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Ligia Bahia: Almas mortas na Prevent Senior
Fotos: Capa do livro Almas Mortas, de Gogol, e Guilherme Gandolfi @guifrodu/Levante Popular da Juventude
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Ligia Bahia: Almas mortas na Prevent Senior


03/10/2021 - 20h10

Almas mortas na Prevent Senior

Por Ligia Bahia*, em O Globo, sugestão de Euclides Castilho e Paulo de Tarso de Oliveira

Quem ainda permanece perplexo com a sequência de atrocidades que ocorreram com clientes da empresa Prevent Senior, atravessadas por requintes na negociação de óbitos, só encontrará explicações plausíveis na ficção.

Uma interpretação racional sobre a obtenção de retornos financeiros, transmutando vivos em mortos, requer auxílio da imaginação.

É preciso adentrar recônditos das transgressões autorizadas, consentidas, pelas instituições que deveriam ter impedido tamanha barbaridade.

A primeira barreira rompida foi a permissão para a entrada no mercado de pré-pagamento de uma empresa para idosos.

O caráter mutual, atuarial, essencial para a sustentabilidade de seguros, foi abandonado em função da avidez para captar pessoas expulsas de planos de saúde tradicionais.

Havia um mercado a explorar mediante a fixação de metade dos preços para a faixa etária acima de 60 anos.

Para escavar um solo perigoso, doenças frequentes e altos custos assistenciais se socorreram de premissas inconsistentes.

Organizaram um modelo de negócio baseado em controle de doenças crônicas (prevalentes entre idosos) e cuidados paliativos realizados em hospitais e num corpo de médicos próprio ou estreitamente vinculado à empresa.

Verticalização e controle de custos. Duas pontas de um processo que prometia prolongar a vida com qualidade. Quanto mais anos vividos, mais pagamentos de mensalidades.

Um suposto jogo de ganha-ganha que passou a ser considerado exemplar para a comercialização ampliada de planos com menor preço e restrição de coberturas.

O segundo degrau para a transposição de limiares éticos ocorreu pela impregnação do ideário do controle em práticas médicas que exigem conjugação de ciência com autonomia.

Ao contrário do que se gritou aos ventos, os médicos da Prevent Senior não tiveram autonomia.

Foram convencidos e coagidos a seguir protocolos e rotinas que já tinham sido há muito abandonados por centros assistenciais de excelência.

Um profissional de saúde remunerado por entregar resultados contábeis, instado a não brigar pelos pacientes, em função de acepções incorretas sobre a morte inevitável, está trocando o diploma de médico pelo de agente autorizado a encurtar vidas humanas.

Somos mortais, mas ninguém está autorizado a abreviar nosso destino pela desistência de recomendar procedimentos como internações prolongadas e hemodiálises, considerados caros.

Uma morte digna consequente a um atendimento sem intervenções desnecessárias é completamente diferente daquela consequente a um juízo de valor sobre quanto alguém deve viver.

No rastro do sucesso, a empresa cruzou o terceiro limite do padrão de conduta para atuar na saúde.

O entusiasmo e a proximidade com o atual presidente da República foram simultâneos à expansão geográfica e aos anúncios sobre a diversificação de atividades, tais como a construção de uma cidade sênior com shoppings, clubes e restaurantes.

A banda de rock dos proprietários, embora de péssimo padrão artístico, e o engajamento ativo no movimento pró-cloroquina complementaram a aura de ousadia.

Um milímetro abaixo da superfície da propaganda enganosa, predominavam a fraude e a má qualidade e insegurança no atendimento aos pacientes.

Tchitchikov, personagem de Gógol, foi criado por um pai que o aconselhava a agradar sempre aos superiores e que lhe lembrava que nada na vida é mais importante que o dinheiro.

O protagonista de “Almas mortas” compra e hipoteca registros de camponeses mortos, um comércio repugnante, mas menos lesivo que a sentença “óbito é alta”.

O final do livro não é bem definido. Com a realidade se revelando mais incrível que a ficção, talvez consigamos desarmar as armadilhas da especulação com saúde.

*Ligia Bahia é médica e professora da UFRJ





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