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Bancada do PT na Assembleia detona colega para fazer acertos com Alckmin

15 de março de 2017 às 12h28

Rillo e bancada

Dos 15 deputados do PT na Alesp, 13 votaram no tucano Cauê Macriz (no centro, com Alckmin) para a presidência da Alesp. Da esquerda para direita: João Paulo Rillo, Alencar Santana, Luiz Fernando, Enio Tatto e Zico Prado. A foto na parte inferior da montagem flagra o momento em que Rillo deixa a Comissão de Finanças (está em pé) após ser destituído pela maior parte da bancada do seu partido

por Conceição Lemes

A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) elege nesta quarta (15/03) a nova Mesa Diretora.

Na segunda-feira, por 42 votos a 8, o diretório estadual do Partido dos Trabalhadores aprovou apoio ao tucano golpista que chamou o PT “de bandido”, Cauê Macris, para a presidência da Casa.

Como contrapartida, partidos da base do governador Geraldo Alckmin (PSDB) apoiarão o petista Luiz Fernando Teixeira para a 1ª Secretaria.

É o mesmo acordo que garantiu a eleição (2013) e reeleição (2015) do deputado Enio Tatto (PT) para o cargo de 1º secretário da Mesa de Diretora.

O diretório aprovou também o retorno do deputado estadual João Paulo Rillo às atividades da bancada, das quais estava banido.

Em 7 de fevereiro deste ano, durante reunião convocada pelo líder  Zico Prado, Enio Tatto propôs: Rillo tinha que se retratar publicamente das críticas feitas à bancada e se comprometer a concordar com toda proposta aprovada por ela.

Enio é quem, de fato, comanda a bancada do PT na Alesp. Já foi seu líder duas vezes.

A retratação refere-se a fatos ocorridos em 20 de dezembro de 2016, na Comissão de Orçamento e Finanças, durante a votação das contas e do orçamento do governo paulista.

20151021-184209-ID_SESSAO=11956-PDF-001A proposta de Enio significava para Rillo:

1) voltar atrás em tudo o que havia dito, um suicídio político;

2) ter de votar a favor de projetos de lei que contrariam a própria pauta do PT.

Por exemplo, o PL 1133/2015, que permitiu a Alckmin destinar à Previdência estadual recursos da exploração de petróleo e gás, que deveriam ser aplicados em Educação e Saúde.

Esse projeto recebeu o sim  de 64 deputados paulistas, dentre os quais sete petistas.

Apenas três votaram não: Rillo, Carlos Neder (PT) e Raul Marcelo (PSOL).

Diante da inexequibilidade da proposta de Enio, o deputado José Américo apresentou outra: remeter a discussão do caso Rillo ao Diretório Estadual. Apoiaram-na o próprio Rillo, Neder e Geraldo Cruz.

Nenhuma surpresa no resultado.

Por 11 a 4, venceu a de Enio.

Na sequência, Enio propôs banir Rillo das reuniões e atividades da bancada.

Os mesmos 11 fiéis escudeiros acompanharam-no.

Em ordem alfabética: Alencar Santana, Ana do Carmo, Beth Sahão, Luiz Fernando Teixeira, Luiz Turco, Marcia Lia, Marcos Martins, Professor Auriel, Teonílio Barba e Zico Prado.

No dia, Rillo desabafou: “Foi um golpe. Estou sendo punido por desempenhar o papel para o qual fui eleito, que é o de fazer oposição ao Alckmin”.

Na verdade, o segundo golpe em menos de dois meses. O primeiro foi em 20 de dezembro de 2016.

COMO  BANCADA MUDOU DE POSIÇÃO PARA FACILITAR A VIDA DE ALCKMIN

“O uso do cachimbo faz a boca torta”, diz o ditado popular.

Quem acompanha o Viomundo sabe que há tempos denunciamos a complacência da bancada do PT na Assembleia Legislativa com o governo do golpista Alckmin.

Estranhamente, nem mesmo quando os tucanos jogaram sujo para inviabilizar e, depois, derrubar a presidenta Dilma, essa magnanimidade cessou.

A condescendência entortou tanto a boca da bancada petista, a ponto de ela ter recorrido à tática em que os tucanos são imbatíveis: acusar o outro de malfeitos que eles próprios praticaram.

