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Diário da Resistência


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Cássio Muniz: Uma batalha decisiva em Wisconsin


21/02/2011 - 11h01

Wisconsin: consequências políticas da investida republicana

Por Cássio Muniz*

Os protestos trabalhistas no estado norte-americano de Wisconsin são uma reação à política de contenção fiscal do governo republicano local cujas implicações vão além do cunho orçamentário, invadem a esfera das conquistas trabalhistas e comprometem a própria existência das organizações sindicais. Embora os resultados imediatos de tal política indiquem um alívio nas contas públicas, os resultados mediatos implicam desequilíbrio na correlação política de forças com o enfraquecimento do movimento sindical e consequente repercussão nas eleições presidenciais norte-americanas em detrimento dos democratas.

A recessão norte-americana afetou as contas públicas dos seus estados federativos que têm tentado equacioná-las com aumento de impostos e corte de gastos (a primazia de um ou do outro depende do viés político do governo). Entre as categorias mais afetadas pelas políticas fiscais estão os funcionários públicos que, como alternativa a possíveis demissões, tiveram que aceitar férias não remuneradas. Concomitantemente, a persistência desta mesma recessão ao longo da administração democrata criou profunda insatisfação no eleitorado americano. Como consequência destes eventos, os eleitores, sobretudo os independentes, manifestaram descontentamento votando contra incumbentes democratas durante as últimas eleições congressuais e estaduais.

Nos estados onde a força eleitoral dos democratas e republicanos é equilibrada (“swing states”), e onde os democratas estavam governando, a reação dos eleitores conduziu os republicanos ao poder. O melhor exemplo desta reviravolta é o “rust belt” estado de Wisconsin, que é considerado um dos berços do sindicalismo americano. Nas últimas eleições os democratas perderam o poder executivo, o controle das duas câmaras estaduais e um dos dois assentos no Senado Federal quando um dos senadores mais progressistas do país, Russ Feingold (único a votar contra o Patriot Act), foi derrotado. O governador republicano recém eleito, Scott Walker, alegando razões orçamentárias, em seu primeiro ato administrativo, enviou projeto que aumenta a contribuição do funcionalismo público estadual para as suas pensões e planos de saúde.

No mesmo projeto, Walker também propõe a extinção do direito de barganha das organizações sindicais estaduais, proíbe o recolhimento das contribuições sindicais e indexa o aumento salarial à inflação condicionando aumentos superiores à aprovação por meio de plebiscito. São estas últimas medidas que merecem atenção e as consequências de sua aprovação representam um divisor de águas na política norte-americana.

Os desdobramentos do 11 de Setembro de 2001 ofereceram uma oportunidade legitimadora para a controversa eleição do republicano Geroge W. Bush. Tal evento não só uniu os norte-americanos em apoio ao seu novo presidente, mas também ofereceu a possibilidade de ampliação do programa ideológico republicano baseado na expansão do poder do executivo em detrimento do poder do legislativo com vistas a uma maior flexibilidade na aplicação da real politik.

A investida republicana resultou na extensão dos poderes do executivo por meio de decretos presidenciais e também do “Patriot Act” como ferramenta para combate ao terrorismo. No plano institucional os republicanos também avançaram a sua agenda por meio de agressiva estratégia política de redesenho de distritos eleitorais. Este foi o caso do estado do Texas em 2003 quando o republicano e também líder da maioria, Tom Delay, aproveitando-se da vantagem numérica do seu partido na câmara estadual, usou o seu poder nacional para redesenhar os distritos eleitorais de modo a aumentar, por meio de engenharias eleitorais, a vantagem dos republicanos.

A investida foi bem bem-sucedida, embora a Corte Suprema, tenha revertido mais tarde o desenho de um dos distritos por flagrante violação da legislação eleitoral que previne a fragmentação de eleitorados homogêneos. No ano passado, o próprio Delay foi condenado a três anos de prisão por lavagem de dinheiro em função da transferência de recursos financeiros para a eleição dos mesmos deputados estaduais que redesenhariam os distritos eleitorais no Texas.

