PATROCINE O VIOMUNDO

SOMOS 31.817 FAÇA PARTE !

A criminosa atuação dos encoxadores no transporte público

publicado em 21 de março de 2014 às 19:19

Sufoco todo dia: Trem from Luiz Carlos Azenha on Vimeo.

ASSÉDIO SEXUAL
Sociedade deve ter tolerância zero com ‘encoxadores’, orientam secretarias da mulher

Secretária nacional de Enfrentamento à Violência da Secretaria de Políticas para Mulheres e secretária municipal de São Paulo querem mais ação da sociedade e do poder público contra machistas

por Diego Sartorato, da RBA publicado 21/03/2014 10:25, última modificação 21/03/2014 13:47

São Paulo – “Cheguei na morena deliciosa e meti a mão por baixo. Ela fez cara de que não gostou, mas ficou toda molhadinha”. Assim um arrogante e pretensioso internauta cuja identidade estava protegida por um perfil falso relata aos colegas da comunidade “Encoxadores e Encoxadoras”, retirada do Facebook na última semana, o assédio que teria cometido contra uma mulher em uma estação de trem naquele mesmo dia. Além dos relatos, a comunidade virtual reúne fotos de decotes ou tiradas por baixo das saias de mulheres com celulares, além de vídeos de diversas nacionalidades com imagens de homens esfregando-se ou apalpando mulheres constrangidas e subjugadas no transporte coletivo.

A comunidade é apenas uma das dezenas que divulgam e incentivam usuários do sistema público de transporte a aproveitar a superlotação em trens, ônibus e metrôs para assediar sexualmente sem medo de ser pegos, e que, desde que se tornaram notórias, estão na mira da polícia, dos governos e de organizações feministas.

A ação desses grupos foi revelada a partir da prisão de um homem por estupro na Estação da Luz, na Linha 1-Azul, na última segunda-feira (17). Ele chegou a colocar o pênis para fora e ejacular na calça da vítima, que gritou por socorro e foi salva de uma agressão mais grave pelos demais passageiros do trem. Assim que foi preso, ele se identificou como universitário.

Por mais grotesca que seja, a situação não é rara no transporte coletivo paulista. Mas marcou um novo momento da caçada aos assediadores: ele foi o primeiro a admitir publicamente que suas ações foram motivadas pelas publicações de comunidades online. Na quarta-feira (19), um engenheiro e um administrador de empresas também foram presos por apalpar uma mulher e por filmar partes íntimas de uma passageira com o celular. Ambos apontaram para comunidades virtuais no Facebook e no Whatsapp, aplicativo de chat para celulares, como “inspiradores” da ação. Só neste ano, a Delegacia de Polícia do Metropolitano (Delpom) contabilizou 17 ocorrências de mulheres molestadas em composições da CPTM e do Metrô.

Destas, 16 foram registradas como importunação ofensiva ao pudor e uma como estupro.

Desde então, o número de comunidades no Facebook despencou, fechadas pelos próprios usuários, temerosos de investigação das polícias Civil de São Paulo e Federal provocadas por denúncias de mulheres e de organizações feministas. Mas continuam no Whatsapp, onde usuários que não tiverem sido convidados ao grupo por um dos integrantes não conseguem ver a troca de mensagens, e os “encoxadores” se sentem mais protegidos.

“A sociedade tem de demonstrar todos os dias que o Brasil e o povo brasileiro têm tolerância zero com a violência contra a mulher”, resume Aparecida Gonçalves, secretária nacional de Enfrentamento à Violência da Secretaria de Políticas para as Mulheres, do governo federal. “E é, sim, violência contra a mulher, independentemente do que digam os perpetuadores dessa prática. É impossível dissociar a ação desses indivíduos das demais agressões físicas e psicológicas das quais as mulheres são vítimas. São todas parte de um mesmo desprezo pelos direitos do próximo. É crime. Sempre que existe interação sexual não consensual é crime, e eles têm de ser individualmente responsabilizados por isso”, completa.

No Brasil, entre 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios: ou seja, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma morte a cada 1h30, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Em São Paulo, a média de estupros é de 37 por dia, embora esse número possa ser maior: como as delegacias da mulher funcionam apenas entre as 9h e as 19h, vítimas que sofrem o estupro de madrugada, por exemplo, acabam desistindo de fazer a denúncia no dia seguinte; a opção seria buscar uma delegacia de plantão, onde o atendimento é feito por homens sem treinamento para lidar com esse momento psicológico.

