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Wilson Gomes: A falácia descarada de Alexandre Garcia sobre a droga santificada por Bolsonaro
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Wilson Gomes: A falácia descarada de Alexandre Garcia sobre a droga santificada por Bolsonaro


03/08/2020 - 13h21

A cloroquina e a fé do rebanho

por Wildon Gomes*

Bolsonaro não consegue ter um titular no ministério da Saúde na fase mais grave da pandemia.

Bolsonaro sequer consegue usar os recursos que o Congresso lhe autorizou a empregar para salvar vidas durante esta interminável crise de saúde pública, ao ponto de ter sido solicitado a dar explicações ao TCU por tão espantosa atitude.

O presidente não conseguiu nem mesmo manter-se em isolamento social, para dar exemplo ao país, nas semanas em esteve infectado com o Sars-Cov-2.

Tantas fez o moço que assim o descreveu a jornalista Vera Magalhães: “O presidente passeou de moto e sem máscara, cumprimentou garis e mostrou caixa de hidroxicloroquina para as emas do Alvorada. Pode parecer uma piada, mas não: esse foi o dia do presidente em isolamento”. Rá!

Na verdade não só parece como é uma piada. É tudo uma piada de mau gosto.

Por pavor do PT e desprezo à política, os brasileiros resolveram eleger e empossar uma piada como presidente da República.

Devem ter achado que estariam punindo alguém, os políticos em geral e o PT em particular, mas finalmente se revela que estavam gostosamente pregando uma peça em si mesmos e infligindo-se uma autopunição.

Antes disso, correu o mundo uma foto do mandatário maior da República, segurando com as duas mãos uma caixa de cloroquina sobre a cabeça, diante de seguidores devotos e compungidos no que parecia uma missa campal no gramado do Palácio do Planalto.

Quem está acostumado à missa católica, sabe que o gesto copiou o momento do ritual litúrgico, depois da consagração do corpo de Cristo, em que a hóstia é mostrada aos fiéis enquanto o sacerdote profere solenemente “eis o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo”.

Pois “eis a cloroquina divina, que tira a Covid do mundo”, repetiu o grão sacerdote do bolsonarismo, para a adoração da sua igreja.

Claro, se você é um sujeito razoável e sensato, não estará entendendo por que a qualquer pergunta sobre o que fazer durante a pandemia se obtém de Bolsonaro uma única resposta: tomem cloroquina.

E, o que é pior, vai considerar incrível como tem gente que acredita em cloroquina, ivermectina e hodroxicloriquina como soluções mágica para a Covid-19, contra a OMS e toda a ciência médica disponível.

Mas, meus caros, as pessoas acreditam em alma imortal, reencarnação e em inferno, por que não acreditariam em pseudofármacos só porque a ciência os nega?

Mas, professor, o que tem a ver religião com cloroquina? A fé, meus amigos, a crença.

O bolsonarista radical é hoje um sujeito com tamanha fé no seu líder que é capaz de acreditar no que ele diz mesmo que o conteúdo da sua crença seja absurdo e até por isso mesmo. Credo quia absurdum, já dizia a máxima de Tertuliano.

Se Bolsonaro trocasse cloroquina por creolina ou jujubas, a crença dos seus seguidores mais radicais mudaria automaticamente de conteúdo, mas o suicídio intelectual e o fervor dos crentes seriam o mesmo.

E como em toda seita, há o pastor do rebanho, há os que compartilham com ele o sacerdócio e há os seus profetas.

Alexandre Garcia, um ex-jornalista convertido de primeira hora ao bolsonarismo, estreou na CNN Brasil esta semana, declarando ser Bolsonaro a comprovação científica de que a cloroquina funciona e que “seus colegas repórteres” só falam mal da droga santificada porque alguém lhes manda dizer isso.

Alexandre Garcia gosta de dar-se ares de um homem logicamente refinado e culto, quando a sua principal habilidade consiste em torcer ou esculpir os dados até que eles pareçam se encaixar com plausibilidades nas suas opiniões preconcebidas.

