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Em BH, ‘Projeto Vida-Vida Projeto’ arrecada e doa alimentos, kits de higiene e máscaras a famílias necessitadas
Cestas básicas adquiridas no União Supermercados, em BH, com a ajuda de muita gente do bem; máscaras doadas por Kátia, voluntária do Projeto Vida. Fotos: arquivos pessoais
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Em BH, ‘Projeto Vida-Vida Projeto’ arrecada e doa alimentos, kits de higiene e máscaras a famílias necessitadas


18/05/2020 - 13h50

por Conceição Lemes

Nestes tempos duríssmos que vivemos é impossível não lembrar das pessoas queridas que partiram e estão fazendo MUITA falta.

Uma delas,  a nossa imprescindível guerreira Fátima Oliveira, que em 5 de novembro de 2017, aos 63 anos, “se encantou”, como diria Guimarães Rosa.

Foi no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, onde estava internada há cerca de um mês.

Ironicamente no mesmo HC onde foi médica muito querida por 30 anos e se aposentou em março  de 2014.

Médica, feminista e escritora. Negra e nordestina. Cabelinho nas ventas. Não mandava recado, falava na lata. Revolucionária.

Em 28 de junho de 2016, nós publicamos um artigo inesquecível sobre a óbvia recusa de Fátima Oliveira voltar a conviver com o “dona, tem pão velho?”, que reproduzo abaixo:

As crianças, após o jantar, viam TV. Fazia uma temperatura agradável, mas para nós, nordestinos, recém-chegados a Belo Horizonte, era frio. A campainha tocou.

Atendi.

“Dona, tem pão velho?”

Voz de criança. Era a primeira vez na vida que ouvia aquilo. Demorei a processar a indagação. Espantada:

“Pra quê?”

“Pra comer!”

“Espera. Vou descer.”

O porteiro falava alterado. Eram duas crianças, a maior de uns 8 anos e a menor tendo por volta de 6 anos.

Vendo-me com um saco de pão, o porteiro, imbuído da maior autoridade dos pequenos poderes: “A senhora não pode dar pão pra esse povo que pede aqui na rua! Tenho ordem do síndico pra não deixar”.

Dei o calado por resposta e entreguei o saquinho com dois pães para o menino maior, e ambos saíram correndo.

Encarei o porteiro: “Comunique ao síndico, que sempre que alguém pedir comida em minha casa, se eu tiver, darei!”

No dia seguinte, recebi uma advertência por escrito, na qual constava a resolução dos moradores, definindo a proibição de dar esmolas na portaria para não atrair gente que “colocasse o prédio em risco”.

Era 1988. Rua Oscar Trompowski, no Gutierrez, bairro de classe média tida como alta.

Morei lá mais de um ano, e nunca mais minha campainha foi tocada por gente pedindo comida.

Depois que saí de lá, soube que deram um spray de pimenta para o porteiro afugentar pedintes!

Mudei-me para a Cidade Jardim, na zona sul de BH. Prédio de apenas três andares, dois apartamentos por andar. Sem porteiro.

Na rua Conde de Linhares, onde morei de março de 1989 a junho de 2014. Lá descobri a dura peregrinação cotidiana de adultos e crianças em busca de pão velho ao anoitecer.

Eram tão onipresentes que em Minas, ao se atender a campainha e se reconhecer a voz de uma pessoa amiga, ainda se diz, rindo: “Tem pão velho, não!”

Não sei dizer exatamente quando começou a escassear até praticamente desaparecer a legião de meninos do pão velho, mas não tenho dúvidas de que foi após o governo Lula instituir o Bolsa Família, como bem lembrava Valdete, idealizadora das Meninas de Sinhá, com quem aprendi muito.

Valdete repetia como um mantra: “Meninos na rua agora são poucos, quase nada comparando com antes de Lula: tudo na escola! Menino do pão velho? Virou coisa do passado! Milagre de Lula com o Bolsa Família! Lá em casa, a gente está comendo pão velho à tripa forra. Pudim, doce, na torta de sardinha, bolo salgado de pão com legumes… e almôndegas com pão velho, melhor não há!” Ê, Valdete, saudade! (“‘Tá Caindo Fulô…’ – Memórias de Valdete e das Meninas de Sinhá”, 22.1.2014).

