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Fátima Oliveira: A lista de Lélia Abramo


15/02/2011 - 10h46

por  Fátima Oliveira

Médica – [email protected]

Lélia Abramo (1910-2004), jornalista de formação, virou atriz profissional tardiamente, aos 47 anos (1958), ao fazer parte do elenco da primeira montagem de “Eles Não Usam Black-tie”, de Gianfrancesco Guarnieri, o que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante. Interpretou Romana, personagem que residia num morro no Rio de Janeiro. Na estreia, foi aplaudida de pé no Teatro de Arena. Lélia Abramo fez 28 peças, 14 filmes (estreou em “Vereda da Salvação”, de Anselmo Duarte, em 1964); e 29 novelas nas TVs Excelsior, Tupi, Record, Globo e Manchete.

Filha dos imigrantes italianos Afra Yole Scarmagnan e Vicenzo Abramo, fazia política como pouca gente ousou fazer: jamais transigia em questões de princípios, postura que prejudicou sua carreira na TV, mas não impediu que deixasse a marca da competência e da beleza no cinema, no teatro e na própria TV. É fundadora do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980.

Perseguição política nunca faltou na vida de Lélia. E desde cedo. “Aos 21 anos, do primeiro emprego, no escritório de uma fábrica, foi demitida por motivos ideológicos. Trabalhando no Sindicato dos Comerciários, foi expulsa (1937) por críticas à política trabalhista do presidente Vargas. No ano seguinte, doente, foi para a Itália, onde foi vítima de erro médico: numa cirurgia para extração do ovário esquerdo, teve extirpado o direito, que era sadio, tornando-a estéril; e um vaso não devidamente suturado causou um choque hemorrágico pós-operatório… Lá ficou 12 anos (1938-1950), período da Segunda Guerra Mundial. De volta ao Brasil, foi jornalista da agência de notícias Ansa”.

No centenário de Lélia Abramo (8.2.2011), referendando o dramaturgo Chico de Assis, digo que “ela tinha o sentimento do mundo” e registro que tive a honra de conhecê-la. Integrante destacada, porém discreta e silenciosa, do governo de Luiza Erundina (1989-1992), tinha o dom de articular apoios no mundo artístico, tanto para a presença em eventos como para declarações nos momentos mais cruéis vividos pela prefeita, que foram muitos e sem tréguas.

Em uma gaveta na Coordenadoria da Mulher da Prefeitura de São Paulo, eu guardava uma lista datilografada com telefones e endereços de atores e atrizes do mundo “global” que poderiam ser acionados a qualquer hora. Duas recomendações eram seguidas à risca: só usar quando absolutamente necessário e que “a lista de Lélia” não poderia ser digitada e nem fotocopiada! Quando telefonávamos para qualquer daqueles nomes, a senha era: “Em nome de Lélia Abramo”… Jamais ouvimos um não! A primeira vez que falei com Toni Ramos, lia uma nota quando, na metade, ele interrompeu: “Está muito boa! Assino. Diga à prefeita que continuo às ordens. Abraços em Lélia!”. A lista foi devolvida à atriz ao fim do governo Luiza Erundina.

Tenho duas recordações nítidas da Lélia atriz: como Bibiana Cambará, na minissérie “O Tempo e o Vento” (1985), epopeia gaúcha, narrativa das sagas das famílias Terra e Cambará, baseada em três livros – “O Continente”, “O Retrato” e “O Arquipélago” – de Érico Veríssimo. Na Rede Globo desde 1964, sua personagem na novela “Pai Herói” (Janete Clair, 1979), Januária Limeira Brandão, avó da bailarina Carina (Elizabeth Savalla), foi morta prematuramente, por perseguição política da “Vênus Platinada”, que a colocou no “olho da rua”. Lélia presidia o Sindicato dos Artistas de São Paulo, cujas lutas – por melhores condições de trabalho e regulamentação da profissão, lei que foi aprovada – foram vigorosas.





