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Marcos Coimbra: Nem tudo é divergência entre institutos de pesquisa


25/04/2010 - 23h04

Pesquisas discrepantes

por Marcos Coimbra, do Vox Populi, no Correio Braziliense

Se as diferenças entre as pesquisas surpreendem até quem as faz, imaginem-se as pessoas que não estão familiarizadas com elas. Desde o jornalista especializado ao cidadão comum, a surpresa pode se tornar perplexidade.

Estamos vivendo uma fase de pesquisas discrepantes, após meses de convergência das que foram publicadas a respeito das próximas eleições presidenciais. O que parecia um consenso entre institutos e levantamentos tornou-se uma polêmica.

É curioso notar que quem é hoje demonizado era, até ontem, tratado com consideração. Os institutos, seus responsáveis e métodos de trabalho não eram questionados por ninguém, nem no meio político, pelos partidários de Dilma ou Serra, nem pela imprensa, que informava os resultados de cada um com a imparcialidade possível. Agora, parece que todo mundo virou culpado de alguma coisa.

De fato, para quem tem o hábito de acompanhar as pesquisas brasileiras, as diferenças recentes podem soar estranhas. Estamos acostumados, depois de muitas eleições, a não ver maiores variações entre elas. Os institutos tendem a acertar (quase sempre) e a errar (de vez em quando) juntos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, variações como as dos últimos dias, de até 10 pontos percentuais entre um e outro instituto, são consideradas normais. Seria até ridículo o Partido Republicano entrar na Justiça contra alguém que fez uma pesquisa mostrando Obama na frente. Já na Argentina, todos diriam que são modestas, pois a regra, por lá, é de as pesquisas apresentarem diferenças abissais. Em poucos países do mundo se daria atenção às que estamos vendo por aqui e, certamente, não se especularia sobre se provêm de algo escuso.

Todos sabem que há diferenças de metodologia entre os institutos brasileiros, que decorrem de suas opções técnicas e operacionais. Nenhuma é melhor que a outra, pois todas apresentam prós e contras. Não existe, em nenhum lugar do mundo, o manual da pesquisa perfeita, a ser obedecido por todos. É um sonho autoritário (e inviável) imaginar o dia em que só haverá uma metodologia, aplicada por um só instituto. Se chegasse, nenhum democrata teria o que comemorar.

Uma das melhores coisas das pesquisas é que elas são inteiramente francas sobre algo que as outras informações que o eleitorado recebe costumam não explicitar: que são falíveis. Quem lê uma pesquisa foi avisado de que ela pode errar e é alertado sobre quanto. É como fumar conhecendo o que está escrito no maço.

Ao avaliar as pesquisas, as margens de erro não são coisas para registrar e esquecer, mas para lembrar. Não é o mais provável, mas é perfeitamente possível, que 10 pontos de diferença entre Serra e Dilma (consideradas as margens) sejam 5 pontos, o mesmo que diz uma pesquisa cujo resultado é uma diferença de um ponto entre os dois. Politicamente, 10 pontos ou um fazem uma enorme diferença, mas podem não ser nada (ou quase nada) em termos estatísticos.

Quem analisar com mais cuidado as pesquisas de agora vai perceber que são unânimes na caracterização das intenções espontâneas de voto. Na mais recente do Ibope, Dilma tem 15% e Serra 14%. Na Vox, Dilma 15%, Serra 12%. No Datafolha, Dilma 13%, Serra 12%. Na Sensus, Dilma 16%, Serra 14%.

Em qualquer lugar do mundo, quem olhasse esses números diria que os institutos brasileiros estão inteiramente de acordo sobre o que pensam os eleitores mais definidos, os que tendem a ser mais politizados e interessados nas eleições.

Mas o mesmo consenso não acontece na caracterização das intenções de voto dos que só respondem em quem votariam depois de estimulados. As diferenças de metodologia explicam parte da discrepância (mesmo que, do ponto de vista estatístico, sequer se possa afirmar que ela existe).