Foi o que fez contra Rillo, em 22 de dezembro de 2016, na nota intitulada “A prática é o critério da verdade”, que o Viomundo publicou aqui.

Mas, como a função da verdade de verdade é aparecer, vamos aos fatos:

*A Comissão de Finanças, Orçamento e Planejamento é por onde passam muitos projetos da Assembleia antes de ir a plenário, dentre os quais orçamento e contas do governo.

*O PT tinha dois titulares na comissão – Rillo e Teonílio Barba – e dois suplentes — Beth Sahão e Geraldo Cruz.

*A bancada decidiu pela tática de obstrução da votação do orçamento de 2017 e das contas de 2015.  

* No orçamento, a estratégia foi pedir ao relator, deputado João Carlos Caramez (PSDB), que lesse o seu relatório na íntegra. E, em seguida, a bancada do PT ler o seu voto em separado.

*No caso das contas, a estratégia foi solicitar também a leitura do relatório, além de pedir vista. A cada solicitação, se ganhava um tempo. Cada bancada tinha direito a quatro pedidos de vista.

*No dia 20 de dezembro, uma terça-feira, bateu o desespero na base governista. No auge da frequência, havia apenas 53 deles na Casa!  Para aprovar os projetos em questão eram necessários, no mínimo, 48 votos da situação.

*Se a leitura do voto em separado nas contas passasse da meia noite do dia 20, ele só poderia ser publicado no Diário Oficial do Estado e votado na quinta — 21 de dezembro.  O governo quase certamente não teria os votos e a Assembleia não poderia entrar em recesso.

*A base governista apelou então para Enio Tatto, que passou a defender o fim da obstrução e que voto em separado do PT fosse dado como lido.

* Em 20 de dezembro, a maior parte da bancada petista mudou de posição, passando a fechar com Enio.

“A continuidade da leitura do voto da bancada do PT forçaria o governador a atender pautas da oposição”, argumenta Rillo.

“Do contrário, não teria as contas aprovadas num dos momentos mais delicados de sua carreira política”, prossegue.

“Alckmin, seu secretário do Planejamento [Marcos Monteiro] e seu cunhado [Adhemar Ribeiro] apareciam em delações como recebedores de propina.”

“Era também a nossa oportunidade de cravar no Alckmin — o ‘santo’ — que ele havia sido delatado na Lava Jato pela Odebrecht e pedir a sua investigação”,  acrescenta.

Assim sendo, Rillo discordou da mudança de posição da bancada, foi à tribuna e criticou-a publicamente.

Seu discurso durou 14min9. Assista.

De 1 min21 a 7min6 , ele detalha  o motivo da obstrução e elenca a pautas em jogo. Entre elas, derrubar o veto de Alckmin ao projeto de lei aprovado pela Alesp que pôs fim ao uso de bala de borracha pela Polícia Militar (PM) em manifestações.

De 7min7 a 11min1, Rillo trata das emendas parlamentares e as negociações individuais em detrimento de pautas coletivas:

O governo não paga o recurso o ano inteiro. Sabe por quê?

No final do ano, ele precisa da base organizada aqui. Esses 2 milhões que você [deputado] já indicou, que é obrigação dele pagar, ele não paga.

Aí, eles vêm negociar aquilo que já é teu por direito. Aí, o que acontece?

Neste momento mesmo, tem vários deputados indo ao Palácio [dos Bandeirantes] conversar com o líder do governo para negociar uma medíocre emendinha de 100 mil reais, 50 mil reais para a sua base eleitoral.

Aí, em troca desse pixuleco, que para mim é uma forma de corrupção ideológica aqui dentro, ele abandona uma luta estrutural de valorização de carreira, de valorização do Estado, dos institutos de pesquisa, por exemplo.

De 11min2 a 14min9, deixa claro que não abriria mão de ler o voto em separado da bancada do PT:

Um partido de esquerda não se degenera pela sua base, se degenera pela sua cúpula, pela sua burocracia.

 (…)

Vou obstruir até o último segundo, porque a minha pauta não é obscura. A minha agenda não é oculta.

