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Álvaro dos Santos: Qual a melhor solução para evitar novas tragédias em Capitólio?
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Álvaro dos Santos: Qual a melhor solução para evitar novas tragédias em Capitólio?


11/01/2022 - 13h35

A TRAGÉDIA DE CAPITÓLIO, QUAL SERIA A MELHOR SOLUÇÃO?

Por Álvaro Rodrigues dos Santos*

Como afirmamos em artigo anterior, os desmoronamentos e tombamentos de rochas, em pequenos ou grandes blocos, são comuns nos cânions de todo o mundo.

Constituem o processo natural de evolução desses paredões rochosos. Um olhar atento sobre os belos paredões dos cânions de Capitólio-MG nos mostrará milhares de “cicatrizes” associadas a desprendimentos de blocos.

Portanto, é indispensável compreender que estamos diante de uma feição geológica ativa, em evolução constante, e que tem um calendário de eventos que, como todo calendário geológico, não “bate” com o calendário das percepções humanas.

Nessa condição, a melhor (e única) solução para que não ocorram novas tragédias, garantindo assim a continuidade de uma atividade turística sustentável e educativa, está na implementação de um Plano de Gestão de Riscos adaptado às características da área dos cânions, a qual mereceria, por sua beleza e significado geológico, ser alçada à condição de um Geoparque, ou seja, em conceito adotado pela UNESCO, uma área geográfica onde os locais e paisagens de significado geológico internacional são gerenciados no âmbito de um conceito de proteção, educação e desenvolvimento sustentável.

Pretender executar medidas de estabilização nos paredões do cânion seria inviável técnica e financeiramente, pois seriam milhares de locais a serem tratados.

De outra parte, por óbvio que as chuvas contribuem com o risco de desmoronamentos, mas desmoronamentos em paredões rochosos ocorrem mesmo sem chuvas.

Ou seja, adotar como procedimento de segurança a não permissão de passeios em ocasiões de chuvas mais intensas, evidentemente não seria suficiente, além de gerar uma falsa noção de segurança em dias de estiagem.

O mais correto é sem dúvida a adoção de um Plano de Gestão de Riscos que implique na demarcação de uma faixa de segurança (com largura proporcional à altura do paredão, mas algo como uns 40 metros a partir da linha de contato água/paredão) sinalizada por uma linha de bóias, além da qual barcos e banhistas não poderiam avançar. E deixemos a Geologia em paz evoluindo segundo seus processos naturais.

A implantação dessas recomendações envolve várias instituições, mas convém destacar duas instâncias que obrigatoriamente devem liderar essas ações, a Prefeitura Municipal de Capitólio, responsável legalmente pela elaboração e aplicação de um PMRR – Plano Municipal de Redução de Riscos, e a FURNAS Centrais Elétricas, interveniente pela geração e administração do lago e responsável pelas interferências desse lago nas condições de estabilidade dos paredões rochosos do cânion.

 *Álvaro Rodrigues dos Santos é geólogo ([email protected]), consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente. Foi diretor de Planejamento e Gestão do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas

É autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica”, “Cidades e Geologia”

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1 comentário

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robertoAP

11 de janeiro de 2022 às 18h42

O melhor para evitar isso é ficar em casa , ao invés de ir para debaixo de uma pedreira e olhar as pedras caindo, como o coiote que corre atrás do Papa Léguas no meio do Canyon e se arrebenta todo.
Se não tivessem abelhudos lá , poluindo um parque nacional, a pedra cairia sem ninguém jamais saber, mas tinha que ter os “aventureiros” de sempre , fazendo o que não se deve fazer jamais, ou seja, estacionando lanchas embaixo de pedras instáveis com 50 metros de altura.

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