VIOMUNDO

Paulo Pimenta: Travaram a investigação da Zelotes para não atrapalhar aliança entre a PF, o MPF e a mídia

17 de janeiro de 2016 às 21h09

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por Conceição Lemes

Em 29 de dezembro de 2015, portanto há 19 dias, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), relator da subcomissão da Câmara que acompanha a Operação Zelotes, reuniu-se com o delegado Rogério Galloro, diretor-geral substituto da Polícia Federal, e fez vários questionamentos, entre os quais:

* Por que estão paradas as investigações que apuravam desvios de R$ 20 bilhões no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) da Receita Federal?  As investigações apontaram que os conselheiros do Carf recebiam propina para anular multas de grandes empresas com a Receita Federal.

* Por que denúncias contra grandes sonegadores envolvidos no escândalo do Carf, como Bradesco, Santander, Mitsubishi, Gerdau, Grupo RBS, que eram o objetivo inicial da Operação Zelotes, nunca apareceram?

* Por que a Polícia Federal mudou o foco da Lava Jato e abriu uma investigação paralela para apurar a compra de medidas provisórias no governo federal?

Agora, Paulo Pimenta pretende fazer esses mesmos questionamentos ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em encontro que deve acontecer nos próximos dias.

“Eu quero falar com o ministro sobre vários assuntos”, antecipa o deputado. Um deles, claro, é a Operação Zelotes. Outro, a lista dos brasileiros que tinham contas secretas  no HSBC da Suíça. Quero saber como evoluiu a investigação.”

A partir daí seguiu a entrevista exclusiva do deputado Paulo Pimenta ao Viomundo.

Viomundo – As investigações da  Operação Zelotes estão paradas mesmo?

Paulo Pimenta – Eu não tenho a menor dúvida que sim. Até junho do ano passado, ela vinha avançando de uma maneira. A partir de lá, tenho a nítida impressão de que houve desaceleração de diligências, de encaminhamentos…

Considero a Zelotes o maior escândalo de corrupção que se tem notícia na história recente do País. Foram identificados indícios de venda de sentenças em 74 decisões do Carf. Envolve quase R$ 21 bilhões.

Viomundo — Esses R$ 21 bilhões são de casos julgados. E não julgados?

Paulo Pimenta – Hoje nós temos no Carf mais de R$ 500 bilhões em julgamentos a serem realizados. Portanto, um tema de enorme relevância. Eu acho que deva ser dada prioridade a essa investigação dos grandes sonegadores, do esquema criminoso que se montou e envolveu setores da burocracia do Estado, especialmente ex-auditores da Receita Federal, com empresas de consultoria e escritórios de advocacia.

Viomundo – Mas a Zelotes pegou outro caminho, a da venda de medidas provisórias, que visa atingir o filho do ex-presidente Lula e o próprio Lula. Por que essa mudança de direção?

Paulo Pimenta – Há uma visão teórica que capturou setores da burocracia de Estado, que envolve Polícia Federal, Receita Federal, setores do Ministério Público Federal e do próprio Judiciário, que definiram a estratégia  de que,  nesse período do nosso país, você precisa ter apoio da opinião pública, especialmente da grande mídia, para que as ações desenvolvidas por esses setores tenham êxito.

Não tenho nenhuma dúvida de que esse é o elemento central  da Zelotes. Havia uma investigação principal da Zelotes que era sobre os esquemas de venda de sentença dentro do Carf.

A partir de um determinado, foi aberta uma segunda linha de investigação que era a possibilidade de venda de medidas provisórias.

E partir dessa segunda linha de  foi aberta uma terceira: empresas que têm contratos com empresas envolvidas na investigação sobre venda de medidas provisórias.  Ela é uma derivação da segunda linha de investigação, sendo que a principal simplesmente foi colocada num segundo plano.

Viomundo — Por quê?

Paulo Pimenta — Porque as empresas envolvidas na Zelotes são os principais anunciantes mídia brasileira hoje em dia. Você tem os principais bancos , as principais indústrias de cerveja, companhias telefônicas e a imprensa propriamente dita.

