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Beatriz Cerqueira: Samarco comanda a apuração do crime que cometeu, controlando políticos, vítimas e jornalistas

18 de novembro de 2015 às 15h40

Mariana e Bia Cerqueira

Novos capítulos da tragédia em Mariana

por Beatriz Cerqueira

Após 12 dias do rompimento das duas barragens de rejeitos da Samarco/Vale/BHP, em Mariana, a Assembleia  Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizou a primeira audiência pública, em Belo Horizonte, para debater o assunto.

Em tese, seria o momento para que deputados estaduais ouvissem os atingidos pela tragédia e órgãos do governo e de fiscalização colhessem informações para os trabalhos da Comissão Especial recém-criada.

Mas a audiência se transformou na mais demagógica atividade protagonizada por nossos políticos.  Era uma audiência conjunta com a Câmara dos Deputados.  Mas estes, após tirar fotos, dar entrevistas à imprensa e falar primeiro, foram embora.

Tiveram o mesmo comportamento no dia anterior, na cidade de Mariana, durante a audiência da Comissão de Direitos Humanos: falaram, não ouviram ninguém e foram conduzidos pelas mãos bondosas da Samarco para conhecer o local da tragédia.

Na capital mineira, assistimos a uma deprimente reunião conduzida de modo a não ter efeito nenhum, apesar do esforço isolado de alguns deputados comprometidos com os movimentos sociais.

Ouvimos o Ministério Público falar em “acidente” e se vangloriar de um Termo de Ajustamento de Conduta com o qual a mineradora rapidamente concordou para melhorar sua imagem e cujos termos todos desconheciam. Ouvimos também o representante do Governo de Minas dizer que não podemos “satanizar” as mineradoras.

Poucos prestaram atenção quando uma convidada explicou que a empresa errou ao calcular os possíveis impactos do rompimento de barragem, considerando que atingiria apenas o distrito de Bento Rodrigues e não outras dez localidades, além de toda a bacia do Rio Doce.

Poucos se importaram com a fala do representante dos trabalhadores, que denunciou desconhecer as condições a que estão submetidos os 20 trabalhadores que estão na linha de frente da barragem de Germano, que está trincada.

Aliás, quem informou quantos trabalhadores  estavam desaparecidos foi a empresa, livremente, sem qualquer fiscalização, pois ela impede que se tenha acesso à informações detalhadas.

Os deputados não entenderam nada do que o Padre Geraldo disse, de que é preciso respeitar os atingidos, os verdadeiros protagonistas dessa história. Só que, infelizmente, os protagonistas foram os próprios deputados, na maioria preocupados em falar e não em ouvir.

Enquanto isso o povo atingido está nas mãos da Samarco, que atua livremente em Mariana e região.  Onde está o Estado? Ainda não chegou. A Samarco já está presente, contrariando o lamento da deputada desavisada que reclamou da suposta ausência da Samarco. O desconhecimento da realidade leva a equívocos assim.

A Samarco está mais presente do que nunca: demitiu no dia anterior à audiência 90 trabalhadores terceirizados, dos quais muitos já eram vítimas da tragédia, pois suas famílias perderam tudo na lama.

A Samarco controla todo o acesso aos atingidos que estão nos hotéis e pousadas da cidade, impedindo que se organizem livremente.

A Samarco reúne-se com os atingidos sem nenhuma proteção do poder público. Nas horas das infinitas reuniões com a população, não há Ministério Público nem Governo do Estado presentes e os movimentos sociais são impedidos de acompanhar.

A Samarco controla a cena do crime e chega a selecionar quais jornalistas podem entrar. Assim como controla o acesso da população ao Comando de Operações da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros, que funciona dentro da sede da empresa.

Livremente, a Samarco chantageia a cidade de Mariana pelo poder econômico e pelos impactos que a suspensão do seu trabalho na região causará, como se não tivesse que dar assistência à cidade por todos os prejuízos causados.

Pelo que se vê, muita gente já está dando retorno ao investimento que as mineradoras fizeram nas eleições de 2014. Na verdade, quem está pagando esta conta é povo!

Beatriz Cerqueira é presidenta da CUT/MG e coordenadora-geral do Sind-UTE/MG

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Jose Francisco da Silva

17/01/2016 - 12h04

não há crime perfeito; sedo ou tarde; quem matou o culpado é descoberto; a morte da criança; em Petrolina; chocou a sociedade; tanto é; que profissionais especializados. estão , buscam desvendar o crime; os dados pessoais.coletados pelo serviço publico; ajudaria; esclarecer o caso.

