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Vladimir Safatle: A biblioteca roubada em todo o Brasil


05/02/2013 - 18h48

por Vladimir Safatle, na Folha de S. Paulo

“A Carta Roubada” é um dos contos mais célebres de Edgar Allan Poe. Nele, o escritor norte-americano conta a história de um ministro que resolve chantagear a rainha roubando a carta que lhe fora endereçada por um amante.

Desesperada, a rainha encarrega sua polícia secreta de encontrar a carta, que provavelmente deveria estar na casa do ministro. Uma astuta análise, com os mais modernos métodos, é feita sem sucesso. Reconhecendo sua incompetência, o chefe de polícia apela a Auguste Dupin, um detetive que tem a única ideia sensata do conto: procurar a carta no lugar mais óbvio possível, a saber, em um porta-cartas em cima da lareira.

A leitura do conto de Edgar Allan Poe deveria ser obrigatória para os responsáveis pela educação pública. Muitas vezes, eles parecem se deleitar em procurar as mais finas explicações, contratar os mais astutos consultores internacionais com seus métodos pretensamente inovadores, sendo que os problemas a combater são primários e óbvios para qualquer um que queira, de fato, enxergá-los.

Por exemplo, há semanas descobrimos, graças ao Censo Escolar de 2011, que 72,5% das escolas públicas brasileiras simplesmente não têm bibliotecas. Isto equivale a 113.269 escolas. Um descaso que não mudou com o tempo, já que, das 7.284 escolas construídas a partir de 2008, apenas 19,4% têm algo parecido com uma biblioteca.

Mesmo São Paulo, o Estado mais rico da Federação, conseguiu ter 85% de suas escolas públicas nessa situação. Ou seja, um número pior do que a média nacional.

Diante de resultados dessa magnitude, não é difícil entender a matriz dos graves problemas educacionais que atravessamos. Difícil é entender por que demoramos tanto para ter uma imagem dessa realidade.

Ninguém precisa de mais um discurso óbvio sobre a importância da leitura e do contato efetivo com livros para a boa formação educacional. Ou melhor, ninguém a não ser os administradores da educação pública, em todas as suas esferas. Pois não faz sentido algum discutir o fracasso educacional brasileiro se questões elementares são negligenciadas a tal ponto.

Em política educacional, talvez vamos acabar por descobrir que “menos é mais”. Quanto menos “revoluções na educação” e quanto mais capacidade de realmente priorizar a resolução de problemas elementares (bibliotecas, valorização da carreira dos professores etc.), melhor para todos.

A não ser para os consultores contratados a peso de ouro para vender o mais novo método educacional portador de grandes promessas.

Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo).

Leia também:

Diane Ravitch: As corporações atacam a educação pública



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18 comentários

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abolicionista

16 de fevereiro de 2013 às 02h29

O Safatle descobrindo a roda…

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Julio Silveira

06 de fevereiro de 2013 às 18h42

Temos um problema com inteligência nacional é que no Brasil fomos treinados educadas e amestrados para acreditar que a boa inteligência nacional deve ser a estrangeira. Até Santos Dumont inventor do verdadeiro mais pesado que o ar motorizado, mais tarde identificado por avião, já está perdendo aqui dentro para os irmãos Wright inventores da catapulta ferroviária alada, de tanto que os yankes vendem a cascata da paternidade.
Ih! esse país de lordes miquinhos amestrados está cheio de exemplos.

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Carlos M.

06 de fevereiro de 2013 às 18h15

Enquanto isso…

Os cerca de 65 milhões de brasileiros usuários do Facebook gastam algo em torno de 535 minutos mensais, em média, na rede social.[1]

Sem livros nas escolas, sem formação básica, fico imaginando qual a densidade do conteúdo que fica circulando na rede.

_______________________
[1] http://online.wsj.com/article/SB10001424127887324900204578284511579301742.html

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ma.rosa

06 de fevereiro de 2013 às 15h21

Aqui em Santa Catarina, também já vi escolas transformarem o espaço destinado a biblioteca em uma nova sala de aula,ou ainda em despensa para outros materiais. Mas assim como na saúde que dizem o Ministério normatiza que para cada nova unidade de saúde haja um consultório dentário e os políticos inauguram os mesmos sem eles, não deve ser diferente na educação!!!! O artigo escrito está bem ilustrativo da realidade das nossas escolas/bibliotecas.

