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Artur Scavone: Para que serve “A hora mais escura”?


22/02/2013 - 23h02

por Artur Scavone, especial para o Viomundo

A tortura só tem três fins possíveis, não excludentes: 1) o prazer do torturador e/ou 2) forçar alguém a fazer o que não quer e/ou 3)disseminar uma política de Estado intimidatória.

Será que a tortura consegue tudo isso?

Para o primeiro objetivo, pode ou não cumprir seu fim, a depender dos desejos do psicopata e das reações do torturado. Se o desejo do torturador for o sofrimento do torturado e este for um masoquista doentio, o efeito será inócuo, o prazer não se realizará.

Para o segundo objetivo, a tortura pode ou não cumprir seu fim, a depender da subjetividade do torturado. São inúmeros os casos de torturados que desafiaram os torturadores até a morte. Sejam políticos, sejam marginais. E maior ainda o número de torturados que buscaram caminhos de diversificação para não fazer aquilo que o torturador queria. E há, é claro, um grande número que cedeu à vontade do torturador e fez o que era esperado.

Uma possível estatística, difícil de ser conseguida porque são sempre práticas inconfessáveis, comprovaria essa assertiva. Mas é possível estimar um resultado: as periferias das grandes cidades brasileiras são dominadas por delegacias onde se praticam indiscriminadamente a tortura e, apesar dessa prática, não há crimes esclarecidos na quantidade minimamente proporcional à tortura praticada.

Há, portanto, uma constatação desagradável: a tortura aparentemente não funciona. Então porque ela é praticada? Pela terceira razão: disseminar uma política de Estado intimidatória.

Nos EUA alguns se indignaram, com razão, pela estréia do filme “A hora mais escura”, acusando-o de fazer apologia da tortura. O filme constrói um falso dilema: a tortura é eficaz, então é preciso aceitá-la como prática de Estado quando esse estado está defendendo seus cidadãos de ameaças invisíveis. Porém, na realidade, não só o filme esconde a verdade sobre a prática da tortura – ela não é eficaz como pretende – para que ela seja aceita com o terceiro objetivo em vista: intimidar os que se contrapõe a esse Estado. Não fosse assim, Osama Bin Laden teria sido capturado há muitos anos atrás, tamanha a quantidade de árabes, palestinos, e tantos outros, que foram sequestrados e torturados em cárceres clandestinos providos por diferentes países aliados dos EUA.

Há, no entanto, que se ter uma grande preocupação com aqueles que se deixam iludir com as construções psicológicas hollywoodianas, em reforço à política do governo estadunidense. Exemplos tais como imaginar uma criança sequestrada e encarcerada em um lugar onde ela tem ar para respirar por um tempo limitado, você teria preso o sequestrador, que não diz onde está a criança sequestrada: você tortura o sequestrador? Essas hipóteses são tentativas de – a partir de situações absolutamente particulares – construir uma universalização da defesa da tortura desde que seu objetivo seja “legítimo”.

Assim como o pai tem o direito de torturar o sequestrador em defesa da sua criança, o Estado tem o direito de torturar quem ele considerar uma ameça aos seus cidadãos. O Estado se torna o pai pleno de justiça que defende seus filhos dos sequestradores invisíveis. E a política intimidatória se legitima na cabeça de quem aceita esses falsos dilemas.

PS do Viomundo:  O artigo de Artur Scavone é um contraponto à coluna de Contardo Calligaris, publicada na Folha de S. Paulo. Abaixo, na íntegra, o texto de Calligaris.

Artur Scavone é ex-preso político, jornalista e estudante de Filosofia da USP.

*****************************

21/02/2013 – 07h12

Para que serve a tortura?

Contardo Calligaris, na Folha de S. Paulo

A tortura tem, no mínimo, três fins não excludentes: 1) tortura-se pelo prazer enjoativo de quem tortura ou de quem assiste à tortura; 2) tortura-se para que um acusado confesse seu crime; 3) tortura-se para que um acusado revele a existência de um complô, os nomes de seus cúmplices etc. Será que a tortura consegue tudo isso?

1) Para satisfazer o desejo doentio do torturador, a tortura funciona, sempre.

2) A Igreja Católica, por séculos, torturou pecadores para que admitissem seus pecados e, sobretudo, torturou heréticos para que confessassem suas teologias desviantes.