A minha pauta é a pauta de vocês [referindo-se aos representantes de vários movimentos sociais presentes]. É uma pauta honesta…

(…)

Eu não sou da base do Alckmin. Eu estou eleito para fazer oposição.  Quem foi eleito para fazer oposição, tem que fazer oposição.

VAIADO, IRMÃO DE DEPUTADO FEDERAL PARECIA TUCANO FALANDO CONTRA PETISTA

A deputada Analice Fernandes (PSDB) vestiu a carapuça:

Eu estava no meu gabinete e fiquei bastante aborrecida de ver o João Paulo Rillo falando dessa maneira com os parlamentares, dizendo que aqui que negocia para receber emendas lá no Palácio. Isso não é verdade.

Quem recebe pixuleco é o tesoureiro do PT e não gente da base do governador Geraldo Alckmin, um governo sério, honrado e que trabalha.

Só rindo. São 58 segundos.


Na sequência, foi à tribuna o petista Luiz Fernando Teixeira, que está no seu primeiro mandato como deputado estadual.

Sua credencial é ser “irmão do Paulo Teixeira”, deputado federal, este sim com reconhecida história no Partido dos Trabalhadores.

Parecia até tucano falando de petista, tal a virulência contra Rillo:

(…) Primeiro gostaria de falar da última fala que teve aqui.

 Uma imbecilidade sem tamanho. Um deputado se colocando na Casa contra a sua própria bancada. Quem conhece o deputado João Paulo Rillo não precisa falar mais nada.

Então, eu quero em nome da bancada do Partido dos Trabalhadores me desculpar com todos os deputados dessa Casa.

Quero me desculpar [é vaiado na galeria] porque o que foi dito aqui nada mais é do que demagogia barata, expondo deputados da base aliada, expondo deputados da oposição.

 Nós não podemos aceitar um ator vir aqui. Basta ter duas pessoas na plateia, que começa essa onda, e uma onda que as urnas que, com certeza, vai (sic) parar.

Esse ataque vai de 33s a 1min31.

No finalzinho (de 10min25 a 10min49), Luiz Fernando ataca de novo:

Quero permissão ao meu líder Zico Prado para trazer aqui um protesto nas falas do deputado que aqui me antecedeu, que não creio, tem sido digno de estar nas fileiras do Partido dos Trabalhadores. 

Seu discurso durou 10min49.

A maior parte, tró-ló-ló.  Muito triste para um partido que teve grandes quadros.

Até então, Rillo não nominara ninguém. Mas, diante da agressão, contra-atacou:

 O deputado Luiz Fernando é um quinta-coluna dentro do PT, porque foi o ano inteiro essa complacência.

(…)

Então, em vez de vir aqui e defender o PT, que foi atacado pela deputada do PSDB, ele preferiu me atacar.

(…)

Não vai ser um deputado sem história política, sem história de luta, que vai dizer o que eu devo e o que eu não devo fazer.

Veja a réplica.

A NOITE EM QUE O PT ALVEJOU O PRÓPRIO CORAÇÃO; MASSACRE DE 26 MINUTOS

A reunião da Comissão de Finanças ocorreu em seguida, na terça à noite, 20 de dezembro.

Estava tudo pronto para passar o trator.

Na presidência, em vez de Vaz de Lima (PSDB), Estevam Galvão (DEM), relator da CPI da Merenda, que isentou o deputado tucano Fernando Capez, presidente da Assembleia e demais políticos denunciados no escândalo.

À esquerda, diferentemente de outras reuniões da comissão, a bancada do PT em peso, inclusive Enio Tatto, que não arredou pé um instante. Controlava tudo no olhar.

À direita, a base do governador Geraldo Alckmin.


O vídeo registra 26min23 de uma sessão durou cerca de 30 minutos.

Atente aos momentos cruciais:

3s: Barba pede a suspensão dos trabalhos por 2 minutos.

52s, Rillo:(…) Vocês deviam aprender com o golpe que a Dilma tomou…

2min22: Galvão reabre os trabalhos.

2min27, Rillo:

Não fui comunicado pelo líder da bancada, mas tomei conhecimento que tem em suas mãos [do deputado Galvão] um requerimento, pedindo a minha destituição da comissão.

