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Mateus Paul: Censura à Falha, tiro no pé da Folha
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Mateus Paul: Censura à Falha, tiro no pé da Folha


28/02/2013 - 23h47

por Mateus Pranzetti Paul Gruda, especial para o Viomundo

“Tratar o humor como ilícito, no fim das contas, é a mesma coisa que censura.” [1] Tais Gasparian, advogada da Folha que assina o processo contra o blog Falha de S. Paulo, comentando o caso jurídico envolvendo Juliana Paes e o colunista da Folha de S. Paulo, José Simão, em 2009).

Uma definição clássica de paródia é a de que esta se trata de um texto (entendendo texto aqui como qualquer manifestação discursiva, seja ela verbal ou não verbal) que repete outro texto-base, contudo o faz promovendo algumas diferenças, as quais caracterizarão este “novo” texto como depreciativo ou como uma homenagem àquele que está sendo parodiado [2]. Para poder proceder este seu intento, o principal o mecanismo em que a paródia se apoia é a ironia. Enunciando esta breve explanação de como se constituem as paródias, passemos a comentar o caso envolvendo o blog Falha de S. Paulo e o jornal Folha de S. Paulo, o qual teve seu mais recente episódio jurídico transcorrido no dia 20 de fevereiro de 2013. Nesta oportunidade o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a proibição ao blog de utilizar o seu domínio (www.falhadespaulo.com.br), bem como o logo com o qual parodiava o logo do jornal.

O principal argumento do periódico é de que a Falha estava utilizando indevidamente a marca da Folha, podendo com isto, inclusive, confundir os seus leitores e leitoras que, por ventura, acessassem por engano o endereço eletrônico da Falha. Quanto a esta última afirmação, Julian Assange, criador do Wikileaks, em entrevista concedida no final do ano de 2010, comentou cirurgicamente que:

“[…] o blog não pretende ser o jornal e acho que deve ser liberado. A censura é um problema especial quando ocorre de forma camuflada. Sempre que haja censura, ela deve ser denunciada.” [3].

Pois é, o blog se valia da relação explícita e direta existente entre texto-paródia e texto-base-parodiado, contudo a ofensiva por parte do jornal, o qual em outras oportunidades, como no caso de nossa “epigrafe”, defendeu seu direito de zombar, parodiar ou satirizar outrem através de seus colunistas e quadrinistas, se associa àquele cinismo contemporâneo de que Slavoj Žižek sintetiza com a frase parodiada de Marx: “eles sabem muito bem o que estão fazendo, mas mesmo assim o fazem” [4].

Provavelmente, mesmo com a ciência de que o blog não apenas não tencionava ser o jornal, como seguramente teria pouca expressividade para tirar qualquer vantagem econômica da propalada confusão que se provocaria pela tipografia e endereços eletrônicos similares, o periódico, ainda assim, fundamentou sua acusação neste cínico alicerce de uso indevido da marca.

A Falha de S. Paulo foi criada com o intento de escarnecer a cobertura pretensamente parcial, no entender dos criadores do blog, da Folha de S. Paulo nas eleições presidenciais de 2010. Para tal, se valeu de foto montagens envolvendo os colunistas e os donos do jornal, um simulador de manchetes, dentre outros recursos. Ao retomarmos a definição de paródia, é compreensível que o blog se valesse de deformações irônicas referentes ao conteúdo estético e de estilo da Folha de S. Paulo, se não fosse assim, não haveria sequer uma paródia, apenas cópia – o que aí sim poderia se caracterizar como algum uso indevido de marca.

Salientamos que o interessante nesta situação toda é que a crítica suscitada pela paródia se deu graças ao seu caráter humorístico reflexivo. Deste modo, podemos dizer que esta atitude intempestiva do grupo Folha corrobora com a ideia de que se a Falha não se valesse de um humor crítico e reflexivo (e, em nossa perspectiva, todo humor calcado na crítica é motor para ocasionar reflexões), muito provavelmente não teria recebido atenção alguma por parte do jornal.