Essa tortura era tão violenta quanto a que fora praticada contra cristãos na época das perseguições, mas o desfecho era diferente. Os mártires cristãos eram torturados para eles renunciarem à religião, e, às vezes, se abjurassem, o suplício era suspenso. Os heréticos eram torturados pela Inquisição para confessarem sua heresia, mas, em geral, a “confissão” não evitava uma morte excruciante.

Será, então, que a tortura funciona para arrancar confissões?

Se você for pai, faça a experiência. Seu filho (ou filha) fez uma besteira comprovada, sem sombra de dúvida, mas você não se contenta em aplicar uma punição e quer que a criança confesse. Se ela reconhecer sua culpa, aliás, a confissão valerá como uma atenuante, enquanto que, se ela insistir em negar o que fez, a mentira será infinitamente mais repreensível do que a besteira inicial.

Sugestão diferente: se você soube que seu filho ou sua filha fez algo que não devia, diga no que foi que errou, deixe pouco espaço de discussão e dê a punição adequada. Depois disso, amigos como antes.

Quase sempre, quando uma confissão é exigida, as crianças mentem com obstinação diretamente proporcional à de seu acusador. Elas fogem assim de uma humilhação radical, em que renunciariam à sua própria subjetividade: desistiriam de ter segredos e aceitariam que a versão do acusador substituísse a versão que elas gostariam de contar como sendo a história delas.

Claro, se você insistir, ameaçando a criança com punições cada vez mais requintadas, a criança talvez “confesse”, mas a confissão será apenas um ato de desistência, em que mesmo o inocente se dirá culpado do jeito que o acusador pede. Em suma, a tortura para obter confissões é um desastre.

Há uma certa beleza moral nesse fracasso: a tortura seria inútil, não ajudaria a chegar à verdade. Ou seja, existe um justificativa prática, “racional”, para aboli-la, além do horror que ela inspira em qualquer um (salvo, obviamente, em torturadores, inquisidores ou deuses vingativos).

3) Infelizmente, esse argumento “racional” só se aplica à tortura que tenta extirpar a confissão do acusado. Quanto ao uso da tortura para obter informações sobre cúmplices, paradeiros escondidos, complôs etc., vamos ter que encontrar razões puramente morais para bani-la, pois, constatação desagradável, ela funciona.

O saco plástico do capitão Nascimento funciona. Os “interrogatórios” brutais do agente Jack Bauer, na série “24 Horas”, funcionam. E, de fato, como lembra “A Hora Mais Escura”, de Kathryn Bigelow, que acaba de estrear, o afogamento forçado e repetido de suspeitos detidos em Guantánamo forneceu as informações que permitiram localizar e executar Osama bin Laden.

Nos EUA, na estreia do filme, alguns se indignaram, acusando-o de fazer apologia da tortura. Na verdade, o filme interroga e incomoda porque nos obriga a uma reflexão moral difícil e incerta: a tortura, nos interrogatórios, não é infrutuosa –se quisermos condená-la, teremos que produzir razões diferentes de sua inutilidade.

Para se declarar contra o uso da tortura no caso deste filme, alguém talvez invoque a moral kantiana e o dever de tratar os homens como fins e não como meios. A esse alguém, proponho um exemplo politicamente mais neutro, parecido com aqueles dilemas morais cuja prática (como descobriu um grande psicólogo, Lawrence Kohlberg) talvez seja a melhor forma de educação moral.

Uma criança foi sequestrada e está encarcerada em um lugar onde ela tem ar para respirar por um tempo limitado. Você prendeu o sequestrador, o qual não diz onde está a criança sequestrada. Infelizmente, não existe (ainda) soro da verdade que funcione. A tortura poderia levá-lo a falar. Você faz o que?

