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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Posar de vítima, a tática dos poderosos no Brasil

23 de janeiro de 2014 às 15h40

Autores da Geração Editorial, no lançamento do Operação Banqueiro; da esquerda para a direita, William Novaes, Palmério Dória, Leandro Fortes, Paulo Henrique Amorim, Amaury Ribeiro Jr. e Rubens Valente.

por Luiz Carlos Azenha

Minha primeira experiência com a tática foi no interior de São Paulo. Jovem repórter, vi quando um candidato a prefeito de Marília, originário da Arena, o partido de sustentação da ditadura militar, apareceu todo engessado na véspera da eleição e foi acusado de forjar uma surra para despertar compaixão dos eleitores.

Perdeu.

Na campanha eleitoral de 2010, o candidato tucano José Serra foi acusado de exagerar e distorcer as consequências de um protesto contra ele organizado por mata-mosquitos do Rio de Janeiro, que haviam sido demitidos do Ministério da Saúde quando da passagem de Serra pelo cargo.

Jogou a culpa pelo incidente no PT e se disse atingido por um objeto de um quilo.

Foi o famoso episódio da “bolinha de papel”.

Perdeu.

Mas, nem sempre é assim com a tática empregada de forma recorrente pelos poderosos: eles demitem, perseguem, espionam, montam dossiês, promovem assassinatos de reputação.

Denunciados, posam de vítimas. Sustentam que estão sendo perseguidos.

É o que pode acontecer com o jornalista Rubens Valente, da Folha de S. Paulo, que lançou recentemente o livro Operação Banqueiro.

Segundo Valente, o grupo Opportunity foi à Justiça para dizer que o livro é parte de um complô dos adversários do banqueiro Daniel Dantas.

Curiosamente, o próprio livro trata desta tática, adotada por outro personagem: o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que se disse vítima de uma espécie de “estado policial”, bisbilhotado por arapongas em seu próprio gabinete.

As denúncias de Mendes, amplamente repercutidas pela mídia, especialmente pela revista Veja, foram essenciais para criar na opinião pública a comoção necessária à desmoralização de policiais e juizes envolvidos na Operação Satiagraha, posteriormente anulada integralmente pelo STJ.

Não há, de acordo com Rubens Valente, um só fiapo de prova de que Gilmar de fato foi espionado — ele que deu dois habeas corpus ao banqueiro Dantas em período recorde.

A tática de gritar “perseguição” também serve para desviar a opinião pública do debate essencial.

No caso, o conteúdo do livro Operação Banqueiro, que é bombástico e requer investigações.

Nele, Valente demonstra que Daniel Dantas tinha instrumentos — quais, exatamente, não se sabe ainda — para chantagear lideranças do PSDB.

Que um lobista contratado pelo banqueiro tinha interlocução tanto com o então presidente Fernando Henrique Cardoso quanto com o governador/candidato ao Planalto, José Serra.

Num momento específico retratado pelo livro, o objetivo de Dantas era evitar que houvesse uma investigação dos cotistas do Fundo Opportunity nas ilhas Cayman, o refúgio fiscal do Caribe.

A lei proibia que residentes no Brasil tivessem cotas nos fundos que haviam sido formados para participar das privatizações.

Rubens Valente teve acesso a mais de mil mensagens apreendidas pela Polícia Federal, em 2008, na casa de Roberto Amaral, à época lobista do banqueiro.

Trecho do livro:

Também é possível compreender o que seria essa “Operação Copa do Mundo”, pois há inúmeros e-mails tratando do assunto. Amaral pressionava o governo a não dar apoio a um esforço que foi iniciado pelo procurador Luiz Francisco e que passava pelo BC [Banco Central] e CVM [Comissão de Valores Mobiliários], para obter as listas de cotistas do Opportunity Fund nas ilhas Cayman, na berlinda após as revelações do ex-sócio de Dantas, [Luiz Roberto] Demarco. A estratégia de Amaral foi dizer a FHC que, se as listas fossem enviadas ao Brasil, nomes ligados ao tucano viriam a público. Uma nota de imprensa havia dito que Luiz Francisco aumentaria esse esforço após a Copa do Mundo de 2002, daí o nome “operação”. Ao escrever “disse que já tinha agido”, Amaral comunicava a Dantas que o presidente da República estava a par do assunto e teria feito algo não compreensível.