Em outros termos, se o blog visasse tão somente gracejar de forma pueril e light com o jornal alvo, enfocando em questões menores, como somente os nomes dos cadernos, por exemplo, repetimos: o jornal, muito provavelmente, não daria atenção alguma ao pequeno sítio paródia.

O escárnio propagado pelo blog, porém, teve uma ressonância quase que imediata, uma vez que questionava algo caro aos veículos jornalísticos de comunicação: a tão propalada (e diríamos até ilusória) isenção total. E, mais do que isto, pela via do humor debochado e crítico, promoveu certo desmonte no discurso proferido e tão defendido pela própria Folha de S. Paulo de que esta sempre tivera uma linha editorial pautada, principalmente, pela imparcialidade.

Gostaríamos neste ponto de esclarecer que, a nosso ver, não há problemas em uma publicação impressa, como um jornal de circulação diária, adotar determinadas posturas políticas, desde que o faça de forma clara e direta ao seu público leitor, até porque, em diversos países do mundo, há mídias que explicitam abertamente suas posições frente às mais variadas questões. Além disso, vale pontuarmos que julgamos pouco crível a existência de uma total imparcialidade em uma cobertura jornalística, ainda mais neste caso que estamos analisando, em que o objeto da mesma fora uma eleição presidencial.

Por mais que os profissionais envolvidos (repórteres, editores, âncoras dos telejornais, etc.) busquem completo distanciamento ou certa isonomia ao tratar dos candidatos, sempre há o fator humano envolvido, o qual, estando embainhado na ideologia e forjado pelos fatores sócio-históricos, se traduz nas mais mínimas trivialidades – o enquadramento escolhido para a foto do político, as palavras utilizadas para descrever um ato de campanha, dentre outras.

Retornando ao caso Folha X Falha e finalizando, diríamos que os criadores do blog através de suas charges e apontamentos mordazes com relação às manchetes e às capas do jornal, desnudavam posições e intenções do periódico em cobrir favoravelmente um candidato, preterindo os outros postulantes.

Assim, se o jornal quisesse estabelecer algum diálogo com as críticas ou com o deboche vinculado pelo blog paródia, este (jornal) poderia questioná-lo, tentando demonstrar que sua cobertura ao pleito presidencial não estava sendo parcial. Ou, simplesmente ignorar a existência da crítica, visto que ao perpetrar o processo ainda em curso, a Folha acabou por dar “um tiro no pé”, pois, de alguma forma, se não amplificou a crítica realizada pela Falha enquanto esta esteve no ar, demonstrou pouca habilidade em lidar com o fato de se tornar alvo de zombaria.

Até porque, como denunciado pelos criadores da Falha em seu outro blog, montado para dar visibilidade ao caso [5], a MTV utilizou o mesmo logo paródia presente na Falha de S. Paulo em um dos seus programas humorísticos em 2011, entretanto, a emissora não recebeu o mesmo tratamento jurídico dado ao blog. Embora, valha comentar que o canal televisivo tenha realizado uma paródia tão somente com o logotipo do jornal, sem criticá-lo, o que pode se configurar com uma paródia inofensiva e de tipo homenagem, como descrevemos inicialmente.

Todavia, mesmo no caso do blog Falha de S. Paulo que se trata de uma paródia depreciativa e crítica, isto não lhe imputa a premissa de ser prontamente proibida pela via judicial, ainda mais quando tal proibição se respalda em um argumento cínico (o jornal não soube lidar com uma crítica certeira e debochada acerca de sua linha editorial, mas ao invés de assumir tal postura, alegou uma razão de outra ordem para silenciar aqueles que formularam a crítica). Isto posto, temos de concordar com a advogada do grupo Folha, quando esta diz que tratar o humor (sobretudo, aquele que critica o status quo, tal qual neste caso Folha versus Falha) como ilícito é de fato proceder a censura do mesmo. 

