Lelê Teles: Eu, mulher negra, e o inesquecível encontro libertador

Tempo de leitura: 3 min

Eu, mulher negra

Por Lelê Teles*

Eu, mulher negra…

Tenho orgulho de quem sou e de onde vim.

Tenho orgulho da mulher que me tornei.

Aprendi desde muito cedo, a amar a minha cor e as minhas origens.

Deixa eu te contar como isso se deu, mana.

Se liga só.

Eu descobri a minha beleza logo no meu primeiro encontro comigo mesma, diante do espelho.

Ah, cara, que descoberta magnífica!

Que encontro libertador.

Que dia inesquecível.

Lembro-me desse dia como se fosse hoje.

Essa parada não sai da minha cabeça.

Nunca tivemos espelho em casa, acho que minha mãe fugia dele.

Até que um dia – eu ainda era uma pré-adolescente -, minha mãe decidiu comprar um espelho.

Pequeno, quadradinho, com uma moldura amarela, e colocou no banheiro, logo em cima da pia de escovar os dentes.

Maaaana!

Um certo dia, eu tava sozinha em casa, de bobeira, e criei coragem… decidi me olhar.

Parei diante daquele quadrado mágico e olhei fixamente na imagem que apareceu.

Minha primeira reação foi sorrir, um belo sorriso de surpresa.

E vi que a pessoa que tava no espelho sorriu comigo.

Em seguida, vi que ela imitava tudo o que eu fazia, logo percebi que aquela era eu, aquela era a pessoa que as outras pessoas viam.

E eu me vi com uma imensa alegria.

Ali estava, eu comigo mesma, só nós duas, que sempre fomos uma só.

Eu, e a minha imagem social.

Meu EU exterior e o meu EU interior.

Desde então, o espelho tem sido um lugar que gosto de frequentar, porque eu gosto do que vejo.

Me olho com admiração, faço elogios silenciosos a mim mesma e sorrio, sorrio sempre que me encontro naquela moldura.

Tentaram, veja você, me fazer desacreditar no que eu cria.

Queria me fazer desver o que eu via.

Fizeram de tudo para que eu me visse de forma diferente, falavam que eu era feia: na escola, na rua, nas revistas de moda, nos programas de televisão…

Aí, eu ia ao espelho, me via novamente, e fortalecia a minha convicção.

Ahhh, como eu sou linda!

E sabe de uma coisa?

Percebi, sem muito esforço, que ninguém me achava feia coisíssima nenhuma.

Algumas pessoas apenas se incomodavam com a minha beleza.

Percebi, também sem muito esforço, que essas pessoas eram, sempre, as pessoas que não tinham o mesmo tom de pele que eu.

Hummm, que descoberta fantástica, que descoberta incrível, que momento libertador!

O problema dessas pessoas não era comigo, era com todas nós.

Era com a nossa raça, a nossa cor, a nossa espiritualidade, a nossa alegria de viver, a nossa herança ancestral…

Compreendi, daí, que essas pessoas tinham problemas com elas mesmas, eu é que não ia entrar nessa pilha.

Sacaram?

Ninguém me achava feia.

Na verdade, algumas pessoas tentavam fazer de tudo para que eu me achasse feia.

Foi assim que eu compreendi, ainda jovem, que o nosso sofrimento interior é a vitória do nosso inimigo, eles nos querem de cabeça baixa, querem que tenhamos vergonha da nossa cor, da textura do nosso cabelo, do formato do nosso nariz e, até, do nosso cheiro.

É assim que algumas pessoas forjam motivos para zombar de mim, para me provocar humilhações públicas, destruir minha autoestima, me desmotivar e fazer de mim uma criatura menor: medrosa, complexada, tímida, autossabotadora e negando a mim mesma.

Nunca conseguiram.

Nunca conseguirão!

Estarei sempre por aqui e por aí, linda, leve e solta.

Orgulhosa da minha negridão.

*trecho do monólogo Eu, Mulher Negra, de Lelê Teles.

*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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