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Obama arrisca-se em aventura de intimidação


26/04/2010 - 18h18

Obama arrisca-se em aventura de intimidação

25/4/2010, Gareth Porter, Asia Times Online [de Washington]

http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/Obama-gambles-on-deterrence.html

tradução Caia Fittipaldi

A declaração do governo Obama na Nuclear Posture Review (NPR) [Revisão da Postura Nuclear dos EUA 2010] de que os EUA reservam-se o direito de usar armas nucleares contra o Irã acrescenta novo elemento à estratégia de persuadir o Irã de que a ameaça de Israel, de atacar as instalações nucleares iranianas, é possibilidade real, caso o Irã não se curve à exigência de por fim ao enriquecimento de urânio.

Por mais que os funcionários tenham evitado atentamente criar qualquer conexão direta entre a nova opção nuclear e a ameaça dos israelenses, a NPR faz aumentar o número de casos em que as armas nucleares passam a poder ser usadas. – De fato, incluiu-se agora a possibilidade de resposta militar iraniana no caso de o Irã ser atacado por Israel. O único caso que se pode descrever como “eventualidade” para emprego de armas nucleares nos termos do novo documento passou a ser essa resposta iraniana a ataque israelense.

A “Nova Postura” fala do papel das armas nucleares norte-americanas, nessa eventualidade, como fator “de contenção” ou “de intimidação” [ing. “a deterrent”]. Uma estratégia de explorar a ameaça israelense de ataque ao Irã, visando a intimidar o Irã, no sentido de conter uma resposta iraniana àquele ataque – e torna mais plausível o ataque dos EUA ao Irã.

A nova opção nuclear para atacar o Irã emergiu depois de uma série de declarações, ao longo de todo o ano passado, feitas por altos funcionários, entre os quais a secretária de Estado Hillary Clinton e o vice-presidente ‘Joe’ Biden, sugerindo, sempre, que o governo toleraria uma opção israelense.

Ambos os governos, de Bill Clinton e de George W Bush, sempre disseram que os EUA “reservam-se o direito” de responder com armas nucleares ao uso de armas químicas e biológicas [ing. CBWs] em ataque contra os EUA, seus “aliados” ou seus “amigos”. Em novembro de 2003, foi construído e aprovado um plano de contingência, chamado CONPLAN 8022-02[1], para destruir armas nucleares ou instalações nucleares de inimigos. Introduziu a possibilidade de usarem-se bombas nucleares que penetram no solo, para destruir instalações subterrâneas.

Mas a “Nova Postura” de Obama fala de “estreita faixa de eventualidades nas quais as armas nucleares dos EUA podem ainda desempenhar papel de contenção em ataque convencional ou por armas químicas e biológicas contra os EUA, seus aliados ou parceiros”.

Esse linguajar parece sugerir que a opção nuclear conseguiria refrear qualquer resposta de retaliação convencional dos iranianos a ataque israelense ou contra alvos militares dos EUA na região, no caso de Israel atacar o Irã.

Os dois, Obama e o secretário de Defesa Robert Gates, fizeram declarações em que implicitamente aproximam a nova declaração de postura nuclear e o problema mais amplo de tentar obrigar o Irã a curvar-se às exigências internacionais na questão nuclear.

Em entrevista ao programa CBS News, dia 1º. de abril, perguntou-se a Obama por que parecia acreditar que, dessa vez, as sanções funcionariam. Depois de referir-se ao isolamento do Irã, o qual disse ele, “eventualmente teria efeito sobre a economia iraniana”, Obama fez clara alusão às opções militares. “Mas, você sabe, tenho dito que não retiramos da mesa nenhuma opção”, disse o presidente. “Vamos continuar a aumentar a pressão, e veremos como eles reagem.”

No passado, referências a “opções” em “mesas” sempre foram referência a ataque militar convencional pela Air Force dos EUA. Dessa vez, Obama evidentemente anunciava a opção nuclear nos termos da “Nova Postura” que seria divulgada cinco dias depois, dia 6 de abril, como meio para “aumentar a pressão” sobre o Irã.

Dia 5 de abril, em entrevista ao New York Times, perguntado se acreditava que Israel decidiria atacar o Irã “se se mantivesse a rota atual”, Obama recusou-se a “especular sobre decisões israelenses”.

“Mas”, disse ele, “queremos enviar uma mensagem forte, com as sanções, com a articulação da Nova Postura Nuclear e com a conferência para revisão do Tratado de Não-proliferação marcada para breve: a comunidade internacional fala sério quando diz que o Irã terá de enfrentar consequências sérias se não mudar seu comportamento.”

Gates foi ainda mais explícito, ao destacar o que chamou de “mensagem ao Irã”, ao apresentar a Nova Postura Nuclear, dia 6 de abril; disse que “todas as opções estão sobre a mesa em termos de como negociamos com vocês”.

