VIOMUNDO

Diário da Resistência

Sobre


Você escreve

Fátima Oliveira: As células de HeLa, uma história que dói


01/09/2011 - 15h51

por Fátima Oliveira, em OTEMPO

Médica – [email protected] 

Leio o instigante livro de Rebecca Skloot, “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, presente de uma amiga, Valéria Augusto, cujo resumo diz: “Em 1951, uma mulher negra e humilde morre de câncer; suas células – retiradas sem seu consentimento – são mantidas vivas, dão origem a uma revolução na medicina e a uma indústria multimilionária. Mais de 20 anos, depois, seus filhos descobrem a historia e têm suas vidas completamente modificadas”. Parece ficção, mas aconteceu.

Ouçamos Deborah Lacks, filha de Henrietta Lacks (18.8.1920 – 4.10.1951): “A ciência chama a minha mãe de HeLa (pronúncia: rilá), e ela está no mundo inteiro em centros médicos…

Quando vou ao médico, sempre digo que minha mãe foi HeLa. Eles ficam empolgados, contam coisas do tipo como as células dela ajudaram a produzir meus remédios para hipertensão e antidepressivos e como todas essas coisas importantes da ciência aconteceram por causa dela… Mas sempre achei estranho que, se as células da nossa mãe fizeram tanto pela medicina, como é que a família dela nem tem dinheiro para pagar um médico? Não faz sentido. As pessoas ficaram ricas às custas de minha mãe e a gente não recebeu um centavo…”.

Henrietta descende de escravos plantadores de fumo. Teve cinco filhos. Nenhum transpôs as soleiras da universidade. Não possuem seguro-saúde. As células HeLa – do carcinoma epidermoide do colo de útero dela, extraídas por seu médico Howard Jones, em 6.2.1951 – se reproduziram “in vitro” no laboratório de cultura em tecidos do Hospital Johns Hopkins, um dos raros que atendiam negros, mas os segregava em enfermarias de “pessoas de cor” .

Estima-se que as células HeLa, enfileiradas, dariam três voltas ao redor da Terra.

Rebecca Skloot conheceu as células HeLa em 1988, aos 16 anos, numa aula do professor Donald Defler, que disse: “As células HeLa foram uma das coisas mais importantes que aconteceram à medicina nos últimos cem anos. Era uma mulher negra”. Rebecca indagou: “De onde ela era? Sabia da importância de suas células? Teve filhos?”. Ele disse: “Eu bem gostaria de poder lhe contar, mas ninguém sabe nada sobre ela”.

Foi a obsessão por ela que levou Rebecca a escrever o livro “contando a historia de Henrietta Lacks e das células HeLa, abordando aspectos importantes sobre ciência, ética, raça e classe”. Sobre a foto de Henrietta, diz: “Passei anos contemplando-a, indagando que tipo de vida a retratada levava, o que teria acontecido com seus filhos, o que acharia de células do seu colo de útero vivendo para sempre – compradas, vendidas, embaladas e expedidas aos trilhões para laboratórios de todo o mundo”.

Ela e Deborah Lacks, muito mística, ficaram amigas: “Como explica que seu professor de ciências sabia o verdadeiro nome dela, quando todos os outros a chamavam de Helen Lane? Ela estava tentando chamar a sua atenção”. Era uma dedução de Deborah aplicável a tudo de Rebecca: ao casamento (ela quis que alguém cuidasse de você enquanto escrevia sobre ela); ao divórcio (ela viu que ele estava atrapalhando o livro); e, quando um editor insistiu em suprimir a família Lacks do livro, feriu-se num acidente misterioso, “Deborah disse que aquilo era o que acontecia com quem irritasse Henrietta”.

É um livro que dói. Revela subterrâneos sombrios da produção da ciência e a necessidade de novo contrato social e ético entre ciência e sociedade; para além de maquiagens bioéticas, exige meios reais de contenção de abusos.

Ajude o VIOMUNDO a sobreviver

Nós precisamos da ajuda financeira de vocês, leitores, por isso ajudem-nos a garantir nossa sobrevivência comprando um de nossos livros.

Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia

Edição Limitada

R$ 79 + frete

O lado sujo do futebol: Tudo o que a Globo escondeu de você sobre o futebol brasileiro durante meio século!

R$ 40 + frete

Pacote de 2 livros - O lado sujo do futebol e Rede Globo

Promoção

R$ 99 + frete

A gente sobrevive. Você lê!


20 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Os juros e o Banco Central « LIBERDADE AQUI!

02 de setembro de 2011 às 20h04

[…] Fátima Oliveira: As células de HeLa, uma história que dói […]

Responder

Luiz Moreira

02 de setembro de 2011 às 17h25

Bem menos científica mas bem mais impactante são as noticias sobre as experiências médicas americanas na Guatemala, onde injetaram em mais de dois mil pacientes, Sifilis e Gonorreia em guatemaltecos pobres, para avaliar os efeitos da penicilina, com métodos iguai aos daqueles médicos nazistas que foram condenados à morte pelos mesmos americanos. Basta olhar no Site da BBC. Espero que algum participante deste site faça os comentários devidos e que seja divulgado o ocorrido. Este é o PAIS PAI DA DEMOCRACIA. Que pai canalha e cretino e para isto é que os ricos querem sua democracia. Pobre e cachorro de rua tem um destino: Serem BUCHAS DE CANHÃO.

Responder

    beattrice

    02 de setembro de 2011 às 18h51

    Faltas éticas que atingem a vida humana são igualmente impactantes, todas elas.
    O caso HELA não é isolado certamente, mas os desdobramentos através de gerações, dentro e fora dos EUA, exigem que a verdadeira história de Henrietta Lacks seja divulgada como um exemplo do que NUNCA pode acontecer na vigência de um estado de direito democrático.

Heloísa Xavier

02 de setembro de 2011 às 17h07

Fonte da matéria A TRAGÉDIA DE TUSKEGEE http://veja.abril.com.br/011204/p_090.html

Uma outra matéria boa a respeito é: O Caso Tuskegee: quando a ciência se torna eticamente inadequada, do
Prof. José Roberto Goldim http://www.ufrgs.br/bioetica/tueke2.htm

Responder

Heloísa Xavier

02 de setembro de 2011 às 17h05

A falta de ética em pesquisa e a pesquisa ser terra de ninguém, tem sido constante na historia da humanidade. Os Estados Unidos tem sido campões nesses desrespeitos. Além do caso em discussão, há

A TRAGÉDIA DE TUSKEGEE

Um dos estudos populacionais mais desastrosos da história da medicina leva o nome de Tuskegee, centro de saúde onde foi realizado. Durante quarenta anos, de 1932 a 1972, o serviço de saúde pública dos Estados Unidos acompanhou a saúde de 600 homens negros – 399 com sífilis e 201 sem a doença (o grupo de controle). Eles viviam na cidade de Macon, no estado do Alabama. Até aqui nada de mais, não fosse o objetivo do Tuskegee saber como a sífilis evoluía sem tratamento. Em outras palavras, centenas de vidas foram sacrificadas para que os pesquisadores soubessem com exatidão como a bactéria destrói o corpo humano. O pior: não foi dito a nenhum dos participantes que eles tinham a doença. O que eles sabiam, apenas, é que eram portadores de uma doença do "sangue ruim". Como incentivo para participar do projeto, os voluntários recebiam acompanhamento médico periódico (inócuo, sem que eles soubessem), uma refeição no dia dos exames e pagamento das despesas com o funeral. Embora nos primeiros anos do estudo ainda não houvesse um tratamento específico para sífilis, os pesquisadores pecaram por omitir um diagnóstico conhecido e também o possível prognóstico para cada paciente. Mesmo com a definição de um tratamento-padrão para a doença, à base de penicilina, em 1947, os doentes não foram tratados. Todas as instituições de saúde dos Estados Unidos receberam uma lista com o nome dos participantes com sífilis, para evitar que qualquer um deles recebesse o remédio. Uma infâmia. Quando o estudo foi encerrado, em 1972, havia apenas 74 participantes vivos. O escândalo do caso Tuskegee viria a estourar com a publicação de uma reportagem no jornal The New York Times. Em 1997, o então presidente Bill Clinton fez um pedido de desculpas formal em nome do governo americano, pelo tratamento negado aos participantes. Quando Clinton pediu perdão, somente oito deles ainda viviam. Um dos sobreviventes, Herman Shaw, afirmou: "Fomos tratados injustamente como cobaias humanas e as feridas não podem ser desfeitas".

