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Pedro Tourinho: É necessário humanizar o que é essencialmente humano


18/03/2012 - 18h32

por Pedro Tourinho

Nas últimas  semanas um vídeo que mostra um parto humanizado, feito em casa e sob assistência de uma equipe especializada vem ganhando enorme repercussão nas redes sociais. Até agora já são mais 1 milhão 850 mil visualizações. Refletindo sobre a repercussão deste vídeo, os milhares de comentários emocionados e emails que a família vem recebendo, pode-se pensar se toda essa repercussão não seria de fato um sintoma, expressão de um desejo amplamente disseminado, mas que pouco se manifesta, de termos esse momento tão marcante e mágico que é o parto tratado de forma mais humana, com maior presença de quem se ama e maior autonomia para a mulher.

Experiências de humanização do parto, como a maravilhosa experiência vivida por Sabrina, Fernando e Lucas no vídeo, existem por todo o Brasil, mas ainda possuem caráter marginal, restrito a pequena parte da população. Convivemos com uma situação em que 25% das mulheres relatam algum tipo de mau-trato durante o parto. Essa é a realidade brasileira, tanto no Sistema Único de Saúde quanto serviços privados. A redução da mortalidade materna é o único objetivo do milênio que não será atingido pelo Brasil até 2015. Nosso pais é campeão mundial em partos cesárea. Cerca de 50% dos partos realizados no Brasil são partos cesárea, sendo que na rede privada a taxa chega a mais de 80%!

Frequentemente estes partos são marcados com meses de antecedência e grande parte das vezes, a possibilidade da realização de um parto normal, fisiológico e saudável não é sequer oferecida às gestantes e pais. Um parto natural, então, nem sequer é cogitado. Quando realizado sem indicação precisa, o parto cesárea está associado maior mortalidade materna e neonatal, ao aumento da dor no pós parto, maior necessidade de intervenções médicas e maior risco de prematuridade do bebê.  Atualmente uma parte importante das mortes de mães e bebês está associada não à falta de assistência, mas a procedimentos cirúrgicos desnecessários.

A realidade atual se dá em grande parte pelo reconhecimento e tratamento da gravidez como uma doença, seja por parte dos profissionais da saúde, ou por parte da população. Disso decorre uma rede de cuidados à gestante que, frequentemente, opera focada em procedimentos burocráticos, no qual se enfatiza os aspectos negativos da gravidez, como os riscos de adoecimento e complicações. A dimensão humana, cuidadora, o compartilhamento dos processos de transformação e a preparação cuidadosa para o momento do parto e para os primeiros cuidados com o bebê acabam ficando na maioria das vezes relegados ao segundo plano, quando são abordados.

De certa forma, o parto de Sabrina vem afirmar justamente o contrário de tudo isso. Revela uma aposta em um pré-natal minunciosamente realizado, no estabelecimento de uma relação amorosa com a gestação, com o bebe e com o próprio corpo. A gravidez e o parto se manifestam como processos vitais, fisiológicos e potentes que as mulheres têm a sorte de poder experimentar.  Ilustra ainda uma imensa generosidade e solidariedade, com a participação ativa, constante do pai, a presença e o cuidado atento de profissionais bem treinadas e pacientes. Ao fim das contas, o parto acaba sendo uma potente reafirmação da vida, vivida e criada.

A poesia e emoção compartilhadas por mais de um milhão e meio de pessoas também nos desafia: como tornar acessíveis a todos experiências como a do vídeo? Como transformar essas experiências e iniciativas de sucesso em políticas públicas?

Serviços e equipes que defendem o parto humanizado enumeram alguns princípios, que poderiam ser aplicados a todos os pontos das rede de cuidado à saúde das gestantes. Dentre estes estão: a valorização da experiência humana; a mulher e a família como centros da atenção; fortalecimento da mulher como cidadã, resgate das características fisiológicas e naturais do nascimento; práticas baseadas em evidências científicas; trabalho em equipe multiprofissional.

É preciso, em síntese, que as mulheres tenham direito à gravidez desejada, assistida, segura e com liberdade de escolher os acompanhantes na hora do parto, que tenham respeitado o direito ao parto normal ou natural, que as doulas tenham seu trabalho reconhecido e legitimado pelo sistema de saúde, que a possibilidade de inserção de partos domiciliares realizados por médicos, obstetrizes ou enfermeiros obstétricos comece a ser discutida como uma possibilidade segura no SUS, e por fim, que as mulheres tenham a tranquilidade de poder contar com todas as técnicas mais avançadas se a situação clínica assim exigir.

Em seu texto de apresentação ao vídeo, Sabrina nos fala que “seu caso virou sua causa”. Que essa causa seja a causa de todas as centenas de milhares de pessoas que já tiveram o privilégio de ver, com seus próprios olhos, que ter um filho pode ser, simplesmente, humano.

Enquanto ainda se fizer necessário humanizar o que é essencialmente humano, é preciso que façamos dessa também a nossa causa.

Pedro Tourinho é médico sanitarista e membro do Conselho Nacional de Saúde (CNS), onde representa Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG)

PS do Viomundo: Sabrina é terapeuta ocupacional. A decisão do parto domiciliar só foi tomada após a equipe de saúde avaliar a gravidez dela e concluir que era de baixo risco.

Conversamos com a enfermeira obstétrica Alaerte Leandro Martins sobre o parto em casa. Ela integra o Comitê de Prevenção de Mortalidade Materna do Paraná e a Comissão de Prevenção da Morte Materna do Ministério da Saúde. É coordenadora executiva da Rede de Mulheres Negras do Paraná.

“Infelizmente é uma prática para pouquíssimas  mulheres que podem pagar”, observa ao Viomundo Alaerte Martins. “Mas um dia as equipes de PSF [Programa de Saúde da Família] farão não apenas o  pré-natal mas também o parto em casa de pelo menos 60% das parturientes.” Conceição Lemes

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5 comentários

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Caso Alyne:Entidades denunciam inércia do Brasil e exigem que assuma responsabilidade e indenize família « Viomundo – O que você não vê na mídia

15 de agosto de 2012 às 18h27

[…] Pedro Tourinho: É necessário humanizar o que é essencialmente humano […]

Responder

priscila

27 de março de 2012 às 13h03

O dia em que um homem puder engravidar, ele poderá dar palpite sobre parto natural sem anestesia e sem assistência hospitalar.

Responder

Ellen Machado Rodrigues

20 de março de 2012 às 10h15

Excelente texto, Pedro! E muito boa provocação para pensarmos o sentido de políticas públicas; um sentido que seja potencializador da Vida (com letra maiúscula, sim) que tenha espaço para a beleza tanto quanto para o sentido mais mecânico e operativo da vida. O que me faz lembrar a música "a gente não quer só comida/a gente quer comida, diversão e arte… a gente não quer só comer/a gente quer prazer/pra aliviar a dor…" e por aí vai.

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Wildner Arcanjo

19 de março de 2012 às 08h22

O parto no Brasil, na verdade no mundo inteiro, deixou de ser algo natural e de importância para a nossa espécie, para ser um negócio econômico. Hospitais maximizam os lucros, montando verdadeiras linhas de "botar criancinha para fora".

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Paulo Navarro

18 de março de 2012 às 20h17

Belo texto do meu amigo Pedro Tourinho! O pior é que, além do parto, temos várias outras coisas que deveriam ser essencialmente humanas e que precisam urgentemente serem (re)humanizadas. Façamos desta a nossa causa!

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