É um direito da bancada do PT me destituir. Só que tem que cumprir o regimento.  Só pode me destituir depois de publicada a nomeação do outro. Portanto, amanhã serei destituído. Hoje, não. Hoje, não há mais tempo. Tem um regimento, espero que essa Casa cumpra. Que não passe de todos os limites que já passou.

[PS do Viomundo: O regimento interno proíbe destituição e nomeação sumária sem ato do presidente da Assembleia e publicação no Diário Oficial do Legislativo. Está no artigo 27:Os membros das Comissões Permanentes e Temporárias serão nomeados por Ato do Presidente da Assembleia, publicado no órgão oficial, mediante indicação escrita dos Líderes de Partido, ressalvada a hipótese do §3º.  do artigo anterior.]

2min59, Galvão: Vossa excelência pode então fazer um requerimento, pedindo uma questão de ordem e será respondido.

3min9, Rillo:

Já estou fazendo uma questão de ordem. Eu espero que todos que estão aqui não compactuem com isso.

(…)

Infelizmente, a bancada do PT – e não são todos, tenho fazer justiça — mudou de uma hora para outra. E agora está sendo mais real do que o rei.

(…)  Isso é histórico na história do PT.

Em nenhuma Casa legislativa o PT fez isto: Destituir um membro porque ele quer fazer oposição ao governo.

5min54, Zico:

Presidente, não é uma situação simples, mas foi uma decisão tomada não só por esse líder. Vossa excelência tem aí em mãos. Foi assinada por 11 deputados, porque a bancada do PT foi desrespeitada no plenário. Foi achincalhada no plenário. E a bancada do PT com toda a história que tem aqui na Assembleia Legislativa não pode e não deve ser tratada como foi. Porque nós temos uma história de oposição nessa Casa.

(…)

EM CONLUIO COM O PSDB, BANCADA RASGA REGIMENTO E DESTITUI RILLO

6min47, Galvão: Gostaria de perguntar a Vossa excelência, como líder do PT, se vossa Excelência tem algum requerimento verbal a apresentar?

6min52, Zico: Verbal, não. Nós temos um documento já protocolado…

6min54, Galvão: Não…A respeito do relatório em separado?

6min57, Zico: Do relatório, não, porque nós (olhando para Enio) ainda não discutimos com a bancada sobre isso.

7min47, Caramez:

Quero fazer o meu testemunho de todos esses anos, a  bancada do PT sempre fez uma oposição séria, íntegra e ética acima de tudo, em que pesem as nossas diferenças.  Mas nunca houve tanto desrespeito aos deputados como houve no orçamento na pessoa do deputado João Paulo Rillo.

Caramez elogia a bancada do PT

Luiz Fernando, Marcos Martins, Beth Sahão, Enio Tatto, Zico Prado e Barba (na fileira da frente), Marcia Lia e Alencar Santana (atrás) assistem o tucano João Carlos Caramez (sozinho, na foto à direita) elogiar a bancada do PT e detonar Rillo (o último da bancada, à direita) 

8min49, Rillo:

A sua crítica é um elogio. O senhor está atestando que eu estou correto na minha tática, que prova as barbaridades feitas pelo governador Geraldo Alckmin.

11min: O trabalho é suspenso pelo presidente “para ver se consegue entendimento”. A senha o golpe se consumar o golpe.

14 min47: Galvão reabre o trabalho sem cumprir os 5 minutos combinados.

15min35, Carlão Pignatari (PSDB): (…) é completamente viável a troca do membro do Partido dos Trabalhadores agora; está escrito aqui.

15min36, Rillo: Sem publicação, não (…) A regra é clara.

15min50, Pignatari: Aí, vai ter que ser uma decisão do presidente da comissão. Eu entendo que pode ser substituído.

15min58, Rillo: (…) Acabou de ser feita uma interpretação que abre precedente perigoso contra a oposição. A bancada do PT vai concordar com isso? A bancada do PT, que nunca esteve em peso para obstruir e hoje está em peso aqui?

17min16, Galvão: Eu gostaria de perguntar ao líder e aos membros da comissão se nós vamos dar continuidade à leitura do voto em separado?

17min26, Zico: presidente, eu queria aqui, toda a bancada…

17min36, Barba: Presidente, nós estamos dando por encerrada a leitura do relatório. Decisão da bancada do Partido dos Trabalhadores e minha como membro da comissão.