Notas

[1] FOLHA ONLINE – Ilustrada. “Juiz proíbe que Simão fale de Juliana Paes” – 17/07/2009. Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u596327.shtml>. Acesso em: 25 fev. 2013.

[2] HUTCHEON, Linda. Uma teoria da paródia: ensinamentos das formas de arte do século XX. Trad. Teresa Louro Pérez. Lisboa: Ed. 70, 1989.

[3] ASSANGE, Julian. ‘Ainda a material de impacto sobre os EUA’, diz fundador do WikiLeaks. O Estado de S. Paulo, edição de 23 de dezembro. 2010. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ainda-ha-material-de-impacto-sobre-eua-diz-fundador-do-wikileaks,657267,0.htm>. Acesso em: 25 fev. 2013.

[4] ŽIŽEK, Slavoj. Cinismo e objeto totalitário. In:______. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1992, p. 59-73.

[5] DESCULPE A NOSSA FALHA. Disponível em: <http://desculpeanossafalha.com.br/>. Acesso em: 25 fev. 2013.

Mateus Pranzetti Paul Gruda – Doutorando em Psicologia pela UNESP-Assis, no qual desenvolve pesquisa sobre o discurso humorístico na contemporaneidade com bolsa da FAPESP.

Leia também:

Lino Bocchini: Decisão da Justiça sobre a Falha abre precedente perigoso





30 comentários

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Cries of Censorship as Brazilian Satire Blog Ordered Shut Down · Global Voices

22 de março de 2013 às 13h26

[…] doctoral candidate Matheus Paul, writing for the blog Vi o Mundo, talked about [pt] the reasons for censorship and the real concerns of the newspaper Folha de São Paulo: […] […]

Responder

Censura derrota Falha de São Paulo abrindo precedente perigoso · Global Voices em Português

18 de março de 2013 às 08h01

[…] doutorando em psicologia Matheus Paul, escrevendo para o blog Vi o Mundo, comentou das razões para a censura e as preocupações reais do jornal Folha de São Paulo: […] se o blog […]

Responder

PT aprova resolução: “Democratização da mída é urgente e inadiável” « Viomundo – O que você não vê na mídia

17 de março de 2013 às 23h02

[…] Mateus Paul: Censura à Falha, tiro no pé da Folha […]

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abolicionista

03 de março de 2013 às 02h43

Verdade seja dita, o leitor da Folha não consegue diferenciar coisa alguma. Compra merda todo dia achando que é notícia…

Responder

FrancoAtirador

02 de março de 2013 às 16h48

.
.
Sau-da-de Leminski

Falha da Folha

Filha da Pulha

Pilha de Bolha

Rolha de Hulha

Ilha de Tralha

Malha de Trolha

Velha da Agulha

Quilha de Palha

Folha da Falha

Humilha debulha…

(http://bit.ly/XNVPUr)

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    Mário SF Alves

    17 de março de 2013 às 00h39

    É… Franco, e ainda costumam dizer que o que vem de baixo não os atinge. Como não atinge? Pelo visto a Falha os atingiu em cheio.

adhemir martins da fonseca

01 de março de 2013 às 23h01

a folha falou tanto em liberdade expresão para a blogueira cubana. e recorre a justiça para cercear a liberdade de xpressão aqui no BRASIL. e a justiça faz uma cagada pior ainda dando uma cagada pior.
via a falha de são paulo

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JORGE

01 de março de 2013 às 21h16

Eu inverteria o título e o subtítulo só de sacanagem.

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Ze Ninguem

01 de março de 2013 às 17h54

Porque este site e seus ditos jornalistas continuam atuando com tamanha desonestidade intelectual neste episódio? A Folha apenas quer preservar sua marca (direito seu ué) e em momento algum impediu o funcionamento do site ou mesmo suas críticas. É típico caso de defesa de marca e não de censura. Eles até poderiam, se fossem inteligente, utilizar isto de alguma forma a seu favor, mas têm sim o direito de proteger sua marca de uso indevido.