Valente narra que os petistas Milton Temer e Luiz Gushiken se empenharam em obter as listas. Temer, então deputado federal, levou o caso ao presidente do BC, Armínio Fraga.

Não deu em nada.

O autor de Operação Banqueiro conta que Roberto Amaral escreveu um e-mail ao presidente Fernando Henrique Cardoso, em seu esforço lobista, com o seguinte teor:

A estratégia é diabólica: os alvos são os que mandei no último fax e os supracitados [em amarelo]. A fonte é ótima. Já existe uma lista na CVM, inodora, insípida e incolor. São os bois de piranha. Aberto o precedente, aí o L.F. [Luiz Francisco] faz a festa e um carnaval junto, cronometrado para estourar depois da Copa do Mundo, a melhor época, na avaliação do estado maior encarregado desta operação. Contribuição de petista para petista. Sugiro a você, com empenho, que encarregue o ministro Malan de desmontar com urgência esta armação, felizmente descoberta a tempo. O Armínio, embora parente do presidente da CVM, não é indicado para tratar deste caso. Converso pessoalmente. O juiz nas ilhas Cayman de posse do pedido da CVM, se for enviado, libera os nomes dia 15 de junho.

Qual era o instrumento de pressão disponível ao banqueiro? Segundo Valente, o envolvimento de outros bancos em operações parecidas com as do Opportunity, dentre os quais o Pactual, o Matrix e o Garantia, cujos nomes constavam de uma lista apreendida pela Polícia Federal na casa do lobista.

Escreve Rubens Valente:

Trata-se de uma lista de bancos que teriam fundos de investimento no exterior nos mesmos moldes do Opportunity. A estratégia de Amaral era dizer ao Planalto que, caso as listas de cotistas do Opportunity viessem para o Brasil, as dos outros também chegariam, com desfecho imprevisível. Havia um interesse especial sobre o banco Matrix, que teria um impacto “trinta” vezes maior do que o caso Opportunity.

O Matrix, como observou o comentarista Mardones em outro post, tinha papel essencial no ninho tucano. Acompanhem este trecho de uma reportagem da IstoÉ sobre o fim do banco, fechado em 2002:

O Matrix foi fundado em 1993 por um elenco de estrelas das finanças, como Luiz Carlos Mendonça de Barros, que viria a se tornar ministro das Comunicações, e André Lara Resende. Na equipe original de sócios aparecia também o ex-presidente do Citibank no Brasil, Antônio Carlos Boralli, além de Moritz e Ruhman, ex-executivos do Safra, e Tom, que havia trabalhado no Garantia. Em pouco tempo, eles passaram a chamar a atenção pelos bons negócios que faziam com dinheiro do banco, em apostas em juros, câmbio e títulos da dívida. Ganharam muito dinheiro. Só em 1995, o banco lucrou R$ 43,3 milhões – uma impressionante rentabilidade de 44% do patrimônio líquido. Logo o banco foi cercado por boatos de que desfrutava de informação privilegiada, pela presença de Mendonça de Barros e Lara Resende em seus quadros, mas nada foi provado. Mesmo depois da saída de Mendonça de Barros, em outubro de 1995, e de Lara Resende, em agosto de 1997, o banco continuou cercado de boatos. E também continuou a ganhar dinheiro. “O Matrix teve uma das tesourarias mais ganhadoras do mercado, com ou sem o André Lara e o Mendonça de Barros”, diz Erivelto Rodrigues, da consultoria Austin Asis.

Como Rubens Valente diz no vídeo abaixo, o que corria risco de implodir, fossem feitas as revelações que alguns petistas pretendiam e que Dantas tratou — com sucesso — de evitar, era todo o processo da privataria tucana. Ele começa explicando o que era o fundo Opportunity nas ilhas Cayman:

Rubens Valente: A ameaça de “entregar” o Matrix from Luiz Carlos Azenha on Vimeo.

Em tese, a publicação do livro deveria desencadear novas investigações.

Mas antes, presumo, assistiremos ao espetáculo de um banqueiro todo-poderoso, capaz de mover mundos e fundos, se dizendo vítima de “perseguição pessoal” de um simples jornalista.

Nunca faltará “mídia amiga” para vender ao público que a “perseguição” ao banqueiro por parte de um repórter — risível, considerando o poder de cada um — é fato. Coisas do Brasil!

Leia também:

Valente: “Existem segredos gravíssimos que a República precisa conhecer”

Globo assumiu versão da ditadura sobre assassinato de preso. Depois, teve amnésia

 

25 Comentários escrever comentário »

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Lucas G.

