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Diário da Resistência


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Fátima Oliveira: Disputas ideológicas na mesa


09/11/2010 - 13h25

As disputas ideológicas do governo Dilma estão na mesa

Fátima Oliveira, em O Tempo

Médica – [email protected]

Elegemos uma presidente 78 anos após a conquista do voto feminino. A manchete do “The Independent” foi significativa: “Brasil elege Dilma Rousseff para ser a mulher mais poderosa do mundo” e justificou: “A taxa de crescimento do Brasil, rivalizando com a China, é algo que Europa e Washington podem apenas invejar”. A matéria finaliza afirmando que a posse dela “Será uma celebração da decência política e do feminismo” (31.10).

A presidente eleita “catimbou”, com paciência de Jó, para fazer o primeiro pronunciamento à nação, esperando o candidato derrotado, como é de praxe em todas as democracias, falar antes, reconhecendo a derrota. E aqui cabe bem o “nunca antes” no mundo, algo similar aconteceu! Cansou de esperar o ritual e, para não deixar o país refém do tacão da espora machista, falou antes do derrotado.

Depois da campanha sebosa, não tendo como negar a vitória de Dilma, a demora do vencido em reconhecê-la nem precisa de Freud para explicar. O derrotado postulante a vice, numa versão tacanha de perdedor sem linha, disse que concorreu com Lula e, não, com Dilma! Para ele, a “poste” não era candidata e nem se elegeu! É uma lastimável tentativa de minimização da vitória da presidente eleita que insulta qualquer nesga de inteligência. É elementar que ela venceu porque teve mais votos!

Essa gente insiste em discordar de que na República todos os votos valem igualmente e toca a inventar versões estapafúrdias – decorrentes da falta de civilidade, com recheio de altas doses de machismo. São acenos que nos próximos quatro anos teremos muito mais do mesmo, a partir da misoginia, naturalizada pelo modo em que o serelepe opositor insistia em chamá-la de mentirosa, ao vivo e a cores, sem constrangimento – aquela antiga pouca vergonha que só machistas se permitem diante de uma mulher!

Para Marcos Coimbra, “na política, nem sempre os fatos e as versões coincidem… Nenhuma versão muda o resultado, mas pode fazer com que o interpretemos de forma equivocada. Como consequência a reduzir o seu significado e lhe diminuir a importância” (“Três mitos sobre a eleição de Dilma”, 31.10).

As intelectuais do feminismo brasileiro são instadas ao enfrentamento da batalha ideológica em curso, pois, mesmo Dilma não sendo feminista (nunca se declarou como tal), aos olhos do mundo, uma mulher com a sua história de vida é feminista. Em sua primeira fala ao país, disse que seu primeiro compromisso é honrar as brasileiras e que sua eleição repercutirá positivamente na vida das meninas. Falou. Fará o gesto?

As disputas ideológicas do governo Dilma, agora com vestes de busca de cargos, estão na mesa e serão cotidianas. A conjuntura é “Se correr, o bicho pega e se ficar, o bicho come”. Depois de vencida a batalha contra a transformação das eleições num “leilão de ovários”, cabe ou não ao feminismo dar o ar de sua graça, além do que é certo que qualquer insucesso será creditado à incapacidade das mulheres de governar?

Para além da cultura do gueto, é preciso estofo político para superar o estabelecido do “com pouca farinha, meu pirão primeiro”. Feministas petistas e dos partidos aliados, conjuntamente, não podem, diante do cordão masculino de isolamento no entorno da eleita, “amarelar” na disputa de espaços estratégicos, segundo uma ótica feminista, com duplo objetivo: dar sustentação ideológica feminista e impulsionar a concretização dos direitos das mulheres no governo.

É isso, ou apaguemos nossas lamparinas.

