Rainha Rania, da Jordânia:“É necessário romper o bloqueio de mentalidade de Israel”

Tempo de leitura: 5 min

7/6/2010

por SMR Rainha Rania da Jordânia, The Independent, UK, traduzido por Caia Fittipaldi

O que têm em comum chocolate, biscoitos, papel A4, batatas fritas, brinquedos, geleia, nozes, frutas secas e bodes? É difícil adivinhar. Se você for moderado, nada há de comum entre esses itens. Mas se você for político israelense extremista, essa é uma lista de produtos potencialmente perigosos, que podem ameaçar a segurança de Israel. Parece que essa linha mais dura do espectro ganhou a disputa, porque é expressamente proibida a entrada desses itens, em Gaza.

Entende-se. Quero dizer, podem-se causar ferimentos graves no inimigo, com um biscoito de chocolate. E recortar papel, então, ah, é muito perigoso!

Não quero superdramatizar a situação, porque nem tudo é desgraça em Gaza. Encontram-se lá vários itens úteis à vida: esfregões, esponjas para lavar pratos, cartelas de ovos, produtos para limpar vidro, pentes, gaiolas plásticas para galinhas e lentilhas, por exemplo. Assim sendo, por que, exatamente, o 1,5 milhão de pessoas que vivem em Gaza reclamam? O que poderia haver nos barcos da Flotilha da Liberdade, que os fuzileiros navais israelenses atacaram na madrugada de 2ª-feira, em águas internacionais, em mais um ataque que horrorizou nossa comunidade humana global?

Segundo todos os relatos, havia na flotilha 10 mil toneladas, não de armas, mas de ajuda humanitária vital. O povo de Gaza necessita desesperadamente sobreviver aos 1.000 dias de bloqueio ilegal que destrói Gaza e a reduziu a prisão a céu aberto. Ajuda humanitária, como cimento para reconstruir casas reduzidas a ruínas, montes de tijolos e pó, depois dos monstruosos ataques a Gaza, ano passado; material escolar; equipamento médico, como tabletes para purificar água e cadeiras de rodas.

O ataque horrorizou o mundo pelo flagrante e absurdo desrespeito a qualquer lei internacional, aos direitos humanos e às normas diplomáticas. O ataque horrorizou o mundo, mas não me surpreendeu. E não pode ser analisado como evento isolado. É mais uma eclosão de um dogma que fermenta há muito tempo, na paisagem política de Israel.

É doutrina que vive de si mesma e para si mesma, indiferente aos outros. Sobrevive porque está implantada no plano cognitivo e subliminal. Está implantada na consciência do público, mediante a repetição de um conjunto de princípios, segundo os quais a própria existência de Israel é eternamente ameaçada, e tem de ser defendida por quaisquer meios (preferentemente pela força, para que o inimigo aprenda quem é o patrão). Para tanto, implantou-se em Israel uma mentalidade de “nós contra o mundo”. Por sua própria natureza, essa ideologia de violência se autorreforça pela repetição e perpetua-se, ela mesma. O objetivo dessa doutrina é sobreviver – e essa meta condiciona todas as demais. Se, para existir, essa doutrina tem de redefinir o que é aceitável, retraçar as linhas da lei internacional, reimagi nar armas mais adequadas –, que assim seja. Atribuindo-se a eles mesmos plena autoridade e total imunidade, os líderes israelenses sentem-se autorizados a fazer o que bem entendam, e não esperam que o mundo os aceite.

Mas essa via de pensamento e ação dura e extremista é minada de perigos para todos nós. Essas políticas radicais degradam os valores dos israelenses, e todos os valores humanos. As medidas mais radicais tornam-se palatáveis. Infligir violência a uma maioria inocente, para punir uns poucos culpados passa a parecer possível, logo, necessário. Cada dia a mais que dure o bloqueio de Gaza, é mais um dia em que toda nossa humanidade permanece sitiada.

O efeito é haver na Palestina um povo preso num beco sem saída, entre a montanha e uma política dura. O resultado é o desespero; a resposta, políticas cada vez mais duras e extremistas, pensadas para salvar as políticas duras e extremistas de antes. Afinal: o obsceno ataque à flotilha de pacifistas aconteceu para proteger a segurança de Israel, ou para reafirmar o próprio sítio de Gaza?

Mais frustrante ainda é ver Israel defender suas ações. Ao atacar todos os que criticam os atos de Israel, como se todos fossem parte de alguma campanha anti-Israel, ou de guerra de propaganda antissemita, Israel demonstra, mais uma vez, que não entende que o principal problema são as próprias políticas israelenses, problema que não se resolve com ações de propaganda. Agora, como sempre, a política israelense de violência e os que a defendam são veículo para forças cada vez mais obscurantistas que, ao mesmo tempo, canibalizam e incendeiam a própria Israel. Nenhum bem pode advir daquelas políticas. São políticas insustentáveis, porque veem algum direito em negar direitos humanos fundamentais.