Então, dentro dessa lógica, que foi absorvida por setores da burocracia do Estado, é um tema que não interessa, pois não terá respaldo da mídia, consequentemente não terá o respaldo da opinião pública.

Viomundo – O que vai ao reivindicar ao ministro?

Paulo Pimenta  — Estou fazendo esforço para que seja retomado o foco da investigação. Querem investigar outras coisas? Ok. Não sou contra. Investiguem.

Mas existe uma organização criminosa que está instalada dentro do Carf, que é um dos principais órgãos da Receita Federal. O esquema conta também com a participação de ex-auditores da Receita, escritórios de advocacia,  que juntos permitiram a sonegação de R$ 21 bilhões.

Portanto, isso não pode ser considerado como algo de menor relevância simplesmente  porque a mídia não gosta do assunto, porque nos intervalos do Jornal Nacional aparecem propaganda desses denunciados, porque a RBS, parceira da Globo no Sul do Brasil, é uma das empresas acusadas da fraude.

Viomundo – Sabe como está a investigação do caso HSBC? A impressão que se tem é que está parada.

Paulo Pimenta — No caso da investigação do HSBC, em determinado momento, o Ministério da Justiça assumiu este tema junto com a Procuradoria Geral da República (PGR). Eu não sei como ela evoluiu. Eu pretendo pedir ao ministro informação sobre em que pé ela se encontra agora.

De qualquer forma, como o tema HSBC revelou que praticamente toda a grande mídia brasileira e o sistema financeiro estão envolvidos, o tema não “ interessa” para aqueles setores do Estado que deveriam fazer a investigação.

Viomundo – A atuação da CPI do HSBC até agora foi pífia. O que se percebeu é que várias pessoas que deveriam depor foram deixadas de lado, acobertadas…

Paulo Pimenta –  Com certeza.

Viomundo – Na semana passada, o governo francês decidiu enviar à CPI a lista dos brasileiros que tinham conta no HSBC na Suíça. Se isso se confirmar, pode provocar um terremoto?

Paulo Pimenta —  A revelação e a investigação sobre as contas do HSBC vão nos permitir saber não só quem são os donos mas entender qual origem deste dinheiro depositado no exterior. Qual o evento que proporcionou este capital escondido na Suíça. Ele será revelador de um  período nebuloso da nossa história. As grandes privatizações da FHC serão melhor compreendidas.

Viomundo – Pelo que o senhor disse um pouco atrás,  as investigações da  Zelotes original e do HSBC estão devagar porque os responsáveis pelo andamento delas — Polícia Federal, Ministério Público Federal,  Judiciário e  Receita Federal — acreditam que não terão apoio da grande. Será que essas investigações também não avançam porque setores desses órgãos compartilham das mesmas posições políticas dos denunciados, ao mesmo tempo que todos são contra o governo Dilma e o PT?

Paulo Pimenta – Com certeza. Setores da burocracia de Estado foram capturados por um projeto de poder que visa destruir o nosso projeto, o nosso legado. Esses setores capturaram a burocracia de Estado claramente com o objetivo de alcançar interesses políticos, partidários, corporativos, particulares. Eles se sobrepuseram ao interesse público obrigatório nas carreiras de Estado como essas que nós estamos mencionando. Estão violando o interesse público.

Nós temos hoje segmentos que trabalham de maneira articulada contra um projeto político-majoritário que foi vencedor da eleição. Nós temos de denunciar essa ideia na sociedade. Eu quero conversar com o ministro também sobre isso. São coisas muito graves que estão acontecendo.

Viomundo – E o vazamento seletivo de depoimentos confidenciais e investigações de maneira seletiva?

Paulo Pimenta —  É um atentado ao estado democrático de direito. O presidente Lula foi chamado para dar depoimento na condição de informante numa investigação na Polícia Federal. Isso aconteceu numa terça-feira. Na quinta-feira, o Jornal Nacional divulgou o depoimento na íntegra.

A cópia que o presidente Lula e os seus advogados receberam tinha marca d’ água. Ou seja, a reprodução seria identificável.  Existia só uma segunda cópia que estava de posse da Polícia Federal. Se não foi o presidente Lula que entregou o seu depoimento para o Jornal Nacional, quem entregou?

