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Diário da Resistência


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Maria Inês Nassif escreve sobre o novo romance de Urariano Mota


15/04/2013 - 12h31

por Maria Inês Nassif

Jimeralto é O filho renegado de Deus, o personagem atormentado que se mistura com o narrador preciso da miséria humana. Por meio dele, Urariano Mota percorre com singular habilidade vidas que se expõem a todos, sem qualquer privacidade, em 10 casinhas que se amontoam num beco, no Recife dos anos 50. O adulto Jimeralto narra seu mundo da infância em 2012, num acerto de contas com um passado profundamente ofendido pelo preconceito. Por esse mundo trafegam homens embrutecidos – antes pelo preconceito do que pela pobreza – e mulheres brutalizadas por seus homens. Ou homens que também se deixaram enternecer por mulheres.

Mas, antes de tudo, os personagens são a mãe, que apenas poderia se chamar Maria, tal a candura e a carência, e o pai, Filadelfo. A mãe que abdica dos prazeres da vida, do sexo, do amor, num casamento pobre como o dela, desalentador como sua vida; mas a Maria que, mesmo falecida quando o filho tinha oito anos, aos 29 anos, é a mesma que abriu a ele as primeiras visões do prazer sexual: o seio farto que o amamentou até menino; as carícias de mãe, inocentes, que ainda assim deram vida ao seu sexo ainda pequeno, quando isso apenas era um prenúncio de prazeres adultos.

O pai, insensível, fecha-se na dureza de sua alma: priva do amor a mulher e o filho, compensa sua origem de neto de  escrava com putas louras, castiga, é vítima e alimenta preconceitos. Mas, ao mesmo tempo, tem visões e recebe reprimendas do padrinho morto. “O que você fez de sua vida, menino?”, pergunta a visão.

Urariano, na sua narrativa, estabelece uma linha tênue entre o amor sublime e o desejo, entre o afeto e o sexo. Às vezes, o sexo substitui o amor sublime, como no caso da vizinha Esmeralda, uma ninfomaníaca que acaba trazendo o conhecimento do prazer sexual à vida das crianças do beco, pouco protegidas pelas paredes finas e pelos cômodos reduzidos de suas casas, que se empilhavam com as de seus vizinhos. Às vezes, o amor se confunde com o sexo, como na ligação de Maria com o irmão gêmeo, homossexual. Maria é apaixonada pelo irmão, conclui Jimeralto. Embora o sexo seja uma impossibilidade, ela o ama porque ele é o homem da sua vida que é igual a ela. Não é a autoridade que se impõe pela força. É a possibilidade da conversa, da gargalhada, do sorriso. E é o seu amor porque as pessoas têm uma necessidade irrefreável de amar, diz o autor.

“Ama-se um gato, ama-se um cachorro, um papagaio, uma flor que ninguém quer ou vê. Talvez esse amor que deriva e vaga por objetos e coisas que não respondem, ou respondem abaixo da fome de amar, talvez sejam os sintomas do afeto que procura no mundo um indivíduo que lhe responda. Ou, quem sabe, o amor elástico, amplo e plástico onde tudo cabe”.

Urariano Mota faz o percurso de volta, da maturidade à infância, na vida de um ex-preso político, mergulhando o leitor numa rara riqueza de personagens e sentimentos, profundos e contraditórios. O amor e o ódio são um dado na vida de Jimeralto, mas ambos são sentimentos profundos, com os quais o personagem tem de lidar. O acerto de contas acontece em torno do caixão da mãe – em cenas oníricas onde ele, Jimeralto, reconstitui o amor que nutre por uma Maria que morreu quando ele tinha oito anos, e da qual pouco se lembra até que refaz essa trajetória; e o pai estampa o amor que nutre pela mulher morta, enterrada com um filho frustrado na barriga, em crises de arrependimento.

Urariano Mota, autor de Soledad no Recife, mantém a centralidade da figura feminina, como no seu romance anterior. Maria e Soledad são fortes e ternas. A coragem e a ternura mais uma vez se unem como qualidades femininas acossadas pelo desprezo de companheiros frios. Maria e Soledad, todavia, sabem amar “aquele amor elástico, amplo e plástico, onde tudo cabe”.

Leia também:

Urariano Mota: Soledad nas vésperas da morte





6 comentários

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Márcia Sanchez Luz

13 de junho de 2013 às 23h47

Urariano, já publiquei a crítica/resenha no blog Márcia Sanchez Luz – http://marciasl2001.blogspot.com. Não inseri a imagem do livro em função do tamanho do texto…
Grande abraço.
Márcia

Responder

    Urariano Mota

    16 de junho de 2013 às 15h32

    Salve, Márcia. Grato.

Urariano Mota lança ‘O Filho Renegado de Deus’ | A Tal Mineira – Blog da Sulamita

06 de maio de 2013 às 19h42

[…] Para aguçar o apetite, recomendo aos amantes da boa literatura, a leitura do texto escrito pela jornalista Maria Inês Nassif sobre o livro – no blogue Vi o Mundo. […]

Responder

FrancoAtirador

18 de abril de 2013 às 01h50

.
.
Beleza de introdução ao Livro.

Lírica. Encantadora. Cativante.

Sublime. Arrebatadora. Fascinante.

Sedutora. Atraente. Apaixonante…
.
.
Maria Memória da Minha Canção
(Geraldo Vandré)

É chegado agora
vem dentro meu coração
mané pegou na viola
lembrou Maria canção
eu peço hoje a memória
pro canto da salvação

Maria me dê memória
Maria me dê memória
Que eu não conto a nossa história
Se não tenho a permissão
E mais que ainda Maria
se não tenho tua mão
metida dentro no fundo
guardada em meu coração
a vida vivida juntos
Maria prá perdição
pra glória para saudades
que eu mato hoje no chão
pisando nas cordas…
com as mãos

Me dá memória Maria
Maria meu coração
Me dá memória Maria
Maria meu coração
que agora não me falta
que agora não me falte
não me falte uma intenção
Maria que está guardada
no fundo do meu coração…

João de cidade agora
na palma da minha mão
depois deixe que a saudade
decida quem tem razão
que a mão despalma de palmas
na estrada do coração
sempre chega na chegada
igual que a imaginação
Maria me dê memória…

Depois…se puder…perdão…

Maria me dê memória
Maria me dê memória
Depois se puder perdão

Maria me dê memória
Maria me dê memória
que eu não conto a tua história
se não tenho agora não
Maria toda memória
que me deu meu coração
você perdida na areia
eu de amor na minha mão
viola sempre do lado
companheira na nação
que será sempre primeira
e derradeira na canção

Maria me dê memória
Maria me dê memória
Depois se puder perdão

Maria me dê memória
Maria me dê memória
meu coração hoje
que a tua glória
pode ser a perdição
do teu cantor que, Maria,
hoje vai caminhando esses caminhos
pensando na solução
Maria, perdido agora no culto só da razão
Maria me dê memória
Depois se puder perdão…

(http://letras.mus.br/geraldo-vandre/951125)

Responder

Mardones

16 de abril de 2013 às 10h12

Gostei da resenha. Vale a indicação.

Responder

Gerson Carneiro

15 de abril de 2013 às 16h55

Quero ter. Vou comprar, e vou ler.

Responder

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