Exceto todos os que defendam políticas de violência dos dois lados, e que hoje se veem fortalecidos para embarcar em mais fanatismo, todo o resto da humanidade perde, por causa das políticas israelenses.

Perde o povo de Gaza: 80% dos gazenses vivem abaixo da linha de pobreza. Perdem as crianças de Gaza, onde 1/3 das escolas foram destruídas no final do ano passado, e jamais reconstruídas até agora. Perdem os recém-nascidos de Gaza: 95% da água disponível para uso humano em Gaza não atende as recomendações da OMS, o que expõe milhares de bebês ao risco de envenenamento por nitrato.

Perde o povo de Israel, cidadãos de um Estado rejeitado hoje por 1/3 das nações representadas na ONU e pela maioria da comunidade global; o cidadão israelense comum descobre-se hoje persona non grata fora das ‘fronteiras’ de Israel. Viver na defensiva não é viver. Os seres humanos precisam de bases seguras para sobreviver e prosperar. O governo de Israel estará realmente preparado para as consequências de condenar os próprios israelenses a viver sobre as frágeis bases de um Estado governado pelo medo? Estará preparado para as consequências que advirão dessa condenação?

As lideranças políticas de Israel têm de fazer-se algumas perguntas muito difíceis. “Estamos mesmo comprometidos para sempre, numa estratégia de governar pelo terror? O futuro que o governo de Israel espera dar aos israelenses é uma situação perene de autodefesa? Desejamos para os israelenses, esses horizontes sem qualquer esperança?”

E perdem também, em todo o mundo, todos os moderados. Pessoas que, como eu, atreveram-se a confiar que o caminho que leva à paz não seja caminho desolado e solitário. Que se atrevem a confiar em que a Solução dos Dois Estados não é produto de imaginação de idealistas. E todos os que assumem a responsabilidade ética de enfrentar os dados e a ciência da realidade, para formar uma coalizão de humanos que questionam e confrontam as ideias e pressupostos da extrema-direita, em todo o mundo, para reafirmar o ethos da moderação. Afinal, viver é viver moderadamente, praticamente em todos os aspectos do viver.

Falando como moderada, temo que, se a maré não virar em nossa Região, a moderação estará entre as mais dolorosas mortes que todos lamentaremos, em quadro de políticas cada vez mais duras e extremistas e repetidas agressões.

Acompanhei a luta do falecido rei Hussein, em nome da paz, até seu último alento de vida. Hoje vejo seu filho, meu marido, rei Abdullah, que continua a mesma luta. E parte-me o coração ver que todos, nessa Região, ainda caminhamos, todos os dias, cada vez para mais longe da paz.

Morre a paz. Morrem pessoas. Morre a moderação. Parece-me que é preço alto demais a pagar, para manter políticas duras, de violência e extremismo sempre crescentes.

É verdade que as bem-vindas flotilhas da paz vieram para trazer socorro ao povo de Gaza. Mas também é verdade e tão importante quanto o socorro: vieram, também, para tentar romper o bloqueio da mentalidade e das políticas de violência, de Israel.


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Comentários

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Pitagoras

Enquanto os árabes, brigando entre si há mais de 60 anos por questiúnculas paroquiais, não se unirem para dar uma lição em quem invadiu suas terras e jamais quis se acomodar com os locais e viver em paz, os israelenses ( pouco a ver com judeus), títerees dos americanos e seus pupilos, escalarão a opressão sobre os Palestinos.
Como é que uma nação arrancada à força de outra passa a receber gente de tudo que é lugar, sem nenhuma raíz étnica com a região, bastando se declarar judeu e ir estabelecer novas colônias no território palestino?
Com que direito? só o direito da força, e contra ele, mais força se fraz necessário.

clau_stef

"Acompanhei a luta do falecido rei Hussein, em nome da paz, até seu último alento de vida."

Luta pela paz? Esse rei Hussein por acaso é o mesmo rei Hussein do Setembro Negro?

Maria A. M. Branco

Nunca vou esquecer paraentes vindos do Líbano para o Brasil fugidos da guerra dos "6 dias" Israel massacrou o Líbano, segundo a Biblía é o povo escolhido, será mesmo? Sou neta de libaneses, minha família paterna é de Zahlé, é a 3ª cidade do Líbano, a Rainha Rhania é bela de rosto e de alma, precisamos de vozes como a da Rainha em prol da paz.
Minha família é: MUTRAN BRANCO

    clau_stef

    E quem começou a Guerra dos Seis Dias, Maria? Foi Israel?

mariazinha

No dia em que o povo árabe se unir contra EUA/israel, haverá um banho de sangue por ali; seria melhor que todos se conscietizassem que não é possível mais aturar tal situação e partissem para um acordo, punindo, severamente, israel.