[Leia aqui o texto da Sara Robinson sobre a ascensão do fascismo nos Estados Unidos]

O fim do legado de George W. Bush, em meio a uma das maiores crises econômicas da história dos EUA, resultou no retorno dos democratas ao poder por meio da eleição de Barack Obama. A qualidade dos debates da campanha já havia amalgamado uma ala extrema do Partido Republicano desde a reeleição de Bush contra John Kerry. Esta tendência extremista foi exponenciada durante a campanha vencedora do Obama. A administração deste, não obstante, não tem sido capaz de reverter os efeitos deletérios resultantes da crise econômica e, como resultado, há uma crescente insatisfação do eleitorado. Logo após as eleições presidenciais que conduziram Obama à Casa Branca percebe-se um esforço de segmentos conservadores em redefinir o legado do Partido Republicano.

Para tanto a imagem do ex-presidente Ronald Reagan, que este mês completaria o seu centenário, tem sido reiterada principalmente pela sua política externa agressiva, especialmente em relação a União Soviética e seu ocaso, e também por suas retóricas relacionadas à diminuição do tamanho do Estado, que de fato aumentou durante sua presidência, e aos ataques relativos ao estado de bem-estar social (“welfare queens”), que efetivamente diminuiu durante o seu termo.

Amalga desta corrente revivificadora é o chamado “Tea Party Movement”, que embora se defina independente é, de fato, uma facção extrema do Partido Republicano. Esta organização capitalizou tanto o descontentamento de eleitores republicanos radicais que desaprovam o que percebem ser um movimento do seu partido para o centro, quanto o descontentamento de eleitores independentes que, insatisfeitos com a política econômica da atual administração democrata, votaram em candidatos republicanos.

É este contexto que torna os desdobramentos políticos ora em curso no estado de Wisconsin cruciais para os rumos eleitorais imediatos e políticos mediatos nos EUA. A passagem da medida proposta pelo governador republicano não apenas reduziria o déficit fiscal mas também diminuiria consideravelmente o poder do movimento sindical que é um dos maiores pilares de sustentação do Partido Democrata. O estado do Wisconsin tem votado majoritariamente no Partido Democrata desde 1988 mas a vantagem deste partido é marginal e por isso o estado é considerado um dos principais campos de batalha nas eleições presidenciais, além de deter valiosos 10 votos no colégio eleitoral.

Não obstante, outros estados também governados por republicanos como Ohio, Michigan, Iowa e Indiana, estão propondo legislações semelhantes em ressonância à iniciativa de Wisconsin. Em reação à medida proposta pelo governador Walker, os servidores públicos estaduais organizam, durante o rigoroso inverno, marchas que já somam cerca de 70 mil manifestantes na capital, Madison. Durante os protestos ouvem-se várias referências ao movimento democrático no Egito como também associações entre o governador Walker e o ditador deposto Hosni Mubarak.

Partidários do governador, em números menos expressivos, também manifestam apoio à aprovação da medida. Ademais, políticos e representantes sindicalistas de envergadura nacional estão rumando para Wisconsin. O próprio presidente Brack Obama acusou o movimento do governador Walker como um ataque aos direitos trabalhistas.

No momento o legislativo está  impedido de votar porque a minoria parlamentar democrata abandonou o estado para derrubar o quorum. Esta estratégia fez-se necessária porque, pela legislação estadual, a polícia tem o poder de obrigar o parlamentar a retornar à câmara para retomar os trabalhos legislativos.

Os parlamentares auto exilados no estado vizinho de Illinois indicaram que os servidores públicos aceitavam o aumento de suas contribuições para a pensão e para o plano de saúde desde que o governador retirasse a proposta de extinguir os direitos sindicais. O governador recusou a proposta afirmando que o poder de barganha dos sindicatos era a principal razão para os substantivos benefícios que o setor gozava.

Os olhos dos norte-americanos estão voltados para o estado de Wisconsin. O resultado deste embate político terá desdobramentos nacionais, tanto no que diz respeito às históricas conquistas trabalhistas, que já vem perdendo força com o processo de desindustrialização dos EUA, quanto para as próximas eleições presidenciais, uma vez que o movimento sindical representa um dos principais pilares de sustentação do Partido Democrata.