Aparecida reforça que as mulheres não podem se calar quando forem assediadas, e que têm de buscar as autoridades para coibir o abuso. “Elas têm de buscar a polícia, a autoridade do transporte público, e denunciar. Elas devem também ligar para o 180, do governo federal, que recebe denúncias. Não é um número apenas para os casos que se enquadram na Lei Maria da Penha, mas para todo tipo de violência contra a mulher”, ressalta.

À reportagem da RBA, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) afirmou que “repudia” os ataques a mulheres, e que mantém câmeras de vigilância para identificar os assediadores, além de funcionários homens e mulheres à paisana para pegar os “encoxadores” em flagrante.

Segundo a secretária de Políticas para a Mulher da prefeitura de São Paulo, Denise Motta Dau, embora o papel do poder público municipal seja limitado em assuntos de segurança pública, a prefeitura também pode adotar medidas para coibir a ação dos assediadores, como câmeras nos ônibus, mas o principal é registrar os casos e investir em prevenção.

“Nós precisamos, hoje, de um registro de denúncias. Porque se você tem em mãos, olha, em tal linha de ônibus foram tantos ataques neste mês, nesta semana, você começa a incomodar mais, a ter mais condição de enfrentar. Agora, toda a comunicação que recebermos vamos encaminhar imediatamente para a Secretaria de Segurança Pública do estado, para apuração. Mas o que resolve mesmo é educação, para prevenir esse tipo de mentalidade”, pondera.

Independentemente de soluções de longo prazo, a professora Carla Cristina Garcia, pós-doutorada em relações de gênero e professora da pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica (PUC), avalia que esse tipo de manifestação pública de apologia ao assédio sexual pode ser fruto do refluxo causado pelas conquistas feministas das últimas décadas.

“Há ondas em que isso aparece mais e aparece menos, mas não é um problema novo. Se está epidêmico ao ponto de você ter grupos na internet, de homens, de ‘machões’ contra o feminismo, enfim, é uma representação dessa onda conservadora na sociedade. Estamos conversando em uma quinta-feira que antecede uma Marcha Da Família no sábado; você tem no Congresso uma bancada evangélica e outros conservadores que atacam os direitos LGBT e da mulher de forma muito agressiva, isso se acumula”, pondera.

Embora não se diga favorável à separação de homens e mulheres no transporte coletivo, Carla Cristina se diz favorável à medida para evitar abusos graves. “Infelizmente, como medida paliativa, pode ser necessário para garantir a integridade das mulheres”, afirma. Atualmente, a Assembleia Legislativa de São Paulo analisa projeto que cria o carro exclusivo para mulheres, geralmente o primeiro vagão do trem, mas o caráter segregador da medida é polêmico.

Em 1995, a CPTM tentou aplicar o que chamou de “carro cor-de-rosa” na Linha 10, mas recuou apenas três meses depois por encontrar dificuldade para abrigar todas as mulheres nesses vagões: elas são 58% dos usuários do transporte público. A medida está em funcionamento atualmente no Rio de Janeiro e no Distrito Federal.

Uma enquete realizada pelo blog Feminismurbana entre o fim de 2013 e fevereiro de 2014 com 300 mulheres que vivem em cidades com o vagão exclusivo revela que as usuárias do sistema se dividem entre as que são a favor como medida paliativa, mas cobram outras ações para coibir o assédio (42%) e as que condenam o fato de que o “carro cor-de-rosa” é uma medida pune a vítima em vez de ensinar o homem a não assediar as mulheres (40%).

Colaboração dos usuários

Depois da ocorrência de estupro, a CPTM e o Metrô pediram, em nota, a cooperação dos usuários para identificar e denunciar práticas de constrangimento e comportamentos inadequados no interior dos trens.

Os usuários devem denunciar os suspeitos imediatamente a algum agente de segurança. Outra opção é mandar um torpedo para o SMS-Denúncia, que garante total anonimato do passageiro. No Metrô, o número é 9 7333-2252. Já a CPTM tem disponível o celular 9 7150-4949 ou o telefone 0800 055-0121.

