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Diário da Resistência


Tarso de Melo: Tire o seu “tudo bem?” do meu caminho
Arte: Andreia Freire/Cult
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Tarso de Melo: Tire o seu “tudo bem?” do meu caminho


27/11/2018 - 08h54

Tire o seu “tudo bem?” do meu caminho

por Tarso de Melo, na Cult

“Tudo bem?” – continuamos a perguntar isso a todas as pessoas que encontramos.

Antes, durante e depois da conversa, seja ela mais longa ou brevíssima.

Usamos essa perguntinha para interromper uma conversa, para iniciar outra.

Poucas vezes buscamos realmente saber se está “tudo bem” – ou “tudo bem” – com nosso interlocutor, por mais que a ênfase numa das palavras possa levar a engano, por mais que muitas vezes já saibamos o que vai bem e o que vai mal por aí.

Já virou quase um vício, algo incontrolável, um cacoete.

Mesmo quando nossa razão diria que não faz sentido perguntar “tudo bem?”, num velório, no corredor tenso do hospital ou aguardando a polícia chegar após alguma ocorrência, tascamos um “tudo bem?” para cada pessoa que chega perto.

Está lá a pessoa, imersa no seu sofrimento, e chegamos como quem não sabe do que se trata: “tudo bem?”

Lembro sempre da forma como um amigo costuma (ou costumava?) responder a essa perguntinha: “tudo é um exagero”.

É uma forma estranha, mas justamente por isso bem eficiente de desarmar a pergunta e sair com algum riso dessa situação.

Mas há também aqueles que levam a pergunta a sério e começam a enumerar o que vai bem e o que vai mal, os sucessos e os fracassos, as vitórias e as derrotas todas.

É destes que quero falar, porque, nos últimos tempos, dramáticos e pesados, a pergunta “tudo bem?” vem assumindo essa função de questão profunda, grave, quase humanitária, como se, ao final do “tudo bem…”, tivéssemos colocado um reforço: “tudo bem mesmo?”.

Quem pergunta, agora, pesa a voz ao lançar um “tudo bem?” e, de outro lado, quem responde também se sente instado a levar a pergunta a sério.

E, de repente, aquela perguntinha, que podia ser dita sem cuidado e tantas vezes ouvida sem atenção, mostra-se capaz de disparar conversas nada amenas sobre a vida.

Claro, essa função é bem mais complexa do que a de saudação-indagação superficial, pela qual demonstramos alguma preocupação com o bem-estar do nosso interlocutor.

Agora, mesmo quando dita sem tanto peso, a perguntinha escava nossas angústias diante dos desafios individuais e coletivos que se avolumam.

Por exemplo, você encontra um amigo saindo do barbeiro e lança um “tudo bem?” cordial.

E então ele começa a contar que vai mudar de barbeiro, depois de anos, porque o atual passou todo o tempo falando sobre as armas que pretende comprar, para ele e sua esposa, agora que “o Bolsonaro ganhou”, além de reclamar do tamanho da fila para fazer o procedimento exigido pela Polícia Federal…

De fato, não está tudo bem para ele, não está tudo bem para nós, porque lembramos que, aqui bem perto do nosso corpo, todos os caras do bairro que você sabe que vão querer comprar armas são justamente aqueles que jamais deveriam ter uma arma nas mãos.

E também não está tudo bem para um outro amigo, que passou a levar marmita para o trabalho porque, nas redondezas do escritório, os restaurantes insistem em deixar a TV ligada, com o volume alto, para temperar a comida com a cara, o nome, as “ideias” e a voz do novo presidente.

Aliás, sabemos que não está tudo bem quando reparamos no nome que é dito na sequência de “o presidente eleito”…

É por isso que, quando alguém dirige a você um “tudo bem?”, sua cabeça logo começa a buscar algo que sustente uma resposta simpática ou leva a outro assunto, mas inevitavelmente a memória castiga, por exemplo, jogando luz sobre a existência de um vizinho médico, garoto ainda, que alterna o uso do jaleco branquinho e da camiseta preta com a cara do Bolsonaro, e então você engasga.

