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Frei Tito: Coragem e fé, luta e sofrimento retratados em peça teatral em Fortaleza
Gabriel Cavalcante, em foto de Luiz Regadas
Cartas da Ursene

Frei Tito: Coragem e fé, luta e sofrimento retratados em peça teatral em Fortaleza


08/02/2020 - 09h57

Coragem e fé, luta e sofrimento

por Luiz Regadas, da TV do Habilidoso

Frei Tito de Alencar Lima foi filho, irmão, frade, ativista, preso político, torturado, exilado e mártir.

Defendeu a liberdade, a dignidade humana e a vida.

Nasceu em 14 de setembro de 1945 na cidade de Fortaleza, Ceará.

Era o caçula de Ildefonso Rodrigues Lima e de Laura Alencar Lima, que tiveram 11 filhos.

Seus pais eram católicos fervorosos, o que o influenciou muito.

Na infância e adolescência, estudou na Escola General Tibúrcio, no Grupo Escolar Clóvis Beviláqua e no Colégio Liceu do Ceará.

Sua primeira militância política foi na União Cearense de Estudantes Secundaristas.

Em 1963, com quase 18 anos, Tito foi escolhido dirigente regional do Nordeste pela Juventude Católica (JEC) e mudou-se para Recife, onde cursou o terceiro ano científico no Colégio Estadual de Pernambuco.

Em 1964, participou ativamente das primeiras reuniões e manifestações dos estudantes contra a ditadura militar.

Em 1966, transferiu-se para Belo Horizonte, para iniciar seu período de formação religiosa (noviciado) no Convento dos Freis Dominicanos.

Foto Luiz Regadas

Tito torna-se frei e a repressão aumenta

“Não vejo realmente como ser cristão sem ser revolucionário” (FREI TITO)

Em 1967, mais precisamente em 10 de fevereiro, Tito fez os seus votos, tornou-se Frei Tito e, dias depois, foi morar no Convento das Perdizes em São Paulo, para fazer o curso de Filosofia na Universidade de São Paulo (USP).

Em 12 de outubro de 1968, foi preso no 30º Congresso da UNE em Ibiúna, juntamente com todos os participantes do congresso, e solto após ser fichado pela polícia, o que o tornaria, a partir dessa data, perseguido pela ditadura militar.

Em novembro de 1969 foi preso na Operação Batina Branca, chefiada pelo Coronel Euclides Figueiredo, que invadiu o convento em busca de material “subversivo”.

Nessa operação, Tito e outros frades, dentre eles Frei Betto, foram presos e acusados de manterem contatos com a Ação Libertadora Nacional (ALN) e de oferecerem infraestrutura ao líder Carlos Marighella.

Todos foram levados para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).

No DOPS, Frei Tito sofreu sua primeira sessão de tortura.

Levou choques elétricos e golpes de palmatória do delegado-chefe, conhecido como o Papa ou Fleury (Sérgio Paranhos Fleury).

Dias depois, Tito foi transferido para o Presídio Tiradentes e de lá para a sede da Operação Bandeirantes (Oban), onde ficou nas mãos da Justiça Militar.

A pressão internacional contra o ataque aos dominicanos crescia.

Não tendo como justificar a violência, os militares decidiram que os frades teriam que assinar um documento no qual confessavam ter participado de operações armadas, como assalto a bancos.

Frei Tito foi o primeiro a ser levado para assinar o documento, mas se negou, pois não pretendia confessar algo que não tinha feito.

Foi torturado durante três dias pela equipe do Capitão Benone de Arruda Albernaz.

A saída, para interromper o sofrimento e evitar que seus amigos frades sofressem o mesmo, foi tentar tirar a própria vida.

Tito cortou o pulso e foi hospitalizado.

Do hospital voltou ao Presídio Tiradentes.

Segundo a Comissão da Verdade, ficou preso na carceragem do Tiradentes até ir para o exílio.

Frei Tito escreveu sobre a tortura que viveu.