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38 comentários

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Marcio Sotelo: Caligaris não tem direito de distorcer informação sobre tortura « Viomundo – O que você não vê na mídia

13 de março de 2013 às 09h45

[…] Artur Scavone: Para que serve “A hora mais escura”? […]

Responder

Mateus Paul

25 de fevereiro de 2013 às 08h46

O Zizek também escreveu sobre isto. O texto está disponível no blog da Boitempo:

http://blogdaboitempo.com.br/2013/02/08/normalizacao-da-tortura-nao-obrigado/

Responder

Carla

24 de fevereiro de 2013 às 17h11

Quer dizer que existe a tortura do bem e a tortura do mal? Assim como é mal abortar um feto mas é bem matar um assassino, mesmo sem ter certeza que o seja?
Quem decide o que está certo e o que está errado? Segundo a bíblia, se não me engano, quem quer ser deus se dá mal…
Fato está, que o a tortura está sempre errada, ou está sempre certa. As leis “divinas” e humanas devem ser iguais para todos.
Ou, daqui à pouco, veremos justificar a justiça pessoal. Chegamos ao fundo do poço.

Responder

Marat

24 de fevereiro de 2013 às 10h58

Só sei que um país que se diz “ético”, “democrático”, “fiel aos valores morais”, “temente a Deus” etc. etc. etc, bla bla bla… Jamais poderia praticar tortura…

Responder

Francisco

24 de fevereiro de 2013 às 06h34

Em algum lugar, Voltaire esta murmurando para para Luis XVI:

– Eu também criei um monstro!

Responder

FRANCISCO HUGO

23 de fevereiro de 2013 às 21h07

Torturador é assassino!
O pior dos assassinos: vai minando a vida em calculadas doses na expectativa de ver morrer adrede a alma do torturado.
Há no torturador um prazer enorme ao constatar a alma exânime; e aí já não mais importa matar o corpo.
Remember Frei Tito!
Por outro lado, há a imensurável frustração ao ver a vida esvair-se dose após dose de tortura, até a morte, sem que a alma se entregue: Eli, Eli, lamá sabactâni!
Mais ou menos explícitos, os contardo-calligaris, todos, no Brasil são/estão anistiados. (Sinto muito, FrancoAtirador!)
…………………………………………….
Mas, estamos todos perdendo o foco: é do interesse do Departamento de Estado do EEUU que nos esqueçamos de Hiroshima e Nagasaki e aceitemos que o maior ato de terrorismo da História foi o das torres-gêmeas.
Não é a primeira vez que se servem de Hollywood: há sempre uma razão “humanitária” a justificar as atrocidades sem-fim da porca história do imperialismo norte-americano. Índios, negros, latinos, orientais… somos todos uns “animais” cujo barbarian way of life justifica de bombardeios a golpes de estado.
A Hora Mais Escura não é uma luz nas trevas!
Continuo convencido: o caminho até Bin Laden foi o das 30 moedas!

Responder

Artur Scavone: Para que serve “A hora mais escura”? | PapoCatarina

23 de fevereiro de 2013 às 19h55

[…] Artur Scavone: Para que serve “A hora mais escura”? 23/02/2013 19:52:51Enviado por PapoCatarina TweetPublicado por: Luis Nassif […]

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anac

23 de fevereiro de 2013 às 18h53

Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.
Albert Einstein

Gente, eles tentaram arranjar justificação no lançamento de duas bombas atômicas em cidades do porte de Hiroshima e Nagasaki. Civis, crianças, velhos, mulheres foram as vitimas preferenciais. Tortura para os USA é pinto. Se envolvem intere$$es do império os fins justificam os meios. Bush queria o Iraque arranjou motivo mesmo que Saddan Hussein e principalmente o povo do Iraque não tivessem nada a ver com a tragédia das torres gêmeas. E quem se impuser contra os intere$$es, o império tortura e mata. O império tem a mídia para fazer a cabeça dos incautos.
É o petróleo, estupido!

Responder

Fernando

23 de fevereiro de 2013 às 18h47

Yoani disse que foi torturada, e ao ser perguntada por que não tinha hematomas respondeu que os torturadores eram tão profissionais que não deixavam marcas.

Só rindo.

Responder

    Adelino

    24 de fevereiro de 2013 às 13h43

    Tortura por afogamento não deixa vestígios, muito menos hematonas. No livro ‘Tortura nunca mais’, há relatos de torturas com choque elétrico na polpa do dente que, depois de fechado pelo torturador/dentista, ninguém ver nada. Portanto, é melhor não rir.