É a legião de “meninos do pão velho” que o governo do interino quer resgatar no Brasil com ataques ao Bolsa Família, com discursos que até tenho vergonha de repetir, mesmo com aspas; e, agora, com a recusa de honrar o reajuste de apenas 9% concedido pela presidente Dilma Rousseff! Coisa de gente sem repertório humanitário.

Indago outra vez: “Por que o Bolsa Família desperta tanto ódio de classe?” (O TEMPO, 11.6.2013). Nem preciso gastar mais meu latim, mas é ódio de classe de quem acha que o Brasil não deve ser um país cuidador de seu povo.

Infelizmente, de 2016 para cá a situação só piorou. E muito.

E o Brasil que, em 2014, havia saído do Mapa da Fome, “está caminhando a passos largos” para voltar, segundo Daniel Balaban, chefe do escritório brasileiro do Programa Mundial de Alimentos da ONU.

Só entram nessa lista as nações com mais de 5% da população em pobreza extrema.

Basta caminhar pelas ruas das principais cidades brasileiras para constatar a pobreza escancaradamente crescente.

Junto, a fome, a desnutrição, as doenças decorrentes.

Somando-se esse quadro com a pandemia pelo novo coronavírus, a tragédia aumenta cada vez mais, já que o Estado é omisso.

Daí a importância de iniciativas da sociedade civil, sindicatos, MST, de levar alimentos a quem não tem.

VERA LIMA, EM BH, AMPLIANDO GESTOS DE SOLIDARIEDADE

Em Minas Gerais, uma das iniciativas é o Projeto Vida-Vida Projeto, do qual a jornalista de Vera Lima, do Studium Eficaz, é uma das voluntárias.

Abaixo, o texto da  Irmã Maria do Carmo, editado por Vera.

“Amigos e Amigas do Projeto Vida

Nesta hora de tantos desafios, estou convencida de que vale a pena fazer a nossa parte como o Projeto Vida -Vida Projeto está tentando fazer.

Além do envolvimento para fazer o cadastro de vários trabalhadores e acompanhar este processo, graças a Deus, estamos doando também alimentos, kits de higiene e máscaras.

Começamos atendendo a 14 trabalhadores no mês de março e uma pessoa que buscou nossa ajuda e também foi amparada.

No mês de abril atendemos 25 famílias sendo 19 trabalhadores do Projeto e mais 6 pessoas necessitadas que não participam do Projeto Vida, mas são conhecidas de voluntários e voluntárias nossos e muito precisam de ajuda. Além de cestas de alimentos foram doadas também cestas de material de limpeza e máscaras .

Também encaminhamos outras três pessoas de outro grupo para serem atendidas no Vicariato e uma pessoa para ser atendida em Ribeirão das Neves.

Assim vamos ampliando nossos gestos de amor solidário. E nesse caminhar, vale ainda ressaltar o importante gesto do cantor Renato Sfera, que promoveu uma maravilhosa live com a finalidade de divulgar o Projeto Vida-Vida e pedir aos seus fãs doações e apoio a nossa obra.

Agradeço de todo coração a você que já ajudou e continua ajudando.

De tudo isso, estamos fazendo um relatório.

Conseguimos ajudar também com um pouco de dinheiro alguns trabalhadores que estão doentes e precisam comprar remédios.

Neste mês de maio, queremos continuar fazendo a doação de alimentos, kits de higiene e máscaras.

Ganhamos também alguns agasalhos que vamos oferecer para os trabalhadores.

Enfim… Sei que tudo isso é feito com amor verdadeiro e isso traz alegria ao coração…

Que Deus abençoe você!

Que Ele nos proteja sempre!

Que continue abençoando a luta do Projeto Vida!

E assim possamos continuar!

Para você, todo o meu carinho e gratidão”.

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