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Colunista do New York Times: Rede Globo, a “TV irrealidade” que ilude o Brasil
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Colunista do New York Times: Rede Globo, a “TV irrealidade” que ilude o Brasil


12/11/2015 - 12h38

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O padrão Homer Simpson ainda se aplica ao JN. Fotomontagem: Pragmatismo político

Opinião: Rede Globo, a “TV irrealidade” que ilude o Brasil 

Gigante da mídia cativa os telespectadores com novelas vazias e comentários ineptos no noticiário. 

Vanessa Barbara, no International New York Times, via UOL
Em São Paulo

No ano passado, a revista “The Economist” publicou um artigo sobre a Rede Globo, a maior emissora do Brasil. Ela relatou que “91 milhões de pessoas, pouco menos da metade da população, a assistem todo dia: o tipo de audiência que, nos Estados Unidos, só se tem uma vez por ano, e apenas para a emissora detentora dos direitos naquele ano de transmitir a partida do Super Bowl, a final do futebol americano”.

Esse número pode parecer exagerado, mas basta andar por uma quadra para que pareça conservador. Em todo lugar aonde vou há um televisor ligado, geralmente na Globo, e todo mundo a está assistindo hipnoticamente.

Sem causar surpresa, um estudo de 2011 apoiado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que o percentual de lares com um aparelho de televisão em 2011 (96,9) era maior do que o percentual de lares com um refrigerador (95,8) e que 64% tinham mais de um televisor. Outros pesquisadores relataram que os brasileiros assistem em média quatro horas e 31 minutos de TV por dia útil, e quatro horas e 14 minutos nos fins de semana; 73% assistem TV todo dia e apenas 4% nunca assistem televisão regularmente (eu sou uma destes últimos).

Entre eles, a Globo é ubíqua. Apesar de sua audiência estar em declínio há décadas, sua fatia ainda é de cerca de 34%. Sua concorrente mais próxima, a Record, tem 15%.

Assim, o que essa presença onipenetrante significa? Em um país onde a educação deixa a desejar (a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico classificou o Brasil recentemente em 60º lugar entre 76 países em desempenho médio nos testes internacionais de avaliação de estudantes), implica que um conjunto de valores e pontos de vista sociais é amplamente compartilhado. Além disso, por ser a maior empresa de mídia da América Latina, a Globo pode exercer influência considerável sobre nossa política.

Um exemplo: há dois anos, em um leve pedido de desculpas, o grupo Globo confessou ter apoiado a ditadura militar do Brasil entre 1964 e 1985. “À luz da História, contudo”, o grupo disse, “não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original”.

Com esses riscos em mente, e em nome do bom jornalismo, eu assisti a um dia inteiro de programação da Globo em uma terça-feira recente, para ver o que podia aprender sobre os valores e ideias que ela promove.

A primeira coisa que a maioria das pessoas assiste toda manhã é o noticiário local, depois o noticiário nacional. A partir desses, é possível inferir que não há nada mais importante na vida do que o clima e o trânsito. O fato de nossa presidente, Dilma Rousseff, enfrentar um sério risco de impeachment e que seu principal oponente político, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, está sendo investigado por receber propina, recebe menos tempo no ar do que os detalhes dos congestionamentos. Esses boletins são atualizados pelo menos seis vezes por dia, com os âncoras conversando amigavelmente, como tias velhas na hora do chá, sobre o calor ou a chuva.

A partir dos talk shows matinais e outros programas, eu aprendi que o segredo da vida é ser famoso, rico, vagamente religioso e “do bem”. Todo mundo no ar ama todo mundo e sorri o tempo todo. Histórias maravilhosas foram contadas de pessoas com deficiência que tiveram a força de vontade para serem bem-sucedidas em seus empregos. Especialistas e celebridades discutiam isso e outros assuntos com notável superficialidade.

Eu decidi pular os programas da tarde –a maioria reprises de novelas e filmes de Hollywood– e ir direto ao noticiário do horário nobre.

Há dez anos, um âncora da Globo, William Bonner, comparou o telespectador médio do noticiário “Jornal Nacional” a Homer Simpson –incapaz de entender notícias complexas. Pelo que vi, esse padrão ainda se aplica. Um segmento sobre a escassez de água em São Paulo, por exemplo, foi destacado por um repórter, presente no jardim zoológico local, que disse ironicamente “É possível ver a expressão preocupada do leão com a crise da água”.

Assistir à Globo significa se acostumar a chavões e fórmulas cansadas: muitos textos de notícias incluem pequenos trocadilhos no final ou uma futilidade dita por um transeunte. “Dunga disse que gosta de sorrir”, disse um repórter sobre o técnico da seleção brasileira. Com frequência, alguns poucos segundos são dedicados a notícias perturbadoras, como a revelação de que São Paulo manteria dados operacionais sobre a gestão de águas do Estado em segredo por 25 anos, enquanto minutos inteiros são gastos em assuntos como “o resgate de um homem que se afogava causa espanto e surpresa em uma pequena cidade”.