J Souza

23 de fevereiro de 2013 às 18h30

Um país que “tortura” seus próprios cidadãos para garantir um pouco mais lucro para grandes corporações não vai ter compaixão com estrangeiros…

Responder

Pedro

23 de fevereiro de 2013 às 17h44

O Calligaris pergunta o que eu faria. Uma coisa é certa: não leria mais os seus artigos.

Responder

José X.

23 de fevereiro de 2013 às 16h54

Pois é, e a foto do Obama, ops, Osama, por que não mostraram ?
Quer dizer que mataram o homi mas não tem nenhuma foto, nenhum videozinho pra mostrar ?
Assim fica difícil deixar de levar a sério teorias conspiratórias.

Quanto ao assunto da tortura: que a CIA (e seus congêneres) praticam tortura é algo que nem vale pena perder tempo, todo mundo sabe disso. Agora, querer justificar isso ? É o fundo do poço da degradação moral.

Responder

Urariano Mota: Para que serve a tortura? Perigo à vista « Viomundo – O que você não vê na mídia

23 de fevereiro de 2013 às 16h46

[…] Artur Scavone: Para que serve “A hora mais escura”? […]

Responder

Artur Scavone

23 de fevereiro de 2013 às 16h36

Vamos oas detalhes da resposta ao Sr. Calligaris.
O confronto entre torturador e torturado é um braço de ferro que será ganho por quem tem menos a perder. O marginal pode se dipor a perder dentes, ter as unhas arrancadas, porque se ele revelar o que sabe será liquidado no “micro-ondas” pelos seus pares quando sair. A máfia já foi um bom exemplo, mas o PCC ainda é. Ele perde mais se falar. Mas pode acontecer de ele não ter estrutura para aguentar o tranco e resolva falar.
O sequestrador tem a vida da sua filha em suas mãos, e voce tem a vida dele nas suas. É um jogo. Ele quer R$ 200 mil para que ela seja salva, e ele fique com o dinheiro. Se ele não quiser revelar onde ela está, irá “entregar” sucessivamente diferentes lugares para ganhar tempo, até que ela morra. Ele irá trocar a vida dele pela da sua filha. Voce decide. Será que ele aceita morrer ou perder dentes, unhas, para não entregar o local? Pode ser que sim, pode ser que não. É um risco. Voce irá sair com a equipe da polícia sucessivas vezes sem saber se o local revelado é ou não verdadeiro. Voce decide. Pode ser que ele fale. Ou troque uma pena menor pela informação. Teria sido melhor, ao invés de prendê-lo, seguí-lo e usar sua capacidade de colher informações.
Digamos que o sequestrador agora seja um afegão que sequestrou o embaixador norte americano. O que ele tem a perder? Se ele for um rico comerciante, provavelmente iria confessar. Mas também dificilmente seria um sequestrador. Ele teria muito a perder. Se ele for um afegão que já perdeu irmãos, mora precariamente, é absolutamente pobre, ele tem muito pouco a perder. E terá a ganhar o prazer de ter seu nome venerado pelos demais parentes e amigos por seu heroísmo. Ele morrerá feliz, e não irá falar. Ou terá a contar a sua heróica resistência à tortura, exibindo dedos cortados e unhas arrancadas.É uma hipótese.
Quem já passou pela tortura sabe o terror que ela significa. E sabe também como nós nos surpreendemos com a nossa capacidade de enfrentar situações limites. Quando fui preso e baleado com cinco tiros, imediatamente ameaçaram-me de morte. Inventei no mesmo momento um “ponto” falso, descrevi para mim mesmo a figura de um companheiro fictício, amparado na lembrança de um colega de escola, e passei a “delirar” para contar o ponto que eu tinha, que seria meu último contato com a organização. Lógico, isso adiou a tortura, me fez ganhar tempo. E assim inúmero companheiros inventaram “pontos” e pessoas fictícias para fugir à tortura e ganhar tempo. Muitos também acabaram dando informações. E houve até mesmo quem, como o inominável Cabo Anselmo, passou-se para o lado inimigo, e entregou para ser assassinada sua companheira que tinha no ventre um filho seu. Nesse caso a tortura funcionou. A companheira Aurora Maria Nascimento Furtado foi presa e conduzida à Invernada de Olaria, onde foi submetida à “coroa de cristo”, que consiste em uma fita de aço que vai gradativamente sendo apertada e esmagando paulatinamente o crânio do prisioneiro. Ela não falou. Aurora morreu no dia seguinte à sua prisão.O companherio José Duarte, à época já com bastante idade, foi barbaramente espancado e torturado, e não deu uma única informação. Quando foi perguntado porque não gritava, não xingava os torturadores, disse “porque não sou mal-educado”. E assim centenas de outros exemplos.
A conclusão desta digressão é que a tortura é eficaz sim, como meio de intimidação quando praticada pelo estado ou por alguma seita que queria garantir a fidelidade dos seus associados. E o que o filme “A hora mais escura” pretende é legitimar sua prática pelo Estado. O resto é delírio acadêmico.

