VIOMUNDO

Dos dez cursos mais concorridos do vestibular da USP, seis não possuem nenhum estudante negro

04 de janeiro de 2016 às 18h28

usp-alunos

USP Imagens

“Apenas a elite de São Paulo e do país tem acesso a USP”, afirma estudante

Hugo Nicolau, aluno de geografia, elaborou estudo sobre composição racial da instituição. Pesquisa demonstra que negros são maioria apenas entre trabalhadores terceirizados na universidade.

04/01/2016

por Nadine Nascimento, no Brasil de Fato, sugestão de Luana Tolentino 

 “Onde estão os negros na USP? publicado no blog “Desigualdades Espaciais”, é um conjunto de mapas que apresentam a distribuição racial na instituição. Feito pelo estudante de geografia Hugo Nicolau, o estudo constatou que o número de negros na Universidade de São Paulo é ainda muito desproporcional em relação a sociedade em geral.

“A Universidade de São Paulo é branca, seus alunos e professores são brancos, os negros são minoria na USP. Os negros só são maioria entre os funcionários terceirizados da limpeza, segurança, alimentação, com condições de trabalho precárias, atraso de salários e outros ilegalidades denunciadas inúmeras vezes pelos funcionários e pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP”, diz estudo que retrata a distribuição espacial de negros na Universidade de São Paulo.

Através da análise de dados do vestibular da Fuvest, da prefeitura de São Paulo e do IBGE, Nicolau distribuiu por cor a comunidade da USP no mapa da universidade.

Em 2010, 77% dos alunos que ingressaram na universidade eram brancos, 10%  pardos, 10% asiáticos e apenas 2% eram pretos.

“Em todos os cursos, com exceção da geografia, tem mais asiáticos do que negros. Os asiáticos correspondem a 1% da população de São Paulo, os negros são 34%, e na USP a quantidade de negros, pardos e pretos, se equivale a de asiáticos”, diz Nicolau.

Ainda que todas as universidades federais do país e algumas estaduais tenham implementado o sistema de cotas, a USP reluta em implementar o programa que reserva vagas para negros e conta apenas com uma bonificação na nota final.

O Inclusp e o Pasusp dão um acréscimo de 15% na nota da Fuvest para alunos do ensino público e 5% a mais se o estudante estiver incluído “no grupo PPI” – raça ou cor preta, parda ou indígena .

Para Nicolau, “um bônus de 5% no resultado final do vestibular é insignificante, pois não é suficiente para igualar o nível de quem teve um ensino fundamental e médio deficientes com quem sempre estudou nas melhores escolas”.

“A minha conclusão é que essas políticas de inclusão são só para mostrar que existem, mas elas não funcionam. A relutância em implantar o sistema de cotas está no fato de ser uma universidade elitista, assim, apenas a elite de São Paulo e do país tem acesso a USP”, conclui o estudante.

Ainda segundo o estudo, dos dez cursos mais concorridos do vestibular da instituição, 6 deles não possuem nenhum negro. Para tentar mudar esse quadro, grupos como Ocupação Negra e a Frente Pró-Cotas cobram da universidade uma posicionamento positivo em relação ao sistema de cotas.

O Ocupação Negra, criado em 2015, realiza intervenções durante as aulas e a ideia, segundo Marcelo Moreira, é “primeiro fazer a denúncia do racismo institucionalizado e cobrar de maneira forte da instituição, dos professores e dos alunos de que a gente precisa das cotas raciais como uma ferramenta de ação afirmativa para modificar essa situação. Queremos cotas raciais, e quando falamos isso, a gente quer o ingresso de no mínimo 35% de alunos negros na USP.”

Moreira critica o fato da universidade ter se tornado “um centro de poder e um privilégio para poucos”. Para ele, “desde de sua criação, a USP era destinada para uma elite branca, para que esta tenha a dominância intelectual do nosso país. Nesses 80 anos isso só cristalizou. Há uma forte resistência dessa elite para que haja a manutenção desses privilégios”.