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    Zé alguém

    02 de março de 2013 às 12h11

    Se a Folha quis mesmo preservar sua marca, por que não processou a Abril por utilizar a paródia “Falha de S. Paulo” no programa Furo Mtv?

Julio Silveira

01 de março de 2013 às 15h36

Ao analisar os diagnosticos diferentes para a mesma situação, feito pela Folha. No primeiro caso o da falha, quando se considera vitima de agressão, e no segundo quando se coloca uma condição de inocente da intenção de agredir. Vejo claramente expressa a demonstração plena e inequivoca de bipolaridade interpretativa e uma hipocrisia que deveria saltar aos olhos de qualquer cidadão, que não seja influenciado pelo peso do ouro. Aliás, influência recorrente em quem costuma fazer as avaliações de situações desse tipo.

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Urbano

01 de março de 2013 às 15h08

Aliviou-se o pé com falha, não querem? Então manda a farsa de São Paulo mesmo.

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Péricles

01 de março de 2013 às 13h26

Bom, o pessoal da Falha de São Paulo pode criar o “Fula de São Paulo”.
Ou a “Fela de São Paulo”. Um abraço.

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Hélio Pereira

01 de março de 2013 às 13h07

A Folha de SP é um exemplo de “Baixo Astral”,suas materias são recheadas de pessimismo.

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Gringo

01 de março de 2013 às 12h35

O PHA está assaás correto nas suas críticas às aves de agoro do nosso país.
Tempos atrás uma viagem para o Rio, ouví um comentário de umafuncionária da antiga Varing dizendo que via constantemente alguns integrantes da rede Globo de serem incortez com o pessoal de cor( Jabor, Bial & o casal Tucano)

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Geraldo Martins

01 de março de 2013 às 12h03

Pensem.. mudem o domínio e hospedem em um servidor estrangeiro.. sejam inteligentes e driblem a censura!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Gerson Carneiro

01 de março de 2013 às 11h41

Mais uma do “jornalismo investigativo e isento”:

Chalita agora é corrupto.

A suposta maracutaia do Chalita teria acontecido há 8 anos quando era o queridinho do PSDB.

E há 8 anos o “jornalismo investigativo” não detectou a alegada maracutaia do Chalita. Por que será?

E eu que tinha ouvido dizer que o Chalita chegou a ser genro do Alckmin…

Dossiê de verdade tem que ter o selo Serra de Qualidade.

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    renato

    02 de março de 2013 às 18h35

    Selo Serra de Qualidade.Boa!
    Fico imaginando como seria o logotipo deste selo?

Julio

01 de março de 2013 às 11h31

Pois eu sugiro que mude-se o nome do blog para:

PULHA (vil, desprezivel, indecente) DE SÃO PAULO

Será o maior sucesso….

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Mardones

01 de março de 2013 às 11h08

Folha nos olhos dos outros é bobagem.

Responder

jota

01 de março de 2013 às 10h48

Pois eu acho que deve proibir SIM! Afinal, todo mundo sabe que a Folha é uma paródia de jornal, e uma paródia da paródia poderia realmente confundir os leitores!

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mfs

01 de março de 2013 às 09h55

O principal argumento não é o que o leitor pode se confundir entre a Folha e a Falha, o principal argumento é o de que o leitor é um imbecil incapaz de distinguir o original da sátira.
Ou seja, a censura é necessária porque o leitor não é capaz de distinguir o certo do errado. Precisa que o Estado decida por ele.

Responder

mfs

01 de março de 2013 às 09h44

Parece-me que o pressuposto da decisão do Tribunal é o da incapacidade do leitor de distinguir a Folha da Falha, a versão da paródia.