Pelo menos dois cenários políticos são plausíveis como consequência do embate em Wisconsin. Por um outro lado, há a possibilidade real de os republicanos aprovarem a medida restritiva, já que possuem maioria na câmara, e ganhar força no cenário nacional com a emulação por outros estados.

Por outro lado, é possível que os protestos cresçam e mobilizem uma reação às investidas republicanas com a reversão dos votos independentes que tem sido determinantes em estados onde a competição eleitoral é intensa. Assim como no Egito, só o tempo revelará o resultado dos desdobramentos políticos em Wisconsin mas seja lá qual forem eles, não se pode desprezar o poder da multidão, e esta tem crescido exponencialmente neste estado.

*Cássio Muniz é Mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e Doutorando pela Universidade de Wisconsin-Milwaukee. Contato: [email protected]

Leia aqui o texto em que o cineasta Michael Moore convoca os jovens de Wisconsin a se rebelarem.

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20 comentários

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Bonifa

23 de fevereiro de 2011 às 11h46

É evidente que o Tea Party quer esmagar o Partido Democrata para instaurar a ditadura do partido único. Para os cházistas, bastariam os centristas republicanos e já estariam demais da conta, para contarem como eventual oposição consentida. Isto significaria o fim da república e o advento de facto do império. E depois viria o uso intenso da engrenagem militar, para a imposição pela força de vantagens econômicas que dariam um último alento aos Estados Unidos. Esta parece ser a solução da extrema direita para a crise, que contaria com o apoio entusiástico da maior parte dos meios de comunicação. A outra solução, antagônica a esta, seria a conscientização por parte da população de que só haveria solução razoável para a crise com a prisão dos banqueiros e executivos responsáveis pelo desastre e com a reestruturação da economia a partir de forte controle do sistema financeiro, nacional e internacional. Em outras palavras, ou Revolução ou Guerra total. O mundo deve temer a ascenção do general Jack Tripper (from Doctor Stranglove) ao poder supremo.

Responder

ZePovinho

23 de fevereiro de 2011 às 10h24

Digite o texto aqui![youtube TM54-ZRd-9k http://www.youtube.com/watch?v=TM54-ZRd-9k youtube]

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ZePovinho

22 de fevereiro de 2011 às 19h47

Vejam como a dissidência é tratada nos EUA.Desceram o cacete em um velho de 71 anos,mesmo o cara tendo trabalhado para a CIA por 27 anos:
http://www.voltairenet.org/article168545.html

Ex-CIA Analyst Brutalized at Hillary Clinton’s Free Speech Lecture

[youtube dR4O5XxDJrs http://www.youtube.com/watch?v=dR4O5XxDJrs youtube]

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Hans Bintje

22 de fevereiro de 2011 às 11h36

Esta história está ficando uma delícia cada dia que passa.

De um ex-editor do Wall Street Journal e ex-secretário assistente do Tesouro dos EUA ( http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMos… ):

"Tudo o que precisamos é de uns poucos milhões mais de americanos sem nada a perder a fim de trazer as perturbações no Médio Oriente para dentro da América.

Com os militares estadunidenses atolados em guerras lá fora, uma revolução americana teria ótima oportunidade de êxito. (…)

A linha da elite, e a dos seus porta-vozes contratados em 'think tanks' e universidades, é de que a América está perturbada devido aos aposentados. Demasiados americanos tiveram os seus cérebros lavados a fim de acreditar que a América está em perturbação por causa dos seus pobres e aposentados. A América não está perturbada porque coage um número decrescente de contribuintes a suportarem os enormes lucros do complexo militar/securitário, governos fantoche americanos lá fora e Israel.

A solução da elite americana para os problemas da América não é simplesmente arrestar as casas dos americanos cujos empregos foram exportados, mas aumentar o número de americanos aflitos com nada a perder, de doentes, afastados do trabalho e privados de tudo e de licenciados das universidades que não podem encontrar os empregos que foram enviados para a China e a Índia.