O mais provável, contudo, é que elas variem apenas por não haver, ainda, suficiente cristalização das intenções de voto no universo do eleitorado. É o fenômeno que se quer retratar que é volátil, não que alguma pesquisa esteja certa e as outras erradas.

Aliás, pesquisa certa ninguém sabe qual é. Só no dia 3 de outubro teremos certeza sobre o que os eleitores, de fato, querem. Até lá, o máximo que podemos fazer são pesquisas bem feitas e isso todos tentam. Tolo é quem acha que só ele consegue.

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21 comentários

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Desonfiado

27 de abril de 2010 às 00h32

Em uma eleição plebiscitária como essa os institutos pouco poder terão, meu maior receio são as urnas eletrônicas.

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Herminio

26 de abril de 2010 às 23h35

Sobre o texto, muito bom e isso vem colocar uma luz no debate, é claro que o que mais importa agora nessas pesquisas são as opiniões espontâneas e até agora só tem dado Dilma, o resto é pressão da oposição que está com os dias contados. Alguem falou sobre discutir propostas e eu também gostaria que isso acontecesse mas que proposta tem a oposição (psdb/demos)? nenhuma, então partiram pra baixaria de todas as formas.

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Chicão

26 de abril de 2010 às 22h52

Ele ta querendo salvar a pele do Vox Populis??
Eu hein.

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J. Faustino

26 de abril de 2010 às 22h09

Com pesquisas ou sem, o fato é que muitos escarneciam da opção do presidente pela candidata Dilma e apostavam que ela não decolaria, que não conseguiria chegar aos 15% e que o nefasto levaria no primeiro turno. Ledo engano! Como estão com medo da chegada dela ao ponto de dar empate técnico num dos institutos de pesquisa, tem-se esse assombro, esse medo de que ela possa ultrapassar o hediondo e a barca furar e aí adeus oposição fajuta.
Quanto ao texto estou de pleno acordo com o autor Marcos Coimbra.

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Marcos Antônio

26 de abril de 2010 às 21h26

Estranho que a "margem de erro" do Datafolha e do Ibope sempre puxa para o lado do Serra. O Marcos coimbra está querendo salvar a credibilidade dos Institutos mas o povo não é bobo para engolir mais essa.

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João Batista

26 de abril de 2010 às 19h07

Não adianta muito o Instituto de Pesquisa manipular dados de pesquisas visando beneficiar cadidato A ou B. Quem já definiu seu voto, não mudará sua opinião em função de resultado de pesquisa. Cada dia o brasileiro fica mais consciente do que quer…

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Jão Batista

26 de abril de 2010 às 18h50

Não adianta muito o Instituto de Pesquisa manipular dados de pesquisas visando beneficiar cadidato A ou B. Quem já definiu seu voto, não mudará sua opinião em função de resultado de pesquisa. Cada dia o brasileiro fica mais consciente do que quer…
Cuidado Institutos para não se repetir o desgaste como ocorreu na eleição do Brizola para Governador do Rio de Janeiro… O acesso a informação dos brasileiros faz com que se tornem remotas ações como aquela de manipulação de dados. FIQUEMOS DE OLHO !!

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italo

26 de abril de 2010 às 18h21

Marcos Coimbra acredita na ingenuidade do Ibope e Datafolha, como se eles já não tivessem um longa folha corrida. Os dados da espontanea que intensionalmente são poucos explorados funcionam como atenuantes p/ estes institutos mal intencionados

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    dvorak

    26 de abril de 2010 às 18h55

    Negativo, caro Ìtalo.Ele apenas fala com conhecimento de causa e sem a paranóia conspiratória que acomete a maioria dos comentaristas desse blog, você incluso…

    Felipe

    29 de abril de 2010 às 15h34

    Conhecimento de causa de quem um dia vendeu seus serviços de sondagem da opinião pública eleitoral ao então candidato Fernando Collor.