Responder

José Paulo Vieira

23 de fevereiro de 2013 às 15h00

Magnífica argumentação do Scavone. Sereno, ponderado, ajuntando fundamentações e, principalmente, convidando ao raciocínio. Ao contrário do articulista do jornalão: apelativo, estereotipador, apelando sempre para o lado contrário da inteligência, dirige-se ao fígado e busca atiçar os piores sentimentos do leitor.
Esse tipo de “literatura” que a nossa grande (só no tamanho) imprensa nos oferece é o melhor indício de que precisamos MUITO da Comissão da Verdade (na verdade, de muitas comissões) para destrinchar o passado –algo tão relevante, posto que a impunidade dos torturadores da ditadura incentiva hoje a brutalidade das polícias, como bem lembrou Artur– e poder recolocar este debate em suas devidas proporções.

Responder

FrancoAtirador

23 de fevereiro de 2013 às 13h30

.
.
Para todo aquele que está sujeito à LEGISLAÇÃO BRASILEIRA,

deve-se, primeiro, obedecer à Constituição do BRASIL:

Constituição Federal – CF – 1988
Título II
Dos Direitos e Garantias Fundamentais
Capítulo I
Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos

Art. 5º…

III – ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
(…)
XLIII – a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem;

(http://www.dji.com.br/constituicao_federal/cf005.htm)

Se, no caso específico, houver descumprimento

da CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL,

aplica-se a Lei 9.455/97:

LEI Nº 9.455, DE 7 DE ABRIL DE 1997 (D.O.U. 08/04/1997)

Art. 1º Constitui crime de tortura:

I – constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental:

a) com o fim de obter informação, declaração ou confissão da vítima ou de terceira pessoa;

b) para provocar ação ou omissão de natureza criminosa;

c) em razão de discriminação racial ou religiosa;

II – submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo.

Pena – reclusão, de dois a oito anos.

§ 1º Na mesma pena incorre quem submete pessoa presa ou sujeita a medida de segurança a sofrimento físico ou mental, por intermédio da prática de ato não previsto em lei ou não resultante de medida legal.

§ 2º Aquele que se omite em face dessas condutas, quando tinha o dever de evitá-las ou apurá-las, incorre na pena de detenção de um a quatro anos.

§ 3º Se resulta lesão corporal de natureza grave ou gravíssima, a pena é de reclusão de quatro a dez anos; se resulta morte, a reclusão é de oito a dezesseis anos.

§ 4º Aumenta-se a pena de um sexto até um terço:

I – se o crime é cometido por agente público;
II – se o crime é cometido contra criança, gestante, portador de deficiência, adolescente ou maior de 60 (sessenta) anos; (Redação dada pela Lei nº 10.741, de 2003)

III – se o crime é cometido mediante seqüestro.

§ 5º A condenação acarretará a perda do cargo, função ou emprego público e a interdição para seu exercício pelo dobro do prazo da pena aplicada.

§ 6º O crime de tortura é inafiançável e insuscetível de graça ou anistia.

§ 7º O condenado por crime previsto nesta Lei, salvo a hipótese do § 2º, iniciará o cumprimento da pena em regime fechado.

Art. 2º O disposto nesta Lei aplica-se ainda quando o crime não tenha sido cometido em território nacional, sendo a vítima brasileira ou encontrando-se o agente em local sob jurisdição brasileira.

(http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9455.htm)

Pelo que se sabe, os dispositivos constitucionais acima citados ainda estão em vigor no BRASIL.