O “raciocínio lógico” usado por Garcia para “provar cientificamente” que a cloroquina é a cura da Covid-19 que os pagãos do mundo não querem que seja do conhecimento de todos, é o fato de Bolsonaro ter tomado o remédio e sobrevivido.

Só que isso que ele chama de lógica é geralmente refutado no primeiro dia de aula de Falácias Argumentativas.

É uma falácia descarada, para dizer o mínimo. É como dizer que uma vez que quando o galo canta, o sol nasce, é o canto do galo que faz o sol nascer. É ridículo.

A estatística, que não costuma fazer escolhas políticas, diz que a taxa de letalidade do Sars-Cov-2 no mundo é de cerca de 2% em média.

Quer dizer que se todos os infectados tomarem água de coco gelada com abará é provável que 98% se recuperarão, mas se trocarem o delicioso medicamento por caldo de cana e pastel de feira o milagre será exatamente o mesmo.

No caso do Brasil, a taxa de letalidade, uma das mais altas do mundo, está em torno de 7%.

A notícia deveria ser, então, que pelo menos 5% dessas mortes poderiam ter sido evitadas, se quem governa o país tivesse adotado as políticas públicas testadas e comprovadas como eficazes em toda parte.

Mas não, no estilo Garcia de jornalismo tribal teríamos o seguinte comentário: “A prova científica da competência do Ministério da Saúde de Bolsonaro é que estamos curando 93% dos infectados pela Covid-19”.

O mundo está tão louco que a posição ideológica das pessoas passou a orientar decisões com relação a que remédio tomar, se usamos ou não máscara em público, se vacino ou não os meus filhos.

A modernidade consistiu exatamente em vetar que a religião pudesse exorbitar, quer dizer, sair do ambiente onde os crentes precisamos dela, a saber, na nossa relação com o sobrenatural, com a morte e com o sentido da existência.

Para as demais necessidades da vida temos outros recursos, como a ciência, a política e a economia. A extrema-direita, entretanto, transformou-se em uma nova religião civil: o seu sumo sacerdote é considerado infalível em matéria de política, economia e, vejam só, medicina e saúde pública.

Deus se apiede de nós.

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)



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8 comentários

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Antonio Sergio Neves de Azevedo

03 de agosto de 2020 às 22h46

PACIÊNCIA?

O GOVERNO PRATICA MESMICES AO TENTAR CONTROLAR OS ÂNIMOS DOS BRASILEIROS COM OS TREZENTINHOS POR MÊS DEVIDO A PANDEMIA DO COVID 19 QUE ESTÁ SEM CONTROLE PRÁTICA UMA ECONOMIA FAJUTA QUE NÃO DESLANCHA E SÓ PRODUZ FOME E DESESPERO.

ORA, QUEM TEM FOME TEM PRESSA, PIOR AINDA SE O CIDADÃO FOR PAI DE FAMÍLIA E ESTIVER DESEMPREGADO.

TALVEZ, OS ÚNICOS SEM PRESSA NO ATUAL MOMENTO SÃO O GOVERNO E SUA EQUIPE ECONÔMICA, QUE DE TÃO DEVAGAR, SEM CRIATIVIDADE, SEM UM PROJETO DESENVOLVIMENTISTA NACIONAL OPTARAM PELA CONTINUIDADE DE UMA POLÍTICA ECONÔMICA PERVERSA, NEOLIBERAL, DE JUROS ALTOS E AUMENTOS DE IMPOSTOS QUE ESPOLIA OS TRABALHADORES E DESTRÓI O CAPITAL NACIONAL.

TER PACIÊNCIA NESSE MOMENTO SIGNIFICA ABNEGAÇÃO, SUBSERVIÊNCIA E FILIAÇÃO A TUDO DE PODRE QUE AÍ ESTÁ. MAS O PENSAMENTO INSÍGNIO, A IDEIA UNA DE CONSTRUIR UM BRASIL NACIONAL-DESENVOLVIMENTISTA NÃO SE CURVA E NÃO SE DOBRA TÃO FACILMENTE A COMERCIALIZAÇÃO DA ALMA COMO QUEREM OS TRUÕES.