O vazamento criminoso de documentos sigilosos de posse da Polícia Federal,  Ministério Público Federal, Supremo Tribunal Federal, com o objetivo claro de direcionar de maneira seletiva uma investigação ou uma suspeição de uma pessoa não pode ser tratado como algo natural.

Isso tem que ser criticado. Nós não podemos imaginar aquela visão romântica que muitas vezes as pessoas têm da Receita Federal, PF, MPF, do próprio Judiciário, de que todos são isentos, imparciais… Só que essa não é a realidade.

Alguns delegados, auditores, juízes têm postado nas redes sociais algumas coisas que, do meu ponto de vista, estão completamente em desacordo com as suas prerrogativas funcionais.

Alguns exemplos. Delegado da Polícia Federal postar charge do ministro Cardozo na forma de cachorro. Ou na coleira como se fosse a presidência da República. Montagem do presidente Lula algemado. Da presidenta Dilma vestida da palhaça. Ou uma foto de treinamento de tiro ao alvo em que a foto da Dilma é o alvo.

Se agir assim está dentro das prerrogativas funcionais e essas pessoas conduzem as investigações, ok. Então , eu me reservo o direito de condenar. Mas  eu quero que o ministro Cardozo me diga que isso está dentro das prerrogativas  funcionais dos agentes públicos.

Viomundo – No caso da Zelotes, ao deixar de investigar a linha principal, os agentes públicos – no caso, aqui a Receita Federal – não estariam prevaricando?

Paulo Pimenta – Vamos ver o ministro tem a dizer. Uma coisa é certa: a gente não pode aceitar  que existam investigações que interessam e investigações que não interessam pelo fato de não ter cobertura da grande mídia.

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Jotage

19/01/2016 - 20h43

Lendo os comentários, noto que a grande maioria condena o PT pelo descalabro do governo Dilma.
É lógico que ela foi eleita presidente com os votos do PT, mas com as atitudes que tem tomado mantendo no cargo de ministro da justiça um mal intencionado – que nunca foi PT, lembremos que Delcídio também se elegeu com votos do PT – e com a condução da política econômica com a transparente intenção de ajudar bancos e pouco se lixando para o povo, só se importando em estar bem com a mídia.
Ela é tão inocente, que acha que se agradar a mídia vai ter aprovação popular.
Estamos chegando a um ponto que, se o PT não abandonar o governo (Dilma e caterva) será a destruição do partido.
Tenho conversado com amigos petistas, como eu, que afirmam categoricamente que irão abandonar o PT se a condução da política econômica, o assassinato de figuras expnenciais do PT, como Dirceu, Genoino, Gushiken (este latu sensus), sem que aja o menor reação por parte do ministério da justiça.
É melhor tentar um partido mais a esquerda, mesmo sabendo que é uma ficção, do que votar no PT e ter um governo do PSDB.

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FrancoAtirador

19/01/2016 - 13h47

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PF-PRR/DF: A Ramificação da OC/PPP.
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Responder

mineiro

18/01/2016 - 21h08

se quiser mesmo investigar de verdade , tava investigando. nao investiga é porque gente do partido travado , traidor e covarde é mais facil. ta na cara que tem que botar para correr esse b……………….m…………………..desgraçado , traidor , tucano min.da justiça. pergunta para esse poste maldito de pres. porque esse tucano min. da justiça ainda ocupa esse cargo. se esse deputado tiver peito e coragem , coisa que eu nao acredito ,tem que botar o dedo na cara é desse poste salafrario de pres. e nao desse fantoche dos quintos dos infernos , que é esse min. da justiça. é dela que tem que pedir explicaçoes , porque ela ainda mantem no governo um traidor serviçal da direita. porque ele é intocavel. nao adianta se o pais esta nessa situaçao é por culpa dessa pres. sim.

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Ninguém

18/01/2016 - 14h27

Vai perder tempo, se esperar alguma resposta que preste do ministro Quinta-Coluna.

Agora, o que não dá para entender é a Dilma insistir em dar tiro no pé. Teimosia tem limite. Paciência também.