Não era intenção dos especialistas que esboçaram originalmente o texto da Nova Postura Nuclear no Departamento de Estado lançar nova ameaça contra o Irã, segundo fonte que se manifestou sobre o texto, no início do mês. Mas os encarregados de montar o primeiro texto reconheceram que Gates e Obama modelaram a linguagem de modo a sugerir que os EUA, agora, estão jogando mais pesado contra o Irã, segundo fonte que não quis ser identificada.

O Coordenador da Casa Branca para armas de destruição em massa, contraterrorismo e controle de armas é Gary Samore, que, antes de passar a trabalhar para o governo Obama, discutiu publicamente a necessidade de explorar o medo dos iranianos de um ataque israelense, para dar mais peso à ação diplomática sobre Teerã.

Num fórum no Instituto Kennedy em Harvard em setembro de 2008, Samore disse que o próximo governo não quer “agir de modo que impeça” algum ataque israelense ao Irã, “porque estamos usando a ameaça como instrumento político”.

Samore foi perguntado, em sessão de perguntas e respostas depois da conferência no Carnegie Endowment for International Peace em Washington na 4ª.-feira, sobre se esperava que o Irã acreditasse que os EUA usarão armas nucleares contra o Irã, caso o país dê resposta de retaliação com armas convencionais a ataque israelense. Samore ignorou a pergunta.

Parte do aparente esforço para aumentar a incerteza, no Irã, a respeito de ataque israelense, várias declarações de altos funcionários dos EUA ao longo do ano passado sugeriam que os EUA nada farão para evitar que Israel ataque o Irã. Contudo, o governo Obama já fez saber ao governo israelense, privadamente, que se opõe fortemente a qualquer ataque israelense ao Irã – ou isso, pelo menos, é o que tem noticiado a imprensa israelense.

Alto ex-funcionário da inteligência dos EUA no Irã crê que a opção nuclear levará o Irã a avançar ainda mais na direção de armas nucleares. Em e-mail para o Inter Press Service, Paul Pillar, que foi agente da inteligência nacional para o Oriente Próximo e o Sul da Ásia de 2000 a 2005, disse que os funcionários do Irã, muito provavelmente, interpretaram a nova opção nuclear como “mais uma manifestação da hostilidade dos EUA em relação ao Irã”.

A percepção de que os EUA estão declaradamente ameaçando o Irã “servirá como um dos principais incentivos para que os iranianos desenvolvam suas próprias armas nucleares”, escreveu Pillar.

Para Pillar, os iranianos “podem também ver a doutrina como tentativa de dar cobertura a ataque dos israelenses, fazendo as vezes de instrumento de contenção da retaliação iraniana, no caso de serem atacados.”

Outros analistas político-militares lançam dúvidas sobre a credibilidade da anunciada opção nuclear contra o Irã.

Para Morton Halperin, que foi diretor do Planejamento de Políticas no Departamento de Estado do governo Clinton e falou à IPS, “nada aí me parece confiável. Não acho que o governo espere que alguém acredite nisso. Mas, considerado como tema político, seria “politicamente insustentável a alternativa de tirar da mesa a possibilidade das armas atômicas”.

Jim Walsh, do Programa de Estudos de Tecnologias de Segurança do MIT, Massachusetts Institute of Technology, que teve inúmeros contatos com líderes iranianos e com agentes da segurança nacional iraniana nos últimos anos, disse à IPS que os EUA “não usarão armas nucleares contra o Irã” e que, portanto, “é bobagem” continuar a repetir e sugerir que “todas as opções estariam sobre a mesa”.

[1] Sobre o “Plano de Contingência”, ver “A Global Strike Plan, With a Nuclear Option”, William Arkin, Washington Post, 15/5/2005, em http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2005/05/14/AR2005051400071.html.

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11 comentários

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francisco.latorre

27 de abril de 2010 às 23h24

o brasil vai pela paz.

esse o miolo da política brasileira.

por isso lula rejeita a armação amerikana.

amerika imperial perdeu a guerra da paz.

o brasil.. pode ganhar.

bem na fita o brasil de lula.

..

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Maria

27 de abril de 2010 às 22h03

Qualquer brasileiro com mais de 50 anos ou com algum grau de discernimento, tem motivos de sobra para abominar a política dos EEUU em relação a América Latina, Africa e quase todo Oriente (em especial ao Iraque e Irã). E terrível perceber a parcialidade e o jogo sujo do governo americano quando se trata de Israel e qualquer outro país.
O governo de Israel desrespeita as decisões da ONU e nenhum sanção é aplicada aquele país, enquanto a suposição da existência de "armas de destruição em massa" causaram um verdadeiro Holocauto no Iraque. Agora prepara-se o Holocauto Iraniano e o mundo dito civilizado se cala. Os poucos que querem usar o bom senso, são ridicularizados, chamados de ingênuos e sabe-se lá mais o que..
Israel dispara suas bombas de fósforo, matam, mutilam e o mundo tapa os olhos e ouvidos, até quando?
Como Cristã, peço a Jesus, que sofreu na pele a insânia desse povo, que se compadeça de todos nós, inclusive deles, e faça valer as suas justas leis, trazendo paz a esse nosso mundo.