17min50: Galvão deixa os petistas falando sozinhos, e determina o encerramento da leitura do voto em separado do deputado Rillo.

18min13: Galvão dá a palavra indevidamente a Zico, que tenta mostrar autoridade: A decisão é da bancada e não do deputado Teonílio Barba sozinho. É uma decisão da bancada.

Atropelo atrás do outro, sempre em prejuízo de Rillo, que faz um discurso emocionado:

Há 23 anos milito nesse partido. Hoje, talvez seja o dia político mais triste da minha vida.  Ser humilhado por uma bancada covarde, que acabou de me tirar o direito de obstruir um governo corrupto do senhor Geraldo Alckmin. 

(…)

Senhor presidente, o que essa Assembleia fez hoje, rasgando o regimento, é vergonhoso para oposição e situação (…)

 Traidores, golpistas, situação e bancada do PT. Vocês perderam a legitimidade para falar de golpe.

Aos 22min56, o tiro final. Barba e Beth Sahão (até então suplente) votam pelo PT o relatório das contas do governo do relator.

À custa de violência política, rasgo do regimento interno e colocação em segundo plano de compromissos com os movimentos sociais, está entregue o acordado com os golpistas.

Na quarta, 21 de dezembro, a Alesp aprovou com exatos 48 votos mínimos necessários contas e orçamento do governo Alckmin.

É o pior da história do governo do Estado de São Paulo. Além de R$ 900 milhões a menos que o de 2016, ele sofreu um corte de R$ 1,7 bilhão nos investimentos.

“Prova concreta daquilo que há anos eu denuncio”, lamenta Rillo. “A maior parte da bancada é condescendente com o governador Geraldo Alckmin.”

Em nota apoiada pelos mesmos 11 deputados que depois seguiram Enio Tatto no banimento a Rillo,  a bancada diz que faz, sim, “oposição inflexível a Alckmin” e, ainda, acusa Rillo (o negrito é nosso):

(…)antes dos fatos ocorridos em 20/12, o deputado João Paulo Rillo um dos membros efetivos do PT na Comissão, abriu mão de dois mecanismos de obstrução. O primeiro, dando como lido parte do voto em separado da Bancada do PT e o segundo, abrindo mão do quarto pedido de vistas a que tínhamos direito.

Estas atitudes contrariaram a orientação da Bancada e facilitaram a tramitação dos projetos (contas e orçamento) que atendem ao interesse do governo.

“É mentira que dei por lido o relatório”, rechaçou, de pronto, Rillo. “É mentira também que abri mão do quarto pedido de vistas que a bancada do PT teria direito.”

Mal sabia que justamente o governador, por linhas tortas, iria ajudar a verdade aparecer.

Deu no Estadão de 29 de dezembro de 2016: Alckmin decide congelar tarifas de trem e metrô em R$ 3,80.

O congelamento era de araque.

Ação popular - nomes-001Em 6 de janeiro de 2017, em nome da bancada do PT na Assembleia, o deputado Alencar Santana entrou com ação popular com pedido de liminar contra o aumento.

O juiz do plantão jurídico deferiu a liminar.

Em 9 de janeiro, a ação foi distribuída. No dia 11, a Justiça confirmou a decisão.

Ao ler a íntegra da ação popular, duas constatações: todos os deputados estaduais assinavam, exceto Rillo; o deputado federal José Mentor também era signatário.

Por que a presença de um deputado federal e a ausência de um estadual?

“O Mentor figurou por uma questão prática”, diz Alencar.

“Como precisávamos de advogados que não fossem assessores da Assembleia,  comentei com o Mentor se ele e algum advogado do escritório dele poderiam nos ajudar nessa ação. Ele se colocou à disposição.”

“Tentei falar com o deputado Rillo. Liguei uma vez, não consegui. Não me senti à vontade de colocar o nome sem falar com ele”, diz. “Outros deputados, eu coloquei, mesmo não conseguindo falar.”

— Por que não insistiu? — questionei.

— Liguei uma vez, não consegui. Parei. Ponto. Não me esforcei.

— Seria retaliação ao que aconteceu na Comissão de Finanças, em 20 dezembro do ano passado?