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Casoares

06 de fevereiro de 2013 às 14h30

Triste o país onde os bares estão cheios e as bibliotecas quase vazias. Para mudar este panorama, basta que cada de um nós que ama os livros incentive as crianças a lerem, seja contando histórias ou simplesmente dando o exemplo através de uma leitura constante. Crie uma biblioteca circulante no seu bairro. Faça a diferença você mesmo. Não espere por nada ou ninguém. Abz.

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Reginaldo Parcianello

06 de fevereiro de 2013 às 12h27

A sensatez de Safatle vale muito mais do que quaisquer análises de “especialistas” em educação. A verdade é que não há nenhum interesse claro em formar ou educar pessoas, na educação brasileira, mas sim de adestrar os jovens para a subserviência no trabalho ou para serem meros técnicos com nível superior.

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Paulo

06 de fevereiro de 2013 às 10h53

Quantos livros Lula leu? E Dilma? E
Collor? E FHC? E Sarney? E Itamar? E Geisel? E JK? e……?

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Mardones

06 de fevereiro de 2013 às 10h47

Além do papel – que a tudo aceita – em que lugar a educação é prioridade nesse país?

Lá em Salvador – minha cidade natal – sempre repetimos que povo educado, instruído jamais será preocupação de políticos, das famigeradas maiorias.

Isso é assunto, preocupação de minorias. E olhe lá!

Já imaginou um décimo de brasileiros sabedores do conteúdo e formas de mobilização (e reclamação de direitos) contidos na Constituição Federal?!

Seria pior – para as maiorias governantes – do que os homens bomba (guardadas as devidas proporções).

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Suely Farah

06 de fevereiro de 2013 às 10h31

O óbvio é mais difícil de fazer, mas não impossível. Alguma vez já foi feito, que eu vi. No governo petista da Erundina, em São Paulo, por exemplo, vi tudo de bom acontecer, inclusive, só para citar dois exemplos a propósito da matéria, os ônibus-biblioteca, como parte integrante e motora da rede municipal de bibliotecas, e as salas de leitura nas escolas municipais, com acervo de primeira e funcionários preparados para a função de mediadores de leitura. O poder público não faz o óbvio, dentre outros motivos fisiológicos, por desconhecer a realidade, não conviver com ela, não ouvir quem dela faz parte, não ter bom discernimento para decidir sobre o que é essencial, importante e fundamental para que a coisa pública cresça e prospere como bem comum. Muito boa matéria, Safatle! Obrigada por ela.

Responder

    Nilton

    06 de fevereiro de 2013 às 14h58

    Prezada Suely Farah
    Só para lembrar o Secretário de Educação da Prefeita Luiza Erundina foi o grande Paulo Freire, que tinha ao se lado Mario Sérgio Cortela e na Secretaria da Cultura a Professora Marilena Chauí, assim só podia dar certo como deu muito embora, a elite paulistana até hoje fala mal desta grande mulher que, no cenário da política brasileira é uma referência de conduta ética e moral para todos os brasileiros.
    Parabens pela lembrança

    Suely Farah

    06 de fevereiro de 2013 às 23h07

    Prezado Nilton,

    Sim, é bom lembrar do que foi bom, do que deu certo, do que engrandeceu a cidade e seus cidadãos. Trabalhei com o professor Paulo Freire, adequando o programa de Educação de Adultos à Rede Municipal de Ensino e sei bem o que digo sobre a qualidade do trabalho desenvolvido em toda aquela administração, em todas as áreas. Por isso eu digo e repito: é possível, sim, basta querer e se cercar das pessoas certas. E obrigada pela oportunidade de sublinhar e lembrar do que deve ser lembrado: Paulo Freire, Marilena Chauí, Rosalina Santamaria, e tantos outros, sob o comando firme e positivo de nossa sempre querida Erundina, uma referência, ainda e sempre, sem dúvida.