24/01/2014 - 12h33

Fazer-se vítima é também uma tradição da esquerda: jogam a culpa nos radicais pelas suas derrotas; assumem compromissos absurdos, como o de fazer uma Copa do Mundo da FIFA no país e quando o povo protesta só pode ser por manobra da direita golpista; repetem que a midia escrita e a TV já não tem a mesma importância que tinham no passado e no entanto elas seguem sendo a fonte dos maiores e mais importantes ataques à esquerda oficial.

Responder

Paulo

24/01/2014 - 11h35

Prezado Azenha,
Concluí minha pesquisa de mestrado na UFABC em 2013, com uma pesquisa sobre a contrainformação produzida por blogs nas eleições de 2010, dentre eles o seu.
Gostaria de lhe enviar a dissertação. Como faço?

Abs,

Paulo

Responder

    Luiz Carlos Azenha

    24/01/2014 - 12h08

    [email protected]

    Paulo

    25/01/2014 - 17h46

    Trabalho enviado.

    Abs,

    Paulo

Luiz (o outro)

24/01/2014 - 11h03

Acho que o Rubens Valente tem conhecimento que seu emprego na Folha já tem os dias contados… espero sinceramente que o livro lhe renda uma boa grana para poder continuar suas investigações com tranquilidade…

Responder

Mardones

24/01/2014 - 10h33

Olha, com tantas provas contra os do lado de lá: trensalão, mensalão do PSDB, meia tonelada de pasta base de pó acolá, liberação do inquérito 2474 pelo Lewandowski, Operação Banqueiro e etc.

E muitas notícias boas do lado de cá: inadimplência em queda, geração de milhares de emprego, aumento do salário mínimo, do financiamento habitacional, solidariedade ao Genoíno etc e etc, fica muito difícil a Dilma não levar essa.

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    Hell Back

    25/01/2014 - 23h23

    Mas: “o preço da democracia é a eterna vigilância.”

FrancoAtirador

24/01/2014 - 02h47








“…uma foto minha em companhia de Gilmar Mendes e do cientista político Luiz Felipe Dávila*, que comanda o Centro de Liderança Pública (CLP).
Deve ter coisa de dois anos.
Mendes e eu participamos, em mesas distintas, de uma seminário promovido pelo CLP sobre estado de direito e democracia.
Encontramo-nos no intervalo, ele indo embora, encerrada a sua intervenção, e eu chegando.

É isto mesmo: eu gosto é de gente honrada, como Mendes e Dávila.

Sem contar que a foto ficou bacana. Fiquei até bastante distinto…”
(Reinaldo Azevedo, na Veja Ôn Láini; 31/07/2012)

*Luiz Felipe d’Avila, Diretor-Presidente do CLP (http://www.youtube.com/user/clporg).
Sócio da SYKUE Bioenergya, empresa que produz energia elétrica utilizando cultura de biomassa (Capim Elefante).
É “member at large” do Conselho do Human Rights Watch.
Foi editorialisa dos jornais Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo.
Em 1996, fundou a Editora D’Avila, responsável pela publicação de revistas como República (http://revrepublica.com.br) [depois, “Primeira Leitura” (http://migre.me/hyUVW)] e Bravo.
Em 2002, a Bravo foi vendida para a Editora Abril, onde tornou-se diretor superintendente.

I Fórum CLP – 7 e 8 de junho de 2010
[Os ‘especialistas’ da Globo estavam lá]

Participaram do evento Claudio Haddad (*), Gilmar Mendes, Pérsio Arida, Pedro Parente, Marcos Lisboa, Justine Thody (The Economist), José Pastore, Raul Velloso e Eduardo Gianetti da Fonseca.

(*) Cláudio Haddad é graduado em Engenharia Mecânica e Industrial pelo Instituto Militar de Engenharia do Rio de Janeiro.

Possui mestrado e doutorado em Economia pela Universidade de Chicago.

Atuou no Bando [SIC] de Investimentos Garantia S.A. [!!!]

(http://www.bcb.gov.br/htms/Deorf-i/r199812/Anexc.asp?idpai=)
(https://br.credit-suisse.com/sobre/cs_brasil.aspx)
(http://www.bndespar.com.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_en/Galerias/Download/studies/ensa10-5.pdf)
(http://veja.abril.com.br/arquivo_veja/capa_11091996.shtml)
(http://veja.abril.com.br/200598/p_122.html)
(http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/0659/noticias/ele-nao-pode-nem-ouvir-falar-no-garantia-m0053858)
(http://migre.me/hyUrV)

e foi diretor do Banco Central do Brasil, de 1980 a 1982.