A não ser que um filme produzido em Hollywood, sob o patrocínio do Departamento de Estado dos United States of America,

tenha revogado a CONSTITUIÇÃO FEDERAL e toda a LEGISLAÇÃO INFRACONSTITUCIONAL BRASILEIRA.
.
.
Post Scriptum

Em relação especificamente ao caso hipotético de sequestro,

provavelmente extraído da série policial de TV norte-americana CÍ ÉSSI ÁI MÁIÂMI (ou será que foi “LAW & ORDER” NEW YORK?)

que originou a pergunta simplista, postada na Folha de S. Paulo,

formulada pelo psicanalista ITALIANO radicado no Brasil Contardo Calligaris
(que por sinal é atualmente casado com a atriz Monica Torres da ‘Rede… Globo’),

alguns questionamentos, partindo igualmente de mesmos pressupostos ficcionais:

1) Por que o sequestrador foi preso sem que, antes, a criança sequestrada fosse libertada e estivesse com a segurança física garantida ?

2) Por que o pai ou a mãe da criança não pagaram o resgate?

3) Será que, para esses pais, os bens materiais valem mais do que a vida [email protected] pró[email protected] [email protected]?

4) O objetivo da Polícia era, prioritariamente, prender o sequestrador,
para, depois, de acordo com as circunstâncias imprevistas, pôr a criança seqüestrada em liberdade?

Por fim, tomando emprestado uma ‘Provocação’ do Abujamra, pergunto a esses pais avaros, policiais torturadores, sequestradores psicopatas e psicanalistas néscios:

5) O que é a Vida ?
.
.

Responder

@luisk2017

23 de fevereiro de 2013 às 13h20

Grande abraço ao camarada Artur Scavone.
Belo texto, ótima resposta à “leveza” do Calligaris. Vou compartilhar.

Responder

renato

23 de fevereiro de 2013 às 13h00

Vou demosntrar uma tortura que dá resultado.
Você pôe o cara que estuprou sua filha. ” champinha”
Numa parede, e diz para ele, daqui a dois meses você
será tele-transportado, para a outra parede.
E você verá o processo.
Começamos pela orelha direita.
Corta e prega a orelha direita na outra parede.
Isto não é tortura é vingança.
Tortura é você colocar um cara que você não tem
certeza que cometeu o crime amarrado a parede.
E confissão de tortura é mentira, ou verdade de
quem precisa de informação para continuar empregado.
Caso da Cia, Militares do Brasil, Policia, etc..

Responder

Marcelo

23 de fevereiro de 2013 às 11h23

Acho que, pelo texto opositor e quantidade de comentários, o Contardo Calligaris já conseguiu o que queria ao escrever sobre o assunto. Independente dele estar certo ou não, a discussão é válida e precisa existir.

Aliás, assisti ao filme e achei muito bom. Mas, sim, ele é polêmico, assim como Tropa de Elite o foi.
Questão artística: a diretora do filme deixaria de retratar a maior perseguição estadunidense atual porque os métodos usados, se forem para a tela, causará perplexidade? Não é função do artista abrir nossos olhos, mesmo que nos cause antojo?

Responder

alexandre moreira

23 de fevereiro de 2013 às 10h51

A Lucidez do León:

“Os fins podem justificar os meios, contanto que algo justifique os fins.”
A moral deles e a nossa ( 1938 )leon Trotsky

O fim não é salvar a menina bem entendido. Mas justificar a tortura.

Responder

    Mário SF Alves

    23 de fevereiro de 2013 às 12h07

    Andei pensando sobre isso com relação aos rumos atuais da civilização cristã ocidental. Acabei por concluir, alarmado, que nem os fins se justificam mais.

francisco niterói

23 de fevereiro de 2013 às 08h56

Quando a gente pensa que a midia ja atingiu o fundo do poço, descobrimos que eles tem ” talento” para fazer o poço mais profundo.

Depois de anos de redemicratizacao, ver um veiculo de midia defendendo a tortura é tao ” depre” que tenho que recorrer ao insolito ” ler isso é melhor do que nao saber ler”.

Por fim, utilizar uma situacao hipotetica que consistitia num caso muito fora da curva pra defender a tortura so serve para o que vimos nesta secao: PESSOAS ABJETAS UTILIZANDO TAL FATO PRA DESTRUIR TODO O ARCABOUCO QUE SOCIEDADE DITAS CIVILIZADAS A DURAS PENAS CONSTRUIU.

