Paulo Nogueira Batista Jr: Os juros brasileiros continuam estratosféricos. Por quê?; vídeo

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Como explicar a persistência de juros tão elevados? Quais as consequências para a economia brasileira?

Paulo Nogueira Batista Júnior, em seu canal

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O Banco Central acaba de reduzir a taxa de juro básica da Economia — Selic — em 0,25 ponto percentual, decepcionando aqueles que esperavam mais, inclusive quatro dos noves  integrantes da diretoria do Banco Central que eram favoráveis a uma redução mais acentuada.

Esses quatro não por acaso foram indicados pelo governo Lula. Os cinco remanescentes inclusive o presidente do Banco Central são indicações do governo Bolsonaro ou um ou outro do governo Temer.

O que é que significa essa decisão?

É um tema complexo e vou tentar tratar de alguns aspectos que me parecem mais relevantes e nem sempre são ressaltados.

Em primeiro lugar, por que que o Banco Central insiste em praticar taxas de juro que em termos reais estão entre as mais altas do mundo, às vezes as mais altas do mundo persistentemente?

Quais são as razões que fundamentam essa decisão?

O argumento do Banco Central é claro, pode estar errado — e eu acho que está –, mas é claro.

Ele diz o seguinte: o Conselho Monetário Nacional fixou metas de inflação, eu tenho que cumpri-las, para cumpri-las os meus modelos mostram que eu tenho que praticar juros reais dessa magnitude.

Duas questões se impõem para fazer face a esse discurso.

Primeiro, por que que as metas são tão ambiciosas então?

Será que o Conselho Monetário Nacional do qual faz parte, aliás, o Banco Central não poderia fixar metas menos ambiciosas para permitir uma política de juros mais realista, mais condizente com a economia
por parte do Banco Central, por que não?

Mas, mais importante, uma segunda questão: que modelos são esses que o Banco Central usa, não explica corretamente, não mostra na sua integralidade para avaliação crítica de observadores
externos, de analistas externos?

Que modelos são esses que justificariam uma taxa de juro real exorbitante, persistentemente?

Não se sabe. É difícil acreditar que um modelo sólido mostre a exigência de taxas reais tão altas. E essas taxas reais cobram um preço da economia brasileira e do país.

Em primeiro lugar, afetam diretamente e indiretamente também o custo da dívida pública. Constituem, portanto, uma carga de juros onerosa para o governo que explica grande parte do desequilíbrio fiscal.

A taxa de juro praticada pelo Banco Central é provavelmente o maior fator de risco fiscal na economia brasileira.

O tão propalado risco fiscal que os defensores da taxa real de juros contraditoriamente alegam que existe.

A taxa real onera o custo da dívida, aumenta o déficit e contribui quase nove vezes mais do que o déficit primário para a formação, para o aumento da dívida pública. Fato raramente mencionado.

Segundo aspecto: juro real elevado transfere renda para quem?

Para os ricos, para aqueles que têm poupança financeira, para os rentistas, transfere renda para os bancos que têm reserva de caixa apreciável e conseguem com esses juros altos que eles transmitem à economia captar com mais facilidade recursos do público. E as empresas grandes que têm reserva de caixa.

Então, é uma política eminentemente concentradora de uma renda que já está muito mal distribuída no nosso país, uma dos piores distribuições de renda do mundo também.

Então, a taxa real de juro mais alta do mundo contribui para manter e agravar a distribuição de renda que está entre as piores do mundo também. É algo inusitado.

E para terminar: a taxa de juro real alta desestimula a economia, desaquece a economia.

Quem vai investir com a taxa real de juro tão alta se pode aplicar no mercado financeiro? Que empresa fará o investimento? Nem todas farão.

Que consumidores se endividaram com crédito caro para comprar bens duráveis de consumo? Poucos poderão fazê-lo, poucos terão incentivo a fazê-lo.

Então, a taxa de juro real alta deprime o nível de atividade, desacelera a economia e, assim, rebate, de novo sobre o déficit público.  Porque a economia desaquecida reduz a base de arrecadação dos impostos, dificulta a geração de receita para fazer face ao desequilíbrio fiscal que tanto preocupa os mesmos que defendem a taxa de real de juro alta.

Então, é muito importante que o Banco Central e o governo se organizem para que a taxa de juro real no Brasil possa ser muito mais civilizada do que é na atualidade.

*Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, foi publicada em 2021.

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