De todos os países do mundo, nenhum necessita uma revolução tão urgentemente quanto os Estados Unidos, um país dominado por um punhado de oligarcas egoístas que têm mais rendimento e riqueza do que pode ser gasto durante toda uma vida."

Responder

    ZePovinho

    22 de fevereiro de 2011 às 15h27

    É o Paul Craig Roberts,Hans Bintje.Esse cara fala coisas que espantam.

Pedro

22 de fevereiro de 2011 às 11h18

Que artigo chocho! Parece aquela coisa que se diz dos mineiros: "não sou contra, nem a favor, muito pelo contrário"

Responder

    Vinícius

    22 de fevereiro de 2011 às 15h58

    Chocho é ficar inventando um milhões de palavrões em homenagem ao adversário e não informar nada, como 40-60% dos textos do Viomundo. Sem ofensa, Azenha… (você mesmo, por sinal, escreve artigos de opinião, mas jamais panfletários)

    Esse texto é um TESÃO. Sem ofensa…

MirabeauBLeal

21 de fevereiro de 2011 às 21h32

SOBRE OS DISTRITOS ELEITORAIS NOS EUA
A oposição [republicana] terá nas mãos o redesenho dos distritos eleitorais pós-Censo 2010, em uma chance única de se perpetuar no poder. Cada distrito elege um deputado.
O redesenho é oficialmente feito em resposta a mudanças populacionais medidas pelo censo, o que ocorre uma vez por década. O número de deputados de cada Estado é determinado de acordo com o tamanho da população.
As mudanças em geral são feitas pelas Assembleias locais e pelos governadores (em apenas 8 dos 50 Estados o Executivo não participa). E é um fenômeno político comum o partido local majoritário usar as fronteiras de forma a garantir mais votos para si em cada área.
A manobra é feita riscando o mapa de forma a incluir ou excluir eleitores de determinado partido ou faixa demográfica com a intenção de aumentar as chances do grupo no poder.
Há inclusive um termo para isso –"gerrymandering", referência a Elbridge Gerry, governador de Massachusetts no século 19 que primeiro adotou a prática.
"O desenho dos distritos essencialmente permite que legisladores escolham seus eleitores antes mesmo de disputar a eleição", disse Dick Dadey, diretor executivo da ONG Citizens United.
Republicanos comandarão a partir de janeiro pelo menos 29 governos estaduais. O grupo bipartidário Election Data Services estima que cerca de 19 Estados verão mudança em sua representatividade depois do censo.
Em Michigan, Ohio e Pensilvânia, que devem perder vagas, haverá republicanos no poder para decidir quais distritos serão eliminados.
No Texas e na Flórida, que devem ganhar vagas, escolherão onde criar fronteiras.
Alguns analistas estimam que o redesenho dos distritos, que será feito em 2011, poderá oferecer aos republicanos um ganho de mais 30 vagas na Câmara.

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ZePovinho

21 de fevereiro de 2011 às 21h27

http://resistir.info/

TRABALHADORES AMERICANOS OCUPAM O CAPITÓLIO !

Milhares de sindicalistas e trabalhadores do estado americano de Wisconsin ocuparam o edifício do Capitólio, onde funciona o parlamento estadual. É um acto de protesto contra o governador do estado, alcunhado de "Hosni Walker", numa comparação directa com o deposto ditador egípcio. Os trabalhadores protestam contra a tentativa de eliminação dos seus direitos adquiridos na proposta do orçamento estadual. Os media que se auto-apregoam como "referência" procuram ocultar esta movimentação da classe operária dos EUA.

http://www.peoplesworld.org/angry-wisconsin-worke

[youtube qCsG4g0dzJo http://www.youtube.com/watch?v=qCsG4g0dzJo youtube]

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Alexandre N Salazar

21 de fevereiro de 2011 às 19h04

Paul Krugman escreve e diz que a luta sobre a crise fiscal esconde a intenção de arrebentar sindicatos, instituições que ainda podem se contarpor ao poderio do dinheiro da oligarquia americana.

