Eric Nepomuceno: Che e os mortos que nunca morrem

Tempo de leitura: 4 min

Diz Eduardo Galeano, que conheceu o Che Guevara: ele foi um homem que disse exatamente o que pensava, e que viveu exatamente o que dizia. Assim seria ele hoje. Já não há tantos homens talhados nessa madeira. Aliás, já não há tanto dessa madeira no mundo. Mas há os mortos que nunca morrem. Como o Che. E, dos mortos que nunca morrem, é preciso honrar a memória, merecer seu legado, saber entendê-lo. Não nas camisetas: nos sonhos, nas esperanças, nas certezas. Para que eles não morram jamais. O artigo é de Eric Nepomuceno.

por Eric Nepomuceno, em Carta Maior, sugestão da sgeral/MST

No dia em que executaram o Che Guevara em La Higuera, uma aldeola perdida nos confins da Bolívia, Julio Cortázar – que na época trabalhava como tradutor na Unesco – estava em Argel. Naquele tempo – 9 de outubro de 1967 – as notícias demoravam muito mais que hoje para andar pelo mundo, e mais ainda para ir de La Higuera a Argel.

Vinte dias depois, já de volta a Paris, onde vivia, Cortázar escreveu uma carta ao poeta cubano Roberto Fernández Retamar contando o que sentia: “Deixei os dias passarem como num pesadelo, comprando um jornal atrás do outro, sem querer me convencer, olhando essas fotos que todos nós olhamos, lendo as mesmas palavras e entrando, uma hora atrás da outra, no mais duro conformismo… A verdade é que escrever hoje, e diante disso, me parece a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de quase dissimulação, a substituição do insubstituível. O Che morreu, e não me resta mais do que o silêncio.”

Mas escreveu:

“Yo tuve un hermano
que iba por los montes
mientras yo dormía.
Lo quise a mi modo,
le tomé su voz
libre como el agua,
caminé de a ratos
cerca de su sombra.
No nos vimos nunca
pero no importaba,
mi hermano despierto
mientras yo dormía,
mi hermano mostrándome
detrás de la noche
su estrella elegida.”

A ansiedade de Cortázar, a angústia de saber que não havia outra saída a não ser aceitar a verdade, a neblina do pesadelo do qual ninguém conseguia despertar e sair, tudo isso se repetiu, naquele 9 de outubro de 1967, por gente espalhada pelo mundo afora – gente que, como ele, nunca havia conhecido o Che.

Passados exatos 44 anos da tarde em que o Che foi morto, o que me vem à memória são as palavras de Cortázar, o poema que recordo em sua voz grave e definitiva: “Eu tive um irmão, não nos encontramos nunca mas não importava, meu irmão desperto enquanto eu dormia, meu irmão me mostrando atrás da noite sua estrela escolhida”.

No dia anterior, 8 de outubro de 1967, um Ernesto Guevara magro, maltratado, isolado do mundo e da vida, com uma perna ferida por uma bala e carregando uma arma travada, se rendeu. Parecia um mendigo, um peregrino dos próprios sonhos, estava magro, a magreza estranha dos místicos e dos desamparados. Foi levado para um casebre onde funcionava a escola rural de La Higuera. No dia seguinte foi interrogado. Primeiro, por um tenente boliviano chamado Andrés Selich. Depois, por um coronel, também boliviano, chamado Joaquín Zenteno Anaya, e por um cubano chamado Félix Rodríguez, agente da CIA. Veio, então, a ordem final: o general René Barrientos, presidente da Bolívia, mandou liquidar o assunto.

O escolhido para executá-la foi um soldadinho chamado Mario Terán. A instrução final: não atirar no rosto. Só do pescoço para baixo. Primeiro o soldadinho acertou braços e pernas do Che. Depois, o peito. O último dos onze disparos foi dado à uma e dez da tarde daquela segunda-feira, 9 de outubro de 1967. Quatro meses e 16 dias antes, o Che havia cumprido 39 anos de idade. Sua última imagem: o corpo magro, estendido no tanque de lavar roupa de um casebre miserável de uma aldeola miserável de um país miserável da América Latina. Seu rosto definitivo, seus olhos abertos – olhando para um futuro que ele sonhou, mas não veria, olhando para cada um de nós. Seus olhos abertos para sempre.

Quarenta e quatro anos depois daquela segunda-feira, o homem novo sonhado por ele não aconteceu. Suas idéias teriam cabida no mundo de hoje? Como ele veria o que aconteceu e acontece? O que teria sido dele ao saber que se transformou numa espécie de ícone de sonhos românticos que perderam seu lugar? Haveria lugar para o Che Guevara nesse mundo que parece se esfarelar, mas ainda assim persiste, insiste em acreditar num futuro de justiça e harmonia? Um lugar para ele nesses tempos de avareza, cobiça, egoísmo?

Deveria haver. Deve haver. O Che virou um ícone banalizado, um rosto belo estampado em camisetas. Mas ele saberia, ele sabe, que foi muito mais do que isso. O que havia, o que há por trás desse rosto? Essa, a pergunta que prevalece.

O Che viveu uma vida breve. Passaram-se mais anos da sua morte do que os anos da vida que coube a ele viver. E a pergunta continua, persistente e teimosa como ele soube ser. Como seria o Che Guevara nesses nossos dias de espanto? Pois teria sabido mudar algumas idéias sem mudar um milímetro de seus princípios.

Diz Eduardo Galeano, que conheceu o Che Guevara: ele foi um homem que disse exatamente o que pensava, e que viveu exatamente o que dizia.