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lulipe

01 de março de 2013 às 07h58

Por falar em jornalista e jornalismo, o PHA perdeu mais uma para o Ali Kamel, segundo a coluna Radar on Line:

“Ali Kamel, o número 1 do jornalismo da Globo, obteve ontem uma vitória na Justiça do Rio de Janeiro contra o blogueiro e apresentador de programa de variedades da Record, Paulo Henrique Amorim.De acordo com a sentença, Amorim terá que pagar uma indenização de 50 000 reais a Kamel. Motivo: Amorim escreveu diversos textos associando Kamel ao racismo. Diz o juiz Rossidelio da Fonte, da 35ª Vara Cível:

– Quando um jornalista como réu divulga fatos que não correspondem à verdade, ou envolve cidadão sem averiguar a procedência de suas fontes e a veracidade das informações, levando os leitores a concluírem que o autor é racista ou apoia práticas racistas, há evidente responsabilidade passível da obrigação de indenizar.

Ainda cabe recurso à decisão.”

Responder

    Gerson Carneiro

    01 de março de 2013 às 11h35

    E por falar em “o PHA perdeu mais uma para o Ali Kamel”, a Justiça da Rede Globo, ops! a Justiça do Rio de Janeiro, afastou o perito autor do laudo que incriminava Thor Batista, no caso do atropelamento. A mesma justiça do do caso Ali Kamel x Rodrigo Vianna.

    No rio de Janeiro blogueiro sujo não ganha uma sequer. Por que será?

    http://revistaforum.com.br/blogdorovai/2013/03/01/viva-a-justica-tj-do-rio-afasta-perito-do-caso-thor-o-mesmo-tj-do-caso-rodrigo-e-ali-kamel/

    FrancoAtirador

    03 de março de 2013 às 04h12

    .
    .
    Tem de mudar logo o nome:

    de ‘TJ-RJ’ para ‘TJ-RG’.
    .
    .

    FrancoAtirador

    03 de março de 2013 às 04h38

    .
    .
    Só um exemplo:

    14/04/2010 11:30

    ESCÂNDALO NO TJRJ É OMITIDO PELO ‘O GLOBO’

    Sabe-se das ligações, históricas, entre a família Marinho e a família Szveiter, o que pode explicar o silêncio das organizações GLOBO.
    Mas nada tira o caráter vergonhoso da omissão.

    Do Blog do Edu

    …até ontem à noitinha, final da tarde, o grupo O GLOBO (G1, O GLOBO ONLINE etc) mantinha vergonhoso silêncio sobre o escândalo que se abateu sobre o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, e explico. Quando tomei conhecimento da coisa, vali-me do TWITTER para provocar diversos jornalistas ligados ao poderosíssimo grupo jornalístico – basta ver aqui. Willian Bonner, Ricardo Noblat e o próprio jornal foram notificados, por mim, da decisão tomada em sessão plenária realizada na semana passada pelo CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ) que determinou o cancelamento do 41º concurso de admissão em cartórios fluminenses, realizado em 2008. O CNJ julgou – vão tomando nota! – que houve evidente favorecimento a duas candidatas ligadas ao presidente do TJRJ, o desembargador Luiz Zveiter (“ligadas” é um subterfúgio sensacional). Vamos em frente.

    O CNJ aprovou, integralmente, o relatório do conselheiro José Adonis Callou de Araújo Sá. E faz mais: anulou o processo de seleção, declarou vagos os cargos já ocupados pelos candidatos aprovados no concurso e determinou o envio das cópias dos autos do processo à CORREGEDORIA NACIONAL DE JUSTIÇA, para apurar eventual responsabilidade dos integrantes da comissão examinadora do concurso, presidida por Luiz Zveiter, corregedor-geral do TJRJ à época.

    O troço todo é vergonhoso, nojento e de dar engulhos (vocês terão acesso, esperem, leiam!, à íntegra do voto). Segundo conclusão do conselheiro-relator, houve parcialidade na correção das provas de duas candidatas: Flávia Mansur Fernandes, aprovada em 2º lugar (segundo lugar!!!!!), e Heloísa Estefan Prestes, que ficou na 4ª posição (quarta posição!).