10 comentários

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Valter Lima

17 de fevereiro de 2011 às 06h39

“Uma vez perdido o sentido ético, torna-se difícil recuperá-lo.” Lelia Abramo
Lélia Abramo, merece lovores. Pela coragem, pelo talento e pelo amor à democracia e ao Brasil. Sua história de vida é exemplar em superações. Imagino que se não for tomada alguma medida de preservaçãod e sua memória política e artística suas contribuições sumirão no tempo. O que seria lastimável.

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Jandira Lopes

16 de fevereiro de 2011 às 08h54

LÉLIA ABRAMO – VIDA NA ITÁLIA
(…) Lélia Abramo descobriu aos 30 que tinha um problema sério de saúde, pois sentia fortes dores na cabeça e sofria com febres freqüentes. Consultou dezenas de médicos no Brasil, mas nenhum soube diagnosticar a doença. Cinco anos mais tarde, sua irmã Beatriz casou-se com um oficial do exército italiano, que foi chamado para voltar à terra natal. Lélia pegou carona e foi para a Itália cuidar da saúde. Foi atendida por um médico que descobriu as causas de seu problema: cistos no ovário esquerdo. A cirurgia para a retirada do órgão afetado foi marcada, mas um outro cirurgião a operou. Ao acordar, ela descobriu que o médico havia retirado o ovário saudável e que nunca mais poderia ter filhos. “Foi um choque”, diz. “Abdiquei do casamento a partir daí. Eu queria uma porção de filhos”, lembra/TESTEMUNHAS DO SÉCULO www.terra.com.br/istoegente/37/testemunha/

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Alice Matos

16 de fevereiro de 2011 às 07h42

Lélia Abramo é uma figura política que de fato não podemos esquecer, pois dedicou a sua vida à luta pelas liberdades democráticas, tendo sacrificado a sua vida artística em nome dela. Trata-se de uma brasileira que merece todas as honras. Fátima Oliveira foi muito feliz em homenageá-la de modo tão bonito. Dilma deveria dar o nome de Lélia Abramo a algo grandioso na esfera federal.
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Nilva

16 de fevereiro de 2011 às 00h54

Tive a honra de conhecê-la pessoalmente. Fui sua vizinha na Rua Avanhandava, mas já a conhecia de teatro, cinema, TV e sua participação política no Sindicato dos Artistas e , como ela, fui fundadora do PT.
Sua rica e bela história de vida foi um grande referência para nós, os jovens daquela época

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maria paula

15 de fevereiro de 2011 às 22h29

É muito bom lembrar os feitos desta Brasileira. Faz falta pessoas como Lélia Abramo.

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Zhungarian

15 de fevereiro de 2011 às 19h53

Lélia Abramo, quando soube do surgimento de Lula como líder sindical, quis conhecê-lo. Afinal, como alguém pode ser "de esquerda" sem ser comunista?

Assisti a várias novelas com ela, e sempre foi uma excelente profissional. Grande mulher e grande atriz.

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Francisco

15 de fevereiro de 2011 às 17h43

Não era ela a Dona Benta, do primeiro Sítio do Pica-pau amarelo? E não era ela, também, a candidata a vice na chapa de Lula, candidato a governador de SP em 82?

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    Klaus

    15 de fevereiro de 2011 às 20h26

    Se vc tá falando do Sitio dos anos 70, a Dona Benta era a Zilka Salaberry. Não sei se houve outro anterior.

    Depaula

    15 de fevereiro de 2011 às 23h18

    Francisco eu acho que o vice de Lula em 1982 foi um Paulo, acho que era advogado. Lélia, pelo menos das biografias que li e revi, nunca fez o Sítio, nem quando ele foi feito na TV Tupi, e ela era de lá; foi Iná Malaguti quem fez Dona Benta. Era 1957, . Ela começou a fazer TV em 1961. Veja os trabalhos que ela fez na TV http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADtio_do_Picapa…

    Nilva

    16 de fevereiro de 2011 às 00h50

    Era a Zilka Salaberry, outra excelente atriz., que foi a Mãe Angústia, em Sangue e Areia.


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