Foi o primeiro a denunciar ao mundo a tortura praticada pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar.

Em um dos relatos, escreveu:

“A certa altura o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca “para receber a hóstia sagrada”. Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritavam difamações contra a Igreja, berravam que os padres são homossexuais porque não se casam.” (Frei Tito apud Mortos e desaparecidos políticos / Comissão Nacional da Verdade. Brasília: CNV, 2014)

Em 27 de fevereiro de 1970, o Brasil estava sob o comando do presidente ditador Emilio Garrastazu Médici.

Frei Tito foi incluído na lista de prisioneiros políticos trocados pelo embaixador Giovani Enrico Bucher, suíço, sequestrado pela VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).

Exílio

Em janeiro de 1971 Frei Tito foi deportado para o Chile.

Sob constante ameaça de ser preso novamente, fugiu para a Itália.

Como não teve apoio para ficar, rumou para Paris, onde foi acolhido no Convento Saint Jacques.

Em Paris, chegou a estudar na Universidade de Sorbone, mas como não se recuperava psicologicamente, mesmo sob tratamento psiquiátrico, foi para o Convento Dominicano de Sainte-Marie de la Tourette, em Éveux, na França.

Nunca mais foi o mesmo.

Consequência de três dias ininterruptos de tortura, em que bateram sua cabeça na parede, queimaram sua pele com pontas de cigarro, deram choques por todo o corpo.

Frei Tito não se recuperou.

Relatava que o delegado Fleury não o deixava em paz, afirmava ver seu torturador sempre por perto vigiando, o chamando para se entregar e afirmando que ia pegar sua mãe e outros familiares.

Frei Tito tirou a própria vida em 10 de agosto de 1974, nos arredores do convento, em Lyon.

Seu corpo foi encontrado por um morador de rua, suspenso em uma árvore, pendurado numa corda.

Volta ao Brasil

Frei Tito foi enterrado primeiramente no cemitério dominicano do Convento Dominicano de Sainte-Marie de la Tourette, em Éveux, na França onde morou por último.

Somente em 1983 seu corpo foi transferido para o Brasil.

Ao chegar a São Paulo, na Catedral da Sé, Frei Tito foi recebido por bispos e sacerdotes — dentre eles Dom Paulo Evaristo Arns e Frei Betto –, que repudiaram de forma veemente a tortura e a morte de Tito.

A missa de corpo presente contou com a participação de mais de 4 mil pessoas e foi celebrada em trajes vermelhos, que a Igreja Católica reserva para uso em celebração de mártires.

Frei Tito de Alencar Lima foi enterrado em Fortaleza – Ceará em 1983, no Cemitério São João Batista.

Em 2015, a sua família recebeu uma pensão especial.

Em 2016, o vereador Toninho Vespoli, do PSOL, que propôs o PDL 66/2014, concedeu a Frei Tito o título de cidadão paulistano.

O vereador afirmou, em áudio, que é importante resgatar a história de Frei Tito, pois significa resgatar a memória de alguém que viveu numa ditadura militar violadora de direitos.

É um resgate importante, num momento em que os mesmos direitos correm risco, sob o governo Bolsonaro.

Ouça trecho de nossa conversa com o vereador paulistano Toninho Vespoli:

Sugiro a quem desejar conhecer mais o livro “Um homem Torturado – nos passos de Frei Tito de Alencar”, de Leneide Duarte – Plon e Clarisse Meireles, que foi lançado em 2014.

Há também o documentário “Frei Tito”(1983), de Marlene França, e a peça teatral “A Paixão de Tito”, que tem previsão de estreia em setembro deste ano, quando Tito completaria 75 anos de vida.

No momento, o espetáculo teatral está em sua versão micropeça.

Foi apresentado em Fortaleza, com duração de 30 minutos.

O ator, Gabriel Castro Cavalcante, cearense da cidade de Baturité, que mora há 19 anos em Minas Gerais e já tem mais de 20 anos de teatro, faz o papel de Frei Tito.