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Wladimir Teixeira

18/01/2016 - 12h02

querem saber que INFILTRAÇÃO é essa na PF MPF PM e mídia corporativa? investiguem os contratos e contatos dessas instituições e seus representantes com os SIONISTAS ISRAELENSES

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Nelson

18/01/2016 - 11h33

A inação do Sr Cardoso já está se tornando suspeita por demais. De tão suspeita, já está se transformando, e eu gostaria de não pensar nesta hipótese, em colaboração com a direita. Será que não é isso?

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    Roberto Locatelli

    18/01/2016 - 11h44

    Exatamente, colaboração com a direita. A pergunta é: que vantagem ele leva nisso?

    Julio Silveira

    18/01/2016 - 16h02

    Meu caros Nelson e Locatelli, apesar de minha estupefação com demonstração de inaptidão desse ministro, as vezes penso que temos sido cruéis demais com ele e de menos com que lhe permite assento a seu lado no ministério.
    Ele tem sido o que a Dilma permite que seja.

    Hirlan

    19/01/2016 - 15h25

    Ei Nelson Vc tem razão. Também acho, isso é muito suspeito. É claro que o ministro Zé é um homem inteligente. Por isso, é estranhissimo. Ele é omisso. Assim, sem fazer nada. Ferra o PT.

    Hirlan

    19/01/2016 - 15h29

    Colegas. O ministro Zé ten culpa por ser omisso. E não ajudar em nada o PT. Mas foi colocado por quem? Isso mesmo. Se ela não tivesse gostando do desempenho dele, já tinha trocado, não acham?

Álvares de Souza

18/01/2016 - 11h25

Não há que fazer. O governo da Presidenta Dilma é de uma fraqueza atroz. Suas escolhas são as piores possíveis. Eu perdi todas as esperanças na sua capacidade de enfrentar as forças que se unem contra o povo e a democracia no Brasil, e que se voltam, perversa e cruelmente, contra ela própria e seus entes mais próximos, filha, netos e ex-marido.

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Manoel Teixeira

18/01/2016 - 00h39

A Presidente colocou Cardozo como Ministro da Justiça, logo, está tudo certo. Não há razão para o deputado reclamar.
Se ela quisesse mudar algo, bastaria colocar Requião como Ministro da Justiça, já que no PT só tem cagão.

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    Julio Silveira

    18/01/2016 - 07h25

    Pior que isso está virando um consenso. Logo, um partido incapaz de estar a frente de um poder tão grande e importante para o Brasil.
    Ontem mesmo conversava com um colega que não se pode chamar de ante petista e ele me dizia, que se todos que estão no poder estão por obra do governo do PT, se quase todas a indicações para cargos da magistratura superior vieram do PT, e ele não mudou nada, foi por que optaram por aderir ao pior da politica, e nem dá para se dizer que são apenas muito incompetentes. Sinceramente fiquei sem argumentos.

Euler

17/01/2016 - 22h24

Paulo Pimenta é um dos poucos deputados federais do PT que não se curvaram à pressão da mídia golpista. Infelizmente, não só a PF, o MPF e a justiça são pautados pela mídia, serviçal da Casa Grande, mas também boa parte dos deputados, dos ministros, e às vezes a própria presidenta. O Brasil precisa romper este cerco midiático mafioso, pois é ele que sustenta as operações teleguiadas e seletivas da Lava Jato e outras, sempre contra o governo federal, o PT, Lula e Dilma. A Zelotes original já foi praticamente arquivada, pois atinge os amigos do rei. Estão invertendo tudo. Aqueles que não foram eleitos para coisa alguma, caso dos barões da mídia e de parcela da burocracia estatal, querem mandar e desmandar mais do que aqueles que foram eleitos para representar a população brasileira. Estão destruindo não só a democracia brasileira, e minando a Carta Magna, como também destroem a economia do país, seus setores estratégicos, como a Petrobras, e com isso criam um clima de pessimismo e vira-latismo, todos a serviço da Casa Grande colonialista e dos grupos de rapina internacionais. Num país sério, os barões da mídia e essa corja que se formou enquanto estado paralelo (setores da PF, do MPF e da justiça) já estariam na cadeia.

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