— Se um dia eu tiver a oportunidade de esclarecer isso, eu gostaria. Você acompanhou o que aconteceu na segunda à noite [dia 19 de dezembro]?

— O que aconteceu no dia 19?

— Eu não vou te falar. Eu gostaria que você procurasse saber.  Depois, eu estou à sua disposição…Mas eu posso falar agora se você quiser.

— O que aconteceu? – insisto.

Alencar começa a discorrer sobre a obstrução do orçamento e das contas do governo Alckmin e faz duas acusações a Rillo.

A primeira, se refere a algo que supostamente teria  acontecido na “quarta ou quinta-feira da semana anterior” (a 19 dezembro):

A bancada tirou nas contas pedir vistas nas contas do governador, para impedir que avançasse na comissão. Barba, Rillo e a Beth (Sahão) já tinham feito cada um o pedido vista que cada um tinha direito. A cada um se ganhava um tempo. Faltava o deputado Geraldinho[ Geraldo Cruz]… Se o Geraldinho pedisse vista, a gente ia ganhar salvo engano mais cinco dias.

— Eu não gosto de trabalhar com fofoca, não é do meu feitio falar mal de ninguém. O deputado Rillo pediu para o Geraldinho abrir mão.

A outra incriminação alude a suposto episódio que teria acontecido em 19 de dezembro, segunda-feira, na Comissão de Finanças, que àquela altura tratava das contas do governo:

— Os nossos deputados estavam orientados a fazer obstrução. Estavam lá o Zico, Rillo e Barba.

— Em um determinado momento,  foi proposto que se abdicasse mão de metade e da discussão do relatório pela bancada do PT. Eu estranhei. Eu estava ao lado do Barba. Perguntei, Barba é isso mesmo? Nós vamos abrir mão inclusive da discussão? O Barba disse: “o Rillo está propondo”.

Esta repórter intervém:

— O senhor está dizendo que o deputado Rillo propôs isso?!

Alencar reage:

— Peço que você vá atrás do que aconteceu na segunda-feira, dia 19, e depois me ligue.

Alencar repete com outras palavras as duas acusações feitas a Rillo pela bancada do PT na nota de 22 de dezembro.

Afinal, onde estavam dois momentos citados por Alencar e na nota da bancada?

Fui atrás das gravações. Assisti não apenas as do dia 19, mas todas as da semana anterior.

Comecemos pela discussão sobre o pedido de vista do deputado Geraldo Cruz na quarta, 14 dezembro de 2016.

Nesse dia, aconteceram três sessões ordinárias da Comissão de Finanças.

A que diz respeito ao pedido de vista em questão é a terceira, de 20h05 às 20h2.

Atentem ao vídeo abaixo. Tem duração de 22min45. Mantive-o propositalmente na íntegra, sem edição, para que vejam o que realmente aconteceu.

O presidente da comissão, deputado Vaz de Lima (PSDB), abre a sessão.

À esquerda, inicialmente, apenas Rillo. À direita, deputados da base governista.

Rillo informa que quer protocolar o voto em separado do PT.

Enquanto isso ocorre, o deputado Edmir Chedid (DEM), 2º secretário da Mesa Diretora da Alesp, queixa-se do orçamento da Casa.

Zico diz que deu os parabéns para o tucano João Caramez, relator do orçamento.

Para vergonha alheia, Zico Prado repete: “A gente ouviu o deputado João Caramez, que fez um trabalho…eu quero cumprimentá-lo, já fiz outras vezes”.

Aos 13min34, Vaz de Lima começa a encaminhar o acordo sobre o pedido de vista da sexta-feira:

Nós temos as contas do governo, que não é só do governo, mas de todo o Estado, com um pedido de vista até sexta-feira.

Eu tenho que convocar para sexta-feira [16 de dezembro] a comissão pra gente dar sequencia. Ao longo deste período da tarde, conversamos bastante e estamos chegando a um entendimento que nós precisamos da homologação, deputado Rillo, deputado Barba, pra gente tirar isto da frente.

Este entendimento tem que ser feito com toda a comissão e publicamente, porque é assim que faz acordo político, transparente, às claras, da seguinte forma:

*A presidência não convocaria a reunião de sexta, porque é animus da bancada do PT na sexta-feira vir aqui o seu membro e pedir vista.

