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Maria Izabel Noronha: Fim da recuperação paralela é um erro


26/03/2012 - 16h10

por Maria Izabel Azevedo Noronha

No dia 12 de janeiro de 2012, a Secretaria Estadual da Educação (SEE) publicou no Diário Oficial a Resolução  SE 2 instituindo “mecanismos de apoio escolar aos alunos do ensino fundamental e médio da rede pública estadual”. O assunto ganhou maior publicidade somente agora com a publicação de reportagens em pelo menos dois grandes jornais, noticiando que não haverá mais classes de “recuperação paralela”.

Entre as medidas contidas na resolução estão a instituição da “recuperação contínua”, com atuação de professor auxiliar em classe regular do ensino fundamental e médio e a recuperação intensiva no ensino fundamental, constituindo classes em que se desenvolverão atividades de ensino diferenciadas e específicas.

Antes de entrarmos no mérito dessas medidas, precisamos deixar claro que não concordamos com o método adotada pela SEE para a tomada de decisões que afetam o processo ensino-aprendizagem, o cotidiano e a vida profissional dos professores. Uma vez mais as decisões foram tomadas sem diálogo com os professores e com as entidades representativas da categoria.

A Secretaria da Educação alega que o tema foi discutido nos chamados “polos”, instituídos em algumas regiões do estado. Entretanto, não diz que esses polos foram compostos por professores e demais profissionais da educação escolhidos a dedo pelas diretorias de ensino e pelas direções das escolas. Desta forma, tais fóruns carecem de legitimidade para falar em nome do conjunto da nossa categoria.

Entrando no mérito da questão, acredito que a extinção da recuperação paralela é uma medida intempestiva e equivocada da Secretaria Estadual da Educação. Creio que se existem falhas e problemas na recuperação paralela, eles não serão resolvidos com a sua extinção, mas ela deveria ser repensada à luz de outras medidas necessárias. As constantes mudanças de políticas educacionais, descontinuando programas em andamento, prejudicam os alunos e comprometem a qualidade de ensino.

A recuperação deve se dar a partir de um diagnóstico das dificuldades de aprendizagem dos alunos. Desta forma, é preciso que ele possa recuperar esses conteúdos, avançando nos estudos e isto deve ser feito de forma paralela, concomitante, possibilitando-o, de uma forma dinâmica, recuperar o que perdeu e continuar acompanhando sua turma. Da forma como a SEE está organizando a recuperação neste momento – dentro da própria sala de aula- haverá maiores dificuldades para alcançar este resultado, podendo até mesmo prejudicar a aprendizagem dos alunos que estão mais à frente.

Quanto à instituição do professor auxiliar, há vários problemas envolvidos. O primeiro deles é que é previsível que existirão descompassos entre o professor titular da disciplina e o professor auxiliar, pois nem sempre estarão no mesmo timing.

Também está prevista a presença do professor auxiliar nas salas mais numerosas. Isto é um contradição, pois a existência de salas numerosas, com 40, 45 ou até 50 alunos é justamente uma das razões da dificuldade de aprendizagem de muitos alunos. Há anos a APEOESP luta contra a existência de classes superlotados na rede estadual de ensino e, agora, elas são adotadas como um dos critérios para a recuperação contínua. Isto é apenas uma forma de tentar contornar o problema, não de resolvê-lo.

Há outra contradição: a falta de professores é uma das razões alegadas para não aplicar a composição da jornada de trabalho determinada pela lei federal 11.738/08 (lei do piso), que destina no mínimo 33% deste tempo para a preparação de aulas, elaboração e correção de provas e trabalhos, formação continuada na própria escola e, também, para que o professor dê a devida atenção a cada um de seus alunos.. Mas, se faltam professores, como prover os professores auxiliares necessários para a efetivação do programa de recuperação contínua?

Se faltam professores – e são necessários mais professores para a aplicação deste programa — por que o governo insiste em aplicar a chamada “prova dos OFAs” para manter esses professores na condição de não-efetivos (em vez de realizar concursos públicos), sendo obrigado, depois, a abrir o cadastro até mesmo para professores que sequer participaram da prova?

Não se faz educação de qualidade sem oferecer aos professores condições de trabalho e aos alunos condições de ensino-aprendizagem. Neste momento, falta uma correta organização do tempo de trabalho dos professores.