É Presidente do Insper – Instituto de Ensino e Pesquisa (antigo IBMEC de São Paulo) e Presidente do Conselho de Administração da Veris Educacional S.A.

É membro do Conselho de Administração do Grupo Abril, da BMFBovespa, da Ideal Invest S.A., do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto Unibanco.

É também membro do Visiting Committee da Harvard Business School, do Conselho Consultivo Internacional do Capital Group e Presidente do Conselho do David Rockfeller Center da Harvard University para o Brasil.

(http://www.iee.com.br/noticias/category/claudio-haddad)
.
.
Leia também:

(http://www.viomundo.com.br/politica/brizola-neto-francoatirador-e-anonimo-a-campanha-pelo-voto-distrital.html)
.
.

Responder

Marat

23/01/2014 - 22h02

Azenha, parabéns! O Viomundo está cada vez melhor.
Bem, sobre o PIG, aquilo que se esperava: Um silêncio ensurdecedor, daqueles silêncios extremamente educativos!
Agora, como fazer a justiça burguesa colocar a venda e fazer Justiça???

Responder

souza

23/01/2014 - 20h51

a coisa é seríssima.
o monstro tem mais que sete cabeças.

Responder

Luís Carlos

23/01/2014 - 20h25

A canalhada sempre recorre ao cinismo e demagogia para parecer ser o que não é. Dão tapa e escondem a mão como todo covarde e mau caráter faz.

Responder

Leandro

23/01/2014 - 19h16

O lula que o diga. Sempre se fez de vítima quando a coisa apertava. Lembram da famosa frase sobre o mensalão “Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o país. “

Responder

    Mário SF Alves

    24/01/2014 - 21h26

    Se você estivesse no lugar dele, faria o quê?
    ____________________________
    Quem sabe a resposta trás à tona seu espírito de estadista. Vai lá, não custa tentar. Prometo que vou ser condescendente.

J Tavannes

23/01/2014 - 18h39

Eles não dormem, quando dormem deixam alguém de plantão ininterruptamente, incansavelmente arquitetando, armando, queimando pestanas, maquiavelicamente se passando por confiáveis amigos, mas,prontos para dar o bote. Porisso todo cuidado é pouco, eles sabem que pelas vias normais e legais não lhes restaram uma única chance que seja.

Responder

Alf

23/01/2014 - 18h36

Estou ansioso pelos debates eleitorais. Quem vai atirar a primeira pedra? A Dilma não tem bala na agulha. Ela tem uma Bazuca!

Responder

    Mauro Bento

    23/01/2014 - 21h14

    Tentando ser justo não podemos menosprezar a pretensa e arrogantemente auto atribuída
    COMPETÊNCIA,quebrou metas de inflação,quebrou o país tres vezes indo tres vezes ao FMI,conseguiu multar os consumidores pelo prejuízo de seu Apagão,…

    Mário SF Alves

    24/01/2014 - 21h29

    Competência???

    __________________________
    Na dúvida, pergunte ao Clinton, o Bill.

lulipe

23/01/2014 - 16h40

Zé Dirceu, Genoíno, João Paulo Cunha que o digam….

Responder

    Bonifa

    23/01/2014 - 17h57

    Ter ideal, ter caráter e ter votos não significa ser poderoso no Brasil, infelizmente. Poderoso é quem tem grana, de preferência grana adquirida de forma desonesta.

    renato

    23/01/2014 - 18h23

    Exatamente..
    Porque os que não ostentam, são silenciosos,
    e trazem consigo a bondade de quem convive com
    eles.
    Não precisam de exposição..

    Luís Carlos

    23/01/2014 - 20h22

    Bonifa
    Lulipe e Leandro (acima) apenas tentam fugir, desviar o foco da bandalheira tucana sobre qual jamais tiveram única palavra de reprovação, mas sempre obsequioso silêncio.

    Lucinda

    25/01/2014 - 10h12

    Os petistas não são vítimas, são réus condenados, mas nos bancos que eles sentaram muitos outros políticos devem se sentar, ou então o MP e judiciário ficarão desacreditados. Simples assim.

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