    Sentados?

    Nomeada titular do 15º Tabelionato de Notas e Ofício de Registro de Imóveis de Niterói, Flávia Mansur Fernandes foi namorada de Luiz Zveiter entre 2001 e 2007.

    A outra candidata, Heloísa Estefan Prestes, ganhou o comando do 1º Tabelionato de Notas, Protesto e Ofício de Registros Públicos de Barra Mansa, e era amiga íntima do atual presidente do TJRJ, o mesmo Luiz Zveiter, e “beneficiária de diversas indicações anteriores para responder por rentáveis serventias extrajudiciais e para integrar comissões instituídas pela Corregedoria” – está tudo no relatório.

    Segundo conclusão do relatório, houve quebra dos princípios de impessoalidade e da moralidade na tramitação do processo seletivo.

    (…)

    O processo que tramitou perante o CNJ foi um procedimento de controle administrativo, que tomou o número 0000110-14.2009.2.00.0000.

    Tal procedimento foi requerido por diversos candidatos do concurso que se sentiram prejudicados em face do TJRJ, organizador do concurso para atividades notariais e/ou registrais do Estado do Rio de Janeiro.

    Pretendiam, os requerentes, a anulação da prova discursiva do citado concurso, realizada no dia 29 de novembro de 2008 e cujo resultado (vergonhoso) foi publicado em 17 de dezembro do mesmo ano de 2008.

    Manifestou-se espontaneamente nos autos do requerimento o cidadão Gilberto Domingues, noticiando existência de relação afetiva entre o desembargador Luiz Zveiter e a candidata Flávia Mansur Fernandes, a que foi aprovada em 2º lugar no concurso. Corajoso, apresentou cópia de lista de convites para o casamento da modelo Juliana Galvão com o empresário Bernardo Bezerra de Menezes, na qual se observa que um MESMO convite foi endereçado ao desembargador Luiz Zveiter e à candidata Flávia Mansur Fernandes. Indicou, ainda, suposto favorecimento na correção das provas das candidatas Heloísa Estefan Prestes e Carolina Rodrigues da Silva.

    O conselheiro-relator, no curso dos autos, no dia 06 de novembro de 2009, nas dependências do TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 2ª REGIÃO (TRF), na rua do Acre, aqui no Rio de Janeiro, tomou os depoimentos das candidatas Flávia Mansur Fernandes e Heloísa Estefan Prestes, dentre outros.

    Luiz Zveiter, já como presidente do TJRJ, prestou informações nos autos dizendo que, de fato, Flávia Mansur Fernandes fora sua namorada, “tendo o relacionamento terminado no início do ano de 2007″. Disse, ainda, não ter ido ao tal casamento em companhia da candidata, pois na época já mantinha relacionamento afetivo com outra pessoa.

    Os requerentes ainda juntaram documentação comprovando o seguinte: a participação de Flávia Mansur Fernandes em concurso público para o cargo de Analista Judiciário da Corregedoria Geral do TJRJ, no qual obteve baixo desempenho, em agudíssima discrepância com o sucesso obtido no concurso em exeme, e a ocupação de cargos de confiança do TJRJ por membros da família Fernandes e Zveiter, inclusive o pai de Flávia, José Teixeira Fernandes.

    A candidata Flávia Mansur Fernandes, em seu depoimento, confirmou ter sido namorada de Luiz Zveiter no período entre 2001 e 2007. Mas disse que apesar de manterem contato após o término da relação, não se comunicaram durante a realização do concurso…

    Restou incontroverso, no curso do processo, que a outra candidata, Heloísa Estefan Prestes, foi designada pelo então Corregedor-Geral, Luiz Zveiter, em 2007, para responder pela 3ª e 4ª Zonas Judiciárias e para compor a Comissão de Estudos Extrajudiciais. Em 2008, foi designada para responder pelo 2º Ofício de Notas e Registros de Niterói. Em seu depoimento, Heloísa afirmou conhecer Luiz Zveiter “há muito tempo, da Cidade de Niterói, não sabendo precisar a época em que o conheceu”.