A composição da jornada de acordo com o determinado pela lei 11.738/08 é um passo muito importante para que o professor tenha condições de ministrar aulas melhores, para se desenvolver profissionalmente, para adoecer menos e, também, para desenvolver um bom trabalho de recuperação dos alunos.

Sou sempre a favor de melhorar a Educação e torço para que medidas que visem um melhor aprendizado dos alunos funcionem. Porém, sem que se tomem as medidas  corretas, podemos estar apenas trocando seis por meia dúzia.

Maria Izabel Azevedo Noronha é presidenta da  APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo) e  membro do Conselho Nacional de Educação

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5 comentários

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Mauro A. Silva

02 de abril de 2012 às 07h44

As escolas públicas estaduais nota-zero de SP.

São 1028 escolinhas nota-zero na 3ª série do ensino médio…
São 2323 escolinhas de 1,99 na 3ª série do ensino médio…
E ainda poderia ser pior, pois nem todos os alunos fazem a "prova obrigatória" (sic)…

O governo de SP está divulgando as notas das escolas no SARESP-2011(Sistema de Avaliaçãodo Rendimeno Escolar de SP. Estas notas servem para calcular o IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo), usado inclusive para derminar o bônus de funcionários, professores e direções escolares.
Como é deconhecimento até mesmo do "mundo mineral", a educação no Estado de São Paulo é um completo desastre.
O próprio govrno considera que uma nota mínima aceitável sria 4,0… Mas apenas 12 escolas igualaram ou superaram esta nota na 3ª série do ensino médio… das 3351 escolas que tem o ensino médio, 3339 escolas ficaram com nota abaixo de 4,0…
– A nota média das escolas na 3ª série do ensino médio foi 1,78 (a nota mínima aceitável é 5,0);
– A nota média das escolas no 9º ano do ensino fundamental foi 1,78 (a nota mínima aceitável é 6,0);

Alguém sabe o nome do atual secretaariao estadual de educação de SP? E o nome dos secretários anteriores?
Quem é que manda (e desmanda) na secretaria estdual de educação? O secretário ou o "assistente social" que está lá há mais de 4 anos???

Observação importante: mais uma vez a Secretaria de Educação de SP sonegou a informação relativa a quantos alunos estavam matriculados na respectiva série avaliada da escola em 2011. Embora a prova do Saresp seja obrigatória, sabemos que é muito comum os alunos "mais fracos" serem desestimulados a fazerem esta prova. Isto faz com que a nota da escola seja "melhorada" de forma fantasiosa. Uma "nota maior" garante um bônus extra para funcionários, professores e direçãoescolar…
Mas esta enganação vai acabar no dia 18 de maio de 2012, pois nesta daa entra em vigor a Lei de Acesso à Informação (lei federal 12527 de 18 de novembro de 2011). Com essa lei federal o governo de SP será obrigado a publicar todos os dados que não forem sigilosos, incluindo o número de alunos matriculados "por série" em cada escola; e tambem os números da violência praticada pelas escolas contra os alunos, violências praticadas por funcionários, professores e direção escolar. Mas isto já merece um outro artigo…

São Paulo, 02 de abril de 2012.
Mauro Alves da Silva http://movimentocoep.ning.com/

Responder

rita

26 de março de 2012 às 23h28

o estado tem o dever de alfabetizar e muito bem as nossas crianças.

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beattrice

26 de março de 2012 às 22h59

O estado de SP talvez nunca se recupere do desastre que representou e representa para a educação e a saúde estes des-governos tucanos que se sucedem há praticamente 20 anos no poder.

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    zezinho

    27 de março de 2012 às 05h17

    Vc poderia por favor apresentar os números para dar base à suas afirmações? Em qual outro estado, que não governado pelos demotucanos, a educação avançou e apresenta melhores índices do que SP?

E S Fernandes

26 de março de 2012 às 20h34

PSDB e educação, nada a ver!
Quando aqueles que entendem de educação, os profissionais que lidam com ela no dia a dia, serão escutados?
No desgoverno da província, jamais o serão, disso nó sabemos.
Vamos esperar que o menos pior, Hadad, consiga ganhar na capital.
Vamos esperar que, se eleito, não traia o povo.
Vamos esperar…
Para falar a verdade, já estou farto de esperar.

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