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Investigação VIOMUNDO

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Joas rodrigues

07/01/2016 - 11h13

Se não tiveram competência para entrar que fiquem de fora.
Agora uma coisa eu garanto, muitos brancos pobres também não entraram, isso ninguém fala.
Quem não tem capacidade para passar no vestibular, seja branco, negro, amarelo ou de qualquer outra raça que fique de fora.

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Cleide

07/01/2016 - 10h36

Concordo plenamente com Luis carlos calsavara.
A deficiência está no ensino fundamental.

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Raul Silva

06/01/2016 - 16h09

Não há como negar que o racismo é forte não só na USP, mas em todo o país. Contudo o próprio estudo apresenta uma contradição:
(…)”um bônus de 5% no resultado final do vestibular é insignificante, pois não é suficiente para igualar o nível de quem teve um ensino fundamental e médio deficientes com quem sempre estudou nas melhores escolas.”.
Se um aluno, seja ele de que raça for, teve um ensino deficiente, essa lacuna precisa ser preenchida antes do ingresso em um curso superior de alta dificuldade, pois, senão, o resultado será a evasão do aluno por não conseguir acompanhar o curso.

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ricardo lima de paula

06/01/2016 - 13h23

Penso que Devemos Melhorar a Escola Pública, porém, enquanto isso NÃO Acontece, Devemos Estipular Cotas e outros Meios para Mudar a Realidade Existente !!! Só Porque ALGUNS são Mais ou Menos Dotados de Facilidade para o Aprendizado ou para Sacrifícios, isto NÃO Significa que TODOS Devam Pagar !!! Os Filhos de Classe Média Alta ou rica NÃO são separados assim !!!! Todos Bem Dotados ou Não são aprovados em vestibulares e concursos públicos que CONVENHAMOS, Tbm são um capítulo a parte !!!! Pq num País em que a maioria, mal consegue falar e escrever no Próprio Idioma, existem concursos públicos que Exigem Fluência em 3 ou 4 Idiomas !!!! Se Isso Não é Discriminação !!! Então o que é ??????

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abolicionista

06/01/2016 - 10h17

O racismo em cursos como os de medicina, engenharia e direito atinge níveis impressionantes. Afinal, são esses os cursos que formam parte significativa da elite brasileira. Negro não entra. Só se for para limpar o chão, e olhe lá…

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Neide

06/01/2016 - 07h08

Seria mais interessante uma pesquisa sobre a má gestão da educação. A Falta de escolas públicas de qualidade, que capacitem os negros, brancos, ou qualquer cor para concorrerem a estas vagas.
Completamente contra Cota Racial. Conheço Negros inteligentissimos aqui no RJ, inclusive um dormia cinco horas de sono para estudar…. É um grande homem. Sem síndrome de Vira lata.

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    Xico Gomes

    06/01/2016 - 11h55

    È… para um Negro chegar ha algum lugar ” Tem que ser um GRANDE HOMEM” e temos que conviver com a Mediocridade dos Profissionais “Brancos” que estão enriquecendo atoa neste País, sem a minima condição profissional em diversas áreas. Tu não acha isso estranho??

jonas

06/01/2016 - 00h54

“Um bônus de 5% no resultado final do vestibular é insignificante, pois não é suficiente para igualar o nível de quem teve um ensino fundamental e médio deficientes com quem sempre estudou nas melhores escolas”.

O bônus não é de 5% , o bônus é de 20% para negros que tiveram um ensino precário e 15% para brancos que tiveram as mesmas condições de ensino
Ora bolas , Negro = Branco ? 15=20 ?
Não vejo argumentos para poder explicar esse tipo de coisa , e na minha opinião 20% de aumento na nota ja é bastante coisa.
o correto seria mudar o modelo de ensino no fundamental e o no ensino médio , pq se um aluno ingressa numa universidade tendo sua nota aumentada em 40 , 50% ele nao vai conseguir concluir o curso , NÃO SE NIVELA ALUNO DENTRO DE FACULDADE.