    Uma testemunha, Alan José dos Santos, declarou que a candidata Heloísa é amiga íntima de Luiz Zveiter e que em diversos momentos e reuniões ela transmitira recados como se fossem do então Corregedor do TJRJ.

    Restou provado, também (tudo consta do relatório que disponibilizarei para vocês), que no período em que Heloísa respondeu pelo 2º Ofício de Notas de Niterói, Flávia Mansur Fernandes, namorada ou ex-namorada de Luiz Zveiter, foi designada sua substituta naquele ofício!!!!! Riram? Vamos em frente.

    Decidiu o CNJ: é incompatível com os princípios da impessoalidade e da moralidade o exercício da presidência de comissão examinadora de concurso do qual participe como candidata a namorada ou ex-namorada do Corregedor-Geral.

    O quê mais descobriu o CNJ?

    Vocês poderão ler o voto, na íntegra, aqui:
    (http://www.scribd.com/doc/29875374/Voto-Do-Conselheiro-Relator)

    É tudo vergonhoso.

    Mas nada me soa mais vergonhoso do que esse silêncio nojento da imprensa carioca.

    E quero finalizar dizendo algumas coisas a vocês:

    01) somente às 20h05min de ontem o portal G1 deu a notícia, de forma tímida, da agência ESTADO, vejam aqui;

    02) o jornal O GLOBO não publicou UMA ÚNICA LINHA sobre esse mar de lama com roteiro novelesco. O atacante Adriano, por muito menos, não sai das manchetes. Mas o fato do envolvimento do presidente de um Tribunal de Justiça com ações desta natureza parece não interessar aos jornalistas que, amarrados por conta da conveniência de seus patrões, nada dizem sobre os poderosos;

    03) ontem, coisa de meia-hora depois da publicação, no TWITTER, da denúncia que hoje toma forma no BUTECO, recebi um telefonema em meu escritório – e espero que seja mais uma brincadeira de mau gosto. Disse-me a voz de homem que, evidentemente, não identifiquei: “Meta-se com compositores e cozinheiras. Deixe o Judiciário de fora disso, seu merda!”, e desligou. Duas palavrinhas sobre isso: não mentiria para vocês sobre o fato e não acho que seja mérito ter recebido o telefonema, se de fato partiu de alguém disposto a me intimidar. Mas não me intimido, e simplesmente porque não estou a fazer nada de errado. As conclusões do CNJ não são minhas. Valho-me desse espaço, apenas, para trazer à tona a verdade que a imprensa, sabe-se lá por quê, omite. Sabe-se das ligações, históricas, entre a família Marinho e a família Szveiter, o que pode explicar o silêncio das organizações GLOBO. Mas nada tira o caráter vergonhoso da omissão.

    Íntegra em:

    http://butecodoedu.wordpress.com/2010/04/14/escandalo-no-tjrj-e-omitido-pelo-o-globo/

Gerson Carneiro

01 de março de 2013 às 03h19

Belos e malditos
Culpados por viver
Num mundo feito de tédio
Cego para o poder

Eles brincam com fogo
e sabem queimar
Eles brincam com fogo
e sabem queimar
Eles brincam com fogo
e sabem queimaaaaaar…

Responder

Gerson Carneiro

01 de março de 2013 às 03h18

Quem confunde os leitores e leitoras da Folha, é a Folha.

E continua confundindo-os.

Neste caso, a folha deverá mover um processo contra si.

Belos e malditos
Eles ou ninguém
De carne quase sempre
São anjos para alguém
São anjos para alguém…

Eles brincam com fogo
e sabem queimar
Eles brincam com fogo
e sabem queimar
Eles brincam com fogo
e sabem queimaaaaaar…

Responder

abolicionista

01 de março de 2013 às 00h42

Vamos criar a Faia de São Paulo

Responder

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