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Por Laurindo Lalo Leal Filho



29 comentários

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Entrevista com Fátima Oliveira sobre Rede Cegonha

10 de maio de 2011 às 08h38

[…] Aliás, eu nem sei se havia feminista alguma. As petistas feministas tiveram muitas dificuldades na aproximação com a candidata. Os homens não deixavam… Logo depois das eleições escrevi um artigo alertando que as disputas do governo Dilma estavam na m…. […]

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Entrevista com F’atima Oliveira sobre Rede Cegonha « Blog Saúde com Dilma

17 de abril de 2011 às 07h59

[…] Aliás, eu nem sei se havia feminista alguma. As petistas feministas tiveram muitas dificuldades na aproximação com a candidata. Os homens não deixavam… Logo depois das eleições escrevi um artigo alertando que as disputas do governo Dilma estavam na m…. […]

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Fátima Oliveira: Ministério da Saúde adoça a boca do Vaticano | Viomundo - O que você não vê na mídia

15 de abril de 2011 às 14h23

[…] Aliás, eu nem sei se havia feminista alguma. As petistas feministas tiveram muitas dificuldades na aproximação com a candidata. Os homens não deixavam… Logo depois das eleições escrevi um artigo alertando que as disputas do governo Dilma estavam na m…. […]

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a lesma lerda

15 de novembro de 2010 às 11h05

mas como????????????devo ser muito burro…as mulheres nao votaram na presidente…foram eleitores homens que a elegeram…

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    Márcia Lopes

    16 de novembro de 2010 às 09h48

    Ai que você se engana, meu chapa! Se não tivesse votado, adeus Palácio do Planalto, porque as mulheres são mais da metade do eleitorado!
    Conhece Dona Lô? Pois espia… Dá uma chegadinha no blogue de Fátima Oliveira, o "Tá lubrinando – escritos da Chapada do Arapari"…

    1. Dona Lõ vai à Brasília http://talubrinandoescritoschapadadoarapari.blogs

    2. Na Chapada do Arapari mulher não aborta, só tem “pérca”! http://talubrinandoescritoschapadadoarapari.blogs

Roberta Teixeira

12 de novembro de 2010 às 21h58

Muito bom. Merecia ser lido pelos partidos. Na FSP, Janio de Freitas pede mais mulheres no governo Dilma. “Homens levam para o governo o ranço da política (…). Não deu certo..

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Mabel Carneiro

10 de novembro de 2010 às 23h01

Comentário que escrevi no Blog do Mário Silva:
"O ex-comunista, o Saci e o rato."

Acertou na jugular da "reserva moral da República". Ela já está sangrando. Por ser impulsivo vai perder um ministério. É o típico "entrou de gaiato no navio"/"Apressado come cru", já dizia minha avô.
A troco de quê Aldo?
http://blogdomaurosilva.wordpress.com/2010/11/08/

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LUCAS PEREIRA

10 de novembro de 2010 às 15h14

Graças a Deus, a CAMPANHA já passou.
Agora, é olhar para o fururo.
E o empresário Antonio Ermírio de Moraes escreveu com bastante sensatez a respeito desse futuro que nos espera.
Quem quiser conferir, o texto está disponível no link abaixo: http://desatualidadescronicas.blogspot.com/2010/1

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francisco.latorre

10 de novembro de 2010 às 14h29

lula não foi o metalúrgico. foi o brasileiro.

dilma não será a mulher. será a brasileira.

e as mulheres.. como os trabalhadores sob lula.. terão espaço. e farão. por si.

mais que bom.

..

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Deroe

10 de novembro de 2010 às 09h57

…"Se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come". Como diria o caipira: "Então não bula com o bicho" (ou modernamente: "Não estresse o bicho").

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simonebh

10 de novembro de 2010 às 08h22

Dilma que se cuide! O que mais existe por aqui são mentalidades machistas como a do sr. juiz de Sete Lagoas/MG, que é ferrenhamente contra a lei Maria da Penha e acha que a mulher deve ocupar posição inferior. Por isso mesmo, ele foi suspenso por dois anos de sua função. Outros machistas conseguem disfarçar melhor, mas contra a força bruta vale mais inteligência + perspicácia + coragem. Qualidades que nossa Presidente já demonstrou possuir.