Responder

Regina Braga

02 de setembro de 2011 às 12h35

Nãó é um caso,mas uma infinidade…Guatemala,Nigéria e vá saber onde mais…Não se discute a bioética,mas a guerra biológica…Todos os medicamentos que podem amenizar o sofrimento humano tbém encontram laboratórios interessados em usa-los como armas…Triste o texto mas real.

Responder

LPM

02 de setembro de 2011 às 08h28

Algumas coisas dizem tudo sobre o mundo que vivemos.
Usaram e abusaram das células de uma pessoa por anos, sem seu consentimento e sem pagar um tostão por isso.
Do outro lado temos o ratinho….
O Mickey mouse é anterior à HeLa (criado em 1928). Pagamos deireitos autorais por ele ainda hoje, pois foram prorrogados (por quê?) por 20 anos, ate 2018 (se não prorrogarem de novo)..

Responder

Gerson Carneiro

02 de setembro de 2011 às 05h51

Quando me deparo com a realidade retratada no texto e na foto abaixo por mim postada, reafirmo a minha convicção de que é incompatível a participação de um negro nesse tipo de propaganda mostrada nesse vídeo aqui. Não entra na minha cabeça que seja possível um negro de forma espontânea e consciente de sua história participar dessa propaganda e mostrar-se alegre, espontâneo e feliz. Creio que o faça por ingenuidade, o faça na condição ainda de vítima, de explorado. Do contrário estaria negando a escravidão, negando sua história, e o sofrimento seu e dos seus antepassados.

[youtube qqpaBn19SEE http://www.youtube.com/watch?v=qqpaBn19SEE youtube]

Responder

    Klaus

    02 de setembro de 2011 às 16h15

    Ou seja, se você é negro, você está obrigado a ser de esquerda. Se o DEM não proíbe, o Gérson Carneiro o faz. Ainda vai faltar grama no mundo, viu…

    Gerson Carneiro

    02 de setembro de 2011 às 16h45

    Falo sobre incompatibilidade, e não sobre proibição.
    Ninguém está proibido a nada. A conclusão foi sua.

    Faltaria grama no mundo sim, se todas as pessoas concluissem precipitadamente, tal como o Klaus, e caissem na lábia do DEM. Mas felizmente são minoria. Portanto, não faltará grama no mundo. Fique tranquilo. Há grama suficiente para você engordar o quanto quiser, seja quanto tempo viver for. Abs.

    Luiza Helena

    03 de setembro de 2011 às 14h33

    Que bom que não sou apenas eu Gerson!
    Eu fiquei indignada, chocada e muito brava. Dei o desconto ao próprio pela idade que tem e com o tipo de "escolarização" que deve ter recebido ainda se entende.
    Eu mudo de canal toda vez que essa propaganda começa.

Mari

02 de setembro de 2011 às 05h45

Sem dúvida que o texto da Fátima Oliveira é chocante. Mas a gente precisa ler o livro para se dar conta do quanto nós, enquanto humanidade, podemos ser asquerosos. Henrietta Lacks ao mesmo tempo em que serviu a humanidade através de suas células que foram o ponto de partida de inúmeras pesquisas que resultaram em benefícios para a humanidade, foi desrespeitada por ter partes dos eu corpo usado em pesquisa sem os eu consentimento, o que serviu também para enriquecer muita gente. E sua família jamais se beneficiou diretamente disso. Como disse a Fátima: não cursaram universidade e sequer têm seguros de saúde. E pior, nem podem pagar uma médico quando precisam. É aviltante. Penso que o governo dos Estados Unidos não deve só desculpas à família. Deveria ter uma Lei que garantisse à família de Henrietta Lacks, seus descendentes diretos atenção médica gratuita em qualquer lugar do mundo. No mínimo, pois é merecido.