Você lembra das vezes em que algum amigo ou conhecido disse “mas o Bolsonaro tem razão quanto a…” (complete com o que quiser, será sempre um erro), e engasga mais ainda.

Você lembra da entrevista do filho do presidente que vê comunismo por todos os lados – e já é mais que difícil responder ao “tudo bem?” sem dizer “como assim?”.

Quem pergunta “tudo bem?” não tem culpa, é claro.

Talvez não saiba que, com essas poucas palavras seguidas de um sinal de interrogação, vai disparar um processo violento da consciência que, apenas no campo político brasileiro, traz à tona os diálogos de Sérgio Machado e Romero Jucá, Michel Temer e Joesley Batista, os discursos todos da votação do golpe contra Dilma Rousseff, Rocha Loures correndo com uma mala de dinheiro, o apartamento-cofre de Geddel Vieira Lima, as decisões teratológicas (juristas adoram essa palavra) dos nossos tribunais, os debates sobre o triplex e o sítio de Lula, a prisão de Lula e a ginástica dos juízes para mantê-la, Aécio, Serra e todos os tucanos que riem soltos das acusações que pesam contra eles, a vitória de Bolsonaro com quase 58 milhões de votos, os tuítes de Bolsonaro, os ministros de Bolsonaro, os filhos de Bolsonaro, os aliados de Bolsonaro, Paulo Guedes, Janaína Paschoal, Alexandre Frota, Sérgio Moro, Maitê Proença, Olavo de Carvalho, os generais e coronéis todos, o chanceler que é “trumpista convicto”, e por aí vai nosso tormento.

No meio dessa avalanche, perguntar “tudo bem?” é quase uma crueldade, uma covardia, uma forma de tortura, ainda que involuntária.

Amigos que já perceberam isso passaram a se cumprimentar sem interrogações, dizendo apenas “tá foda”, a que se seguem variações como “vai ser foda” e, mais triste ainda, “vai foder tudo”.

E não pense o leitor que isso resulta de algum conformismo com a situação.

Pelo contrário, é assim que se afirma, quero crer, a solidariedade que pode muito bem ser o ponto de partida, de união, para resistirmos ao que nos impede de dizer “tudo bem”.

Ouvindo esse “tá foda” por todos os lados, é impossível impedir a memória de ir até aquele texto em que Nuno Ramos, já em 2014, cravou: “suspeito que estamos fodidos”.

Ou ainda antes, em 2008, ao poema de Reynaldo Damazio que radicaliza a conversa travada de “Sinal fechado” (Paulinho da Viola, 1969):

“tá foda, mano/ é, tá foda/ tá muito foda/ é, muito/ tá foda pra caralho/ é, fodeu mesmo/ mano, tá muito foda pra caralho/ é, encaralhou de vez” (“Entropia”, no livro Horas perplexas).

Poetas são antenas, como um outro poeta já disse, antenas muito sensíveis, capazes de pegar no ar do futuro o que vai nos abater num dia qualquer, por isso era tão difícil, para tanta gente, reconhecer em 2014 – e ainda mais, muito mais, em 2008 – que esses poetas tinham razão no diagnóstico.

Hoje, na transição tenebrosa de um 2018 de derrotas para um 2019 que não deve ser nada melhor, ainda deve existir quem considere que esses poetas e tantos outros exageraram.

Devem ser as mesmas pessoas que ainda não se sentem constrangidas ao ouvir um “tudo bem?”. Ainda.

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5 comentários

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Zé Maria

29 de novembro de 2018 às 21h21

Entrementes …

Conmebol anuncia que mudará o nome da Copa ‘Libertadores’ para “Espoliadores da América”…

A Partida Final da Copa, entre os Times Argentinos River Plate e Boca Juniors, será realizada no Estádio Santiago Bernabéu, do Real Madrid, na Espanha.