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Caetana Campos

10 de novembro de 2010 às 07h57

Fátima Oliveira, o seu texto é tão claro que eu fico a pensar por que que a Comissão de Transição não entende assim. E as feministas entendem assim? Ou querem mais? Quem bancará as feministas, a não ser os partidos?
Li em vários lugares ontem que há uma corrida atrás de mulheres para completar a intenção da presidenta de ter um ministério de 1/3 de mulheres. Claro que os partidos da base aliada estão P da vida. A maioria tem belos mancebos pretendentes a ministros, claro e não vão querer trocar por uma mulher! O PMDB, por exemplo, quer ficar com seis ministérios, apresentaria três mulheres? Pois deveria, como não?
Já fiquei com um pé atrás. Por que não um ministério paritário, como fez Michelle Bachelet no Chile? Seria muito mais correto, justo. Já que vai dar complicação com apenas um terço, por que Dilma não peita logo a metade? Daria a mesma briga vergonhosa.

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    Francisco

    10 de novembro de 2010 às 11h21

    Caetana
    Concordo contigo, mas devemos observar que somos nós, mulheres e homens, que devemos pautar o governo. ocorre que não fizemos isso durante os oito anos do Governo Lula, por diversos motivos, é claro (pela falta de meios, por exemplo). Agora, teremos de fazê-lo, pois a mídia forte e conservadora, como sempre, já se pôs a pautar o Governo Dilma. Espero que com o PNBL tenhamos um meio (a Internet) para tal, contando com o apoio dos "blogs sujos".

    Abçs.

    Cícero

    10 de novembro de 2010 às 14h20

    Num sistema como o nosso, pluripartidário, é perfeitamente natural que os partidos da base aliada reivindiquem um ou mais ministérios para que possam participar ativamente do governo Dilma. Não vejo nada de anormal nisso, afinal, não há democracia, onde não existe diversificação ideológica e administrativa. Além disso, tem lugar pra todos, tanto na Esplanada dos Ministérios, quanto na presidência e diretoria de estatais, empresas públicas, autarquias e fundações. Inclusive, há partidos que preferem a diretoria de certas empresas públicas a Ministérios. Um diretor da Petrobras, p. exemplo, recebe mais de R$ 50 mil por mês, de salário, enquanto um ministro ganha R$ 10.748,43 mil mensais.

Aline

10 de novembro de 2010 às 01h17

Há pouco mais de meia hora, li um texto bem interessante a respeito da questão feminina, em que a questão é colocada de um ponto de vista mais simples, pois, não faz nenhuma identificação de múltplas ideologias em conflito. Está no blog "Crônicas e Críticas da América Latina": http://pedroayres.blogspot.com/2010/11/em-defesa-

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    Maria Lucia

    10 de novembro de 2010 às 10h17

    Aline
    Segui a sua dica e gostei muito do que li. É um artigo de excelente qualidade.

Josilda Lisboa

09 de novembro de 2010 às 23h46

Meta é ter um terço de mulheres no ministério

Ao menos um terço do futuro ministério da presidente eleita, Dilma Rousseff, será formado por mulheres, segundo a Folha de S.Paulo. A meta foi estabelecida em reunião com a equipe de transição e o presidente Lula no domingo.
A base aliada do PT é formada por 12 siglas. A proposta é que os partidos procurem em seus quadros nomes para indicações. Isso poderá desencadear um outro problema, já que as indicações mais sondadas nos bastidores podem vir a desfalcar as bancadas governistas.

Apesar de a lei eleitoral estabelecer que partidos devem reservar 30% de suas candidaturas às mulheres, não há regras para ocupação de cargos.

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Cícero

09 de novembro de 2010 às 23h41

O apelo da Fatima dirige-se não somente às feministas do país, mas a todo o eleitorado feminino. Basta voltar no tempo e palmilhar a História, para ver o quanto foi sofrida e difícil a luta da mulher pela conquista de direitos, liberdade, igualdade, justiça e emancipação política. Se o eleitorado feminino se engajar em torno do governo dessa mulher, todos sairemos ganhando, e o Brasil prosperará cada vez mais.

Em um determinado momento da campanha eleitoral, vi com muita tristeza a sra. Marina virar as costas para a Dilma e para o PT, partido que a promoveu no mundo político e que a transformou em Ministra. Marina cuspiu no prato que comeu. Foi usada pelos tucanos e pelo PIG pra empurrar a eleição para um segundo do turno. Marina desprezou seus velhos amigos Lula e Dilma, enquanto "voava" no jatinho da Natura, cruzando o Brasil de Norte a Sul. O pleito acabou. Dilma, por justiça divina, venceu. Serão 4 anos de muita luta. Estaremos juntos nessa jornada. tenho certeza de que o Brasil será bem governado por Dilma Rousseff. Se faltarem as mulheres, homens não faltarão para defendê-la da imprensa golpista e dos malditos tucanos.