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Urbano

27 de abril de 2010 às 21h16

Desde a 'segunda guerra', pelo menos, que o Mundo inteiro conhece essa intimidação de força bruta e, por conseguinte, as suas consequências.

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Lucas de Castro

27 de abril de 2010 às 19h25

Azenha… Seria possível vc postar alguns mapas do oriente médio, fotos ou até mesmo os dois no meio do texto, pois acredito que as imagens incentivam o leitor e deixa esta matéria mais rica?! Vc não acha?!

Agradecido desde já!

Obs: Bela matéria!

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Marcelo Ramos

27 de abril de 2010 às 18h58

Essa "jogadinha" provocativa de Obama é fraca, só demonstra sua fraqueza, na medida em que não acrescenta nada de novo. Também deixa claro que os USA estão incomodados com a postura brasileira. Como constata o especialista, o EUA apenas ameaçam mas não vão usar arma nenhuma. Já o Brasil tem adotado uma postura muito mais positiva em relação ao Irã, e tem feito progressos. China, Brasil e Rússia fecharam questão quanto a que se deve negociar com o Irã, e estão fechados por diversos motivos, entre eles o comercial. Por isso, não haverá sanções, haverá negociações. E essa dobradinha com Israel, mesmo depois de Israel ter humilhado os USA, também nada acrescenta.

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sergio

27 de abril de 2010 às 18h54

De longe, sem dúvida alguma, o que melhor poderia acontecer no mundo, seria que todas as bombas nucleares americanas, por uma obra do destino, entrassem em curto e explodissem todas ao mesmo tempo em solo americano. Isto acabaria literalmente com a arrogância, pretensão e chantaens que ficam rondando no mundo. Se esta chantagem americana funcionar, o que vai impedí-los de num futuro próximo eles fazerem exigências mais exdruxulas que esta?? Ameaçar os iranianos com guerra nuclear, caso estes revidem uma agreção israelense, é algo de puro non-sense. Quem tendo sua casa, sua família atacada, se daria o luxo de dar a outra face?????
Nobel da Paz para BABACA OBAMA, foi a piada do século.

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carlos quintela

27 de abril de 2010 às 00h19

Por essas e outras é que o Irã tem direito de ter a bomba…

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Allan Erick

26 de abril de 2010 às 23h44

Tenho dito e vou repetir pela milésima vez. Não sei se o Irã realmente está buscando a bomba, porém é compreensível se estiver. Tem como vizinho uma potência nuclear usurpadora e fundamentalista (Israel) apoiada pelo império, agora em franca decadência, que mais prejudicou a raça humana em toda a sua história. A existência dos persas depende dessa arma e eu espero que eles consigam logo.

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Carlos Lenz

26 de abril de 2010 às 21h55

Azenha

Me lembrei da estória do escorpião e do sapo, que com o rio enchendo precisavam sair da ilha e voltar para terra firme.
O escorpião propõe ao sapo que ele o carregue nas costas durante a travessia do rio.
O sapo pergunta qual é a garantia que ele terá de que o escorpião não o ferroará no meio da travessia, ao que este responde que não faria isto, pois os dois morreriam…
O sapo concorda e no meio da travessia o escorpião ferra o sapo, que antes de morrer ainda pergunta ao escorpião porque ele fez isso. Resposta : porque é a minha natureza !

Quem já usou o bomba para " evitar" muitas mortes, pode usar de novo, pelo mesmo motivo. Principalmente com os últimos custos em vidas no Afganistão e Iraque. A natureza dos ianques todos nós conhecemos de sobra ! Além disso algumas " ogivas" estão vencidas e podem ser "dasativadas" ou "substituidas", com um custo muito menor e mais interessante !

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Fátima-Ba

26 de abril de 2010 às 21h52

Resumindo: o Irã tem que aceitar ser atacado por Israel sem fazer nada a respeito.Que nem pais que batem no filho e os proíbe de chorar,"engula o choro e não reaja,apanhe calado"!
Quer saber?nessas horas tenho vontade de dar um tempo de ler esse tipo de notícias,só me fazem mal e eu não posso fazer nada para mudar situações como essa!É tão absurda uma declaração/ameaça dessa que eu fico me perguntando se não vai existir força nesse mundo que dê limites aos EUA/Israel,que contenha tanta arrogância e crimes.

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Athos

26 de abril de 2010 às 21h41

Isso me parece mais uma autorização tácita para Israel soltar sua bombinha. Depois eles podem dizer que o Próprio Império considerava a possibilidade. Assim, eles só tiveram mais coragem.

Só a possibilidade de utilização da bomba sem fins defensivos é um completo absurdo.

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