PESSOA ABJETA: mesmo no caso de especifidade impar, a tortura pode significar um tiro no pé pois o sequestrador pode simplesmente querer aumentar os danos. A mente de qq especie tem contornos que vao muito alem. Ate numa confusa questao de prservacao, no caso de humanos. Nos animais, temos caso de maes devorando filhotes em situacoes drasticas. O que fazer? A esoecificdade das especies, a sua evolucao,etc, sao mais fortes que qq ” costume” humano, no caso em que podemos chamar tortura de costume e mesmo que tentemos racionalizar isso à luz de qq pensamento, por mais abjeto que ele seja.

Responder

    francisco niterói

    23 de fevereiro de 2013 às 09h07

    Em tempo

    Queria ver qual a posicao do articulista da folha se algum parente ou amigo dele, hipoteticamente, fosse para numa DP com um cigarro de maconha.

    Em havendo tortura, como ele se portaria? Diria : “mas esse nao é um caso de urgencia”. Pois e, acontece que urgencia é subjetiva, vai da opiniao de cada um e o policial torturador agiu embuido do ” QUEM PODE O MAIS PODE O MENOS”.

    Foi por isso que sociedades civilizadas substituiram o QUEM PODE O MAIS PODE O MENOS pelo SO PODE O QUE ESTIVER NA LEI.

    Sendo assim, a tortura vale se a lei disser: NOS CASOS X EY PODE-SE BATER, AFORGAR, ETC, O SUSPEITO.

    Entao: quem se habilita a propor tal lei?

    Aquele que propoe a tortura sem propor a adequacao da lei se torna um transgressor da CF. Portanto, no popular, BANDIDO TAMBEM. Simples questao de logica.

    francisco niterói

    23 de fevereiro de 2013 às 09h11

    Imbuido no luga de embuido.

    Pelos demais erros, desculpas pois a pressa e smart fone sao inadequados para um contraditorio

Frank

23 de fevereiro de 2013 às 00h08

Eu diria: sequestrador, você já está preso e ferrado. Se a criança morrer, é prisão perpétua, senão você pega somente 5 ou 10 anos. E aí?

Se o cara nao se sensibilizar com isto, nao adianta dor ou morte. Ele nao vai falar.

Responder

Willian

22 de fevereiro de 2013 às 23h12

“Uma criança foi sequestrada e está encarcerada em um lugar onde ela tem ar para respirar por um tempo limitado. Você prendeu o sequestrador, o qual não diz onde está a criança sequestrada. Infelizmente, não existe (ainda) soro da verdade que funcione. A tortura poderia levá-lo a falar. Você faz o que?”

Quem se digna a responder?

Responder

    Abel

    22 de fevereiro de 2013 às 23h30

    Ah… se o sequestrador fosse seu pai… ou sua mãe… você autorizaria a tortura? Responda rápido!

    Willian

    23 de fevereiro de 2013 às 18h04

    Sim, autorizaria.

    Se o sequestrado fosse seu filho, você autorizaria? Responda mais rápido ainda que ele pode morrer a qualquer momento.

    rodrigo

    23 de fevereiro de 2013 às 02h26

    “Se” não existe, e isso é um caso de manipulação psico-emocional. Respondido?

    renato

    23 de fevereiro de 2013 às 12h55

    O filme não existe. Acabou,
    passemos para outra.

    Willian

    23 de fevereiro de 2013 às 18h05

    Não, você fugiu pela tangente de uma questão delicada. Foi covarde.

    Abel

    23 de fevereiro de 2013 às 18h08

    Saiu pela tangente, playboy? ;)

    rodrigo

    23 de fevereiro de 2013 às 19h12

    Probabilidades pertencem ao imaginário particular, (não só) por isso somos indivíduos racionais únicos e emotivamente capazes. O imaginário comum controlado dessa maneira “amadorística”, com asserções emotivas (ou racionais demais, vai saber…) pró-violência governamental como essa sua só ajuda a trazer cada vez mais rápido toda a barbárie do colapso da exploração do sistema capitalista/neoliberal. Eu preferia ficar fora dessa. Aliás, falando em sistemas, se você gosta do pensamento único, o paizinho dos povos adorava…

    Tangente?

