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Diário da Resistência


Dalva Garcia: São Paulo faz escola! Alunos sem aula, professores descontados
Trans-formar 06/06/2022 - 12h40

Dalva Garcia: São Paulo faz escola! Alunos sem aula, professores descontados


Por Dalva Garcia

Éris e o jogo da discórdia

Por Dalva Garcia*

Há 32 anos dou aula de filosofia na rede pública estadual.

Há poucos dias, ao entrar em uma turma do primeiro ano do Novo Ensino Médio, fui interpelada por algumas alunas.

Elas me pediram um pequeno espaço da aula para realizarem uma “dinâmica muito legal” sobre a importância das relações interpessoais.

Em geral, sou avessa às dinâmicas, comumente usadas em processos de seleção de funcionários de RH das empresas.

No decorrer dos meus 32 anos de atuação profissional, os debates e competições perderam a vez para a tentativa de construção favorável ao diálogo.

Persistência e firmeza pedagógica adicionadas a uma boa dose de humildade intelectual são necessárias nesse longo e árduo processo.

Mas o pedido das alunas parecia sincero e, embora ressabiada, abri o espaço para “a dinâmica muito legal”.

Duas meninas se colocaram, então, na frente da sala com um belo gorro com pompom.

No gorro, muitos papeizinhos cuidadosamente dobrados. Algo parecido com o famoso “correio elegante” das tradições de festividades juninas escolares… Pensei.

O jogo começou com a leitura dos bilhetes:

— Fulana você é muito fofa, mas às vezes insuportável.

A fulana quis argumentar, assim como outros, mas impedi com a ajuda das alunas que organizaram a dinâmica.

Logo, vieram outros bilhetes:

— Sicrana, você é hetero e vou te comer.

Mais e mais insultos se seguiram.

Eles iam de acusações à orientação sexual de meninos e meninas (comportamento esperado) até falta de inteligência ou beleza padronizadas.

Uma infinidade de insultos que me assustou e paralisou.

Naquele momento, manter a sala em silêncio parecia o tormento da eternidade.

Mas consegui. Acalmei os ânimos prometendo um diálogo posterior.

Terminada a leitura do desfile de insultos perguntei o que significava aquilo que chamaram de “uma dinâmica muito legal”.

Me disseram é “O jogo da discórdia”.

Na hora, pensei na mitologia grega e em Éris, a deusa da discórdia, filha de Nix – a noite, repleta de segredos e mistérios.

Éris não fora convidada para as bodas de casamento de Tétis, a mais formosa das nereidas (ninfas).

Mesmo assim, Éris penetrou escondida na festa e, diante de Hera, Afrodite e Atena, ofereceu um pomo dourado à mais bela das deusas, lançando o célebre “pomo da discórdia”.

Zeus sabendo o tamanho da encrenca pediu a Hermes para buscar, entre os mortais, alguém simples e sensato para escolher a mais bela entre as três deusas.

Hermes escolheu Paris para julgar a oferta das deusas.

Assim, com o seu gesto, Éris desencadeou disputa acirrada entre as três deusas, a “querela da beleza”, cristalizada no julgamento de Paris e mais tarde provocaria a destruição de Troia e, nas palavras de Homero, ‘lançou no Hades muitas almas valorosas de heróis’ (Ilíada 1.3-4)

Helena de Troia é, segundo a mitologia grega, a origem de uma guerra sangrenta entre gregos e troianos.

Mas, não havia tempo para eu narrar e examinar com os alunos o mito.

Pedi que, ordenadamente, julgados e insultados relatassem os incômodos durante o jogo.

As organizadoras contaram que as regras da dinâmica não tinham sido seguidas — elas não souberam guiar o processo – e que a maioria dos alunos era bem legal.

O sinal e a próxima professora me tiraram da sala. Mas o incômodo e o nó na garganta permaneceram.