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Peter

05/01/2016 - 18h38

Um pouco da “História do Racismo” e que não está nos livros didáticos: os portugueses foram os primeiros a escravizar os africanos e os espanhóis os primeiros a exportar para as Américas…

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Joao

05/01/2016 - 16h54

Isso é uma absurdo pois eu morei minha vida toda no bairro mais criminoso de Ribeirão Preto e nunca fui influenciado por ninguém é nunca estudei em escola particular, passei em duas faculdades na USP é hoje me formo. Vocês tem que parar com essa síndrome de vira lata e buscar a estudar e batalhar pelo que querem, agora não venham falar que negro não passa na usp, porque isso não existe, cada um tem o que busca, e o sol nasce para todos, basta apenas uma palavra, querer.
Feliz 2016 a todos.

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Ademariio

05/01/2016 - 15h34

Não podemos simplesmente achar que apenas a aprovação no Vestibular vai garantir o desempenho acadêmico satisfatório de um aluno. E nem concluir que um aluno que não teve acesso a um bom curso fundamental e médio não tenha condições de superar as dificuldades iniciais que certamente terá. O potencial cognitivo de uma pessoa não é medido pela aprovação ou reprovação em concursos.

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    KAÑOTÃO

    05/01/2016 - 23h53

    PQP, graças a Deus alguém por aqui tem uma opinião sensata.

jc

05/01/2016 - 14h03

Real problema: escola pública de péssima qualidade; má distribuição de renda no país.
A matéria deveria ser: 90% dos alunos da usp são ricos, pois aí mostraria a realidade, uma vez que além dos negros (pobres), brancos pobres também não tem muita chance.
Cotas fazem entrar, mas permanecer só quem tem bagagem.
Escola pública boa já!

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Luh Souza

05/01/2016 - 12h51

É só fazendo o ‘teste do pescoço” para perceber que não existe coerência desde 14 de maio de 1888,

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Otto

05/01/2016 - 12h26

É que para a esquerda caviar negro só tem que fazer “humanidades”, para depois repetir o jogralzinho burro-stalinista…

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Rodrigo

04/01/2016 - 23h49

Acho curioso o texto constatar um problema, que acredito que realmente exista, mas sequer abordar a real causa do problema, que é o precário ensino de base no país.
O autor até menciona o péssimo ensino fundamental e médio, mas foca como solução somente arrombar as portas das universidades.
Ora, se o ensino fundamental e médio foram ruins, qual será o desempenho desse jovem na universidade?

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FrancoAtirador

04/01/2016 - 21h57

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USP
FUVEST 2015
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PERFIL ÉTNICO DOS CALOUROS DOS 10 CURSOS MAIS CONCORRIDOS
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CURSO………………………… | [email protected] [email protected] | [email protected] | [email protected] | Indígenas | VAGAS
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Arquitetura (S. Carlos) | 84,4% | ZERO | 13,3% | 2,2% | ZERO | 45
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Artes Cênicas (Bacharel) | 73,3% | ZERO | 26,7% | ZERO | ZERO | 15
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Audiovisual | 71,4% | ZERO | 17,1% | 11,4% | ZERO | 35
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Medicina (Ribeirão) | 77% | ZERO | 20% | 3% | ZERO | 100
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Psicologia | 78,6% | ZERO | 10% | 11,4% | ZERO | 70
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Publicidade e Propaganda | 77,6% | ZERO | 16,3% | 6,1% | ZERO | 49
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Engenharia CIvil (S. Carlos) | 78,3% | 3,3% | 10% | 8,3%| ZERO | 60
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Jornalismo | 83,3% | 6,7% | 8,3% | 1,7% | ZERO| 60
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Medicina (SP) | 78% | 1,3% | 10% | 10,7% |ZERO | 300
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Relações internacionais | 80% | 3,3% | 13,3% | 3,3% | ZERO | 60
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Total USP | 8.282 (74,7%) | 391 (3,5%) |1.642 (14,8%) | 733 (6,6%) | 32 (0,3%) | 11.080
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(http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/06/nao-ha-calouros-pretos-em-6-dos-10-cursos-mais-concorridos-da-fuvest.html)
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