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Alexandre Tambelli: Meritocracia é igualdade de condições e não de oportunidades
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Alexandre Tambelli: Meritocracia é igualdade de condições e não de oportunidades


06/07/2018 - 15h16

 Piacenza, Itália, 1947: A primeira corrida de um carro Ferrari

por Alexandre Tambelli, nos comentários

Li no texto do Márcio Pochmann o termo igualdade de oportunidades e creio ser um equívoco a esquerda associar este termo a algo positivo no todo da sociedade, o correto é a igualdade de condições. Igualdade de oportunidades é discurso conservador e neoliberal.

Fica como registro de que podemos utilizar o termo mais apropriado para nós.

Fiz um texto neste sentido de diferenciar igualdade de oportunidades e igualdade de condições e qual delas representa a verdadeira meritocracia, coloco aqui.

MERITOCRACIA É IGUALDADE DE CONDIÇÕES E NÃO DE OPORTUNIDADES

Guardei na memória e para a vida uma colocação de meu professor de Estrutura e Funcionamento do Ensino na Faculdade de Educação – USP em 1994, Jair Militão:

– O justo numa sociedade não é a existência de igualdade de oportunidades, mas, sim, igualdade de condições entre pessoas de uma mesma sociedade.

Quando se pensa em igualdade de condições nós podemos pensar nas condições reais de vida, a classe social, a realidade concreta das pessoas para a sobrevivência digna e capaz de disputar espaço, melhores empregos e qualidade de vida dentro de uma sociedade capitalista.

Então, poderemos elencar alguns dados que nos podem mostrar uma verdadeira meritocracia ou de fachada:

1) Condições de parto da mãe que gerará uma criança: exames pré-natal, acompanhamento médico, alimentação adequada da grávida, parto em local seguro, etc.

2) Local em que mora a criança que nasceu: estrutura de um quarto para ela; o ambiente interno e externo da casa ; a infraestrutura do bairro, com a existência ou não de praça, parque, equipamentos culturais, água encanada, calçamento nas ruas, verde,poluição visual e sonora;  condições de amamentação, idas periódicas ao médico, alimentação adequada, com todos os nutrientes necessários, etc.

3) A criança cresce em um ambiente em que o capital cultural familiar propicia uma leitura de livros de crianças acompanhado dos pais? Ela tem a oportunidade de brincar, tem brinquedos? Frequenta a pré-escola, brinca com outras crianças, vai ao parque, à praça, presente no bairro, etc?

4) No período de ensino fundamental, a criança tem espaço para estudar, alimenta-se adequadamente, mora em uma casa decente, tem condições de comprar o material escolar, a escola dela tem professores capacitados, estrutura física interessante e projeto pedagógico que engloba  Educação, trabalhos lúdicos, esporte, estruturas para aprendizado de pequenos ofícios e artes ? Há atividades para a criança em espaços outros fora da escola como museus, parques, viagens ao campo, faz curso de idiomas, etc?

5) Na adolescência, o jovem só estuda, se alimenta adequadamente, mora em uma casa decente, tem condições de comprar livros e é incentivado a lê-los? Há atividades extraclasse? A escola está caindo aos pedaços ou é bem-conservada, tem laboratórios e bons professores? Ele vai ao cinema, ao teatro, viaja com a escola. Ele tem espaço em casa para estudar e fazer trabalhos com os amigos de classe? Pode estudar em silêncio, tem estrutura de livros e internet e familiares capacitados para ajudá-lo em algum dever de casa?

6) Na vida adulta, pode prestar  vestibular para Faculdade que requer material caro, como Medicina, Arquitetura? Caso não entre em uma universidade pública, pode pagar a mensalidade de faculdade top ou tem de estudar em uma mais barata? Tem dinheiro para pagar materiais necessários,  transporte e alimentação? Trabalha e estuda ou não? Os deslocamentos — casa/escola/casa ou casa/trabalho/escola/casa — são demorados e feitos de carro ou ônibus/metrô/trem? ?ode fazer um bom cursinho pré-vestibular, etc?

7) Formado, se quiser prestar concurso público, tem como pagar cursinho preparatório, comprar as apostilas e livros complementares? Só estudará para o concurso ou trabalhara e estudará, etc?

Se forem igualitárias as condições de vida entre as pessoas nessas em todas as sete etapas ou de 1 até 6 (para inserção no capitalismo e sua competitividade extrema por um lugar ao sol), eu posso dizer que estamos apontando para a meritocracia em seu conceito justo. Isso, claro, se a pessoa der o melhor nos estudos, for mais esforçada e alcançar um bom emprego por causa disto. Caso contrário, não há meritocracia alguma.

O que há é a falácia neoliberal da igualdade de oportunidades; é o privilégio de classe social mascarado, muito comum no Brasil.

Por isso, se quiserem falar de meritocracia, falem de igualdade de condições e não igualdade de oportunidades, senão o mérito deixa de existir.

Se dois pilotos,perfilados lado a lado, correrem, quem vai vencer, o que pilota um Fusca ou  uma  Ferrari ?  A Ferrari, claro! A igualdade oportunidades é esse desequilíbrio.

Se fosse a igualdade de condições, os dois começariam a correr de Fusca ou de Ferrari, e venceria o melhor competidor. A igualdade de condições é esse equilíbrio na competição.

Se queres vencer e dizes que foi por mérito, antes de tudo, me responda: Você e o seu oponente largaram com o mesmo “carro”?

Ou seja, do parto à idade adulta, com qualidade de vida semelhantes. Não falo aqui de luxo nem de exageros de consumo, mas dos direitos básicos ao desenvolvimento físico e intelectual entre competidores.

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Ibsen

07 de julho de 2018 às 06h52

Ainda que se propicie igualdade de condições, a meritocracia não é uma boa métrica. Não é nenhum mérito em se ser mais inteligente, por exemplo. Você até pode desenvolvê-la mais ou menos, mas nascer mais inteligente não é mérito para ninguém. Além disso, o fato de não ter considerado essa ou aquela posição não pode significar o abismo entre viver ou sobreviver a duras penas.

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