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easonnascimento

09 de novembro de 2010 às 21h23

Acontecerá com Dilma o que aconteceu com Lula. Ele não poderia fazer um governo ruim pois sendo quem é, vindo de onde veio se falhasse adeus outra chance para um como ele. Presidente com origem no trabalho e não no capital, jamais. Dilma se falhar uma mulher dificilmente terá outra chance. Fico aqui na torcida por ela e pelo Brasil.
http://easonfn.wordpress.com

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VLO

09 de novembro de 2010 às 21h10

Genial a expressão "leilão de ovários". Foi isso mesmo que se tentou fazer nessa famigerada campanha, com as beatas serristas desfiando rosários para impedir a vitória de Dilma. Muitas delas tentando esquecer que um dia fizeram aborto (1 em cada 5 brasileiras já o fizeram, mas a maioria esconde até de si mesma). Serra e seu séquito que desapareçam da vida política brasileira. Embora não tenhamos votado nele, como brasileiros sentimo-nos envergonhados de suas atitudes durante a campanha. Um candidato a presidente de uma nação não poderia jamais ter tal comportamento. Esse comportamento se manifestou durante a campanha e culminou no gesto deselegante, mesquinho, por ocasião da derrota. Vergonha nacional senhor Serra!

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    Fátima Oliveira

    10 de novembro de 2010 às 10h07

    VLO, a expressão "leilão de ovários" eu a cunhei no seguinte artigo:
    Eleições presidenciais 2010: em leilão, os ovários das mulheres! https://www.viomundo.com.br/voce-escreve/fatima-oliveira-...

    Archibaldo S Braga

    10 de novembro de 2010 às 10h34

    Parabens DOUTORA, duas expressões de arrepiar: "leilão de ovários" gostaria de ver a cara da monica s, lendo essa frese! "ou apaguemos nossas lamparinas" com essa eu voltei até 64! um grande abraço DOUTORA! A. S. Braga

ANTONIO ATEU

09 de novembro de 2010 às 20h28

AGORA EU TAMBEM SOU MULHER

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Há um cordão masculino de isolamento em torno de Dilma « Cachaça Araci

09 de novembro de 2010 às 20h03

[…] isso, ou apaguemos nossas lamparinas. * Visto no Vi o Mundo e publicado originalmente em O […]

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CC.Brega.mim

09 de novembro de 2010 às 16h47

eu concordo.
é agora a hora de virar o o jogo a nosso favor
não importa dilma declarar-se feminista
importa ocuparmos nosso espaço
que agora, como ela mesma disse,
está mais amplo mais aberto
sim, mulher pode!
então pode abortar sem ser criminalizada
pode ser dona do seu corpo sem ser violentada
pode ser trabalhadora sem ser passada pra trás
avançamos…

Responder

Joannes Souza

09 de novembro de 2010 às 16h31

Ontem vendo o Roda Viva, não deu pra notar a história de "um dia ela vai matar o pai". Marília Gabriela foi clara, muito clara, quando perguntou ao entrevistado sobre traição política e que todo já está em contagem regressiva para o dia em que Dilma deva "trair" Lula ("…um dia a criatura volta-se contra o criador…", disse). Melhor resposta foi a que o Calligares deu: "mas todos os pais criam seus filhos na espera de que um dia eles possam desobedecê-los… isso não e fato uma traição…"

As pessoas querem tanto um estilo de vida que deve ser único, que são mesmo capazes de torcer contra seu próprio país. Que coisa, né?

Responder

Ester Nolasco

09 de novembro de 2010 às 15h41

Na mosca Fátima Oliveira! As luzes das lamparinas do feminismo vão trafegar agora é na banda larga, minha gente! Explosão de luzes, de consciências e adeus aobscurantismo

Responder

baarbaaraa

09 de novembro de 2010 às 14h59

Dilma nunca se declarou feminista… porque não é boba! o estigma é muito grande. agora, machista ela não é!!

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