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Renato Lazzari

20/11/2015 - 20h29

Beatriz Cerqueira pergunta: “Onde está o Estado?”
Ora, prezada Beatriz, o Estado estava lá, nessa audiência pública, nas pessoas dos Srs. Deputados Estaduais. Sim, esses mesmos que mais falam do que ouvem, que mais se mostram do que querem ver. Tá vendo o que dá votar em privatista? Sabe o “bonitão” ou a “bonitona”, cheirosos, bem arrumados que, em suas campanha prometem “levar a eficiência das empresas privadas ao setor público”, os que defendem que o estado é desprezível e incompetente (mas que mesmo assim pagou um dinheirão para se eleger em cargo público)?

Talvez, pelo destaque dos acontecimentos, esse momento seja propício à reflexão: será que colocar privatista em cargo público não é colocar raposa para tomar conta dos ovos?

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Celso Lima Godinho Júnior

19/11/2015 - 09h03

Um ESCÁRNIO !!!
Por um vazamento de óleo nos Estados unidos, a petroleira BP, responsável pelo crime foi multada em 26 BILHÕES DE DÓLARES e condenada a REPARAR os danos, além de INDENIZAR os prejudicados… Aqui, diante desse CRIME de consequências indelineáveis, nos damos por satisfeitos com uma multa pífia de 1 bi (de reais), muito inferior ao lucro mensal (que declaram, pois após a privatização ninguém sabe REALMENTE a quantidade de riquezas que está sendo SANGRADA para fora de nosso país). Quanto a reparar a DEVASTAÇÃO ambiental e à indenização às vitimas, NADA se fala…

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Sérgio

19/11/2015 - 03h22

Filme Catástrofe à moda Tupiniquim. (só que é real). Filme começa com a traição de um
famoso intelectual do lugar que entrega de bandeja ao inimigo invasor as maiores riquezas da região e da população do lugar. O final já é o mais manjado. Nem uma bomba, nem mesmo um terrorista aposentado em fim de carreira. É um filme nosso, do nosso jeito tupiniquim de ser, termina em barro. As Vidas em Segredo caladas, engasgadas e sufocadas de lama.

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Luís CPPrudente

18/11/2015 - 20h27

Infelizmente a Samarco controla um monte de deputados estaduais de Minas Gerais, controla porque financiou a campanha eleitoral desses deputados estaduais mineiros. Só espero que essa empresa da Vale não consiga controlar os votos de muitos deputados federais e que a Câmara dos Deputados crie uma cpi para investigar, sugerir e criminalizar essa empresa chamada Vale.

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Urbano

18/11/2015 - 19h06

Mas os quatro poderes bandidos da oposição ao Brasil permite e garante que seja exatamente assim, sem a mínima intromissão dos três Poderes da República. Afinal, quem pode é que manda.

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    Urbano

    18/11/2015 - 22h28

    … permitem e garantem…

Fábio

18/11/2015 - 17h50

Apenas para lembrar.
O Governador de Minas Gerais é filiado e apoiado pelo PT.
TODOS os partidos políticos do Brasil são uma farsa, sem exceção.
Preocupados em garantir “uma boquinha” aos seus apaniguados.

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roberto

18/11/2015 - 17h27

Não se deve “satanizar” a Samarco,pois ela é bem, boazinha. Tem guampa, outfit de microfibra vermelha degradê, rabo com flecha na ponta e cavanhaque fashion.
Mas não tem nada a ver com o satã, que assombra o Malafaia o Cunha , o Feliciano e outros “pastadores’ ,digo, pastores.

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Julio Silveira

18/11/2015 - 16h31

É urgente o resgate do estado para o povo. A vagabundagem e a incompetencia na gestão publica dos bens do estado aliado aos interesses pelas oportunidades para sí,, foi a principal causa da entrega de nossa segurança nas mãos das piranhas do dinheiro pelos privateiros. Gente para eles são só um detalhe, um obstaculo, no caminho de suas multiplicações de fortunas.

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Rafael

18/11/2015 - 16h10

Já devia ter gente presa.

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    Roberto Locatelli

    18/11/2015 - 17h00

    Pois é. Precisamos ficar de olho em cada um dos passos que os protagonistas dão.
    O governo Dilma vai responsabilizar a Samarco?
    O ministério da Justiça vai mandar a polícia federal lá para fazer a perícia, ou a Samarco continuará mandando?
    Como agirão os tucanos? (bem, esses já temos uma ideia de como agirão…)

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