Guanabara

26 de abril de 2010 às 18h10

Postura bem diferente da do Montenegro, diga-se de passagem.

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Marcelo

26 de abril de 2010 às 11h15

Mas que os advogados do PSDB pareciam a SS nazista na porta do Sensus, ah, como pareciam….

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Gilmar Crestani

26 de abril de 2010 às 14h13

Também não vejo maiores problemas no fato de os instituto de pesquisa publicarem dados discrepantes entre si. O que me deixa enfurecido é o fato de alguns institutos sempre errarem em benefício da direita, nunca beneficiando a esquerda. Simples assim!

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Guilherme Scalzilli

26 de abril de 2010 às 13h46

Caso o PT saia da catatonia e arranque um posicionamento do TSE, poderemos avaliar se as discrepâncias entre Datafolha, Ibope, Sensus e Vox Populi se devem realmente a distorções de amostragem e apuração, como tantos acusam. Por enquanto, elas apenas evidenciam diferentes metodologias.
Quem já observou os bastidores desse tipo de levantamento sabe que é fácil induzir resultados usando apenas instrumentos legais ou tolerados. Faz toda a diferença entrevistar pessoas em trânsito ou nas residências, a ordem e o teor das perguntas, o tipo de apresentação dos candidatos.
Podemos levantar suspeitas sobre institutos que estimulam o entrevistado apenas citando os nomes de Serra e Dilma, não os apresentando como aliados de FHC e Lula, pois é assim que ambos serão identificados na campanha. Este é o consolo dos defensores da petista, e provavelmente o diferencial das enquetes que apontam o tal empate técnico. Eis porque a mídia conservadora tem tanto medo dessas associações.
A guerra de pesquisas é saudável, principalmente quando seus métodos são elucidados. O público escolhe em que acreditar.

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Antonio Costa

26 de abril de 2010 às 11h30

Muito reveladora a entrevista do Marcos Coimbra. Eu sempre desconfiei das famosas margens de erro de certas pesquisas.

É aí que se esconde a manipulação, com certeza. Eu não consigo entender como é que um candidato flutua 1% dentro da margem de erro. Se está dentro da margem de erro, o correto é ficar onde está.

O mais curioso é que tem certo candidato, que nas atuais pesquisas do Datafolha e do Ibope, que todo mundo está careca de saber quem é, (não resisti ao chiste), varia dentro da margem de erro sempre para cima e sua adversária sempre varia na margem de erro para baixo.

Ou os institutos de pesquisa pensam que o eleitorado é constituido por um bando de imbecis completos ou acham que os resultados da manipulação valem a pena o risco que se corre na perda de credibilidade.

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laura

26 de abril de 2010 às 09h29

Ah, essa água fria para esfriar a fervura aqui não passa. Manipulação é manipulação e ponto final.
Nenguinho está tentando jogar água na macarronada.

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Maria Dirce

26 de abril de 2010 às 07h28

Eu ja acho que fica mais interessante a eleição com pseudo pesquisas, ou não.E, tb é uma forma de sabermos e ja estamos-sabendo que, é quem.

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Christian Schulz

26 de abril de 2010 às 03h13

A Folha não mete medo em mais ninguém.

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Gabriel

26 de abril de 2010 às 04h13

Marcos Coimbra mostra todos os cuidados que um instituto (de pesquisa) deve ter. Parcimônia e clareza perante o público é fato. Os artigos e matérias da fsp… Imagino que ninguém tem dúvidas. E ai fica o pq dessa obceção da fsp contra outros institutos. Fica na cara que não era nada técnico mas algo além da pesquisa. Tá na cara.

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Julio Cesar

26 de abril de 2010 às 03h43

Concordo com o Marcelo! Era para estarmos discutindo propostas e eles estão tirando o foco do necessário debate!

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Marcelo Gonçalves

26 de abril de 2010 às 03h00

As vezes esse excesso de pesquisas enche o saco. A coisa so vai engrenar depois da Copa, por enquanto é so fogo de palha…

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