Quem não acredita nas palavras da bela RAINHA, poderia meditar que, há bem pouco tempo, ninguém iria sonhar com um voto contra os planos dos buches na onu; que dirá dois, da Turquia e do Brasil, dois importantes países que sempre estiveram alinhados. Um dia, todos se cansam e não tarda, o povo árabe irá se cansar como nós, brasileiros, descobrimos que não vale a pena aliar-se a bandidos.

william porto

A Rainha, de forma elegante, mas com um humor corrosivo, bateu forte no fascismo israelense. Essa Rainha tem coragem e nao e apenas figura decorativa mas uma Combatente da Librerdade. Viva a Rainha Rania.

Allan Erick

Muito bom saber que a Rainha Rania está engajada na luta contra a opressão da ocupação sionista das terras palestinas, mais conhecida como "Estado de Israel".

No mias, quem ainda não sabe o que é sionismo basta ler o texto de Rania, é ao sionismo que ela se refere quando fala em "doutrina".

Muito bom saber que até mesmo na Inglaterra a imprensa publique textos como esse.

Erica

Moralmente Israel já era.

Raphael Pereira

Um artigo bonito, elegante e inteligente, mas por quê a família real daquele país não o aplica na prática? Aliás, acho sinceramente que grande parcela do sofrimento daquele povo se deve a covardia e omissão dos próprios países árabes. A impressão que me passa é que por um punhado de dinheiros tudo se pode no Oriente Médio (vide Arábia Saudita, Egito, Jordânia…). E mais: acho que o povo árabe faz muito barulho, mas ações mesmo, é quase nenhuma!
Ah, sou um defensor intransigente do povo palestino.

Marat

Mas, se com papel, bombons e grafite é possível fazer bombas, que os israelenses contratem o Mcgiver…

Léo Vitor Junqueira

Não ao pensamento simplista Preto no Branco da grande mídia que promove discussões superficiais e estimula o Eu contra Ele, o Nós contra Eles e implode o espectro político dos países, levando-os para polarizações, extremismos e bi-partidarismos. Esse modelo acontece aqui no Brasil, com uma resistência cada vez mais crescente da sociedade; nos Estados Unidos com focos de resistencia que tendem a ser abafados e banalizados, tendo sua expressão máxima em Israel, onde o governo extremista beira a surdez e a inconsequência.

George Matos

Nossa mídia corporativa está mais preocupada na corbertura da COPA do mundo de futebol, ou na campanha de SERRA que nas coisas realmente importantes…

flavio cunha

Gostei especialmente da frase que diz que as atrocidades de Israel horrorizou a comunidade humana, muito certo, pois quem não horrorizou-se com aquela covardia, certamente de humano não tem nada, e aí estão as lideranças judias, seus aliados americanos e a nossa mídia podre e corrupta do Brasil.

Marcus

Infelizmente , apesar de qualquer defesa aos Palestinos ser importante , essa Rainha e seu marido são moralmente inadequados. O sogro ao qual ela se refere era agente da CIA e enre quatro paredes fez acordos espúrios com Israel para expulsar os Palestinos . E o marido dela continua com o legado e a profissão de agente do Pai. Essa família real não vale um centavo e somente se sustenta com farto financiamento Norte Americano e conluio com Israel. Essa gente embrulha os estômago !!

galvão vilas boas

http://fotos.sapo.pt/9Mn6zzEriSUbsDjOiaKa/500×500
Bonita de rosto e de alma.
Que belo texto, doce RAINHA; esta, sim, uma verdadeira RAINHA http://www.tonipinheiro.com/blog/rania.jpg

Wendel

A Rainha Rania, deu o recado! Pena que nossa mídia não tenha dado o destaque que seu artigo merece. Mas é sempre assim – quando interessa fazem um carnaval com as mínimas picuinhas, mas quando os assuntos são as agressões do Estado Terrorista de Israel aos Palestinos, nada ou pouco é divulgado! Também, em que mãos estão as Agências de Notícias e a maioria dos jornais no mundo?
Ganha uma bala quem acertar!!!!
FREEEEE GAZAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Jairo_Beraldo

É necessário romper que existe Israel!

Go Oliveria

O povo de Israel se acha o Eleito, daí acreditar que tudo pode. Até porque se abriga no manto de anti-semitismo.

Israel já se encontrou sob tortura e injustiças, mas não aprendeu nada.

Mudaram apenas os instrumentos, os meios e as insígnisas, mas as barbáries que sofreu são as mesmas que Israel pratica contra o Povo Palestino.

Go Oliveria

Eu acho que da lista toda o mais mortal é a geléia!

Leider_Lincoln

Uma majestosa aula de humanidade! Está nua a hipocrisia, a desumanidade, a perversão e a sanha dos israelenses.

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