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Pepe Escobar: O Iraque, triturado entre EUA e Irã


30/03/2010 - 13h51

31/3/2010

por Pepe Escobar, no Asia Times Online

Mais de sete anos depois de os EUA terem invadido o Iraque para levar “democracia” ao país, os neoconservadores que inspiraram o projeto podem pelo menos experimentar o prazer perverso de assistir à vitória do sectarismo, nas eleições de março, no Iraque, ao mesmo tempo em que assistem a duas derrotas: do ex-primeiro-ministro e aliado da CIA Iyad Allawi, e do atual primeiro-ministro e aliado do Irã Nuri al-Maliki.

Tecnicamente, a lista eleitoral de Allawi (“Iraqiya”, Lista Iraniana) elegeu 91 deputados à próxima Assembleia Nacional; e a de Maliki (Lista “Estado de Direito”) elegeu 89 deputados. Os sadristas elegeram 38 deputados, dos 70 do bloco “Aliança Nacional Iraniana [ing. Iraqi National Alliance (INA)]. A Aliança do Kurdistão obteve 43 assentos-votos na Assembleia. Outros pequenos partidos alcançaram 33 assentos-votos. O grande derrotado foi o Conselho Supremo Islâmico do Iraque [ing. Islamic Supreme Council of Iraq (ISCI)], que integra a INA. O sectarismo venceu.

Uma coisa já é virtualmente garantida: Allawi lutará para ser primeiro-ministro. E Maliki também, com absoluta certeza. Resta entender por quê.

A coalizão de Allawi é grupo heterogêneo de ex-ba’athistas (como Allawi), sunitas e xiitas seculares, nacionalistas, os que votam contra interferência iraniana, mais uma coleção de partidos de província. Allawi é fortemente apoiado por todos os Estados sunitas do Golfo – especialmente a Arábia Saudita. Garantiu quantidade surpreendente de votos sunitas no norte e oeste do Iraque. Em Bagdá, recebeu não só os votos dos sunitas remanescentes (a cidade é hoje predominantemente xiita), mas também muitos votos de xiitas seculares.

Na coalizão “Estado de Direito” de Maliki, o poder predominante é seu partido Da’wa Islâmico. Antes da eleição, Maliki deitou-se com a Aliança Nacional Iraquiana; e organizou o que, para todos os objetivos práticos, foi um expurgo nos imensos aparelhos de segurança e inteligência (os quais, de fato, são pagos por contribuintes norte-americanos).

A Aliança Nacional Iraniana, ela mesma, foi construída em Teerã no verão de 2009, enquanto o falecido Abdul Aziz al-Hakim, líder do Conselho Supremo Islâmico do Iraque, agonizava. Seu filho, Ammar al-Hakim, é hoje líder do Conselho Supremo Islâmico do Iraque. A trégua-chave entre Muqtada al-Sadr e al-Hakim foi construída por ninguém menos que o presidente do Parlamento iraniano, Ali Larijani, iraquiano nascido em Najaf, além de comandante da Força Quds do Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Force of the Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC)].

Agora, Teerã partiu para a luta no centro do ring. Nos últimos dias da semana passada, encontro em Teerã reuniu gente de Maliki, sadristas, o presidente Jalal Talabani (curdo), e o vice-presidente Adil Abdel Mahdi, do Conselho Supremo Islâmico do Iraque. Objetivo: encontrar meio de costurar uma coalizão não-liderada por Allawi. De fato, a única saída possível para o Iraque é um governo de unidade nacional, mas que inclua o pessoal de Maliki, o pessoal de Allawi e os sadristas. Mais fácil falar, que fazer – porque os sadristas odeiam Maliki; foi ele quem lançou o exército iraquiano contra o Exército Mahdi em Basra e Bagdá no verão de 2008.

As milícias, à espera dos acontecimentos

Apesar da muita conversa sobre ‘democracia’, o Iraque continua a ser o paraíso das milícias. Todos têm sua milícia – dos curdos ao Exército Mahdi dos sadristas, para não falar da notória Brigada Badr do Conselho Supremo Islâmico do Iraque. A antiga resistência iraquiana sunita – de Ansar al-Islam às Brigadas da Revolução de 1920 – parece ter-se desarmado, mas de fato está à espera dos acontecimentos. O movimento Sahwa (“Despertar”) – que a mídia corporativa nos EUA considera “heróis” da luta contra a al-Qaeda – é pura confusão. A “Al-Qaeda na Terra dos Dois Rios”, parte do Estado Islâmico do Iraque [ing. Islamic State of Iraq (ISI)], e uma amostra sortida de vários pequenos grupos jihadistas, podem estar dormindo no momento, mas não dormirão por muito tempo.

Qualquer chance que haja de Allawi chegar ao poder implicará negociação extremamente improvável com os curdos – inimigos muito falantes dos aliados árabes nacionalistas de Allawi, sobretudo na disputada Mosul. Allawi também precisará do apoio dos pequenos partidos. E Allawi não conseguirá atrair os sadristas; primeiro, porque são anti-Ba’athistas ferozes; segundo, porque estão presos numa aliança de fato com o Irã desde 2007. Muqtada está vivendo e estudando em Qom. O apelo chave dos sadristas, que atrairá tanto sunitas quanto xiitas, é exigir a imediata retirada de todos os soldados dos EUA.