    Gabriel A. Boscariol

    23 de fevereiro de 2013 às 08h54

    Torturar é perda de tempo. A confissão pode nem ser verdadeira, já pensou se o torturado não se importar de morrer ou sofrer? Daí perde-se tempo com um indivíduo que pode dar informações duvidosas, e ou mesmo para atrapalhar. Quem acredita em eficiência da tortura só pode acreditar nas que aparecem nos filmes hollywoodianos, onde o atual mocinho, anti-herói, etc, infligi dor em seus inimigos para que seja revelada a verdade. Na narrativa de filme funciona, pois é assim que quem escreveu quer retratar, agora a realidade é mais complicada e complexa. Torturar não serve, informações não são confiáveis e menos ainda poderiam ser instrumentos de estado.

    Aton Fon

    23 de fevereiro de 2013 às 10h18

    “Uma criança foi sequestrada e está encarcerada em um lugar onde ela tem ar para respirar por um tempo limitado. Você prendeu o sequestrador, o qual não diz onde está a criança sequestrada. Infelizmente, não existe (ainda) soro da verdade que funcione. A tortura poderia levá-lo a falar. Você faz o que?”

    1- “Você prendeu o sequestrador, o qual não diz onde está a criança sequestrada.” Você não prendeu o sequestrador. Você prendeu um suspeito de ser o sequestrador. Sem o corpo de delito não há materialidade do crime. Então, você precisa, primeiro, de certeza de que esteja tratando com o sequestrador.

    Imaginemos, porém, que o acusado de ser o sequestrador tenha confessado o sequestro. A confissão será verdadeira? Se não for, qual sua intenção? A proteção do verdadeiro sequestrador? Induzir o interrogador à continuidade do interrogatório de quem não tem a informação sobre onde se encontra a criança, para assegurar que o tempo se escoe e a criança morra? Assistir (com prazer) o desespero do interrogador, invertendo os polos, fazendo com que o fisicamente torturado esteja, na verdade, torturando psicologicamente seu interrogador?

    Imaginemos, por outro lado, que a confissão seja verdadeira, e que o interrogado dê elementos suficientes para gerar essa certeza. Por que motivo esse interrogado teria confirmado o sequestro, mas negado a informação sobre o local onde se encontra a criança? Certamente não foi arrependimento, porque nesse caso ele indicaria também o paradeiro da vítima. Também não foi a incapacidade de suportar mais os maus-tratos, porque também nesse caso ele teria indicado o paradeiro da vítima. Seria, evidentemente, porque o interrogado busca que o interrogador siga ocupado com o interrogatório, seja para saborear seu desespero na busca da informação, seja para seguir desviando-o de outros rumos investigatórios onde a informação pudesse ser obtida.

    Nesse sentido, o exemplo utilizado por Calligaris mostra-se absolutamente inócuo para demonstrar qualquer validade à tortura, servindo apenas para apoiar sua defesa. Calligaris, aliás, não foi o primeiro a fazê-lo. Há anos, quando ainda estava preso, assisti o ex-ministro Jarbas Passarinho dar uma entrevista na televisão. O ministro negava a existência de torturas no regime militar, mas a admitia como excessos de que não se tinha conhecimento seguro nem possibilidade de controle. A certa altura, buscava estabelecer comparações entre os danos oriundos da luta contra o regime, o “terrorismo”, como ele a chamava. E formulou, com ligeiras modificações, o teorema de Calligaris: “Um terrorista teria colocado uma bomba em uma escola, e o tempo para descobri-la se esgotava. O terrorista fora preso e da informação onde estava a bomba dependeria a vida de centenas de crianças inocentes. O que fazer? Seria admissível torturar o preso para obter a informação indispensável?” O ministro deu um minuto interio de silêncio para que a resposta se impusesse na cabeça dos espectadores. Mas, ao contrário de Calligaris, em seguida deu a sua própria conclusão: o ministro Jarbas Passarinho não torturaria o suspeito.

    Duas coisas podemos ver daí. 1- A resposta ao teorema de Calligaris não é importante. Importante é sua formulação. A propaganda da tortura ele a faz só com estabelecer sua proposição. E, 2- Calligaris é ainda mais adepto da tortura que o ex-ministro da ditadura militar, o coronel Jarbas Passarinho.


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A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.