saída implicará exatamente nisso, mas diante de sua recusa em afrontar os entraves a nossa evolução cidadã, que tem levado a um recrudescimento contra aqueles que querem trazer ao nosso Brasil um nível de civilidade cultural só vista em países sérios. Ao ver sua performance minúscula à frente do estado permitindo toda sorte de dissabores justamente aqueles que querem tornar este país mais justo, inclusive a própria, por sua incapacidade de estar à frente de um país, como tem demonstrado, acredito que a mesma deva refletir sobre a possibilidade de sua renúncia. Por que se não tem capacidade de gestão, se sua inação causa um efeito em cadeia que leva a uma inversão de valores no estado emocional das pessoas que tocam as nossas instituições, começo a olhar tal atitude não só como um ato de grandeza, mas também como uma forma de trazer a público a personalidade dos grupos de elite deste país.

Responder

Nelson

27/01/2016 - 10h01

O professor Pedro Serrano colocou as coisas de forma muita clara. Assim, todo apoio a nossa juíza Kenarik. Ela deveria estar é sendo parabenizada e tendo suas decisões divulgadas a todo o povo, para que os brasileiros possam saber que nem só de coisa ruim vive o Judiciário do nosso país.

Responder

Dilma Coelho

27/01/2016 - 09h42

Infelizmente, boa parte da justiça brasileira está nas mãos de pessoas mal resolvidas, que têm sede de holofotes e não se preocupam com o papel que deveriam, realmente, assumir. Fazerem com dignidade o seu trabalho.
Precisamos respeitar as pessoas que trabalham pela verdadeira justiça. Precisamos preservar a desembargadora Kenarik Boujikian

Responder

Maria Libia

27/01/2016 - 09h13

Estamos chegando a um estado que não é o de direito. Se uma mulher com tal capacidade jurídica está ameaçada a perder o direito que a Constituição do Brasil lhe ortoga, o que será de nós, povo, que já temos muito poucos direitos?

Responder

    ROSE PE

    27/01/2016 - 11h10

    Compartilho com seu pensamento Maria Líbia! Sem mais a acrescentar !

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