Artigo no New York Times – 21/02/2011 – tradução colaborativa de Alexandre Neves Salazar

PARTE 2

O projeto que inspirou as manifestações que retiram direitos de negociação coletiva, para muitos dos trabalhadores do Estado, atualmente em vigor, arrebenta os sindicatos de funcionários públicos. Significativamente, alguns trabalhadores – ou seja, aqueles que tendem a ser de tendência republicana – estão isentos da proibição, exibindo o caráter político de suas ações.

Por que arrebentar os sindicatos? Como eu disse, não tem nada a ver com ajudar a lidar com crise fiscal do Wisconsin. Tampouco não será possível para ajudar as perspectivas do orçamento do estado, mesmo no longo prazo. Ao contrário do que você pode ter ouvido, trabalhadores do setor público em Wisconsin e em outros lugares são pagos um pouco menos do que os trabalhadores do setor privado com qualificações semelhantes e por isso não há muito espaço para mais aperto.

Então não é sobre o orçamento, é sobre o poder.

Em princípio, todo cidadão americano tem uma palavra a dizer no nosso processo político. Na prática, é claro, alguns de nós são mais iguais que outros. Bilionários podem por em campo exércitos dos lobistas; eles podem financiar "think tanks" que podem colocar a azeitona na empada sobre o que desejam nas questões políticas. Eles podem canalizar dinheiro para os políticos, com vistas a torná-los simpáticos aos seus interesses (como os irmãos Koch fizeram no caso do governador Walker). No papel, somos uma nação de uma só pessoa, um voto, mas na realidade, nós somos não mais do que um pedaço do povo diante de uma oligarquia em que um punhado de pessoas ricas dominam.

Diante desta realidade, é importante ter instituições que podem atuar como contrapeso ao poder do dinheiro. E os sindicatos estão entre as mais importantes dessas instituições.

Você não tem que amar os sindicatos, você não tem que acreditar que suas posições políticas estão sempre certas, reconhecer que eles estão entre os poucos jogadores influentes no nosso sistema político que representam os interesses dos norte-americanos de classe média e da classe trabalhadora, em oposição aos ricos. Com efeito, se a América tornou-se mais oligárquica e menos democrática nos últimos 30 anos – o que aconteceu – isto se deve em grande medida devido ao declínio dos sindicatos do setor privado.

E agora o governador Walker e seus aliados estão tentando se livrar dos sindicatos do setor público, também.

Há aqui uma amarga ironia. A crise fiscal em Wisconsin, como em outros estados, foi em grande parte causada pelo crescente poder da oligarquia da América. Afinal de contas, eram jogadores super-ricos, e não o público em geral, que a empurraram para a desregulamentação financeira e, assim, prepararam o terreno para a crise econômica de 2008-2009, uma crise cujas conseqüências é a principal razão para a crise do orçamento atual. E agora a direita política está tentando muito explorar essa crise, usando-a para remover um dos poucos controles remanescentes sobre a influência da oligarquia.

Assim será o ataque aos sindicatos um sucesso? Eu não sei. Mas quem se preocupa com o controle de um governo do povo pelo povo deve almejar que não seja tal ataque bem sucedido

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Alexandre N Salazar

21 de fevereiro de 2011 às 19h01

Paul Krugman escreve e diz que os sindicatos são principal contrapeso à olgarquia americana. Precisamos apoiá-los, diz ele.
Artigo no New York Times ( 21/02/2011) tradução colaborativa de Alexandre Neves Salazar
Nota: Hoje 70 mil americanos protestam nas ruas de Wisconsin.

PARTE 1

Não foi a coisa mais inteligente para o deputado (republicano) Ryan dizer, já que ele provavelmente não tinha a intenção de comparar o Governador do Wisconsin Scott Walker, seu colega do partido republicano, com Hosni Mubarak. Ou talvez ele quisesse mesmo – já que entre outros conservadores, alguns proeminentes, incluindo Glenn Beck, Rush Limbaugh e Rick Santorum, denunciaram a revolta no Egito, e insistiram que o presidente Obama deveria ter ajudado o regime de Mubarak a sufocá-las.