O restante da noite foi preenchido com novelas, a partir das quais se pode aprender que as mulheres sempre usam maquiagem pesada, brincos enormes, unhas esmaltadas, saias justas, salto alto e cabelo liso. (Com base nisso, acho que não sou uma mulher.) As personagens femininas são boas ou ruins, mas unanimemente magras. Elas lutam umas com as outras pelos homens. Seu propósito supremo na vida é vestir um vestido de noiva, dar à luz a um bebê loiro ou aparecer na televisão, ou todas as opções anteriores. Pessoas normais têm mordomos em suas casas, que são visitadas por encanadores atraentes que seduzem donas de casa entediadas.

Duas das três atuais novelas falam sobre favelas, mas há pouca semelhança com a realidade. Politicamente, elas têm uma inclinação conservadora. “A Regra do Jogo”, por exemplo, tem um personagem que, em um episódio, alega ser um advogado de direitos humanos que trabalha para a Anistia Internacional visando contrabandear para dentro dos presídios materiais para fabricação de bombas para os presos. A organização de defesa se queixou publicamente disso, acusando a Globo de tentar difamar os trabalhadores de direitos humanos por todo o Brasil.

Apesar do nível técnico elevado da produção, as novelas foram dolorosas de assistir, com suas altas doses de preconceito, melodrama, diálogo ruim e clichês.

Mas elas tiveram seu efeito. Ao final do dia, eu me senti menos preocupada com a crise da água ou com a possibilidade de outro golpe militar –assim como o leão apático e as mulheres vazias das novelas.

*Vanessa Barbara é uma colunista do jornal “O Estado de São Paulo” e editora do site literário “A Hortaliça”.

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9 comentários

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José d.c.gomes

15 de novembro de 2015 às 22h50

Na minha opinião, essa verba publicitaria,é mais uma jogada imoral legitimada pelo poder legislativo, afim de de comprar o silencio da mídia em certos episódios de escândalos,, frequentemente ocorrido no meio politico.

Responder

Caracol

13 de novembro de 2015 às 08h39

Menina, você fez isso mesmo? Você assistiu a TV Globo um dia inteiro?
Caraca! E depois? Você não ficou que nem aquele cara no filme Laranja Mecânica do Kubrick depois do “tratamento”? Não teve que fazer desintoxicação mental?
Olha, ou você é uma heroína, ou você é maluca.
Ta doida, cara, se submeter a uma coisa dessas, já pensou se não tem volta e ficar babaca pra sempre? Não faz isso mais não, não precisa provar o que está provado fazendo um sacrifício desses!
Eu mesmo sirvo como exemplo: na nossa casa não tem rede de televisão, tem só o aparelho e um DVD que usamos para assistir filmes alugados. E escolhidos, hein?! Não é qualquer bagulho não, esse troço é um perigo, e quer saber da maior? No meu círculo de amigos e companheiros de trabalho eu sou considerado o mais bem informado! Cumuéquepode, né?
Tadinha…faz isso mais não.

Responder

Romanelli

13 de novembro de 2015 às 08h25

tá bom, tá bem ..mas concorrente melhor NÃO tem
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e aqui repito pra quem não ouviu ..SORTE do BRASIL se tivéssemos 2 ou 3 organizações tipo padrão GLOBO, quer pra dramaturgia, documentários, séries e seriados, musicais, entrevistas, esportes, entretenimento e análises
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..mas Deus não quis, fazer o que ?
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Verdade, pro nosso nível de ignorância ..preferia muito mais 100 Amarais Netto a informar minimamente o povo, do que ter que assistir outros, carregando seus BAUS pra abrir o mar morto, ou ficar orando madrugada a dentro, manhãs e tardes tb, pra santo do pau oco.

Responder

FrancoAtirador

12 de novembro de 2015 às 22h39

.
.
A Melhor Descrição Conceitual Ilustrada
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da Programação das TVs Privadas Abertas.
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Responder

    FrancoAtirador

    12 de novembro de 2015 às 22h42

    .
    .
    Trocadalho Não Intencional
    .
    Mas Infelizmente Verdadeiro.
    .
    .

Fabio Hideki

12 de novembro de 2015 às 20h31

Fico admirado em saber que alguém pode ver mais de uma hora de Globo e depois escrever um texto sensato.

Responder

marcelo

12 de novembro de 2015 às 19h27

lamentavel que quem na maioria não tem tv paga tenha que sujeitar-se com esta manipulação da mente .
vivemos uma falencia das instituições politicas e comunicação, vivemos escravos da midia manipulada..

Responder

    FrancoAtirador

    12 de novembro de 2015 às 22h36

    .
    .
    Tanto em Noticiosos como em Entretenimento
    .
    as TVs por Assinatura (Pagas) não são Diferentes.
    .
    Aliás, as “News” braZilêrras são bastante piores,
    .
    porque são 24 Horas de Manipulação da Notícia.
    .
    .

Urbano

12 de novembro de 2015 às 13h24

Chegou perto, pois na verdade é TV irracionalidade. Agora, o da direita leva ampla vantagem porque pode ser até um energúmeno, mas tem mais coração e menos déficit de massa cefálica…

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