Responder

Gerson Carneiro

01 de setembro de 2011 às 22h32

Hoje tive dois choques. Ambos dentro do mesmo tema.

Um foi à tarde quando li a história relatada neste post; o outro foi pela manhã quando procurava fotos na internet e me deparei com a foto abaixo.

Relutei em postar com receio de gerar mal entendido, e de tão triste e deprimente achei que não seria necessário. Pensei e tomei coragem porque a foto, apesar de chocante, retrata perfeitamente a realidade contida no texto que ainda perdura.

Me impressionou a coincidência do texto da Fátima Oliveira, antes mesmo de me recuperar do choque ocorrido pela manhã ao ver a foto.

<img src=http://abocalivre.files.wordpress.com/2010/12/racismo.jpg>

Responder

Mario Alberto

01 de setembro de 2011 às 20h47

Fascinante a história da ciência.
Imaginemos os bilhões de dólares que ganha a indústria mundial da loucura com os sucessivos e caríssimos medicamentos antidepressivos, ansiolíticos, antipsicóticos, anti-café, anti-mulher, anti-gay, anti-corrupto mas pró-corruptor, etc.
Os que sobrevivemos da exploração cotidiana do grande Capital, e por nosso excesso de trabalho adoecemos e doentes morremos, agradecemos.
O sistema dos parasitas usurários nos permitem, ainda, ingerir uns desses lucrativos e mirabolantes descendentes de células HeLa.
Que foram da Sra. Henrietta Lacks, descendente de escravos plantadores de fumo, mãe de cinco filhos. Mulher digna. Americana. Indigente?
Que era uma mulher negra.
Tal qual o presidente Obama…?

Responder

Leo V

01 de setembro de 2011 às 19h38

Há uma música de Jello Biafra sobre o caso:

"The Cells That Will Not Die" http://www.youtube.com/watch?v=M0TUaJOTk1k

A letra aqui: http://www.lyricsmania.com/the_cells_that_will_no

Responder

Gerson Carneiro

01 de setembro de 2011 às 17h46

De ouvir dizer soube que existe tecnologia para erradicar diversas doenças, mas a indústria farmacêutica não permite.Também desconfio que o que se conta oficialmente sobre o surgimento do HIV e do Ebola não corresponde à realidade.

Há mais mistérios entre o que ouço dizer e os remédios do que especula a minha vâ sabedoria.

Responder

Guilherme

01 de setembro de 2011 às 17h14

Como cientista, sinto vergonha de não saber nada a respeito de quem foi a doadora das células HeLa, mesmo já tendo usado. O livro deve ser sensacional. Espero que a família, hoje, esteja melhor amparada, eles merecem.

Responder

Vanice Freitas

01 de setembro de 2011 às 17h00

“A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, é da Companhia das Letras.
Tem sido bem recebido pela crítica mundial:

“Um exemplo assombroso de como raça, sexo e doença se cruzam para produzir uma forma singular de vulnerabilidade social. Trata-se de um livro pungente, necessário e brilhante.” – Aloandra Nelson, Universidade de Colúmbia

“A vida imortal de Henrietta Lacks pode ser lido como um romance.” – The Washington Post

“A vida imortal de Henrietta Lacks é um relato cuidadoso e bem escrito da saga da medicina, da bioética e da questão racial nos Estados Unidos. É também a história de redenção de uma família.”- The Boston Globe

Responder

Panino Manino

01 de setembro de 2011 às 16h43

Eu estava para importar esse livros as cegas, mas com a Bienal do RJ que começou hoje, espero que tenha ele em português.
Como disse, iria comprar as cegas, achei o nome interessante. Não esperava que fosse ser sobre isso, desta forma.
Assustador.

Responder

beattrice

01 de setembro de 2011 às 16h26

Trata-se de um livro fantástico, tão fantástico que parece ficção. Mas não é.
Recomendável a todos que se interessam por direitos humanos e bioética sobretudo.

Responder

Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Loja
Compre aqui
O lado sujo do futebol

Tudo o que a Globo escondeu de você sobre o futebol brasileiro durante meio século!