PS do Viomundo: Foi horrível, ao fazer uma série sobre transporte público para o Jornal da Record, constatar o nível de abusos. Há bandidos que esperam o trem com hora marcada com o objetivo de cercar determinadas vítimas. Há outros que não embarcam enquanto não selecionam a mulher na qual querem encostar. Vi uma cena constrangedora dentro do Metrô, a tal ponto que disse a um marmanjo para, por favor, dar espaço a uma jovem que tentava escapar do cerco. Quando as mulheres gritam, em geral os passageiros expulsam do vagão o acusado. Obviamente, isso só é possível porque as autoridades brasileiras acham normal que os contribuintes sejam transportados feito gado na hora do rush. Este assunto é gravíssimo e exige ação imediata das autoridades.

Leia também:

Câmara abre espaço para golpistas e saudosos da ditadura

 

17 Comentários para “A criminosa atuação dos encoxadores no transporte público”

  1. dom, 23/03/2014 - 17:07
    Ronaldo Silva

    Se precisar de um covarde não conte com o ser humano, pq este não presta.

  2. sáb, 22/03/2014 - 19:19
    Fernando

    Fiquem tranquilos, o Brasil acaba de ganhar a disputa pra sediar a Copa, em 2014 o caos no transporte público não existirá, será o maior legado.

    (comentário retrô de 2007)

  3. sáb, 22/03/2014 - 18:38
    Murdok

    Temos que ir pra cima desses bandidos. Elas podem ser nossas esposas, nossas namoradas, nossas noivas, nossas filhas, nossas mães, nossas irmãs, nossas colegas. Vamos pra cima desses bandidos.

    • dom, 23/03/2014 - 10:10
      Fernando

      Calma lá, daqui a pouco vai querer amarrar menor infrator em poste também?

      É um trabalho pra polícia, não pro cidadão ir pra cima do estuprador.

  4. sáb, 22/03/2014 - 17:52
    Lafaiete de Souza Spínola

    Por que nos países onde o estado investe alto em educação isso não faz parte do noticiário cotidiano?

    No Brasil, além do crime do dia a dia, será essa mais uma tarefa policial?

    Por que o povo tem que ser transportado como gado mal cuidado, em todo sistema de transporte urbano?

    A juventude de nosso país nunca recebeu uma educação pública de qualidade; torna-se um adulto sem perspectiva. O terreno é fértil para cultivar a droga, uma vida alienada e outros vícios.

    Precisamos de mobilizar o país para investir na educação pública. Esta é a prioridade para começar a extinção das nossas mazelas.

    Por UM PROJETO PARA A EDUCAÇÃO NO BRASIL.

    • dom, 23/03/2014 - 21:49

      mas pela reportagem os encoxadores não são “universitários” “engenheiros” administradores??????????? então me parece que o problema é justamente que são muito “educados” não?????
      os nossos instruídos é que fazem toda a merda sempre…

  5. sáb, 22/03/2014 - 17:03
    Laura

    Já fui vitima desse tipo de abuso. As vezes vc não sabe bem se é ou não é, dada a quantidade de gente que tem no vagão ( metro) ou carro de ônibus e o assediador se aproveita desta “ambiguidade”.
    Mas já tive um cara que ejaculou em mim, no bbum, pelas costas, foi horrível. Num ônibus. Sai gritando, o cara saiu correndo.
    Também já tive a situação de um cara sentar-se em um abrigo de estação a espera de troca de trens( era fora do país)e abrir o casaco e mostrar seu membro sexual para mim. Sai gritando. O cara fechou o casaco e foi embora.
    É sempre horrível.
    Acho que boa parte das mulheres tem uma estória dessas para contar.

    Ainda não haviam as condições de hoje de denuncia.

    • dom, 23/03/2014 - 10:44
      Maria Libia

      Tenho uma tesourinha para cortar fios de linha quando bordo. Carrego ela em minha bolsa. Não teria nenhum escrúpulo em enfiá-la em qualquer um que me desrespeitasse. A mulher tem que parar de ser vítima e ir para o ataque, MESMO. Temos que deixar de ser passivas e aprender a nos defender.

  6. .
    .
    “Obviamente, isso só é possível,
    porque as autoridades brasileiras
    acham normal que os contribuintes
    sejam transportados feito gado
    na hora do rush.”
    .
    .