*Então, nós só viríamos aqui na sexta-feira para este ato: abrir com quórum, o integrante da bancada do PT pediria vista e finish.

*Não se faria mais nada. E prorrogaríamos isso para segunda-feira.

*Estamos caminhando para o seguinte entendimento. Não convocaríamos para a sexta, convocaríamos já para a segunda-feira no horário que nós combinarmos e o PT abriria mão de pedir vistas, porque já teria cumprido o seu papel.

* Então, se todos estiverem de acordo, nós vamos tirar as contas da frente agora. OK?

*Vamos convocar só para segunda-feira no horário que nós definirmos agora.

* Estão de acordo com isso?

*Ótimo.

Ou seja:

O quarto pedido de vistas do PT aconteceria na sexta-feira, 16 de dezembro.

Caberia a Geraldo Cruz, suplente do PT na comissão.

Porém, o deputado teria que ir até a Assembleia apenas para pedir vistas e jogar a pauta para segunda-feira, 19 de dezembro.

Foi feito, então, um acordo com o aval de todos os deputados do PT na comissão.

Vaz de Lima dando como certo o pedido de vistas do PT na sexta, convocou a reunião direto para a segunda-feira seguinte.

— O que aconteceria se tivesse havido a reunião na sexta, Geraldo Cruz pedisse o quarto pedido de vistas a que o PT tinha direito?

A reunião da sexta seria interrompida por conta do pedido de vista. Ponto. Morreria aí.

Nada, portanto, de quatro a cinco dias a mais, como disse Alencar a esta repórter.

A segunda acusação de Alencar teria ocorrido no dia 19, cuja sessão começou às 15h30.

Em pauta, as contas de Alckmin.

Primeiro, é lido o voto do relator, o deputado Orlando Bolçone (PSDB). Durou 1h18.

Em seguida, Rillo e Barba dão início à leitura do voto em separado da bancada do PT.

São três vídeos. O que está abaixo é o terceiro. Dura 1h07. Começa com Barba lendo. Vai das 18h30 até o final.

Aos 25min42, Barba pausa, para mudar de página.

Vaz de Lima aproveita e diz que já está pensando em convocar reunião para o dia seguinte.

Nessa altura, aos 25min57, chega o deputado Alencar, que cumprimenta Barba e Rillo.

Aos 36min47, Caramez pede aparte a Barba e solicita suspensão do trabalho por 3 minutos, “para a gente dar uma conversadinha aí”.

Oposição e base governista vão para a mesa.

Do PT, Barba, Alencar e Rillo. Aos 38min35, chega o deputado Luiz Turco.

Ficam lá 26minutos e 53 segundos. Nesse período, não há o áudio.  Na altura de 1h03, Vaz de Lima anuncia o acordo.

Se tiverem paciência, acompanhem esses 26min53 finais, tendo em mente que Alencar acusou Rillo de abrir mão da metade da leitura do voto do PT e da discussão.


Saltam à vista que Alencar:

*fica mais tempo junto à mesa, confabulando outros deputados, que o próprio Rillo.

* tem até momento a dois com Caramez, inclusive cochicho no ouvido do tucano.

Alencar e Caramez

À 1h03 do vídeo abaixo, Vaz de Lima anuncia:

A ideia é a seguinte: Nós vamos reabrir amanhã às 10h da manhã e vamos começar a leitura na página 111. SE não tiver ninguém da oposição, encerro a e voto.

Todo mundo sai sorrindo.

Diante dessas constatações, pedi esclarecimentos ao deputado Alencar, via sua assessoria de imprensa:

1) Suponho que o senhor estivesse se referindo à sessão do dia 14, quando falou do deputado Geraldinho. Pelo que assisti no vídeo, a decisão em relação ao pedido de vista não foi monocrática. O que aparece é um acordo claro, transparente, proposto por Vaz de Lima, que envolve todos os membros da Comissão e respectivos partidos. Em que trecho exatamente Rillo aparece pedindo sozinho a Geraldinho abrir mão do pedido de vista?

2) Em que ponto da reunião de 19 de dezembro Rillo propõe que fosse dado como lido metade do relatório,  já que no final há um acordo, envolvendo todos os membros da comissão e respectivos partidos, para a sequência dos trabalhos no dia seguinte?