Há sete anos, a aniquilação da já depauperada máquina militar de Saddam pode ter posto fim a uma das perenes “ameaças existenciais” contra Israel. Quanto a saquear as fabulosas reservas de petróleo do Iraque, o negócio será muito mais complicado, sobretudo agora, quando as gigantes chinesas e russas do petróleo estão de volta ao jogo (ver “Iraq oil auction hits the jackpot”, Asia Times Online, 16/12/2009, http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/KL16Ak02.html).

Com retirada ou sem retirada, Washington tem de permanecer no Iraque, e com força, para tentar lucrar na nova bonanza da energia. Portanto, aquela mega-descomunal fortaleza (orçamento previsto para 2010: US$675 milhões) disfarçada como Embaixada dos EUA e recheada com mais de 10 mil agentes de inteligência, é indispensável.

Portanto, o cenário está preparado para a eclosão de um grande show de fogos. A jogada de Washington é fazer de tudo para fortalecer Allawi. A jogada de Teerã é fortalecer Maliki, os sadristas e o Conselho Supremo Islâmico do Iraque (ISCI) dentro da Aliança Nacional Iraniana, e os curdos – todos contra Allawi.

Em mais uma pungente ironia das muitas que há na tragédia do Iraque, se Allawi, conhecido também como “Saddam light”, perder tudo, pode-se apostar um carro cheio de explosivos em que os sunitas tornar-se-ão, literalmente, míssil-balísticos.

Reina hoje no Iraque o sectarismo, não alguma “democracia”.

Pepe Escobar é jornalista e escritor; acaba de lançar Obama does Globalistan (Nimble Books, 2009). Recebe e-mails em [email protected] .



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10 comentários

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Lucas Cardoso

02 de abril de 2010 às 15h48

Peraí! A introdução diz que os EUA invadiram o Iraque para democratizá-lo. E as armas de destruição em massa? Não era esse o motivo?

Responder

Olímpio Cruz Neto

31 de março de 2010 às 23h11

caramba,
há anos não sabia notícias do pepe escobar.
gostava de sua verve no jornalismo cultural.

Responder

Glecio_Tavares

31 de março de 2010 às 01h59

É sim, leia esta outra matéria dele no viomundo é ótima para mostrar como o Lula é visto lá fora.
https://www.viomundo.com.br/voce-escreve/pepe-esco

Responder

    francisco.latorre

    31 de março de 2010 às 04h23

    glecio…

    vai no sítio e dá um sinal.

    o tal mpost é impraticável.

    deixa seu e-mala ou qualquer coisa.

    abs

Hans Bintje

30 de março de 2010 às 20h26

Se alguém por aí souber falar árabe, por favor, traduza para os iraquianos a ótima discussão que está havendo no blog do Luis Nassif ( http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/03/30… ). Trecho:

A questão é: se existe capital disponível [no caso iraquiano, a renda proveniente da venda do petróleo], quais são as opções para aplicá-lo de maneira produtiva sem provocar danos ao equilíbrio financeiro [e assegurar a paz social] do país?

O Luis Nassif tem tratado desse assunto com bastante competência em vários artigos deste site. Mas eu vou fazer uma provocação, citando a imprensa que detesta o atual governo federal do Brasil, para você ter uma idéia dos valores monetários que estão em jogo:

"A iniciativa prevê investimento de R$ 1,59 trilhão entre 2011 e 2014 em áreas de alta sensibilidade social, como moradia e saúde.

O PAC 2 tem previsão de investimento de R$ 958,9 bilhões entre 2011 e 2014. No período pós-2014, a estimativa de injetar mais R$ 631,6 bilhões em obras – totalizando o R$ 1,59 trilhão. Os focos são os mesmos da primeira etapa, iniciada em 2008: logística, energia e núcleo social-urbano.

Essas três frentes foram divididas em seis grupos: Cidade Melhor, Comunidade Cidadã, 'Minha Casa, Minha Vida', Água e Luz para Todos, energia e transportes. 'O PAC foi fundamental porque a liberação de recursos sempre esteve condenada à apresentação de projetos, e não a inclinações políticas e partidárias'."

Fonte: http://noticias.uol.com.br/especiais/pac/ultnot/2

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Correa

30 de março de 2010 às 20h04

Concordo com o blogueiro Fernando Trindade. O Blog do Azenha é uma ótima fonte de informações "off" mídia tradicional. Passo aqui todos os dias, e o conteúdo é muito interessante e diversificado.

Responder

Leider_Lincoln

30 de março de 2010 às 19h40

Segundo outro post, estão sendo golpeados pela China no Afeganistão, estão pelo jeito dançando no Iraque e no ritmo atual, em 10 nos só poderão pensar em influir nas Ilhas Maldivas… Seria o surgimento de uma política de "A Ásia para os asiáticos"? Aliás, sendo lenta e inexoravelmente "retirados" da AL, Ásia, empurrados da África, com a expansão da Rússia pela Europa (seria o surgimento de um eixo Paris-Berlim-Moscou?) em um tempo mais breve do que imaginamos os EUA terão de usar o seu fascismo contra os próprios estadunidenses.
Aí sim, eu quero ver…

Responder

francisco.latorre

30 de março de 2010 às 18h40

aonde a amerika põe as mãos…

é desastre garantido.

vejam a colômbia.

não é acaso.

Responder

elizabeth

30 de março de 2010 às 18h09

Gente, que surpresa, Pepe Escobar é vivo ainda?

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