Em qualquer caso, no entanto, o deputado Ryan estava mais certo do que ele imaginava saber.. O que está acontecendo em Wisconsin não é sobre o orçamento do Estado, apesar da pretensão do governador Walker de dizer que ele está apenas tentando ser fiscalmente responsável. É, ao contrário, sobre o poder. O que o governador Walker e seus aliados estão tentando fazer do Wisconsin – e, eventualmente, da América – é uma democracia que funcione menos como tal para tornar-se uma oligarquia ao estilo terceiro mundo. E é por isso que quem acredita que precisamos de algum contrapeso ao poder político do dinheiro deve estar ao lado dos manifestantes.

Alguns antecedentes: O Wisconsin está de fato diante de uma crise orçamentária, e, apesar de suas dificuldades, é menos severa do que aquelas enfrentadas por muitos outros estados americanos. A receita caiu diante de uma economia fraca, enquanto os fundos de estímulo, que ajudaram a fechar o buraco em 2009 e 2010, desapareceram.

Nesta situação, faz sentido apelar ao sacrifício compartilhado, incluindo concessões às reivindicações monetárias dos trabalhadores do Estado. E os dirigentes sindicais deram sinais de que eles estão, de fato, dispostos a fazer tais concessões.

Mas o governador Walker não está interessado em fazer um acordo. Em parte porque ele não quer compartilhar o sacrifício. Ele proclama que o Wisconsin enfrenta uma terrível crise fiscal, mas foi empurrando com cortes de impostos que tornaram o déficit pior. Principalmente, porém, ele deixou claro que ao invés de negociação com os trabalhadores, ele quer acabar com a capacidade dos trabalhadores para negociar.

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yacov

21 de fevereiro de 2011 às 18h03

E o pior de tudo isso é que O OBAMA faz a mesma coisa que os Republicanos fariam se estivessem no poder: Entrega dinheiro do povo ao sistema financeiro, não acaba com a guerra no Oriente Médio e iunda o mercado de dólares sucateando o indústria mundial. O povo americano parece ser muito burro mesmo; Como o povo paulista, que há 20 anos vota neste encosto chamado PIG-DEM-PSDB… Eles acham que se os republicanos tomarem o poder esse arrocho vai mudar???? Vai é piorar suas antas!!!! E ainda vão mandar vocês e seu filhos para outra guerra qualquer que inventarão a qualquer momento. Ô, tristeza!!!

"O BRASIL PARA TODOS não passa na glOBo – O que passa na gLOBo é um braZil para TOLOS"

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r godinho

21 de fevereiro de 2011 às 16h48

Fui ler a postagem citada, da Sara Robinson.
Ao que parece, como bem indica a ascenção aos governos estaduais de "conservadores fascistas", a tomada do poder já começou. Entretanto, embora reconheça que nos grandes exemplos da ascenção do fascismo isso não aconteceu, uma alternativa de futuro parece ser desde já desconsiderada: a guerra civil.
Sei bem que o partido democrata é muito mais um partido conservador "soft" do que um partido progressista, mas será que não restam nos EUA forças suficientemente organizadas e fortes para que, afinal, acabe por eclodir uma situação de guerra civil? Não podemos jamais esquecer que eles são o país de "um cidadão, uma arma" e onde a internet tem a maior penetração social.
Talvez, e só talvez, nós acabemos vendo o velho filme do final do Império Romano, com a violência política e o golpe militar irrompendo a cada soluço da nação…

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João Sérgio

21 de fevereiro de 2011 às 16h44

Lá procuram ressucitar Ronald Reagan, o bravo herói e mocinho de filmes de segunda categoria, com seu Estado mínimo ( quando e em que governo americano surgiu o tal do Consenso de Washington ? ). Já aqui, na terra Brasilis, estão tentando ressucitar ( basta ver as TVs, Revistas e Jornais ) FHC e patota. Por que será ? Qualquer relação dos fatos daqui, com os dela serão mera semelhança ? Sabemos que não. Não é povão ?

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Hans Bintje

21 de fevereiro de 2011 às 14h36

Francamente, eu não entendi a preocupação do Viomundo e da Heloisa Villela com esse tema de Wisconsin.