MUITO MENOS ENGOLE GOELA ABAIXO A PSEUDOMODERNIDADE PROPALADA POR UMA DIRETA FALSÁRIA, LIBERAL FAJUTA E CONSERVADORISTA CAPENGA, ALIÁS, ÚNICA E TÃO SOMENTE ENTREGUISTA E ATRELADA AOS INTERESSES FINANCEIROS RENTISTAS E HEGEMÔNICOS DOS PAÍSES RICOS LIDERADOS PELOS SENHORES DE WASHIGTON.

POR TUDO ISSO, O GOVERNO ATUAL TERÁ O SEU PEDIDO ATENDIDO NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES, POSSUVELMENTE EM NOVEMBRO DE 2020.

PORÉM, DE UM JEITO UM POUCO DIFERENTE, A PACIÊNCIA SERÁ MESCLADA COM INDIGNAÇÃO, SOMADO A UMA PITADA QUE PODERÁ SE TRANFORMAR NUMA ENXURRADA DE VOTOS IMPACIENTES E INSUBORDINADOS DA MAIS PURA E TRANSLÚCIDA DECEPÇÃO.

ACORDA BRASIL!

ANTONIO SERGIO NEVES DE AZEVEDO – Estudante – Curitiba – Paraná.

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antonio carlos

03 de agosto de 2020 às 20h17

Quem é mais torpe?
Essa figura grotesca ou as empresas que o contratam?
A cada dia, fica mais explícito a que veio a tal CNN: ocupar o lugar da Globo na sustentação desse governo tosco e despreparado.

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Zé Maria

03 de agosto de 2020 às 19h37

Por falar em “Droga Santificada”, Fachinha revoga decisão do Presidente do STF
e decide manter sob Sigilo as Falcatruas da Força-Tarefa de Patifes de Curitiba,
Assim, os Procuradores da República do Paraná – sob o Comando Mascarado de
Sergio Moro (mesmo fora da Magistratura), que também teme que as fraudes da autodenominada Operação Lava-Jato venham a público – continuarão mandando
no Ministério Público Federal (MPF).

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Zé Maria

03 de agosto de 2020 às 19h10

O Sargento Garcia trabalhou por anos e anos na Globo. Sabe o que dá IBOPE.
Nestes Tempos Sombrios de Fascismo Narcisista Explícito e de Ignorância
Exponencial Arrogante, Garcia percebe que falar Mentiras Pseudo-Políticas
e Asneiras Pseudo-Científicas dá Audiência (Muitos Seguidores) na internet.

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Henrique Martins

03 de agosto de 2020 às 18h06

https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/ministro-cancela-audiencia-sobre-dossie-contra-antifascistas,02d1139f3217bedabd05a66b9f4ab07ft6olxdmg.html

De fato, em estados policiais e ditatoriais tudo é sigiloso mesmo ministro, especialmente as mortes e as torturas.

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Carlão

03 de agosto de 2020 às 14h45

Nem me lembrava desse bode velho. É só mau caráter mesmo.

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Henrique MartinsH

03 de agosto de 2020 às 14h39

https://www.tijolaco.net/blog/corrida-pela-vacina-e-corrida-pelos-bilhoes/

Ninguém vai precisar comprar o que poderá vir a ser encontrado de graça.
Se Deus quiser, esses gananciosos vão morrer na praia.

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Mancini

03 de agosto de 2020 às 14h25

Outro dia perguntei a um reumatologista (Dr. X) na lata: “Cloroquina or not cloroquina?” Candidamente ele respondeu; “O Hospital Y tem tido bons resultados para Covid-19.”
Não me atrevo a emitir opinião sobre esta droga ou a hidroxicloroquina.
Mas desse senhor, opino sim. Gal Figueiredo o defenestrou. Roberto Marinho o levou para a globo. É nauseante vê-lo na CNN! https://refazenda2010.blogspot.com/

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