Scan

06 de fevereiro de 2013 às 08h17

Parece-me que o MEC exige, para que seja “aberta” uma escola, a existência de biblioteca de porte suficiente.
Digo isto porque uma amiga, que trabalhou em empresa especialista em montar escolas (seja lá o que isto signifique), me contou.
Contou também que era de praxe a “escola” montada, após receber a aprovação do MEC, devolver aos verdadeiros donos os livros que faziam parte de sua “biblioteca”.
Isto é, a “biblioteca” era apenas para o MEC ver quando da aprovação, sendo, em seguida, desmontada e seu espaço físico convertido em mais uma sala de aula.
Para que bibliotecas, se hoje muitos acreditam que livros servem apenas como calços de mesas?

Responder

Francisco

06 de fevereiro de 2013 às 05h54

Sou professor há 25 anos.

Agora que descobriu a pólvora, falta descobrir a bússola…

Todas as metodologias, esquemas mirabolantes, traquitanas tecnologicas que vi ao longo da minha já longa e certamente frustrante carreira não conseguiram desviar um milimetro do óbvio:

Noventa por cento dos brasileiros nunca mais vê um pedaço de papel impresso depois que se forma, a não ser que seja relacionado a trabalho (e olhe lá…).

Enquanto estuda, noventa por cento dos brasileiros só vê de papel impresso o que é estritamente necessário para passar de ano (e livrar a cara do governante com os “indices” e “órgãos internacionais”).

Depois de diplomado (em qualquer nível de estudo: fundamental, médio, superior, mestrado ou doutorado – isso mesmo, doutorado), 99% dos brasileiros jamais lerá ficção.

A parada é essa.

Responder

Paulo

06 de fevereiro de 2013 às 00h17

Em uma sociedade onde o ensino tecnicista predomina, os livros foram substituídos pelas apostilas. É o modelo da linha de montagem aplicado à educação, onde não se educa cidadão e sim técnicos que sabem cumprir bem uma função específica, mas não compreendem a sociedade como um todo.

Responder

    FrancoAtirador

    06 de fevereiro de 2013 às 01h00

    .
    .
    Precisamente, meu caro Paulo!

    O “Neomundo” e sua “Linha de Montagem”.

    Ótima colocação!
    .
    .

LUCIO FLAVIO

05 de fevereiro de 2013 às 23h39

Sobre isto Azenha…Tenho em cima de minha mesa um exemplar de A Grande História de Alexandre de Valério Mássimo Manfredi. Livro com selo do MEC, FNDE, PNBE 2011 destinado aos alunos do 6 ao 9 ano do Ensino Fundamental. Estou lendo sobre a vida de Alexandre o Grande…Mas o que mais interessa nesta história toda é como este livro chegou em minhas mãos. Tenho um amigo que é porteiro em um edf.residencial de luxo em minha cidade Santa Maria no RS. A cidade desta monstruosa tragédia que levou até hoje 238 jovens à morte estupidamente. Pois bem este amigo apareceu com este livro, novo, sem qualquer mácula. Me interessei e perguntei de quem era o livro. Ele me disse que havia encontrado em uma sacola plástica dentro de um contêiner de lixo em frente ao prédio. A pergunta que faço. Quem cometeu este crime? Um aluno? Um professor? É preocupante não?
Lucio Flavio Lautenschlager
Santa maria RS.

Responder

    Ingmar

    06 de fevereiro de 2013 às 18h17

    Outro dia durante uma caminhada vi uns livros dentro de duas sacolas de cobertores em meio a um monte de lixo na calçada. Eram uma enciclopédia de medicina e saúde de 12 volumes, atlas de anatomia, uma coleção de livros sobre brasileiroas ilustres e uma pasta com mapas antigos do Brasil.
    Tive que ir até em casa e buscar o carro para conseguir levar as coleções.
    Agora pergunto, a pessoa que descartou tudo isso não podia ter doado para uma biblioteca qualquer? Ou pelo menos ter vendido a um sebo?

Cibele

05 de fevereiro de 2013 às 21h09

Pedrada mais do que certeira do grande Vladimir Safatle. Geral abalada. Professor, o inimigo é poderoso…

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