Li e reli o excelente texto de Cássio Muniz e, em termos práticos, os republicanos ganham.

O que isso representa para o mundo?

Apenas mais um descolamento do que acontece nos EUA em relação ao restante do planeta. Isso certamente é bom para todos.

Para os EUA, que mergulham de vez em disputas internas no sistema, num contexto de crise econômica violenta.

Os anos da falsa opulência movida à crédito farto se acabaram e o país tenta acordar desse pesadelo.

Cabe aos jornalistas escrever o relato desse despertar mas, além da curiosidade histórica, há pouca coisa a se aprender com essa experiência dos EUA.

Eles terão que "descascar esse abacaxi" sozinhos.

Para o restante do mundo, isso representa o fim de uma farsa, a chance de construir modelos próprios, de escrever a própria História sem o peso dos "melhores regulamentos" definidos pelo Ocidente.

Vão acontecer erros? Certamente. Mas serão novos erros, com enormes possibilidades de acertos, vindos de um diálogo mais amplo dos governos com as sociedades de cada país.

O futuro não está em Madison (capital de Wisconsin), mas no Cairo (capital do Egito) onde está há mais de 5000 anos!

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Julião

21 de fevereiro de 2011 às 12h28

cont.
Se conseguirem vencer no Wiscosin, aplicarão em primeiro lugar no restante dos USA e após isto servirá de exemplo para as demais republicas das bananas ou sem bananas, nas quais estamos incluidos (pelos americanos).
Mais uma vez parabens pela publicação dos artigos sobre o "novo ovo da serpente" (nazi/facismo) que está sendo gerado nos USA.

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Julião

21 de fevereiro de 2011 às 12h27

Este blog esta mais uma vez de parabens para tratar de assuntos que interessam não só aos americanos, como tambem a todo o mundo.Devemos lembrar que este neocolonialismo iniciou-se com a Margareth Tatcher na Inglaterra, como se fora nada. Seria apenas uma prolema interno ingles e repercurtiu e continua a repercurtir até hoje por todo o mundo afetando a todo nós. Ela mostrou que uma quadrilha de ricos poderia roubar (o têrmo e este) a parcela mais pobre da população, principalmente a classe média que nada aconteceria a eles. Não seriam defenestrados e enforcados e praça pública.Após a Tatcher veio o Sr. Reagan, nos USA , que montou um esquema neolilberal junto com a mídia (eles tambem tem o PIG) e continuou o processo. Aí alastrou para o restante do mundo, razão pela qual tivemos aqui no Brasil os governos neoliberais o FHC! Temos que nos preocupar porque este é mais um teste para acabar com toda a proteção social montada os ultimos 100 anos em todo o mundo.

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Karlos o Chacal

21 de fevereiro de 2011 às 12h16

Por incrível que pareça, a falha de são paulo publica um artigo do professor Paul Krugman, intitulado 'jogando pelo poder'. Lá ele alinha as mesmas razões para os ataques dos conservadores contra os sindicatos. Essas bestas humanas não conhecem limites e se julgam acima do bem e do mal. Eu não consigo entender como um país que se julga o detentor de toda a democracia munidial, ainda tem lugar para imbecis do calilbre de sarah palin (em minúsculo mesmo). http://www1.folha.uol.com.br/colunas/paulkrugman/

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Flavio Borges

21 de fevereiro de 2011 às 11h25

Ótimo relato. Só faltou acrescentar que Wisconsin não teve déficit em 2010, e sim superávit. Esse novo governador republicano, mal assumiu, inventou de presentear os empresários com um corte de impostos para empresas privadas, criando artificialmente um déficit, que agora usa como pretexto. É muito claro que o que está motivando essa lei não é a questão fiscal, e sim uma ofensiva puramente ideológica do Partido Republicano para "quebrar as costas" do movimento sindical, ofensiva orquestrada pelos bilhonários irmãos Koch, que são os mentores desse governadorzinho neoliberal.

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    Janes Rodriguez

    21 de fevereiro de 2011 às 17h23

    Muito bom, Flávio… seu comentário é complementar ao texto que já estava muito bom também…


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