    • sáb, 22/03/2014 - 18:55
      abolicionista

      Por isso as autoridades ficaram estupefatas com as manifestações de junho. Ora, qualquer um de nós, usuário que enfrentam o rush de São Paulo, sabia que a coisa iria estourar mais cedo ou mais tarde. Já estava estourando aqui e ali, com estações destruídas, etc. Aliás, vai acontecer de novo, é só questão de tempo. Afinal, a única coisa que mudou foi a criação de novas leis antidemocráticas para caçar manifestantes. As ruas não se calarão, quem já participou de movimento social sabe disso. Cabe à esquerda disputar as ruas contra os fascistas. Mas muitos preferem aderir ao discurso governista e dão mais importância a intrigas palacianas do que a luta real contra a opressão e contra todos os grilhões. Essa é brecha pela qual o fascismo pode contaminar a luta política.

  7. sáb, 22/03/2014 - 14:04

    … em Nova Delhi amiga gritou na rua bem alto devido a um assedio, a população chegou junto e quebrou o indiano no meio…

  8. sáb, 22/03/2014 - 13:57
    Urbano

    Há bastante tempo um acusado fez a sua possível vítima descer do ônibus antes do tempo, e ainda sob um coro de vaia. É que após a mulher ter feito o maior escarcéu ao dizer que um senhor estava se esfregando nela, houve o maior bate boca entre eles, e a partir disso o pessoal começou a perceber a indignação do acusado. Após serenar um pouco os ânimos, o acusado passou a solicitar que todos passassem entre ele a sua acusadora, informando que era para que ele não tivesse o menor contato com aquela bundinha de ouro. E insistiu tanto no tema, e a essas alturas já com a ajuda de outros passageiros incluindo mulheres, que não houve alternativa possível para a acusadora, que não fosse a de descer do ônibus mais que depressa. Agora, isso é apenas uma das exceções, pois há muitos bandidos dispostos até a ir mais longe.

  9. sáb, 22/03/2014 - 12:20
    abolicionista

    Em meados do ano passado eu estava no trem da CPTM, fazendo o trajeto da estação Santo Amaro até a estação Jaguaré, eram certa de 18:30 da tarde, e presenciei uma tentativa de assédio. Eu estava em pé, com um livro na mão, quando notei que uma garota que estava do meu lado esquerdo começou e se mexer muito. De repente, ela deu uma cotovelada no cara que estava atrás dela, mas não disse nada. O sujeito continuou tentando encoxar. Quando percebi o que estava rolando, coloquei a mão aberta perto do cara (sem encostar nele) e disse: “calma aí, amigão”. O cara partiu com tudo pra cima de mim, apontou o dedo na minha cara e ficou gritando “não encosta em mim! Não encosta em mim!”. Era um cara de físico avantajado, eu me preparei para levar uma surra e fui tentando recuar (o trem fava bem cheio, então foi aquela confusão). Felizmente, outras pessoas que também perceberam o que tinha acontecido contestaram o cara. Ele ficou tentando argumentar, mas desceu na estação seguinte, provavelmente com medo de ser linchado. Fiquei com medo, não vou mentir. Quando contei o ocorrido a meus amigos e familiares, muitos disseram que eu deveria ter ficado na minha, que o cara poderia estar armado, mas quer saber? Acho que agi certo. Mas, na época, não achei que isso fosse uma coisa comum, pensei que fosse um tarado patológico, uma exceção, sei lá. Agora vejo que é um troço orquestrado. Acho que a única solução para esse tipo de coisa é juntar todos os presentes e partir para cima do agressor. Claro que a intenção não deve ser usar violência excessiva, mas apenas mostrar que esse tipo de atitude é inaceitável, para que fique bem claro. Um dado curioso é que o o agressor que encontrei no trem da CPTM estava muito bem vestido (bem melhor do que eu, por exemplo) com gel no cabelo, roupa de marca, aquele cara que a polícia jamais pararia para dar uma geral.

  10. sáb, 22/03/2014 - 11:02
    Henrique from Curitiba-PR

    Fiquei sabendo que em Paris se um fdp incomodar uma mulher e esta fazer gesto de repulsa, os caras que estiverem passando por ali juntam o fdp pelos colarinho e dão um pau nesse fdp.

  11. sáb, 22/03/2014 - 9:45
    Otto

    Não é muito difícil de adivinhar qual é a “música” preferida desses canalhas. Dou uma dica, começa com f…

  12. sex, 21/03/2014 - 23:32
    Marat

    Prezados, não existe nada mais agradável do que conquistar, na conversa, uma mulher… Os assédios, as encoxadas e outros abusos são intoleráveis, ainda mais num local apertadíssimo, onde as mulheres não podem se defender!
    Fico com a opinião de um amigo: “Se o cara tá com muita vontade e não tem namorada, que vá para a zona!”

Comentar