Assim seria ele hoje.

Já não há tantos homens talhados nessa madeira. Aliás, já não há tanto dessa madeira no mundo. Mas há os mortos que nunca morrem. Como o Che.

E, dos mortos que nunca morrem, é preciso honrar a memória, merecer seu legado, saber entendê-lo. Não nas camisetas: nos sonhos, nas esperanças, nas certezas. Para que eles não morram jamais. Como o Che.

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Comentários

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Tio Chico Veras

Esse assassino covarde deve estar numa hora dessa no colo do capeta esperando a besta do Fidel.

    joel barcellos

    vc é um cretino fundamental, como diria nelson rodrigues…uma mula desmunhecada…covarde, e infeliz, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

oalfinete

Em um pensamento entorpecido, imagino El Comandante em novo discurso na ONU, nos dias atuais, denunciando o que ocorre na Líbia…

"Aquí se queda la clara
la entrañable transparencia
de tu querida presencia
comandante CHE GUEVARA

Tu amor revolucionario
Te conduce a nueva empresa
Donde espera la firmeza
De tu brazo libertario"

niveo campos e souza

Che é imortal.
O mundo ainda anda entupido de capachos e asseclas do imperialismo e do capitalismo selvagem, da falsa liberdade de consumir, indigno, injusto, excludente e cruel, neste planeta de 7 bilhões de humanos, com a maioria ainda na porta da caverna.

Niveo Campos e Souza

Carlos J. R. Araújo

Eu tenho a ousadia de dizer que ele foi mais além do que Cristo. A diferença é que, se ambos morreram por suas idéias, Che foi mais além, abandonou tudo e lutou por um mundo melhor em dois continentes.

E tudo com o detalhe de que a sua luta não foi numa Europa civilizada, urbanizada e razoavelmente mecanizada e confortável dos revolucionários dos dois últimos séculos, e sim nas selvas e favelas da América Latina e da África, num mundo duro, incivilizado, agreste e escravizado pelas potências ocidentais. Todos os santos da Igreja – que, quando muito, pregaram o conformismo – não seriam suficientes para substituir a santidade revolucionária Che. Enfim, deixou o exemplo: não basta pregar, é preciso lutar pelas mudanças que o mundo necessita e requer.

lux lucia

Hahahahahah, quanta viuva de um morto só!!!! O comunismo morreu em 1989 e essa gente ainda de luto!!!!!

    Thiago_Leal

    Tudo errado. O comunismo sequer chegou a nascer para ter morrido, e mesmo que tivesse nascido, não seria 1989 sua data de morte. O que você anda lendo?

    joel barcellos

    …e o capetalismo agoniza, deficiente mental!!!!!

Fabio_Passos

Che Guevara é o símbolo do combate a injustiça e a opressão.
Não só para os latinoamericanos mas para todos os povos do mundo.

Anita

Parabéns pela bela homenagem!
Querem uma ironia do destino?
O mesmo militar que o matou, muitos anos depois, foi curado da sua catarata por médicos cubanos!
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-12/hist

Embora não tenham sido exatamente amigáveis, nenhum dos dois encontros com Terán terminou em vassouradas. Desde então, ao longo dos meses, vários rumores foram se empilhando a seu respeito. Ele estaria temeroso pela vida com a chegada de Evo Morales à presidência. Um historiador boliviano contou que ex-agentes da CIA faziam festas a cada cinco anos para comemorar a morte de Che e outro me garantiu que Terán tinha lugar de destaque nelas, apesar de não gostar do papel. E havia a pista que ele próprio tinha deixado quando mencionou que viajara para a Espanha e para o estado da Virginia, vizinho da capital americana. É em Langley, nesse mesmo estado, que fica a sede da CIA.
Terán continuava nas sombras. A informação mais saborosa dava conta de que médicos do sistema de saúde cubano, trazidos pela Venezuela por meio de um programa de solidariedade a Evo Morales, haviam limpado a catarata dos olhos do homem que matou Che. História boa demais para ser verdadeira.
….
Enquanto abro uma tangerina, a esposa se senta me estudando, embora mantendo alguma cerimônia. Estamos os dois esperando Terán, que deve levá-la para comprar remédios fitoterápicos de diabetes em Montero, uma cidade próxima. Conversamos sobre Evo Morales, a autonomia de Santa Cruz (o assunto do momento para os cruceños), pergunto "como vai tudo?" três vezes. Lembro da catarata de Terán. Pergunto como foi a operação. "A recuperação foi complicada, mas agora já está melhor."

– Trabalharam bem, então?
– Sim, os cubanos trabalharam direitinho.

:)

Thiago_Leal

Muitos jornalistas metidos do G4 da imprensa golpista não seriam capazes de olhá-lo nos olhos, intimidados por sua presença, por seu espírito.

Claudio Martinez

Mataram-no, mas não conseguiram fechar seus olhos.
Tentaram difamá-lo, depois banalizá-lo.
E também nisso fracassaram
Poderiam as primaveras árabes, os indignados espanhóis ou os ocupadores americanos existirem se não tivesse havido El Che?
Não precisamos saber, porque sabemos que existiu o Che.
E ao tentar apagá-lo da Terra, gravaram-no bem no fundo do coração da humanidade.
Mataram o homem e nasceu o mito. Muito maior e mais forte.
E agora imortal.

Hasta la victoria, siempre.

Abraços

priscila presotto

Além de sensível ,inteligente ,coerente ;era um tremendo GATO!

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