Por que a peça sobre Frei Tito e quando surgiu essa ideia?

Gabriel: A ideia surgiu por um motivo muito específico, particular até. Eu queria, tava morando fora do Ceará há 19 anos, queria voltar a falar meu sotaque em cena. Basicamente era por isso. Só que eu achava que isso não era um motivo, enfim, especial. Aí eu me deparei com a biografia do Tito, que eu tinha ganhado há alguns anos, e veio aquele insight. Através da história do Tito eu vou conseguir falar, vou conseguir voltar a falar meu sotaque em cena e também vou conseguir falar de um personagem muito importante para história do Ceará, que é Frei Tito.

Então, li todos os materiais, comecei uma pesquisa que durou, está durando ainda, porque a peça está em construção, conversei com pessoas muito especiais: a irmã dele (Nildes Alencar), alguns familiares e tal. Eu não pretendia interpretá-lo, pretendia invocá-lo, fazer uma homenagem a ele.

Então, o que eu trago nesse trabalho é de fato uma homenagem. A gente se inspirou no missal dos Freis Dominicanos, porque Tito foi dominicano, mas trago elementos de outras crenças, enfim, [é importante] renovar cada dia mais essa memória dele, porque eu acho que não se pode ficar sem saber quem ele é, quem ele foi, quem ele continua sendo, pois Frei Tito continua inspirando muitas lutas.

O que a gente poderia falar para convocar as pessoas, desde já, a conhecer mais a história desse lutador da época da ditadura militar?

Gabriel: Frei Tito, na verdade, na minha opinião, foi um grande humanista. Ele, desde novo, novinho, militou — fosse na juventude estudantil católica, depois se ordenou frei dominicano. Depois, lutou junto com outros colegas dominicanos, protegendo pessoas que precisavam de amparo durante a ditadura militar. Enfim, por conta disso, ele foi torturado cruelmente, foi banido do próprio país, foi para a França e não conseguiu mais se recuperar. Infelizmente, teve um final muito trágico. Mas é um farol que inspira a irmã dele (Nildes Alencar), que continua a luta. E é isso, a história dele continua sendo esse motor. Toda vez que os tempos insistem em dizer que a luta vai ser difícil, que a gente não vai conseguir, a gente olha para o Tito de novo e vê que na vida nada é impossível.

Tem perspectiva de lançamento da peça em setembro no Brasil todo ou em algumas cidades? Como está a previsão?

Gabriel: Aqui, a estreia quero que seja aqui, porque é a cidade dele (Fortaleza). Em setembro ele faria 75 anos de nascimento, então, quero estrear muito aqui em Fortaleza e depois em várias partes do país.

E quem quiser entrar em contato com você para divulgar a peça, para levar a peça para o seu estado, para o seu teatro, como deve fazer?

Gabriel: A gente tem um perfil no Instagram que se chama Paixão de Tito. Lá está registrado tudo que a gente está fazendo, seja as apresentações dessa micropeça.

Qualquer mensagem para [email protected] ou então manda uma mensagem no direct do Instagram, na página do Tito, que será prontamente respondido.

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2 comentários

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Zé Maria

10 de fevereiro de 2020 às 21h53

Mídia Fasci-Paulista mente sobre coligações do PT com Partidos da Direita, para confundir eleitores brasileiros,
nas eleições municipais.

A Deputada Federal Gleisi Hoffmann (PT=PR), Presidente Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) desmente:

“Nossa decisão é contra alianças com PSDB, DEM e partidos da extrema direita. Impressionante como a mídia quer criar confusão e jogar contra o PT.
A quem interessa isso?!”

https://twitter.com/gleisi/status/1225975266440249344

Responder

Zé Maria

08 de fevereiro de 2020 às 17h12

“Quando dou Comida aos Pobres, chamam-me de Santo;
Mas se questiono por que há Pobres, dizem-me Comunista”

Dom Hélder Câmara
Arcebispo de Olinda-PE

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