Apesar de décadas em sala de aula, estava distante do Olimpo de Zeus e de sua sagacidade.

Recorri à coordenação preocupada com as consequências daquele incidente.

Soube naquele momento ser esse o jogo do Big Brother, bem como soube ser a prática comum entre alunos das escolas com ou sem o acompanhamento de professores.

Não me assustei quando fui informada pela direção que a prática dessa “dinâmica legal” resultou em uma facada numa escola pública em São Paulo.

Saí aos prantos daquele dia de trabalho, pensando em como dialogar com os alunos na próxima aula.

Mas não pude deixar de me perguntar sobre essa estranha mania que tanto estimulou meus alunos a realizar a brincadeira.

Poderia discorrer sobre a influência da indústria cultural à luz de Adorno e Horkheimer.

Mas os acontecimentos no País e no Estado impediram esse aprofundamento conceitual necessário.

Em Sergipe, um homem, submetido a uma câmara de gás improvisada por agentes do Estado, morre.

No Rio de Janeiro, uma chacina na Vila Cruzeiro, conduzida por policiais, é elogiada por membros do Executivo Federal

E, para terminar, o aviso dos Recursos Humanos do Estado de São Paulo, impondo a resolução 1.374, que prevê o fim da falta aula para professores e a perda do dia de trabalho mediante a ausência em uma aula.

Ou seja, mais um ataque aos professores.

A composição da jornada do professor se efetua por hora-aula.

A Secretaria Estadual de Educação (Seduc), por sua vez, não garante otimização da disposição das aulas de forma a salvaguardar a saúde psíquica e física do professor. Por exemplo, dando tempo hábil para locomoção de uma escola a outra, horário adequado para a alimentação, transporte dos prestadores de serviço da Seduc.

Só nos resta concluir que o pomo da discórdia é lançado muito longe da festa de bodas de casamento entre deuses do Olimpo.

Envolve, aqui, uma triste realidade: o crescente déficit de professores na rede estadual de São Paulo, o número assustador de professores afastados de seus afazeres devido à covid e suas sequelas — a chamada covid de longa duração –, depressão, síndrome do pânico, entre outros problemas de saúde.

O remédio aprovado pelos deputados através da Reforma Administrativa e o novo estatuto da carreira do magistério são aquilo que Foucault descreveu brilhantemente no texto “Vigiar e Punir”, escrito na década de 70.

Punição para os que não se adequam à ordem disciplinar estabelecida.

São Paulo paga o “exorbitante” valor de CATORZE REAIS por hora-aula, que não pode ser desperdiçado nos cofres do Estado, que, contraditoriamente, utiliza verba do Fundeb para pagamento de professores inativos, segundo denúncia do Ministério Público Estadual.

Professores inativos são os aposentados que não recebem bonificação por produção e ainda estão fora da promessa de aumento salarial do novo estatuto da carreira do magistério estadual.

Que a miséria da política pública para a educação envolva pais, alunos e professores para essa pobre festa. É o que prevê nas entrelinhas a resolução 1.374, em vigor desde 1º de junho de 2022

Os representantes do legislativo e do federativo paulista aprenderam com rapidez a astúcia do senhor do Olimpo: fomentar a guerra e se esquivar de decisões que lhes competem.

Enquanto isso, alunos que perderiam uma aula do professor que não consegue chegar perderão todas.

Mas ninguém pode afirmar que Secretaria da Educação, deputados estaduais e o governador não tomaram a medida necessária nesse reality show eleitoral.

Não é à toa que adolescentes julgam o “jogo da discórdia” bem legal.

Afinal, como no slogan publicitário, São Paulo faz escola!

Coloca em disputa os diretamente interessados na educação. Alunos sem aula e professores com descontos salariais substanciais.

Talvez assim sobre algum valor do erário público para não comprometer a verba do Fundeb com o pagamento de professores aposentados.

*Dalva Garcia é professora de filosofia da rede pública de São Paulo.





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