Perguntei também:

3) O senhor disse que ligou uma vez para o Rillo para consultar  se assinaria a ação popular. Em que dia e horário aproximado isso aconteceu? Gostaria de ter acesso ao espelho da ligação.

4) O senhor foi o relator do voto em separado do PT na CPI da Merenda. Por que não incluiu nas conclusões finais  um pedido para o MP apurar a atitude da mesa diretora que aposentou o senhor Jeter Rodrigues Pereira no mesmo dia em que ele depôs na Alesp e admitiu ter recebido propina?

(Jeter era até então funcionário do gabinete do tucano deputado Fernando Capez, presidente da Mesa Diretora da Alesp, cujo 1º secretário é Enio Tatto)

5) Em 21 de outubro de 2015, a Alesp aprovou o projeto que destina recursos da exploração de petróleo e gás natural a Previdência Estadual, com prejuízos à Saúde e Educação. Por que numa audiência pública com professores e estudantes o senhor disse que toda a bancada do PT tinha votado contra se isso não era verdade?

Inicialmente, a assessoria de Alencar disse: “Em breve entraremos em contato”.

Alguns dias depois, enviou a resposta definitiva:

Avaliamos que todas as questões já foram respondidas na conversa do dia 11 de janeiro. Informações adicionais podem ser enviadas à liderança da bancada.

Ao não responder nossas questões, o deputado Alencar Santana responde.

Tudo indica que Alencar e a nota da bancada faltam com a verdade; os vídeos derrubam suas versões.

Agora, responda: quem facilitou a vida da bancada governista?

Em tempo 1: Se alguém encontrar os tais trechos, por favor, nos envie. Não vale vídeo editado ao gosto do chefe de fato ou de fachada, viu? Por precaução, nós copiamos os vídeos, como estavam. Também não editamos para que não pairassem dúvidas sobre o conteúdo.

Em tempo 2:  Alencar deve assumir hoje a liderança do PT na Assembleia, substituindo Zico Prado.

 

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Wake up

16/03/2017 - 14h06

Parabens ao deputado Rillo que honrou a tradicao PTista sem dar apoio a esse governo corrupto.esse dep Luiz fernando ta parecendo um Delcidio paulista.ferro nele PT.expulsa.

Responder

N

16/03/2017 - 10h20

Ah, essa já antiga promiscuidade entre o PT e o PSDB. Não sei precisar o ano, mas lembro que o Sr Aloisio Mercadante andou pronunciando a seguinte pérola: “O PT e o PSDB têm muito a contribuir com a democracia brasileira”.

E ele afirmou essa barbaridade depois de FHC ter feito o que fez em seus oito anos de presidente. Privatizou, por uma ninharia – doou, é o termo exato – quase 70% do patrimônio público pertencente ao povo brasileiro. Detalhe; nem ao menos se dignou a fazer uma mínima consulta a nós, legítimos donos desse patrimônio, para saber se queríamos ou não que fossem entregues as nossas riquezas.

Se isso é democracia, por que vamos criticar Pinochet, Videla, Médici e outros?

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Caracol

16/03/2017 - 04h19

Parabéns, Conceição Lemes!
Excelente trabalho, muito obrigado,

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Mineiro

15/03/2017 - 14h27

É a podridão do Pt tucano golpista vindo à tona. Na me tira da cabeça que os infiltrados bandidos tucanos de dentro do partido colaborou com golpe. Tá aí prova viva de que existe dois pts ,um tucano e o outro o Pt que representa o povo. Entao é o seguinte ,se a parte tucana podre de dentro do partido sair vitoriosa nesse congresso, a parte boa pode cair fora todo mundo, porque o Pt tucano vai assumir de vez a sua face. Ou se elimina de uma vez por toda esse lixo ou esse partido acaba de vez.

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Roberto

15/03/2017 - 12h47

PT paulista fazendo acordo com Alckmin, deputado do PSOL beijando a mão de Aécio, PSTU ao lado dos golpistas… Tá explicado porque a reação contra o golpe está tão fraca. As lideranças de esquerda DE VERDADE nascerão na luta, e não nos gabinetes.

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