Pela primeira vez em 58 anos de história da competição,
a final da Libertadores será disputada fora da América do Sul

https://t.co/J6B56fzn0L
https://twitter.com/elpais_brasil/status/1068282680209481729

Responder

Edgar Rocha

27 de novembro de 2018 às 23h07

Antes da tempestade, a bonança
Depois, vem a lambança
Começando com a matança
seguida da desesperança
casada com a lembrança

de que antes da tempestade
Num tempo não tão remoto
Vivíamos na bonança…

Mudando de assunto, me lembrei de meu ídolo da infância, o palhaço Torresmo:
“Como vai, como vai, como vai?!”Aí, o Pururuca respondia, em plena ditadura, num circo todo remendado que chovia dentro pra um público de crianças de joelho grande, pezinho com chinelo, banho tomado, cabelinho penteado e cheirando a sabonete. Felizes da vida, comendo pipoca e explodindo em gargalhadas, quase chorando de ver o palhaço da TV ali pertinho, com os heróis do Telequete, com show de contorcionista e de algum cantor que a mãe escutava no Zé Bétio. Que foda, hein? Ópio do povo…
QUE NADA!!! A vida já é uma merda, vão me privar de sorrir, de ao menos cultivar gentileza???
Tudo bem! Tudo bem, bem, bem!
Quem gosta de remoer infelicidade é a classe média. Pobre tem alegria! Considere os fatos: Torresmo e Pururuca nunca tiveram tanta concorrência. E rir de quem se leva a sério é muito mais gostoso. Foi assim que me vacinei contra o fascismo.

Responder

Sandra

27 de novembro de 2018 às 21h20

Sofremos um golpe
Dilma foi deposta sem crime
Lula está preso injustamente
Perdemos as eleições e
Eu perdi meu amor
Tudo bem? Não! Por favor!
Tá foda!

Responder

Zé Maria

27 de novembro de 2018 às 15h48

Tudo Bem, o Escambau!
Isto é uma Humilhação ao Pobre Trabalhador Assalariado:

Temer limpou a barra dele e a do Botsonauro com os Juízes.

Confira abaixo a remuneração atual
e depois do reajuste à Magistratura Federal:

Supremo Tribunal Federal (Ministros STF) e PGR [1]

Atual: R$ 33.763,00
Com Reajuste: R$ 39.293,38* (Teto Constitucional [2])

*Corresponde a + de 18 vezes a renda média
do trabalhador brasileiro (de R$ R$ 2.154,00)
verificada em Dezembro de 2017.

Demais Tribunais Superiores (Ministros TSE, STJ, TST e STM)

Atual: R$ 32.074,85
Com Reajuste: R$ 37.328,71

Tribunais Federais (Desembargadores TRF, TRE, TRT) [3]

Atual: R$ 30.471,11
Com Reajuste: R$ 35.462,28

Juízes (Federais, Eleitorais e do Trabalho)

Atual: R$ 28.947,55
Com Reajuste: R$ 33.689,16

[1] O Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) aprovou reajuste salarial de 16,38% para todos os Procuradores da República, percentual idêntico ao que foi definido para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

[2] Apesar de o reajuste não ser estendido a todo Funcionalismo, mesmo os Judiciário, em várias carreiras,
há servidores que ganham mais que o teto constitucional.
Seus salários sofrem o chamado “abate teto”.
Se o teto aumentar, os salários deles também sobem
para R$ 39.293,38.

[3] Em alguns Estados, como no Paraná**,
o aumento aos Juízes, Procuradores e
Desembargadores Estaduais é automático
e os salários são correspondentes aos Federais.
Em outros, depende de autorização em lei local.

**(https://www.gazetadopovo.com.br/politica/parana/entenda-o-efeito-cascata-no-parana-com-o-aumento-dos-salarios-no-stf-4lfby1wb0xfqqbmkz67slgoo6)

Responder

Armando

27 de novembro de 2018 às 10h08

…..Tá foda mesmo..! Mas…até quando esse povo fudido, enganado e alienado vai deixar de confirmar a mediocridade de nossa sociedade? Tristes trópicos…..!

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